Herdeiro da Lua

2 Diabinho com aparência de anjo


As calçadas de Barcel eram feitas de rochas negras cujo interior repleto de veias translúcidas percorria um intenso brilho carmesim ao refletir a luz solar.

Os prédios foram dispostos um ao lado do outro, formando um círculo fechado. O distrito era formado por esses 4 grandes círculos e espalhados nos 4 cantos de cada um, grandes portões de mármore.

Pelotões de cavaleiros equipados com grossas armaduras de placas de aço, adagas, espadas de duas mãos, lanças, bicos de corvo e seus respectivos cavalos revestidos por grossas couraças, além de uma fileira de arqueiros portando arcos longos em cima dos muros ladeando os portões, faziam a vistoria permitindo somente a passagem de pessoas autorizadas.

Era o último dia de preparativos antes da abertura do Grande Festival da Primavera.

Pessoas do reino inteiro vieram para a capital apenas para conseguir um vislumbre da procissão religiosa das sacerdotisas de Luna.

Cidadãos de segunda classe feito médicos, joalheiros, arquitetos, artesãos, ferreiros, alfaiates, etc, foram permitidos entrar até às ruas do Segundo Círculo Exterior, enquanto lavadeiras, lenhadores, carreteiros, coveiros, sapateiros, costureiros comuns e trabalhadores das fábricas que compunham a terceira classe ficaram restritos às extremidades do Terceiro Círculo Exterior.

As ruas estavam lotadas. Com dificuldade, os pelotões lutavam para conter as multidões se aglutinando nos portões. 4 centúrias delimitavam perímetros nas entradas do Quarto Círculo Exterior.

— Abram passagem! Abram passagem! — gritavam os capitães da guarda da cidade. — Cidadãos do segundo e terceiro distritos, juntos em fila única! Escórias do Beco dos Ratos e das Baixadas Latrineiras devem manter-se distantes dos muros de Barcel! — repetiam-se de cima de seus cavalos encouraçados.

Aproveitando-se da confusão e gritaria circundante, Nox esgueirou-se atrás de um grupo de costureiras.

Ele manteve pressionada a velha boina na cabeça, escondendo seu brilhante cabelo dourado igual madame Carmilla disse para fazer.

Pensar nela o fez apertar o maxilar com força, as broncas que recebera no passado, como por exemplo, mergulhar no rio e roubar as iscas dos pescadores que passavam de barco, derrubar um barril de pólvora na ferraria do velho Gillian e quase mandar tudo pelos ares ou no dia em que trocou as bebidas de todos os barris da pousada por molho de pimenta, seriam insignificantes comparadas ao que ela faria dessa vez.

O pensamento fez seu corpo estremecer de medo, sentiu vontade de jogar para o alto a identificação e a capa que pegou emprestado de um viajante que viu a paisana e voltar correndo para a casa de madame Carmilla, mas se conteve no último instante e lembrou do motivo de estar ali.

Nox sonhava todas as noites com a possibilidade de algum dia ver a procissão de perto, desde o seu quinto aniversário, quando ouviu o canto da Matriarca do templo pela primeira vez.

Era suave, feito a chuva leve que chega de madrugada e persiste até às primeiras horas da manhã, levantando o cheiro almiscarado de terra, barro e pedras bem lavadas, ou, pelo menos, é assim que madame Carmilla dizia que era a garoa nos bairros limpos.

No Beco dos Ratos era tudo diferente; a chuva chegava com força, as vezes derrubando as paredes dos casebres mais frágeis, castigava quem acertasse como se fossem pontas de flechas gélidas — até os ossos ficavam trêmulos de frio — e o único cheiro que levantava era o dos cadáveres semi enterrados na lama, se afogando em sua própria podridão.

Alguns permaneciam ali por semanas antes da chegada dos zeladores, que se banqueteavam, operando nos ventres com os bicos pontiagudos e iam embora deixando para trás um rastro de penas negras, mas não era nisso que pensava quando ouvia o canto da Matriarca, não, não; pensava no barulho suave das gotas de chuva caindo contra as flores nos jardins, nas ruas de pedras lavradas que não acumulavam lama, fezes e nem restos de carcaças podres.

Pensava principalmente em madame Carmilla, segurando-o ainda pequeno no colo, sentada de frente para a lareira.

Quando contou para madame Carmilla, ela apenas o repreendeu levemente e mandou parar de inventar histórias.

Nox passou o dia inteiro insistindo naquilo, dizendo que por ele ter ouvido o cântico, não via a hora da deusa conceder o seu desejo e arranjar uma casa no Círculo Interno para que ele, madame Carmilla, Lily e as outras meninas pudessem ir morar longe de toda aquela sujeira, e que nós anos seguintes pediria um guarda roupa inteiro repleto dos mais lindos vestidos para cada uma delas, já para ele, uma gloriosa armadura forjada no fundo dos rios de magma que fluíam abaixo das Veias Dracônicas.

Tão rápido quanto veio, a procissão se foi.

Nox ficou acordado a madrugada inteira esperando a deusa realizar o seu pedido. Lily foi quem o encontrou, dormindo de joelhos, de frente para a janela aberta do quarto.

Quando o pegou no colo, Nox acordou e saiu correndo para fora da casa, querendo ver o brilho carmesim que fluía igual sangue pelas veias no interior das calçadas de rochas negras que o povo tanto comentava, só para dar de cara com as mesmas ruas cheias de casebres e prédios caindo aos pedaços.

Quando Lily o pegou novamente no colo, sentiu o coração se quebrar ao ver o brilho de seus olhos de cor âmbar se apagarem aos poucos.

