Herdeira Consorte
5 Capítulo Extra
Faíscas ao Norte
Catherine, que ficara para trás para cuidar da visita ao clã Skard, enquanto Liam negociava no sul, aproveitava a ausência do irmão para dar atenção a outras questões, algumas delas bem mais pessoais do que ela gostaria de admitir.
Sark era a principal vila do clã, era portuária a duas horas do palácio, famosa por seus estaleiros e pela qualidade do peixe defumado. Catherine tinha ido até lá para discutir a construção do posto de atendimento integrado e averiguar embarcações de pesca antes do inverno, uma tarefa que, em teoria, poderia ser delegada, mas que ela gostava de fazer pessoalmente. Era uma desculpa para sair do palácio, para sentir o vento salgado no rosto, para lembrar que havia um mundo além dos relatórios e das reuniões.
- Princesa, a próxima reunião é com o chefe do clã Skard — informou o assessor que a acompanhava. — Ele já está no centro comunitário, aguardando.
- Obrigada. — Catherine consultou o relógio no pulso. — E o chefe da guarda? Chegou?
- O comandante Gus chegou hoje cedo. Está revisando as medidas de segurança do novo posto.
- Bom. Vou encontrá-los lá.
O centro comunitário de Sark era um prédio moderno, construído nos últimos anos para servir como ponto de apoio para as vilas da região. Mas o que Catherine veio discutir era mais ambicioso: o posto de atendimento integrado que Liam propusera na última reunião do conselho.
Quando Catherine entrou na sala de reuniões, o chefe do clã Skard já estava sentado à mesa, acompanhado de dois conselheiros. Era um homem de meia-idade, com o rosto marcado pelo tempo e pelos anos, e os olhos de quem já viu o suficiente para desconfiar de promessas vindas do palácio.
- Princesa Catherine — ele cumprimentou, levantando-se. — Agradeço por vir pessoalmente.
- Não poderia deixar de vir, chefe Torben. — Catherine sentou-se à cabeceira da mesa, abrindo seu tablet. — O projeto do posto de atendimento é prioritário para meu irmão. E para mim.
- Prioritário? — Torben sentou-se novamente, cruzando os braços. — Com todo respeito, princesa, já ouvimos promessas antes. Seus antecessores falaram em melhorias. O próprio príncipe Liam, quando assumiu, prometeu atenção às vilas das montanhas. E até agora...
- E até agora, o que mudou? — Catherine completou, sem se ofender. — Pode falar. Estou aqui para ouvir.
Torben a observou por um momento, avaliando. Catherine manteve a expressão aberta, sem desafio, mas também sem submissão.
- Mudou pouca coisa — ele admitiu. — As estradas continuam ruins. Quando há tempestade, ficamos isolados por semanas. As crianças vão para a escola, mas os melhores professores ficam na capital. E quando alguém adoece, o médico mais próximo está a uma hora de viagem.
- E a extração de minério? — Catherine perguntou. — Sei que as vilas do clã Skard são responsáveis por grande parte da produção.
- Extraímos, sim. Mas o dinheiro fica no palácio. Nossas vilas continuam com as mesmas estradas de sempre.
Catherine anotou em seu tablet, sem pressa. Depois, projetou na tela da parede o plano que Liam deixara antes de partir.
- Isto é o que meu irmão propõe — explicou. — Um posto de atendimento integrado. Saúde, educação, assistência social, tudo no mesmo local. Com equipes fixas.
Torben examinou o projeto, os olhos percorrendo os detalhes.
- É ambicioso — comentou. — E caro.
- Caro, sim. Mas Liam pensa como um investimento a longo prazo. — Catherine passou para o próximo slide. — Além disso, haverá um programa de formação para moradores locais. Queremos que as vilas tenham seus próprios médicos, seus próprios professores. Gente que conhece a região, que sabe das dificuldades.
- E o que o clã Skard ganha com isso?
- Ganha acesso. Ganha autonomia. Ganha a certeza de que, quando algo der errado, não precisará esperar semanas por ajuda.
Torben ficou em silêncio por um longo momento. Catherine esperou, sem pressionar.
