Herdeira Consorte
4 Capítulo 04
O Príncipe do Norte
[Reino de Cristal]
A luz do amanhecer mal começava a penetrar as janelas de vidro do Palácio de Cristal quando Liam já estava de pé. No norte ele não se permitia dormia até tarde, e os problemas do reino não esperavam.
Liam chegou no centro de comando do palácio, a já olhou as telas gigantes que monitoravam em tempo real as condições das estradas, os estoques dos armazéns e as cotações dos minérios e o seu maior inimigo: o clima.
Liam analisava os relatórios da noite. Vestia um blazer escuro sobre uma camisa de botão, sem gravata, as mangas dobradas até os cotovelos. Sua aparência era impecável, mas seus olhos carregavam o peso de quem não dormia bem há meses.
- Cedric — chamou, sem tirar os olhos dos relatórios. — O relatório das minas. O que os engenheiros disseram?
Cedric, seu chefe de gabinete, consultou o tablet que carregava como extensão do próprio corpo.
— A produtividade caiu outros 3% no último trimestre, alteza. O conselho de mineração recomenda fechar duas operações até que os preços do minério se recuperem no mercado internacional.
- Fechar? — Liam finalmente virou-se, a expressão fechada. — E os trabalhadores?
- Seriam realocados para outras áreas, mas... — Cedric hesitou. — Haveria perdas. As famílias das vilas mineradoras dependem exclusivamente daquela renda.
- Então não vamos fechar. — Liam voltou-se para outro relatório, verificando os dados de exportação. — Aumente as negociações com os compradores das regiões ao noroeste. Ofereça um desconto temporário para garantir os contratos. E peça ao conselho de mineração que apresente alternativas até o fim do mês. Quero soluções, não demissões.
- Sim, alteza.
- E a questão das estradas? A previsão é de mais tempestades?
- Os meteorologistas dizem que a próxima semana será crítica. Se a neve bloquear as passagens da serra, podemos ter desabastecimento nas vilas do interior.
- Ative o plano de contingência. Os trenós motorizados estão prontos?
- Prontos, alteza. Mas o combustível é limitado. Não teremos para mais de três rotas simultâneas.
Liam passou a mão no rosto, um gesto de cansaço que mal percebia.
- Priorize as vilas com crianças e idosos. O resto, reorganize as rotas de suprimento pelo sul. Vai demorar mais, mas chega.
- Alteza, o orçamento...
- O orçamento se ajusta depois. Pessoas não.
Cedric anotou, já acostumado. O príncipe Liam tinha fama de ser duro, implacável até, nos negócios. Mas quando se tratava do povo, a rigidez dava lugar a algo que poucos viam: uma proteção feroz.
A reunião da manhã foi transferida para a sala de crise, um espaço subterrâneo com isolamento acústico e conexões de segurança máxima. O motivo: um conflito crescente entre os clãs das montanhas e a administração central.
- Eles querem autonomia — Bryn, o conselheiro para assuntos regionais, explicava, projetando mapas e gráficos na parede. — Dizem que as decisões são tomadas aqui, no palácio, sem considerar as realidades locais. A questão da extração de minérios é apenas a ponta.
- Autonomia? — um dos conselheiros mais antigos bufou. — Eles têm representação no conselho. Têm verbas específicas. O que mais querem?
- Querem ser ouvidos — Liam interrompeu, a voz calma. — E talvez tenham razão. Estão longe do palácio e natural que se sintam assim.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
- Alteza — Frey, a conselheira de saúde, interveio. — Já visitamos as vilas das montanhas. O acesso é difícil, a comunicação é precária. É a logística.
- Então vamos melhorar a logística. — Liam levantou-se, caminhando até o mapa projetado na parede. — Vejam aqui. As vilas do clã Skard são as mais isoladas, mas também as que mais produzem minério. Por que não construímos um posto de atendimento integrado? Saúde, educação, assistência social. Algo que mostre que estamos lá, não apenas cobrando impostos.
- O orçamento...
- Já falei sobre o orçamento. — Liam cortou. — Quero uma proposta em quinze dias. Incluam os líderes dos clãs na discussão. Se não vierem ao palácio, vamos até eles. Mande Gus liderar essa visita, ele é de lá então tem o respeito do povo. Eles o ouvirá.