Nox ficou calado o dia todo. A madame e as outras meninas também não disseram nada. Durante a noite, enquanto ela o colocava para dormir, é que caiu a ficha.

Ele se aconchegou mais e enterrou o rostinho no seu vestido, querendo esconder as lágrimas.

No dia seguinte, deu falta de Nox no quarto.

Ela saiu correndo pelas escadas até o primeiro andar e soltou um suspiro de alívio ao ver a criança correndo pelo corredor com uma vassoura na mão, parecendo um Sol em miniatura.

Além do cabelo dourado, seus olhos eram iguais a duas pedras de âmbar com tons laranja-avermelhados.

— Senhorita Lily? Entendo que se sente perfeitamente à vontade conosco, mas até mesmo nesta taverna temos um certo código de vestimenta — disse Violeta, apontando com o dedo. Margarida e Henry riam juntos.

Lily não entendeu a princípio o motivo de todos a encararem, mas assim que se inspecionou, suas bochechas ganharam dois tons de vermelho; saíra do quarto tão depressa que esquecera de trocar de roupa, vestia apenas o velho pijama listrado com flores de girassóis.

Estava prestes a correr de volta quando ouviu uma risada estridente. Nox, sabe lá de onde raios, pegou um bloco de pedra e um pedaço de carvão e a desenhou. O diabinho caiu no chão, segurando a barriga, e gargalhou com vontade.

O constrangimento deu lugar à raiva. Lily pegou o rolo de madeira de cima do balcão e perseguiu Nox.

Ele se esquivou por pouco do primeiro golpe, que arrancou lascas de uma das mesas. O segundo golpe quebrou um prato. Henry, que estava apoiado no balcão e rindo da situação, foi a vítima do terceiro golpe. Lily gritou de fúria e continuou com os ataques incessantes.

Margarida e Violeta, que tentavam acalmar a situação, desistiram e correram para trás do balcão. Lily enlouqueceu! Socorro, socorro, gritavam elas.

Madame Carmilla, ouvindo a gritaria de seu quarto, no terceiro andar, desceu às escadas, tomou o rolo de madeira, já quase quebrado, e acertou dois golpes na cabeça de Lily, o resto ela terminou de quebrar em Nox.

Ela colocou os dois de castigo, ajoelhados de frente para a parede até a hora do almoço, para refletirem sobre a bagunça que fizeram, mas todos sabiam que não seria a última besteira aprontada.

Já no dia seguinte, Nox correu para a rua, gritando que iria arrumar um jeito de consertar as mesas e ir ver a próxima procissão pessoalmente.

Funcionários e clientes engasgaram coletivamente, Henry até deixou cair a espada que sempre levava embainhada na cintura e correu atrás do menino, sem sucesso, ele tinha os pés rápidos feito os ventos de um furacão, que por onde andam causam desastre.

As próximas horas foram as mais tensas desde que o estabelecimento foi aberto. Ela, Lily e Margarida ficaram andando de um lado para o outro, tentando se distrair levando as bebidas para as mesas, enquanto a madame repreendia Henry furiosamente por ter falhado em pegar a criança.

Só tiveram notícias dele quando Leonardo, o único alfaiate do distrito, já em seus 78 anos, entrou correndo pela porta da frente, gritando que os guardas acharam Nox nas bordas da Floresta da Morte, derrubando árvores.

Leonardo era a pessoa mais velha que conheciam, devia ter visto muitas coisas impressionantes em sua longa vida e a calma gélida de madame Carmilla era uma das poucas que o deixavam boquiaberto.

A madame suspirou, massageando as têmporas, depois mandou que Margarida e Lily ajudassem o idoso a se sentar e saiu acompanhada de Henry.

Voltaram duas horas depois, arrastando Nox pela orelha. As roupas do menino estavam cobertas de folhas e galhos quebrados. A explicação daquela loucura foi menos absurda do que imaginavam.

Ele queria virar marceneiro, assim, poderia consertar as mesas e conseguir a identificação de trabalho para entrar no distrito de Barcel durante as procissões.

Dois pássaros com uma pedrada só, e para isso resolveu pegar emprestado um machado velho que encontrou largado na ferraria de Gillian, o único que, além de ter um estabelecimento no Beco dos Ratos, deixava a mercadoria e o dinheiro guardados no lugar, a vista de quem espiasse pela janela, quando até mesmo o grupo de Cid, outrora famosos aventureiros que caçavam monstros no interior da Floresta da Morte e que agora administravam um bar a poucas quadras dali, faziam questão de colocar todo o dinheiro e estoque de bebidas num cofre escondido a sete palmos de algum lugar.

Depois disso, o menino foi atrás de madeira para praticar o ofício e o melhor lugar para conseguir em abundância era a única floresta nos arredores, repleta de árvores bem altas.

Um único tronco daqueles daria matéria prima para dar e vender, foi o que Nox disse.

Só não esperava atrair um grupo de ursos selvagens após derrubar umas poucas árvores — encontraram mais de 15 árvores caídas —, nem que algumas delas caíram logo em cima das cabanas dos guardas responsáveis por patrulhar a entrada da floresta.

Os guardas mataram os ursos e Nox fugiu dos guardas, a madame o encontrou mesmo assim e agora ele estava ali, em frente às cabanas arruinadas, de joelhos, as mãos e os pés amarrados em um pedaço de tronco, prometendo ajudar com os reparos e assim foi feito durante às próximas semanas, do amanhecer até o anoitecer.

A capitã da guarda, Victoria, e o conselho de marceneiros da capital baniram Nox de exercer a profissão pelos próximos 50 anos.