A Humilhação


O Salão dos Espelhos recebeu esse nome por uma razão: suas paredes eram revestidas de espelhos que iam do teto ao chão como uma sala de estúdio de balé, importados há tanto tempo quando e ninguém sabia sua exatidão.

Naquela manhã, cada espelho refletia a imagem de uma corte em polvorosa, mas também multiplicava a beleza do ambiente, flores brancas cobriam cada superfície, luzes tremeluziam nos por todo o salão, e os membros da corte usavam suas melhores trajes a rigor.

Louise acordara antes do sol, como de costume. Margo ajudou-a a vestir o traje cerimonial, um vestido azul-noite bordado com fios de prata que imitavam estrelas, uma homenagem ao céu de Ametista. Seus cabelos foram presos em um coque elaborado, com pequenas pérolas incrustadas. Ela observou seu reflexo no espelho e viu uma imagem de perfeição: postura impecável, maquiagem suave, olhos serenos.

Mas por dentro, seu coração batia mais rápido que o normal. As palavras de Louis no corredor ainda ecoavam em sua mente: "nunca terá meu respeito, eu sequer gosto de você". Ela tentara afastá-las, concentrando-se nos preparativos, no dever, no futuro. Mas elas estavam lá, como uma pedra no sapato.

- Está linda, senhorita — murmurou Margo, com os olhos marejados.

- Obrigada, Margo. — Louise apertou sua mão rapidamente, um gesto de afeto que raramente se permitia. — Hoje é um grande dia.

- Senhorita, está nervosa? — Margo perguntou enquanto ajudava-a a ajustar o traje cerimonial.

- Nervosa não é a palavra correta, Margo. — Louise observou seu reflexo no espelho do quarto. — Digamos que estou... consciente da importância do momento.

- A senhorita sempre encontra as palavras certas. — Margo sorriu, com os olhos marejados. — Está linda. O príncipe Louis não terá como não notar.

Louise escolheu o silêncio como resposta, pois duvidaria se Louis sequer a olhasse.

No caminho para o palácio, seus pais trocavam olhares ansiosos. O ministro Valliere segurou a mão da filha por um momento, algo que ele raramente fazia.

- Lembre-se: você é Valliere. Sangue de governantes. Nada do que acontecer hoje mudará isso.

- Sei, pai. — Louise apertou sua mão de volta, buscando força naquele contato.

Sua mãe, sentada ao lado, parecia tensa. Seus olhos percorriam o rosto da filha como se tentasse memorizar cada detalhe, como se pressentisse algo.

- Tudo vai dar certo, minha querida — disse, mas sua voz tremia ligeiramente. — Lembre-se que podemos protestar!

Marcus Valliere balançou a cabeça em negação. Sabia que a esposa era a única que ele permitiria fazer algo assim.

O cortejo de carros parou diante do palácio real. A multidão se aglomerava além dos portões, ansiosa para ver a noiva que todos admiravam. Louise acenou com elegância enquanto caminhava para a entrada principal, ouvindo suas felicitações e aplausos.

Dentro do palácio, o burburinho era intenso. Nobres do reino conversavam animadamente, e os representantes de Cristal um jovem príncipe de olhos cinzentos e seu assistente, já ocupavam seus lugares de honra.

Louise posicionou-se nos fundos do salão, atrás de uma coluna, aguardando o momento de entrar. Era tradição que a noiva só aparecesse após o noivo ser anunciado. Ela esperaria ali, com o coração batendo acelerado, até que seu nome fosse chamado.

- Daqui a pouco, senhorita — sussurrou o mestre de cerimônias, posicionando-se a seu lado. — Sua alteza o príncipe Louis deve entrar a qualquer momento.

Louise acenou, mantendo a expressão serena. Através das frestas entre as pessoas, ela podia ver o rei e a rainha já sentados em seus tronos, os representantes de Cristal ao lado, a corte inteira em expectativa.

As portas principais se abriram.

Louis entrou.

Mas não veio sozinho.

Ao seu lado, de mãos dadas, caminhava uma jovem de vestido simples, um rosa desbotado, sem bordados, sem joias, cabelos soltos ao vento, rosto pálido mas determinado. Uma plebeia, isso era óbvio para qualquer um que conhecesse a corte.