Os conselheiros trocaram olhares, mas ninguém contestou. Aquele era o Liam que conheciam: não o príncipe que governava de longe, mas o que descia os muros do palácio para ver com os próprios olhos.
Quando a reunião terminou, Liam foi para seu escritório particular. A vista dali era impressionante: o mar congelado se estendia até onde a vista alcançava, e as montanhas ao fundo pareciam guardiãs silenciosas. Mas ele não tinha tempo para contemplações. Havia e-mails para responder, relatórios para assinar, telefonemas para fazer.
- Alteza — a secretária anunciou pelo interfone. — A princesa Catherine pede para vê-la. Diz que é urgente.
Liam suspirou. A urgência de Catherine raramente coincidia com a dele.
- Pode entrar.
A porta se abriu e Catherine entrou como um vendaval, ainda vestindo o uniforme de treino do centro de defesa pessoal que comandava. Os cabelos negros estavam presos em um coque severo, e seu rosto exibia a determinação de quem não aceitaria um "não" como resposta.
- Você precisa sair — declarou, sem rodeios.
- Catherine, agora não...
- Agora sim. — Ela se sentou na cadeira em frente à mesa, cruzando as pernas. — Você está neste escritório há, o quê? Catorze horas? E antes disso, estava na sala de crise. E antes disso, no centro de comando. E antes disso...
- Tenho trabalho. — justificou-se.
- Trabalho você sempre terá. O reino não vai parar porque você tirou uma hora para lembrar que é humano.
Liam apoiou a cabeça nas mãos, a tensão dos últimos dias finalmente encontrando espaço para se manifestar.
- Catherine, as minas estão com produção baixa, os clãs das montanhas ameaçam se separar, as estradas podem fechar a qualquer momento, e você quer que eu saia para... o quê? Tomar café?
- Para lembrar que existe algo além de números e crises. — ela se levantou e foi até a janela. — Olha isso. O mar. As montanhas. Quando foi a última vez que você simplesmente olhou para isso sem pensar em logística?
Liam não respondeu. Não porque não tivesse resposta, mas porque a resposta o assustava.
- Venha dar uma volta comigo — Catherine insistiu. — Uma hora. Depois você volta para suas planilhas e relatórios.
- Não posso.
- Pode, sim. O reino não vai desabar porque o príncipe tirou uma hora para olhar o horizonte.
- Catherine...
- Liam. — ela virou-se, e pela primeira vez no dia a voz perdeu o tom de provocação. — Eu te perdi quando nossos pais morreram. Perdi o irmão que ria, que fazia planos, que sonhava. Agora tenho um governante. E ele é bom, muito bom. Mas eu quero meu irmão de volta. Nem que seja por uma hora.
O silêncio se alongou. Liam olhou para a irmã, para os olhos que eram tão parecidos com o de sua mãe, para o cansaço que ela também carregava, mas que nunca deixava transparecer.
- Uma hora — cedeu, finalmente.
O sorriso de Catherine iluminou seu rosto.
- Uma hora. Vou buscar o veículo.
Escolheu o Jeep para a neve. Catherine dirigia, como sempre, enquanto Liam observava a paisagem pela janela. A costa gelada se estendia em toda sua beleza austera, e o sol baixo do inverno pintava o céu de tons alaranjados.
- Lembra quando éramos crianças? — Catherine perguntou, enquanto desviava de um bloco de gelo na estrada. — E você dizia que queria construir um navio e navegar até o fim do mundo?
- Eu era criança. Não sabia o que dizia. — Liam deu de ombros.
- Sabia, sim. Você sempre foi teimoso. Só que naquela época a teimosia era para sonhar, não para trabalhar.
- Sonhos não resolvem crises de abastecimento.
- Nem trabalhos trazem de volta os mortos.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não desconfortável. Catherine estacionou o veículo no mirante, o mesmo onde o pai os levava quando crianças.
- Olha — ela apontou. — As baleias estão de volta.
Liam seguiu seu olhar. Lá longe, corpos escuros emergiam da água cinzenta, formando arcos perfeitos antes de mergulharem novamente.
- Papai costumava nos trazer aqui para vê-las — disse, a voz mais suave do que pretendia.