- O príncipe Liam realmente aprovou isso? — perguntou, finalmente.
- Aprovou. Pessoalmente. — Catherine passou para o último slide, onde havia uma mensagem escrita por Liam antes de viajar. — Ele pediu que eu mostrasse isso.
A mensagem era curta, direta, como tudo o que Liam fazia:
"Chefe Torben, sei que as palavras não valem muito depois de tantas promessas não cumpridas. Por isso, não vou prometer nada. Vou fazer. O posto será construído. Se houver problemas, venha ao palácio pessoalmente. Meu escritório estará sempre aberto para o senhor."
Torben leu à mensagem em silêncio. Depois, olhou para Catherine.
- Ele sempre foi assim? Direto assim?
- Sempre. — Catherine sorriu. — É o que o torna confiável, na minha opinião. Ele não promete o que não pode cumprir.
- Pois é. — Torben suspirou, mas havia algo em seus olhos que não era mais desconfiança. Era... esperança. — Então, princesa, quando começa essa construção?
- Assim que meu irmão voltar de Ametista. Ele quer acompanhar pessoalmente os primeiros passos.
- E enquanto ele não volta?
- Enquanto ele não volta, eu cuido dos preparativos. — Catherine levantou-se. — Se o senhor puder indicar os locais onde o posto seria mais útil, agradeço. Queremos que seja na melhor posição para todas as vilas, não apenas a mais próxima da estrada.
Torben também se levantou, e desde que a reunião começara, um sorriso surgiu em seu rosto.
- Talvez o reino do norte esteja mudando, princesa.
- É o que estamos tentando, chefe Torben.
Ambos apertaram as mãos e Catherine saiu.
Após a reunião, Catherine foi até o estaleiro principal. Precisava ver com os próprios olhos as condições das embarcações antes de voltar ao palácio. Mas também sabia que encontraria Gus por lá. E, embora não admitisse nem para si mesma, parte dela queria vê-lo.
O estaleiro era uma estrutura imponente de madeira e metal, com telhados altos para abrigar os barcos em construção. O cheiro de resina e sal impregnava o ar, misturado ao som dos martelos batendo em quilhas e às vozes dos trabalhadores.
Gus estava no meio do estaleiro, conversando com um dos mestres de obra sobre algo que parecia uma questão de segurança. Vestia roupas de trabalho, mangas arregaçadas, o cabelo ligeiramente desalinhado pelo vento. Catherine parou por um momento, observando-o sem ser vista.
Havia algo na forma como ele se movia, como ouvia as pessoas, como respondia com calma e precisão. Não era apenas eficiência. Era presença. Era a maneira de estar no mundo que o tornava diferente de qualquer outro que ela conhecia.
- Princesa? — um dos trabalhadores a viu, fazendo uma reverência. — A senhora precisa de algo?
- Apenas observar. Continuem.
Gus virou-se, e seus olhos encontraram os dela. Por um momento, nada aconteceu. Depois, algo mudou em sua expressão, um brilho diferente, talvez. Algo que Catherine não sabia nomear.
- Princesa — ele cumprimentou, aproximando-se. — Não sabia que estaria aqui.
- Passei por perto, resolvi dar uma olhada. — ela manteve a voz casual. — E a reunião com o clã Skard terminou mais cedo do que esperava.
- Como foi?
- Produtiva. Torben ainda desconfia, mas está disposto a dar uma chance.
- É mais do que ele daria antes.
- Verdade. — Catherine olhou ao redor. — Me mostre o que fez aqui. Quero ver se o trabalho está à altura.
- Como quiser. — disse ele em seu tom mais formal.
Percorreram o estaleiro juntos, Gus apontando as melhorias: novas saídas de emergência, sistemas de combate a incêndio, áreas de contenção para produtos químicos usados no tratamento da madeira. Catherine ouvia com atenção, mas suas perguntas eram mais provocadoras do que técnicas.
- Você sempre foi tão detalhista? — perguntou, enquanto examinava um extintor.
- É meu trabalho mater a segurança.
- Seu trabalho é comandar a guarda real. Não revisar cada extintor pessoalmente.