O silêncio caiu como um véu sobre o salão.

Louise sentiu o chão sumir sob seus pés. Seu coração, que batia acelerado, pareceu parar por um instante. Depois disparou novamente, tão rápido que ela temeu desmaiar.

- Meu rei, minha rainha — Louis falou, a voz clara como cristal, ecoando nas paredes espelhadas. — Apresento-lhes Eloá Marchand, a mulher que amo. E a quem dedicarei minha vida.

O caos se instalou.

A rainha consorte levou a mão ao peito, empalidecendo. O rei levantou-se abruptamente, vermelho de fúria. Guardas avançaram, mas logo recuaram ao ver o que Louis erguia na mão livre, uma adaga letal, contra seu próprio pescoço.

- Se me obrigarem a casar com outra — continuou Louis, a voz forte apesar do tremor em seus olhos — Juro que enfiarei esta lâmina em meu pescoço diante de todos.

A plebéia a seu lado, Eloá, segurava sua outra mão com força, o rosto banhado em lágrimas, mas mantendo-se ereta ao lado do amado.

O rei de Cristal observava tudo com olhos atentos, avaliando a situação. Cedric, ao seu lado, tinha uma expressão de fascinada surpresa.

Mas Louise...

Louise Valliere, escondida atrás da coluna, assistia a tudo como se fosse um pesadelo do qual não conseguia acordar. Seu noivo preferia a morte a casar-se com ela. Diante de toda a corte. Diante de estrangeiros. Diante de seus pais. Diante dela.

A humilhação queimou como ferro em brasa.

- Louis! — a voz do rei trovejou, isso acontecia em raras ocasiões. — Que loucura é essa? Abaixe essa arma imediatamente!

- Não, meu rei. — Louis recuou um passo, mantendo a adaga firme, seu pai não era seu pai agora, era o rei. — Eu tentei conversar. Tentei argumentar. O senhor não ouviu. Agora, ouve.

- Você está desonrando esta família! Desonrando a coroa!

- Estou salvando minha alma. — Louis olhou para a plebéia a seu lado, e seus olhos se encheram de amor. — Prefiro morrer a viver uma mentira.

A rainha consorte segurou o braço do rei impedindo-o, já havia perdido um filho, não iria perder o outro. O caos aumentou. Alguns nobres cochichavam, outros tiravam fotos, outros apenas observavam em choque.

E Louise?

Louise Valliere endireitou os ombros.

Foi um movimento quase imperceptível, mas que veio de algum lugar profundo dentro dela. Do treinamento de uma vida inteira. Da certeza de que, acontecesse o que acontecesse, ela não se curvaria.

Com passos treinados, atravessou o salão.

As pessoas se afastavam, como se ela irradiasse uma dor que ninguém queria tocar. Os espelhos refletiam sua imagem múltiplas vezes, uma mulher de vestido azul-noite, postura ereta, expressão serena, caminhando em direção ao trono. O silêncio se instalou.

Ela passou por Louis sem olhá-lo.

Passou por Eloá sem julgamento.

Parou diante do rei e da rainha e fez uma reverência perfeita a mesma que ensaiara centenas de vezes.

- Majestades — sua voz saiu clara, sem tremor, embora por dentro ela estivesse se despedaçando. — Compreendo e aceito a decisão do príncipe Louis. Agradeço pela honra que me foi conferida até aqui, e peço que não se culpem. O coração não se governa.

O rei a olhava nos olhos, a raiva dando lugar a uma profunda vergonha.

- Louise, minha querida...

- Estou bem, majestade. — Ela ergueu os olhos para encontrá-lo. — Fique com seu filho. Ele precisa de você agora.

Virou-se para a rainha, que estendia a mão trêmula.

- A senhora foi como uma mãe para mim. Nada mudará isso. Mas temo que não esse não seja nosso destino.

A rainha soluçou, incapaz de falar.

Louise então se voltou para Louis.