- Pois é. Ele dizia que as baleias viajam longas distâncias para chegar onde precisam. E que nós também precisamos viajar, às vezes. Para lembrar quem somos.
- Catherine...
- Não estou dizendo para você largar tudo e navegar para o fim do mundo. Só estou dizendo que às vezes é bom olhar para o horizonte. Lembrar que existe algo além dos números.
Liam não respondeu, mas não precisou. Catherine sabia que a mensagem fora recebida. O irmão era muito esperto.
Ficaram ali por mais alguns minutos, observando as baleias em silêncio. Depois, ela deu partida no veículo.
- Vamos voltar. Seu próximo compromisso é em quarenta minutos.
- Como você sabe?
- Sou a princesa desse reino. Sei de tudo.
Liam quase sorriu. Quase.
- Soube que Gus vai ao clã Skard, posso acompanhá-lo? — pediu ela.
- Se eu disser que não, você nem me ouviria... — Liam conhecia a irmã bem demais. — Tome cuidado e se proteja!
Quando voltaram ao palácio, Cedric os aguardava na entrada, com expressão que indicava novidades.
- Alteza, chegou uma comunicação oficial de Ametista.
- Ametista? — Liam franziu a testa. As relações com o sul eram cordiais, mas distantes. Não era comum receberem correspondências diretas.
Cedric entregou-lhe um tablet com o documento aberto. Liam leu em silêncio, a expressão mudando lentamente.
- O que diz? — Catherine perguntou, impaciente.
- O rei de Ametista convoca um encontro diplomático. — Liam passou o tablet para ela. — Negociações comerciais. Querem expandir os acordos com o norte.
- Só isso? — Catherine leu rapidamente. — Tem mais coisa aqui. O casamento do príncipe herdeiro. Com a filha do ministro da Estratégia.
- Sim — Liam respodeu. — A cerimônia será testemunhada por representantes do estados. Estamos convidados.
- Convidados? — Catherine ergueu as sobrancelhas. — Isso é mais que um convite. É um movimento político. Eles querem nos vincular ao casamento, mostrar aliança.
- Sei. — Liam já estava com a mente voltada para as implicações. — Mas também é uma oportunidade. Se conseguirmos um acordo comercial favorável...
- Eu sei, eu sei. Números. — Catherine revirou os olhos. — Mas pelo menos você vai sair do norte. Quem sabe o sol do sul não derrete um pouco dessa sua rigidez?
- Catherine. — Liam a advertiu.
- Já vou começar os preparativos. — Ela se afastou, mas voltou-se na porta. — Antes da minha ida ao clã Skard.
Liam ficou sozinho no escritório, o tablet ainda nas mãos. Ametista. O sul. Ele nunca estivera tão longe de Cristal. A ideia era estranha, mas também... intrigante.
Sacudiu a cabeça, afastando pensamentos que não levavam a lugar nenhum. Havia trabalho a fazer.
- Cedric — chamou, já caminhando de volta para o centro de comando. — Prepare a comitiva. Precisamos de propostas concretas para as negociações. Quero números, análises de mercado, tudo.
- Sim, alteza. — Cedric correu para acompanhá-lo. — E sobre o deslocamento?
- Quero uma equipe reduzida. Nada de ostentação. Vamos para negociar, não para fazer turismo.
- Entendido.
Liam passou o resto do dia organizando os preparativos. Escolheu os conselheiros que o acompanhariam, revisou os dados de exportação, preparou argumentos para as negociações. Trabalhou até tarde da noite, como sempre.
Mas antes de dormir, voltou à janela do escritório. O mar estava escuro, as baleias já haviam sumido no horizonte.
Viajar longas distâncias para chegar onde precisam, pensou.
Amanhã haveria mais trabalho. Depois, mais. Mas por um momento, apenas um momento, permitiu-se imaginar o que o esperava no sul.
[Reino de Ametista]
O Salão dos Espelhos ainda vibrava com o eco do escândalo quando a comitiva de Cristal foi conduzida para uma ala mais reservada do palácio. O rei de Ametista, visivelmente abalado, pediu desculpas formais e prometeu que as negociações comerciais ocorreriam no dia seguinte, como planejado.