- Talvez eu goste de saber que as coisas estão certas, e que posso prever e antecipar qualquer eventualidade.
- Talvez você goste de ter desculpas para sair do palácio.
Gus parou, virando-se para ela.
- E talvez a princesa goste de ter desculpas para vir a Sark?
Catherine ergueu uma sobrancelha, surpresa com a ousadia. Por um momento, o olhar deles se encontrou, e algo no ar mudou. Depois, Gus desviou, pigarreando.
- Desculpe, foi inapropriado. Perdoe-me Princesa.
- Foi. — Catherine não pareceu ofendida. Pelo contrário, havia um leve sorriso em seus lábios. Gostava quando tirava o senhor certinho dos eixos. — Continue a inspeção.
Horas depois, a inspeção estava concluída. Gus acompanhou Catherine até o pequeno restaurante onde ele costumava almoçar em Sark, um lugar simples, frequentado por pescadores e trabalhadores do estaleiro.
- Vai se sentar comigo ou vai ficar de pé vigiando o perímetro? — ela provocou, enquanto escolhia uma mesa junto à janela.
- Ficarei de pé. É meu trabalho.
- Seu trabalho é garantir minha segurança. Não tem lugar mais seguro do que ao meu lado, onde você pode me ver.
Gus hesitou, depois sentou-se à mesa, mantendo uma distância respeitosa. O dono do restaurante, um velho pescador aposentado, trouxe dois pratos de peixe fresco sem perguntar.
- Para a princesa e para o nosso menino Gus — disse, com um sorriso maroto. — Cortesia da casa.
- Obrigada. — Catherine provou o peixe, aprovando com um aceno.
Gus comeu em silêncio, observando-a. Catherine sentia seu olhar, mas fingia não notar.
- O que acha do novo posto de atendimento? — perguntou, para quebrar o silêncio. — O que Liam propôs.
- É bom. — Gus respondeu, econômico.
- Só bom?
- Estratégico. Se funcionar, resolve décadas de abandono das vilas do interior. O príncipe está certo em priorizar.
- E você acha que vai funcionar?
- Se for bem executado, sim. — ele ergueu os olhos. — Precisa de comprometimento. Não pode ser um projeto que começa com força e depois esfria.
- Liam não é de esfriar projetos.
- Sei. Mas ele tem muitas frentes. Às vezes, o que parece prioridade hoje vira urgência amanhã, e o que era importante fica para depois.
Catherine o observou com atenção. Havia ali uma preocupação genuína, não apenas com a eficiência do projeto, mas com as pessoas que seriam afetadas por ele. Gus era de Sark ele tinha um apreço diferente sobre sua terra.
- Você se importa com seu povo! — disse, não como pergunta, mas como constatação.
- É meu trabalho.
- Não é só trabalho. Você se importa com as pessoas. Com as vilas. Com quem não tem voz.
Gus não respondeu, mas não negou.
- É por isso que você é bom no que faz — Catherine continuou. — Porque não vê só números. Vê pessoas.
- E a princesa?
- Como assim?
- A princesa vê pessoas ou números?
Catherine sorriu.
- As duas coisas. Aprendi com meu irmão que números são importantes. Mas aprendi com meu pai que pessoas são mais.
- Ele era um bom homem.
- Era. — a voz de Catherine suavizou. — Sinto falta deles todos os dias.
- Eu também.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era o silêncio desconfortável de quem não tem o que dizer. Era o silêncio de quem compartilha uma perda, uma memória, uma dor que não precisa ser explicada.
- Seu pai... — Gus começou, hesitante. — Ele me deu minha primeira chance. Quando ninguém mais acreditava que um garoto do interior poderia servir na guarda real.
- Ele via potencial nas pessoas. Era o dom dele.
- Era. — Gus olhou para Catherine com uma intensidade que a fez desviar o olhar. — Ele também dizia que a princesa Catherine era a pessoa mais teimosa que já conheceu.
Catherine riu, surpresa.
- Ele dizia isso?
- Dizia. E que isso a tornava a melhor governante que Cristal teria, depois de Liam.
