Decisão Tomada


Os dias que se seguiram à conversa com os pais foram os mais estranhos da vida de Louise. Pela primeira vez em anos, sua agenda estava vazia. Nenhum compromisso no orfanato. Nenhum almoço com a Liga das Damas. Nenhum ensaio de protocolo. Nenhum estudo noturno.

Apenas silêncio.

Ela acordou no primeiro dia e, por um momento, esqueceu. O corpo já se preparava para levantar, para vestir o traje adequado, para revisar os compromissos do dia. Mas aí a realidade voltou: não havia compromissos. Não havia nada.

Sentou-se na cama, olhando para o teto, e sentiu o vazio como um peso no peito.

- Senhorita? — Margo apareceu na porta, hesitante. — A senhora quer café da manhã?

- Sim, Margo. Obrigada.

Desceu para a sala de jantar e encontrou os pais já sentados, conversando em voz baixa. Quando ela entrou, o silêncio se instalou.

- Bom dia — disse, sentando-se.

- Bom dia, querida. — sua mãe respondeu, com um sorriso que não alcançava os olhos. — Dormiu bem?

- Dormi.

Mentira. Não dormira. Cada vez que fechava os olhos, via a cena: Louis entrando com a plebeia, a adaga apontada para si mesmo, os olhos dele fixos nela com uma mistura de desprezo e alívio.

O café da manhã foi silencioso. Ninguém sabia o que dizer. A rotina que sempre os unira agora parecia um abismo.

Depois do café, Louise voltou para o quarto. Não sabia o que fazer. Por um momento, considerou pegar um livro, mas não conseguia se concentrar. Considerou caminhar pelo jardim, mas a ideia de encontrar vizinhos ou conhecidos a paralisava.

Sentou-se na escrivaninha, onde sua agenda sempre ficava aberta. Agora, estava fechada.

Abriu-a.

Páginas e páginas de compromissos. Reuniões, visitas, ensaios, estudos. Tudo feito. Tudo riscado. A última página preenchida era do dia do encontro no palácio.

Abaixo, em branco.

- O que faço agora? — murmurou para si mesma.

Margo entrou com uma bandeja de chá e encontrou a patroa imóvel, olhando para a agenda.

- Senhorita? Posso preparar algo? Talvez uma visita ao orfanato...

- Não. — A resposta saiu mais rápida do que Louise pretendia. — Não pretendo ir ao orfanato.

- Por que não? Você gosta de lá, talvez isso ajude...

Porque todos viram tudo. Porque era a noiva rejeitada. Porque não queria que a olhem com pena. Não estava pronta para ver ninguém.

- Apenas não posso.

Margo não insistiu. Colocou a bandeja sobre a mesa e saiu em silêncio.

Naquela tarde, Louise tentou organizar seus pertences. Não porque fosse necessário, mas porque precisava fazer algo. Qualquer coisa. Não estava acostumada a ter tempo livre.

Ao abrir uma gaveta, encontrou o convite para o jantar de gala o que aconteceria na noite seguinte ao noivado. Leu o nome dela gravado em letras douradas: Senhorita Louise Valliere e Príncipe Louis Ametista.

O papel tremeu em suas mãos.

Lembrou-se da última vez que viu Louis antes do escândalo. No corredor. Ele a tratara com frieza, com desprezo. Dissera que ela nunca teria seu respeito.

E agora? Agora ele estava livre. Com a mulher que amava. Enquanto ela...

- Louise? — a voz de sua mãe veio da porta. — Posso entrar?

- Claro, mãe.

Amanda entrou e sentou-se na cama ao lado da filha. Viu o convite em suas mãos.

- Ainda guarda isso?

- Esqueci que estava aqui. — Louise colocou o papel de lado. — Vou jogar fora.

- Talvez seja melhor.

Ficaram em silêncio por um momento.

- Mãe — Louise começou. — Sobre a aliança com o norte...

- Sei. Seu pai me contou.

- A senhora acha que devo ir?

Amanda Valliere hesitou.

- O que você quer, filha?

- Não sei. — Louise olhou para as mãos. — Não sei o que quero. Pela primeira vez na vida, não sei.