- Compreendemos perfeitamente, majestade — Liam Cristal respondeu com a cortesia adequada, embora seus olhos cinzentos estivessem fixos na porta por onde Louise Valliere desaparecera. — Famílias reais enfrentam desafios. Desejamos apenas que tudo se resolva da melhor forma.
- Sua generosidade é notável, alteza. — O rei apertou sua mão com gratidão. — Descansem hoje. Amanhã, às nove, retomamos os trabalhos.
Os aposentos reservados para a família real de Cristal eram os mais luxuosos do palácio, com vista para os jardins e uma lareira crepitante que combatia o frio ao qual os nortistas estavam acostumados, mas que em Ametista parecia desnecessária.
- Que dia! — Cedric exclamou, sentando-se numa poltrona assim que a porta se fechou. — O príncipe Louis é um idiota ou apenas muito corajoso?
- Ambos — Liam respondeu distraidamente, caminhando até a janela. — Corajoso por desafiar o rei na frente de todos. Idiota por humilhar uma mulher que claramente não merecia.
- Ela é linda, claro. Mas não foi só isso. Saiu com a cabeça erguida, dignidade intacta. Como se dissesse: "vocês podem me humilhar, mas não podem me quebrar." — Cedric suspirou. — Admirável. Uma pena que, com um escândalo desses, ela estará sempre nas rodas de fofoca da corte.
Liam não respondeu. Continuou olhando pela janela, mas sua mente estava longe. Revendo a cena: Louise caminhando pelo salão, cada passo medido, cada gesto controlado. A dor em seus olhos, mal disfarçada pela compostura. A força que ela demonstrou ao agradecer ao rei e à rainha, como se fosse ela quem devesse algo a eles.
- Cedric — chamou, virando-se para seu chefe de gabinete. — O que você descobriu sobre Louise Valliere?
Cedric, consultou seu tablet com os arquivos que foram coletados.
- Filha única do ministro da Estratégia, Marcus Valliere. Vinte e dois anos. Treinada desde a infância para ser princesa consorte. Fluente em quatro idiomas. Voluntária em orfanatos e hospitais. Popular entre o povo. Inteligente, disciplinada, reservada. — Ele hesitou. — Dizem por aí que é perfeita demais para ser verdade.
- Perfeita demais? — Liam repetiu. — Ou apenas perfeita do jeito que é?
Cedric o olhou estranhando a resposta, por hora, não comentou.
- Precisamos nos concentrar nas negociações de amanhã — Liam disse, afastando-se da janela. — Preparem todos os documentos. Quero propostas sólidas.
- Sim, alteza.
Mas naquela noite, Liam não conseguiu dormir. Ficou na janela, observando as estrelas de Ametista, tão diferentes das do norte, pensou. E imaginando onde estaria Louise Valliere naquele momento. Se estaria chorando. Se estaria com raiva. Se estaria, de alguma forma, pensando no futuro.
A sala de negociações do Palácio de Ametista era um espaço imponente, com uma longa mesa de mármore polido que refletia as luzes. Os representantes de ambos os reinos já estavam sentados quando Liam entrou, acompanhado por Cedric e uma pequena equipe.
O rei de Ametista ocupava a cabeceira da mesa, ladeado por seus ministros. Marcus Valliere, o ministro da Estratégia, sentava-se à sua direita, com os olhos fixos nos documentos à sua frente. Seu rosto carregava a tensão dos últimos dias, desde o escândalo do noivado desfeito, sua posição no conselho estava sob a observação de todos.
- Príncipe Liam — o rei cumprimentou, com um aceno. — Agradeço sua disposição em negociar, especialmente após os acontecimentos de ontem. Peço desculpas novamente pela cena que testemunhou.
- Não há o que desculpar, majestade. — Liam sentou-se, ligando seu tablet. — Famílias reais têm seus desafios. Estou aqui para falar de negócios, não de escândalos.
O rei sorriu, satisfeito com a resposta.
- Excelente. Então vamos direto ao assunto.
- Cristal tem três produtos principais para oferecer — Liam começou, projetando os dados na tela principal. — Minérios, pescados e madeira. Nossas minas produzem ferro de alta qualidade, além de pequenas quantidades de prata que podem interessar ao setor de joalheria de Ametista. Nossos pescados são abundantes e processados com tecnologia de ponta, garantindo conservação e qualidade. E nossa madeira, extraída de forma sustentável das florestas de pinho, é reconhecida internacionalmente por sua durabilidade.