- Ele disse isso?
- Disse. — Gus hesitou. — E eu concordo. Porque você não assume o posto de atendimento como um projeto pessoal?
Ela hesitou por um momento.
- Tenho receio de desapontar o povo!
- Eu sei que você consegue! — ele afirmou.
O olhar deles se encontrou novamente, e desta vez Catherine não desviou.
- Vou pensar!
Foi no final da tarde, quando Catherine já se preparava para voltar ao palácio, que Cedric ligou. A voz brilhavam com a energia de quem tinha novidades.
- Princesa Catherine! — ele disse com entusiasmo. — Graças aos deuses, você atendeu!
- Cedric? — Catherine franziu a testa. — Não era para estar em Ametista com meu irmão? Aconteceu alguma coisa?
- Não aconteceu nada, ou pode ter acontecido tudo.
- Cedric, diga logo!
- Príncipe Liam pediu para preparar os aposentos para um convidado!
- Aposentos? — Catherine repetiu. — Para quem?
Cedric hesitou, olhando para os lados como se avaliasse se podia falar na sem ser ouvido. Depois, decidiu que sim.
- Para a senhorita Louise Valliere. — ele baixou a voz, embora não houvesse ninguém por perto. — Ela vai para Cristal. Vai passar um ano lá, sendo treinada como princesa herdeira.
Catherine arregalou os olhos.
- O quê?
- O príncipe Liam fechou um acordo com o rei de Ametista. Ela vem como convidada oficial, com status de chefe de Estado. — Cedric estava claramente se divertindo com a reação. — E, se ao final do ano tudo correr bem, haverá um casamento.
- Casamento? — Catherine repetiu, incrédula. — Meu irmão vai se casar com alguém de Ametista?
- Aparentemente, sim.
- E ele está de acordo com isso?
Cedric sorriu, um sorriso cúmplice, daqueles que só se trocam quando se conhece um segredo.
- Princesa, nunca vi o príncipe Liam assim. Durante as negociações, ele só falava de números. Mas quando o assunto era a senhorita Valliere... — ele fez uma pausa dramática. — Ele perguntou sobre ela. Várias vezes. Queria saber onde ela estava, como estava, se estava bem.
- O Liam? — Catherine ainda não acreditava. — O homem que só fala de minérios e estoques?
— O mesmo. — Cedric abaixou ainda mais o tom de voz como se fosse contar um segredo. — Ele ficou impressionado com a forma como ela saiu do salão depois que o príncipe Louis a humilhou. Disse que era a mulher mais forte que já vira.
- Meu Deus. — Catherine levou a mão à boca, mas seus olhos brilhavam de pura diversão. — Meu irmão está apaixonado.
- Parece que sim, Princesa. — Cedric suspirou, dramático. — E o pior é que ele não percebe. Ou não admite. Mas eu vi os olhos dele quando falava dela. Brilhavam. Brilhavam, princesa!
Gus, que ouvira tudo em silêncio, pigarreou.
- Com licença — interrompeu. — Isso não deveria ser mantido em sigilo? A senhorita Valliere ainda não chegou. Fofocas podem prejudicar as negociações.
- Não é fofoca — Cedric estranhou ouvir a voz de Gus, esses irmãos. — É observação profissional.
- Chame como quiser. — Gus levantou-se. — Princesa, devemos voltar ao palácio. O dia está terminando.
- Cedric, quando você voltar quero saber tudo. Cada detalhe.
Catherine despediu-se de Cedric com um sorriso nos lábios.
- Tem razão. Vamos. — Levantou-se.
- Sim, princesa.
No veículo a caminho do palácio, Catherine não conseguiu parar de sorrir.
- Liam apaixonado — repetiu, como se provasse as palavras. — Meu irmão, o homem de gelo, derretido por uma sulista.
- Não é gelo — Gus corrigiu com lealdade, sentado ao lado dela. — É dedicação. O príncipe é dedicado.
- É gelo, sim. Você não vê como ele fica quando está trabalhando. Parece uma máquina. Não ri, não brinca, não relaxa. — ela suspirou. — Mas se essa Louise Valliere conseguiu fazer seus olhos brilharem, talvez ela seja exatamente o que ele precisa.