- Então talvez seja isso. Talvez você precise descobrir. E talvez, longe daqui, consiga.

- Mas e se eu for e me arrepender? E se for tudo igual? E se ele também me rejeitar?

- Ele não é Louis. — a mãe tocou seu rosto. — Pelo que ouvi, Liam Cristal é um bom homem. Dedicado, justo. E mais importante: ele já demonstrou interesse em você.

- Interesse? Ele nem me conhece.

- Conhece o suficiente para perguntar. Para notar. — Amanda sorriu, triste. — Isso já é mais do que Louis fez em anos.

Louise não respondeu. A ideia de confiar novamente, de se abrir, de arriscar. Tudo isso parecia assustador demais.

Naquela noite, Louise não conseguiu dormir novamente. Deitada na cama, olhando para o teto, as imagens voltavam. Louis entrando no salão. A mão dele erguida. A lâmina brilhando sob as luzes.

"Se me obrigarem a casar com outra, juro que enfiarei essa lâmina no pescoço."

Ela se lembrava de cada detalhe. O brilho do metal. A expressão de determinação no rosto dele. O alívio quando ela disse que aceitava o fim do noivado. Como se ela fosse o problema. Como se ela fosse a ameaça.

Sentou-se na cama, ofegante. Suas mãos tremiam.

- Por que não consigo esquecer? — murmurou.

Levantou-se e foi até a janela. Lá fora, os jardins da família Valliere estavam iluminados pela lua. Tudo parecia tão calmo. Tão normal. Como se nada tivesse acontecido.

Mas algo aconteceu. Algo se quebrou dentro dela.

No manhã seguinte, Louise encontrou o pai no escritório. Ele revisava documentos, como sempre, mas quando ela entrou, ele ergueu os olhos imediatamente.

- Louise. Precisa de algo?

- Preciso conversar.

Ela hesitou um momento e Marcus largou os papéis, algo que raramente fazia.

- Sente-se.

Louise sentou-se na cadeira à frente da escrivaninha. Por um momento, não soube como começar.

- Pai, o senhor acha que eu devo ir?

- Para Cristal?

- Sim.

Ele ficou em silêncio por um longo momento, os olhos fixos nela.

- Acho que você deve fazer o que for melhor para você. — a resposta foi econômica, mas havia algo em seu tom que não era apenas político.

- E o que é melhor para mim?

- Isso, minha filha, é algo que você precisa descobrir sozinha. — ele suspirou. — Eu e sua mãe passamos sua vida inteira decidindo o que era melhor para você. Treinamentos, protocolos, o casamento com Louis. Olha no que deu. Estamos arrependidos.

- Vocês não poderiam saber.

- Não. Mas também não perguntei. Nunca perguntei o que você queria. — ele segurou a mão dela sobre a mesa. — Agora, está na hora de você escolher.

- E se eu escolher errado?

- Então vai errar. E vai aprender. E vai seguir em frente. — ele apertou sua mão. — Vallieres não desistem. Mas Vallieres também não precisam ser perfeitas o tempo todo. Isso eu aprendi com você.

Louise sentiu os olhos marejarem.

- Pai...

- Se for para Cristal, vá com a cabeça erguida. Se ficar, fique com a mesma dignidade. Mas não deixe o medo decidir por você.

- Medo?

- De ser rejeitada de novo. De não ser suficiente. De se machucar. — Ele a olhou nos olhos. — Você passou a vida inteira sem medo, Louise. Não deixe que ele te vença agora.

Naquela noite, Louise caminhou pelo jardim sozinha. A lua estava cheia, e o ar carregava o cheiro das flores da primavera que começava a desabrochar.

Pensou em Louis. Na faca. Na humilhação.

Pensou em no príncipe Liam. Nos olhos cinzentos que ela havia visto no dia da humilhação. Era curiosidade. Admiração. Algo mais. Não sabia ao certo o que ele havia visto nela para despertar o interesse.

Pensou em Cristal. No frio. No mar. Em tudo o que não conhecia.

E pensou em si mesma. Em quem era. Em quem queria ser.

Quando voltou para dentro, seus pais estavam na sala vendo TV, depois do ocorrido, eles pareciam mais unidos e com olhares de culpa.