O ministro da Economia de Ametista consultou seus próprios números.
- E o que Cristal deseja em troca?
- Tecidos, vinhos e produtos agrícolas. — Liam passou para o próximo slide. — O solo do norte é pobre para plantações em larga escala. Dependemos de importação para alimentar nossa população. Mas não apenas isso: queremos tecnologia. Sistemas de irrigação, equipamentos agrícolas. Ametista é referência em agricultura no continente. Podemos aprender com vocês.
O rei inclinou-se, interessado.
- Uma troca justa. Mas os números precisam ser detalhados. Quanto vocês podem fornecer? E em que prazos?
- Ferro: cinquenta mil toneladas anuais, com possibilidade de aumento conforme a demanda. Pescados: duzentas toneladas processadas por trimestre. Madeira: o equivalente a cinco mil metros cúbicos por ano. — Liam falava com a precisão de quem conhecia cada número de cor. — Em contrapartida, precisamos de tecidos de algodão e lã para vestuário, vinhos para consumo interno e exportação, e um volume significativo de grãos e legumes para abastecer nossas vilas durante o inverno.
- Os números são ambiciosos — o ministro da Economia comentou. — Nossa produção agrícola pode atender, mas os preços precisam ser negociados.
- É por isso que estamos aqui. — Liam cruzou as mãos sobre a mesa. — Digam suas contrapropostas.
As horas seguintes foram um jogo de xadrez econômico. Preços foram ajustados, volumes foram renegociados, prazos foram esticados e comprimidos. Liam mostrou-se um negociador duro, não cedia em pontos essenciais, mas abria mão onde podia.
- O minério de ferro está cotado abaixo do mercado internacional — argumentou o ministro da Economia.
- Porque nosso minério é de qualidade superior — Liam rebateu. — Menos impurezas, maior rendimento. O preço reflete a qualidade.
- E os fretes? O transporte do norte para o sul não é barato.
- Assumimos os custos de transporte. Em troca, queremos um desconto de 10% nos tecidos.
O ministro hesitou, consultando o rei. O monarca acenou. Às vezes podia ser flexível.
- Acordo fechado!
Ao final da manhã, um acordo preliminar foi fechado. Os detalhes seriam ajustados nos dias seguintes, mas o essencial estava definido: Cristal forneceria minérios, pescados e madeira; Ametista forneceria tecidos, vinhos e produtos agrícolas. Além disso, haveria um programa de intercâmbio técnico para transferência de conhecimento em agricultura e mineração.
- Foi um dia produtivo — o rei declarou, levantando-se. — Príncipe Liam, espero que possa almoçar conosco esta tarde. Há ainda assuntos a discutir.
- Ficarei honrado, majestade.
Quando os ministros se retiraram e a sala ficou vazia, o rei de Ametista aproximou-se de Liam, que ainda organizava seus documentos no tablet.
- Príncipe Liam, posso lhe fazer uma pergunta pessoal?
- Claro, majestade.
- Durante todo o dia, notei algo curioso. — o rei sentou-se na cadeira ao lado, numa intimidade que quebrou o protocolo. — Várias vezes, você desviou o olhar para algo que não estava nas telas. Para a porta. Para os corredores. Como se estivesse procurando alguém.
Liam manteve a expressão neutra, mas seus dedos pararam de deslizar sobre o tablet.
- Não sei do que o senhor está falando.
- Acho que sabe. — o rei sorriu, mas não era um sorriso provocador. Era o sorriso de quem já vira o suficiente da vida para reconhecer certas coisas. — Ontem, durante a confusão no salão, você não conseguia tirar os olhos dela. E hoje, soube que seu funcionário passou o dia perguntando sobre minha filha aos funcionários do palácio.
Liam ficou em silêncio por um momento, avaliando o que dizer. Negar seria inútil. Mentir seria desrespeitoso.
- Sua filha, majestade? Não é sua filha. A senhorita Valliere.
- Não, não é minha filha. Mas é como se fosse. Conheço Louise desde criança. Ela passou mais tempo neste palácio do que na própria casa. — o rei suspirou. — E ontem, vimos o que vimos.
- Foi lamentável.