- E ela? — Gus perguntou, do banco da frente. — Como é?
Catherine o olhou.
- Deve ser linda! — ela supôs e sorriu animada.
O veículo ficou em silêncio por um momento.
- Então precisamos mostrar a ela que o norte é o lugar certo pra ela. — Catherine declarou. — Que aqui ninguém vai humilhá-la. Que aqui ela pode se reconstruir.
- A princesa pensa nisso? — Gus perguntou, surpreso.
- Sou princesa de Cristal. É meu dever pensar no bem-estar de quem vem para cá. — ela cruzou os braços, mas havia um sorriso em seus lábios. — Além disso, se meu irmão finalmente se apaixonou, vou fazer de tudo para que dê certo. É o que irmãs fazem.
Gus não respondeu, mas Catherine jurou que viu um sorriso em seu rosto, quase imperceptível. Quando chegaram ao palácio, Catherine e Gus ficaram no pátio interno, onde os veículos eram estacionados.
- Foi um bom trabalho em Sark — Catherine disse, rompendo o silêncio. — O estaleiro está seguro. E a reunião com Torben foi produtiva.
- É meu trabalho.
- Sei. Mas fez mais do que o necessário. Os detalhes que você implementou vão além do que Liam pediu.
Gus não respondeu, mas também não negou. Um clássico de Gus.
- Por que fez isso? — Catherine insistiu.
- Porque se algo der errado, as pessoas podem se machucar. — ele a olhou nos olhos dela. — E eu não quero que ninguém se machuque. Especialmente pessoas que dependem de nós para se proteger.
Catherine sentiu algo se mexer dentro dela. Algo que não sabia nomear.
- Você é um bom homem, Gus — disse, a voz mais rouca do que pretendia.
- Sou apenas um guarda que faz seu trabalho.
- Não é apenas um guarda. — Ela deu um passo à frente. — Você é mais do que isso.
O olhar deles se encontrou, e por um momento o mundo pareceu encolher até que só existissem os dois. Catherine viu algo nos olhos de Gus que nunca vira antes, uma intensidade contida, algo que ele guardava há muito tempo.
- Princesa — ele começou, a voz falhou.
- Catherine — ela corrigiu. — Aqui, agora, sou Catherine.
Gus engoliu em seco.
- Catherine. Eu...
- Sim?
O silêncio se alongou. Ele parecia estar lutando contra alguma coisa, alguma palavra que queimava em seus lábios mas não conseguia escapar.
- É tarde — disse, finalmente. — A princesa deve descansar.
Catherine sentiu uma ponta de decepção, mas não demonstrou.
- Tem razão. Até amanhã, comandante.
- Até amanhã, princesa.
Ela se virou e caminhou para dentro do palácio, mas antes de desaparecer no corredor, olhou para trás. Gus ainda estava ali, imóvel, observando-a partir.
Por um momento, ela quase voltou. Quase perguntou o que ele ia dizer. Quase disse que sentia o mesmo, qualquer que fosse o "mesmo" que sentia.
Mas não disse. E ele também não.
E assim, cada um seguiu para seu lado, carregando consigo uma faísca que nenhum dos dois tinha coragem de confessar.
Catherine não conseguiu dormir. Deitada na cama, pensou em Liam, em Louise, no que Cedric contara. Pensou na reunião com Torben, no posto de atendimento, em tudo o que ainda precisava ser feito.
Mas também pensou em Gus. No olhar dele. Na palavra que ele não disse.
- Por que não perguntei? — murmurou para o teto.
Não havia resposta. Apenas o silêncio do palácio e o som distante do mar.
No outro lado do palácio, nos aposentos dos oficiais, Gus também não dormia. Sentado à janela, olhava para o mesmo mar, pensando na mesma mulher.
- Catherine — sussurrou, experimentando o nome sozinho. — Catherine.
Parecia certo. Parecia errado. Parecia tudo.
Mas ela era princesa. Ele era guarda. E o que sentia, por mais real que fosse, talvez nunca pudesse ser dito.
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