- Vou aceitar — disse Louise.

Sua mãe prendeu a respiração.

- Tem certeza?

- Não. — Louise sorriu, trêmula. — Mas também não tenho certeza de ficar. E quero descobrir o que acontece quando eu escolher.

Seu pai levantou-se e abraçou-a com força.

- Vallieres não desistem — murmurou.

- Não desistem — ela repetiu. — E também não têm medo de recomeçar.

No dia seguinte a decisão de Louise, seu pai veio até seu quarto.

- Louise, o rei convocou você ao palácio. — seu pai entrou no quarto com expressão séria. — Deve ser sobre o reino de Cristal.

- Ele quer dizer mais alguma coisa? Você já o informou sobre a decisão, não é?

- Não sei se quer dizer algo mais, eu o informei essa manhã.

No palácio, o rei os recebeu em seus aposentos privados, um gesto que acalmou ligeiramente Louise. Ele parecia cansado, porém determinado.

- Louise, sente-se, por favor. — pediu após ela fazer a reverência e esperou que ela obedecesse antes de continuar. — O que aconteceu no salão foi uma vergonha para todos, mas principalmente para você. Minha esposa e eu jamais nos perdoaremos.

- Majestade, eu já disse...

- Eu sei o que disse. E é exatamente por isso que estou aqui. — ele respirou fundo — E então, já decidiu?

- Sim! Irei para Cristal.

- Louise. Sei que não foi uma decisão fácil.

- Não foi, majestade. Mas é a minha decisão.

- E você está certa. — ele sentou-se — Quero que saiba de uma coisa. O que aconteceu aqui foi desrespeitoso. Não para você, mas para nós. Para Louis. Para a coroa.

- Majestade...

- Mas vamos deixar o passado para trás. Novas oportunidades surgiram então devemos dar uma chance.

- Vocês não estão é querendo se livrar de mim? Depois desse escândalo?

- Não, até porque a decisão partiu de Liam. — o rei suspirou abrindo o jogo — Depois do desastre, notei algo. O príncipe herdeiro de Cristal, Liam, fez seu funcionário pegar todas as suas informações, no início achei que era curiosidade apenas, mas quando perguntei a ele sobre você, ele hesitou.

Louise franziu a testa.

- Não percebi nada disso.

- Não esperava que percebesse. Mas eu percebi. E, após algumas investigações, descobri que ele passou os dias seguintes perguntando sobre você. — o rei sorriu levemente. — A família Cristal é rica, poderosa, e governa uma região próspera. Um casamento entre vocês fortaleceria ambos os reinos.

Louise sentiu o mundo girar.

- O senhor está me oferecendo em casamento a outro príncipe? Mal conheço esse homem.

- Estou oferecendo uma oportunidade. Liam Cristal é um bom homem, pelo que ouvi. Dizem que é justo, dedicado ao povo. Mas mais importante: se aceitar, passará um ano em Cristal sendo treinada como futura princesa herdeira. Conhecerá a terra, o povo, o príncipe. E então decidirão juntos se o casamento se concretiza.

- Um ano de treinamento? — Louise repetiu, processando a informação.

- Sim. Se ao final não quiser casar, volta para casa com minha proteção vitalícia e um dote generoso. Se quiser casar, terá meu apoio incondicional.

Louise ficou em silêncio por um longo momento. Era mais do que qualquer jovem em sua posição poderia esperar, uma segunda chance, com direito a escolha.

- Por que o senhor está fazendo isso? — perguntou.

- Porque você merece. E porque Ametista merece ter uma aliada em Cristal. Mas principalmente — o rei inclinou-se — porque acho que você pode ser feliz lá. Diferente do que seria aqui.

- O senhor acha?

- Sei. — ele sorriu. — Agora vá. Mostre a Cristal o que os sulista são capazes.

De volta a mansão Valliere, Louise não conseguiu ficar quieta. Mas desta vez não era por medo. Sentou-se à janela, observando o jardim iluminado pela lua.

- Você consegue — murmurou para si mesma. — Vallieres não desistem.

E acrescentou:

- E Vallieres também podem ser felizes.