- Foi. Mas não foi culpa dela. — o rei olhou para Liam com intensidade. — Por isso, quando notei seu interesse, pensei: talvez o destino de Louise não esteja em Ametista. Talvez esteja no norte.
Liam não respondeu imediatamente. Seu coração batia mais rápido, mas sua expressão permanecia controlada.
- O senhor está sugerindo algo, majestade?
- Estou perguntando. — o rei inclinou-se. — Se houvesse a possibilidade de Louise ir para Cristal, de ser treinada como princesa herdeira, de se casar com você... isso lhe interessaria?
O silêncio que se seguiu foi carregado de significado. Liam pensou na imagem que não conseguia esquecer: Louise saindo do salão, a cabeça erguida, a dignidade intacta. A mulher mais forte que já vira. Louise sendo sua esposa.
- Sim — respondeu, finalmente. — Interessaria.
O rei sorriu, satisfeito.
- Então tenho uma proposta. Não é uma ordem, não é uma imposição. É uma oportunidade.
- Estou ouvindo.
- Louise passará um ano em Cristal. Será treinada como princesa herdeira. Conhecerá sua terra, seu povo, sua cultura. E, ao final desse ano, se ambos quiserem, o casamento se concretizará. Se não quiserem, ela volta para Ametista com honras e proteção vitalícia.
- E ela aceitaria isso?
- A escolha será dela. Como nunca foi antes. — o rei levantou-se.
- E o que a majestade ganha com isso? — o monarca que residia em Liam questionou.
- Bem... Eu poderia usar Louise em um acordo mais benéfico, porém estou em dívida com a moça. — disse ele. — O que você me diz, príncipe Liam? Louise Valliere será recebida em Cristal?
Liam também se levantou, enfrentando o olhar do monarca.
- Será recebida com honras de chefe de Estado. Terá meu compromisso de que sua segurança e bem-estar serão prioridades. E, se ao final do ano ela decidir que Cristal não é seu lugar, permitirei que ela retorne em segurança.
- E se ela decidir ficar?
- Então, — Liam permitiu-se um sorriso pequeno, no entanto genuíno — Farei de tudo para que ela nunca se arrependa.
O rei estendeu a mão. Liam apertou-a.
- Então temos um acordo — o monarca disse. — Agora, preciso conversar com Louise. E com seus pais.
- Majestade — Liam chamou, antes que o rei se afastasse. — Uma pergunta.
- Diga.
- O príncipe Louis. O que acontecerá com ele?
O rei suspirou, o peso dos anos parecendo cair sobre seus ombros.
- Louis é meu filho. Eu o amo, apesar de tudo. Mas ele fez uma escolha. E agora, precisa arcar com as consequências. — ele olhou para Liam. — Mas isso não é problema seu. Cuide de Louise. Ela merece mais do que o que recebeu aqui.
- Cuidarei, majestade. Com minha palavra.
Quando Liam saiu da sala, Cedric o aguardava no corredor, com uma expressão de quem queria fazer perguntas, mas sabia que não era o momento.
- Alteza, a reunião foi produtiva?
- Foi. — Liam caminhou em direção aos aposentos da comitiva. — Cedric, preciso que você prepare algo.
- O quê, alteza?
- Vamos ter um convidado ao norte! Preciso que deixe preparado as melhores acomodações.
Cedric arregalou os olhos.
- Alteza, quem virá?
Liam parou, virando-se para o assistente. Pela primeira vez em meses, havia algo em seus olhos que não era cansaço.
- Louise Valliere. Ela talvez irá para Cristal.
Cedric abriu a boca para perguntar, mas fechou-a novamente. Havia tempo para perguntas depois. Por hora, bastava obedecer.
- Sim, alteza. Farei os preparativos.
Após a reunião, houve um almoço informal no jardim de inverno do palácio. Era uma tradição de Ametista: refeições ao ar livre, mesmo no frio, para mostrar a beleza da natureza local.
Liam circulava entre os convidados, trocando palavras educadas com nobres e ministros. Mas sua atenção estava dividida. Ele procurava alguém.
- Príncipe Liam! — uma voz feminina o abordou. Era a condessa de Montebelo, uma jovem de vestido amarelo e sorriso fácil. — Que honra tê-lo conosco. O que está achando de Ametista?