Naquela noite, Louise conversou longamente com seus pais no jantar. Marcus, embora magoado pela forma como a filha fora tratada, via a oportunidade com clareza.

- Cristal é uma terra dura, mas justa. O povo lá é menos apegado a formalidades vazias, mais focado no que importa. Talvez seja onde você possa florescer de verdade.

Sua mãe segurou suas mãos.

- Mas só se você quiser. Não precisa aceitar por nós. — Amanada hesitava em mandar usa única filha pra longe.

Os dias que se seguiram à decisão de Louise foram um turbilhão de preparativos. Emails foram trocadas entre os reinos, acordos foram refinados, e a notícia se espalhou como fogo por Ametista: a filha do ministro Valliere, a noiva rejeitada, partiria para o norte como futura princesa de Cristal.

As reações foram mistas. Alguns nobres torceram o nariz, achando que Louise estava "se agarrando a qualquer oportunidade" ou "o rei quer se livrar da vergonha de seu filho" após a humilhação. Outros, mais generosos, viam a mudança como uma chance merecida de recomeço. Mas o povo, o povo que Louise visitara em orfanatos e hospitais durante anos, tinha uma opinião unânime.

- Ela merece ser feliz — diziam as mães nos mercados. — Merece um príncipe de verdade.

- Dizem que o príncipe de Cristal é bonito — comentavam as jovens, sonhadoras. — E parece que já está apaixonado por ela.

- Apaixonado ou não, vai tratá-la melhor que aquele infeliz do Louis.

O nome do príncipe herdeiro era agora sussurrado com desprezo. Sua "corajosa defesa do amor" fora rapidamente reinterpretada como "egoísmo de um mimado que humilhou uma mulher inocente". Louis, que esperava ser celebrado como herói romântico, viu-se criticado duramente.

Na véspera da partida, Louise não conseguiu dormir. Sentou-se à janela de seu quarto, observando o jardim iluminado pela lua, e tentou gravar cada detalhe na memória. As árvores onde brincara quando criança. O banco onde sua mãe lhe contava histórias. O caminho de pedras que levava ao portão, o mesmo portão que atravessaria na manhã seguinte para nunca mais voltar da mesma forma.

- Filha? — a voz de sua mãe veio da porta. — Posso entrar?

- Claro, mãe.

Amanda entrou com uma bandeja de chá e dois bolinhos, o lanche da madrugada que costumavam compartilhar quando Louise era pequena e tinha pesadelos.

- Lembra-se disso? — a mãe sorriu, sentando-se ao seu lado no banco da janela. — Você sempre acordava no meio da noite com medo de monstros. Eu fazia chá e bolinhos e dizia que monstros não gostavam de açúcar.

- Lembro. — Louise aceitou a xícara, aquecendo as mãos. — Funcionava.

- Porque você queria acreditar. — a mãe tocou seu rosto. — E agora? No que você quer acreditar?

Louise pensou por um momento.

- Quero acreditar que posso ser feliz. Que lá no norte, longe de tudo, posso encontrar um lugar que seja meu.

- Você sempre terá um lugar aqui. Não importa o que aconteça.

- Eu sei, mãe. É o que me dá forças.

Ficaram em silêncio por um tempo, tomando chá e observando a lua. Depois, a mãe falou novamente:

- Seu pai está acordado. No escritório. Não consegue dormir desde que você aceitou a proposta. Ele sabe que a decisão é sua, mas não é fácil. O norte é longe.

- Ele está preocupado?

- Ele está com medo. — a mãe suspirou. — Seu pai passou a vida inteira controlando tudo. Planejando cada detalhe. E agora... agora ele não pode controlar nada. Você vai para longe, para um lugar que ele não conhece, com pessoas que ele não conhece. E isso o aterroriza.

- Deveria ir falar com ele?

- Acho que ele gostaria.

Louise levantou-se, beijou a testa da mãe e desceu as escadas em direção ao escritório do pai.

A porta do escritório estava entreaberta. Louise espiou: seu pai estava sentado à escrivaninha, mas não trabalhava. Apenas olhava para um retrato sobre a mesa, um retrato dela, aos treze anos, logo após ser escolhida para o treinamento real.

- Pai?

Ele ergueu os olhos, surpreso.

- Louise? São quase duas da manhã. Por que não está dormindo?

- Não consigo. — ela entrou e sentou-se na cadeira à frente da escrivaninha. — Mamãe disse que o senhor também não.

Marcus suspirou, deixando cair a máscara de homem forte que usava durante o dia. De repente, parecia velho. Cansado. Humano.

- Não consigo parar de pensar — admitiu. — Em tudo o que poderia ter feito diferente. Em todas as vezes que coloquei dever acima de você. Em como falhei como pai.

- Pai, não falhou...

- Deixa eu terminar. — ele segurou sua mão sobre a mesa. — Passei sua infância inteira preparando você para ser princesa. Ensinei protocolos, etiqueta, estratégia. Mas esqueci de ensinar algo essencial.

- O quê?

- Que você é amada. Não pela perfeição, não pelo que pode oferecer, mas por quem é. Minha filha. — a voz dele quebrou. — E agora você vai para longe, e eu nem sei se você sabe disso.

Louise sentiu os olhos marejarem.

- Sei, pai. Sempre soube.

- Não demonstrei bem.

- Demonstrou do seu jeito. — ela apertou sua mão. — E eu entendia. Mesmo quando doía, eu entendia.

- Me perdoa?

- Não há o que perdoar.

Marcus levantou-se e puxou a filha para um abraço apertado, o segundo em poucos dias, um recorde para um homem que passara anos evitando contato físico.

- Prometa uma coisa — murmurou contra seus cabelos.

- O quê?

- Prometa que, se não for feliz, volta. Não importa o que digam. Não importa o escândalo. Volta para casa.

- Prometo, pai.

- E prometa que vai entrar em contato conosco. Todas as semanas. Sua mãe não sobrevive sem notícias.

- Todas as semanas. Prometo.

- E prometa...

- Pai. — Louise afastou-se, sorrindo apesar das lágrimas. — Se eu prometer tudo agora, não vou conseguir cumprir.

Ele riu, um som rouco e surpreso, como se tivesse esquecido como se fazia.

- Certo. Apenas... seja feliz, Louise. É tudo o que peço.

- Vou tentar. É tudo o que posso prometer.

O sol nasceu claro e frio, como se o próprio céu soubesse que era dia de despedida. Louise vestiu-se com cuidado, não o traje cerimonial, mas roupas simples e práticas para a viagem. Sua mãe insistira em preparar pessoalmente sua bagagem, incluindo mantas extras "porque no norte faz frio, filha, muito frio".

- Senhorita, o carro já chegou — anunciou Margo, com os olhos vermelhos de tanto chorar. — E há... muitas pessoas no portão.

- Muitas pessoas?

- O povo. Vieram se despedir.

Louise desceu as escadas com o coração apertado. Seus pais a esperavam na entrada, mas antes que pudesse falar com eles, ouviu o barulho lá fora. Uma multidão.

- O que aconteceu? — perguntou.

- Eles querem vê-la — respondeu o pai. — Querem se despedir.

Quando Louise atravessou o portão da família Valliere, levou um susto. A rua estava lotada. Várias pessoas: comerciantes, donas de casa, crianças, idosos aglomeravam-se para vê-la partir.

- Senhorita Valliere! — uma voz conhecida chamou. Era dona Matilde, do orfanato, segurando um cartaz feito pelas crianças: "Volte sempre, nossa princesa!"

- Dona Matilde! — Louise aproximou-se, emocionada. — A senhora não precisava...

- Precisava, sim. — A diretora abraçou-a com força. — A senhorita fez mais por nossas crianças em poucos anos do que qualquer nobre em décadas. Não íamos deixar a senhora partir sem agradecer.

Outras pessoas se aproximaram. Uma senhora idosa entregou-lhe um pão recém-assado. "Para a viagem, minha filha. Pão de verdade, não essas coisas de palácio." Um senhor ofereceu um frutas, rindo. "No norte, vai precisar de comida de verdade também." Crianças do orfanato entregaram desenhos e cartas.

- A senhora volta? — perguntou Pedro, o menino que sentara em seu colo semanas atrás.