- Encantadora, condessa. — ele fez uma reverência educada. — Muito diferente do norte, mas igualmente bela.
- Já visitou nossos jardins? As rosas desta época são famosas.
- Ainda não. Talvez hoje à tarde.
- Se precisar de um guia, estou à disposição.
Liam sorriu, todavia seus olhos já haviam se desviado novamente. Foi quando viu Marcus Valliere afastar-se do grupo principal, caminhando em direção a um canto mais isolado do jardim.
- Com licença, condessa. — desculpou-se educadamente e seguiu o ministro.
- Ministro Valliere? — chamou, aproximando-se.
Marcus virou-se, surpreso.
- Príncipe Liam. Perdão, não o vi chegar. — Liam sentiu a mesma postura de Louise.
- Posso incomodá-lo por um momento?
- Claro. — Marcus indicou um banco de pedra. — Sente-se.
Liam sentou-se ao seu lado, observando o ministro com atenção. Marcus Valliere era um homem de expressão fechada, mas naquele momento seus olhos revelavam cansaço e preocupação.
- Como está sua filha? — Liam perguntou diretamente.
Marcus sobressaltou-se.
- Como disse?
- Desculpe a indiscrição. Sei que não nos apresentaram formalmente, mas testemunhei o ocorrido ontem. E fiquei... impressionado com a dignidade de sua filha.
Marcus o observou por um longo momento, avaliando.
- Minha filha está... se recuperando. Obrigado por perguntar.
- Ela é forte.
- Sim. Mais do que imagina.
- Merecia mais do que isso.
Marcus suspirou envergonhado. Sua filha merecia tudo, menos isso.
- Merecia, sim. Mas a vida real raramente nos dá o que merecemos. — conformou-se.
Ficaram em silêncio por um instante, observando as flores ao redor.
Marcus ficou mudo por um momento. Depois, sem dizer uma palavra, virou-se e afastou-se.
O rei de Ametista observava a cena de longe, com olhos atentos. Vira a aproximação do príncipe ao ministro. Liam não era o rei atoa. Depois que decisão foi tomada ele iria com tudo.
- Interessante — murmurou para si mesmo.
Naquela noite, após o jantar, o rei convocou Marcus Valliere para uma reunião privada em seus aposentos.
- Sente-se, Marcus. — O rei indicou uma cadeira. — Precisamos conversar.
Marcus obedeceu, embora seu coração estivesse acelerado.
- O que houve, majestade?
- Hoje, durante o almoço, notei algo. O príncipe Liam aproximou-se de você. Conversaram. O que ele queria?
Marcus hesitou, não tinha nada a esconder.
- Ele... perguntou sobre minha filha!
- Ah, sim? — o rei inclinou-se, interessado. — O que exatamente?
- Perguntou como ela estava. Disse que ficou impressionado com a dignidade dela durante o ocorrido. E depois... — Marcus engoliu em seco. Será se o rei estaria pensando que ele estava conspirando com outro reino? — Eu sai logo depois.
O rei sorriu lentamente.
- Exatamente o que eu esperava.
- Majestade?
- Marcus, desde o momento em que Louise saiu daquele salão, o príncipe Liam não tirou os olhos dela. Durante toda a confusão, durante as negociações, durante o almoço... ele estava procurando informações sobre ela.
Marcus sentiu o estômago embrulhar.
- O que está sugerindo?
- Estou sugerindo que talvez o destino de Louise não esteja em Ametista. — o rei levantou-se, caminhando até a janela. — O reino de Cristal é rico, poderoso, e precisa de uma princesa à altura. Liam é um jovem governante, justo, dedicado ao povo. Dizem que é bom homem.
- Majestade, minha filha acabou de ser humilhada publicamente. Não posso...
- Eu sei. — o rei virou-se, a expressão suavizada. — Sei do sofrimento dela. Sei do sofrimento de vocês. E sinto muito por isso. Mas pense, Marcus: que futuro ela tem aqui? Casamentos com outros nobres serão sempre comparados a este escândalo. Haverá boatos, fofocas, olhares de piedade. Ela merece isso?
Marcus ficou em silêncio.
- Em Cristal, ela seria uma princesa. Seria respeitada. E, pelo que vi hoje, seria admirada por um homem que claramente já a admira. — o rei aproximou-se. — Não estou ordenando, Marcus. Estou propondo. Uma chance para Louise recomeçar.