- Volto para visitar, Pedro. Prometo.

- E vai lembrar da gente?

- Todos os dias.

Uma velha senhora de mãos enrugadas segurou seu rosto com uma força surpreendente.

- Você é uma de nós — disse, a voz firme. — Pode ir para o norte, pode virar rainha, pode o que for. Mas nunca esqueça: você é do sul. Sangue do nosso sangue. E o povo não esquece dos seus.

Louise beijou sua mão em respeito.

- Nunca esquecerei. Prometo.

A multidão abriu caminho para que Louise voltasse aos pais. O ministro Valliere, diante das várias testemunhas, fez algo que chocou a todos: abraçou a filha longamente, sem se importar com protocolos ou aparências.

- Minha filha. Minha menina. — sua voz estava embargada. — Cuide-se. Ligue. E lembre-se: você é Valliere. Sangue de governantes.

- E sangue seu, pai. — Louise apertou-o com força. — Isso é o que importa.

Sua mãe abraçou-a em seguida, sem conseguir falar, apenas chorando em seu ombro.

- Mãe, não chore — Louise sussurrou segurando as próprias lágrimas. — Vou voltar.

- Sei que vai. Mas vou sentir saudade todos os dias até lá.

- Eu também. Todos os dias. — ela limpou as lágrimas da mãe com o polegar.

Finalmente, Louise subiu no carro. Antes de entrar, virou-se para a multidão e fez uma reverência, não a reverência formal que aprendera no palácio, mas uma inclinação simples, de coração, como quem se despede da família.

A multidão aplaudiu. Alguns choravam. Outros acenavam.

- Viva a nossa princesa! — alguém gritou.

- Viva Louise! — ecoaram outros.

O carro começou a se mover lentamente pela multidão. Louise acenou pela janela até não ver mais rostos conhecidos, até as ruas de Ametista darem lugar a rodovias, até sua cidade natal se tornar um ponto distante no horizonte.

Então, sozinha pela primeira vez desde que a decisão fora tomada, Louise Valliere permitiu-se chorar.

Não de tristeza, exatamente. Mas de despedida. De gratidão. De medo do desconhecido.

- Vallieres não desistem — murmurou para si mesma, enxugando os olhos. — E Vallieres também não têm medo de recomeçar.

Margo no banco da frente enxugava as lágrimas, era a primeira vez que via Louise chorar. Tinha aceitado ir para o norte, desde quando concordou em ir para Cristal com Louise também aceitou o desconhecido.

Horas depois, o carro da família de Louise encontrou-se com a comitiva de Cristal em um ponto combinado no caminho. Era uma formação impressionante: soldados em jeeps, e no centro, um carro de luxo, que ostentava o brasão da família real do norte.

Um soldado aproximou-se do motorista de Louise e, após breves conversas, conduziu-a até a o carro principal. A porta se abriu e um homem estendeu-se para ajudá-la a subir.

- Bem-vinda à comitiva, senhorita Valliere! — Cedric sorria, seus olhos brilhando de entusiasmo. — Vamos ser companheiros de viagem. Espero que não se importe.

- O príncipe Liam...

- Ele teve que retornar ao norte mais cedo... Sou o chefe do gabinete, Cedric. — se apresentou. — Serei o seu motorista!

- Prazer em conhecê-lo, Cedric — Louise disse com cortesia.

- Sente-se e descanse. A viagem é longa.

Louise sentou-se no banco traseiro.

Margo sentou-se na frente ao lado de Cedric.

Louise ainda processando a situação. Estava viajando para o desconhecido. Sozinha. Sem protocolos, sem nada.

- Está bem? — Cedric perguntou a Margo, sua voz suave. — A despedida foi difícil?

- Foi... emocionante. — Margo admitiu. — Não esperava tanta gente.

- O povo de Ametista parece amá-la.

- O povo de Ametista é generoso com ela.

- Você está nervosa?

- Não! Estou animada! Conte-me sobre Cristal.

- Olha essas fotos! — ele mostrou o tablet a ela.

E assim, entre perguntas de Margo e as respostas rápidas de Cedric, a viagem começou. Louise preferia o silêncio.