- E se ela não quiser?
- Então não irá. Mas pelo menos terá a escolha. Algo que nunca teve antes.
Marcus respirou fundo, processando as palavras do rei. Por dentro, estava dividido. Parte dele queria proteger a filha, mantê-la perto, evitar mais sofrimento. Outra parte sabia que o rei tinha razão: em Ametista, Louise sempre seria "a noiva rejeitada". Em Cristal, poderia ser alguém novo.
- Preciso conversar com minha esposa — disse finalmente. — E com Louise.
- Claro. Tomem o tempo que precisarem. Mas não muito, a comitiva de Cristal parte hoje a noite, mas eles estão dispostos a aceitarem Louise.
Marcus levantou-se, fez uma reverência e saiu.
No corredor, apoiou-se na parede por um momento, fechando os olhos.
- Como posso proteger minha filha se nem sei o que é melhor para ela? — murmurou.
Quando chegou em casa, já passava das onze. A casa estava silenciosa, ele sabia que a esposa o esperava acordada.
- Marcus? — ela surgiu na escada, um roupão sobre o camisola. — Aconteceu algo?
- Precisamos conversar. Na biblioteca.
Sentaram-se lado a lado, e Marcus contou tudo: a aproximação de Liam, a conversa no jardim, a observação do rei, a proposta.
- O rei quer que Louise vá para Cristal — concluiu. — Como princesa. Para ser treinada e, talvez, casar-se com o príncipe Liam.
Sua esposa ficou em silêncio por um longo momento. Depois, as lágrimas começaram a escorrer.
- Você está chorando? — Marcus perguntou, confuso. — Isso é bom ou ruim?
- É... não sei. — ela enxugou os olhos. — Parte de mim quer gritar que não, que nossa filha já sofreu demais, que não podemos mandá-la para longe. Mas outra parte...
- Outra parte?
- Outra parte lembra como ela estava ontem à noite. Como se sentiu humilhada. E pensa: talvez, longe daqui, ela possa recomeçar. Ser feliz.
Marcus segurou sua mão.
- Você acha que devemos aceitar? — ele perguntou.
- Acho que devemos perguntar a ela. Pela primeira vez, deixar que ela decida. Não quero mais que ela sofra por conta das nossas escolhas.
Marcus suspirou.
- E se ela disser não? — ele não queria mais sofrimento para sua menininha.
- Então diremos não. E a protegeremos aqui, como sempre fizemos.
- E se ela disser sim?
Sua esposa olhou para ele com olhos marejados, ainda assim determinada.
- Então a apoiaremos. E rezaremos para que Cristal seja tudo o que esperamos.
Louise desceu para o café da manhã e sentiu imediatamente que algo estava diferente. Seus pais estavam sentados à mesa, não tocavam na comida e trocavam olhares preocupados.
- Aconteceu algo? — perguntou, sentando-se.
- Então... — seu pai respirou fundo. — Precisamos conversar sobre algo importante. Algo que pode mudar sua vida.
Louise sentiu o coração acelerar. O que mais poderia acontecer?
- O que foi?
- Ontem, durante as negociações com Cristal... — seu pai contou novamente toda a história, agora para ela.
Quando terminou, Louise ficou em silêncio por um longo momento. Então o rei, iria manda-lhe para outro reino, para escondê-la.
- O príncipe Liam... perguntou por mim?
- Sim! — confirmou o pai.
- E o rei quer que eu vá para Cristal?
- Quer que você considere. A escolha é sua.
Louise olhou para seus pais, vendo a preocupação em seus olhos. Pensou em Louis, na humilhação, na dor. Pensou em Ametista, em tudo o que conhecia. E pensou em Cristal, tudo o que sabia era um lugar frio, distante, desconhecido banhado pelo mar.
- Eu preciso dar uma resposta agora? — perguntou.
- Não. Tome o tempo que precisar.
Louise levantou-se e caminhou até a janela. Lá fora, o jardim da família se estendia sob o sol da manhã. Tão familiar. Tão seguro.
Mas seguro significava ficar, significava ser sempre "a noiva rejeitada", significava nunca saber o que poderia ter sido.
Fale com o autor