Foi a primeira vez que o olhou desde que entrara no salão. Seus olhos verdes encontraram os azuis dele por um longo segundo. Ela viu raiva em seu olhar. E desprezo. Viu também... cansaço. E alívio. Como se ele tivesse finalmente se libertado de um peso. Ele era mais corajoso que ela.

- Seja feliz, alteza — disse ela fazendo uma reverência, com uma dignidade que faria qualquer um duvidar de que seu coração estivesse sangrando com a humilhação. — Espero que toda essa confusão valha a pena.

Louis abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. O que poderia dizer? Que sentia muito? Não sentia. Que ela merecia mais? Sabia que sim, mas não era ele quem daria.

Louise fez uma reverência final para a corte e para todos aqueles que testemunhavam sua humilhação e caminhou em direção à saída.

Antes de sair viu o príncipe de Cristal. Desta vez, seus olhos se encontraram por um instante. Ela viu algo que não ousou nomear admiração? respeito? Pena? Ela desviou o olhar. Sentia-se muito envergonhada, mesmo assim ela fez a reverência a ele.

Então saiu do salão, deixando para trás o noivado, a humilhação, a vida que planejara.

O silêncio permaneceu por longos segundos após a porta se fechar atrás dela.

Louis ainda segurava a adaga, mas sua mão tremia. Eloá apertava sua outra mão, oferecendo apoio silencioso.

O rei finalmente falou, a voz rouca:

- Louis, largue essa arma. Agora. — Louis obedeceu.

A adaga caiu no chão com um tilintar metálico que ecoou no salão silencioso.

- Está satisfeito? — O rei perguntou, amargo. — Conseguiu o que queria. Humilhou a moça, humilhou esta família, humilhou a coroa. Está feliz?

Louis ergueu o queixo, mas seus olhos não encontravam os do pai.

- Não queria humilhar ninguém. Queria apenas...

- Apenas o quê? Ser feliz? — o rei riu, sem humor. — E acha que Louise não merecia ser feliz também? Que ela não tinha sonhos? Que não tinha desejos?

Louis permaneceu em silêncio. Pela primeira vez, parecia ter desapontado seu pai. Ele vira a expressão de Louise ao sair, não raiva, não lágrimas, apenas uma dignidade tão imensa que doía olhar. As decisões estavam tomadas.

- Levem-os para uma sala privada — ordenou o rei, referindo-se a Louis e Eloá — Vamos resolver isso longe dos olhos da corte. E que ninguém saia daqui falando sobre o que viu. Isso é assunto de Estado.

Os guardas conduziram o casal para fora. A corte começou a sussurrar, mas o rei ergueu a mão, impondo silêncio.

- O encontro de hoje está encerrado. As negociações com Cristal continuarão amanhã. Retirem-se. — o rei foi categórico.

Enquanto os nobres se dispersavam, o príncipe Liam Cristal trocou um olhar com seu chefe de gabinete. Ele atravessava o Salão dos Espelhos no momento em que Louise Valliere saía. Seu chefe de gabinete, Cedric, tagarelava sobre os acordos comerciais que precisavam ser assinados, mas o príncipe não ouvia nada.

Ele a viu.

Uma jovem de vestido azul-noite, cabelos castanhos presos em um coque elegante, postura ereta mesmo carregando o peso de algo que ele não compreendia. Seus olhos, verdes, percebeu ao se aproximarem, estavam secos, mas havia neles uma tempestade contida. Ela passou por ele como uma visão, deixando um rastro de perfume suave e dignidade inabalável.

Liam parou, virando-se para acompanhá-la com o olhar.

- Quem é aquela?

Cedric seguiu seu olhar e franziu a testa.

- Alteza, aquela é Louise Valliere, filha do Ministro da Estratégia. A princesa que ascenderia ao trono como futura rainha de Ametista, caso o casamento com o príncipe Louis se concretizasse. Mas, pelo que testemunhamos há pouco, parece que o casamento não se concretizará.

- O que aconteceu? — Liam perguntou.

- O príncipe Louis entrou com uma plebéia e ameaçou suicídio caso o obrigassem a casar-se. A senhorita Valliere acabou de se retirar após desfazer o noivado graciosamente.

Liam sentiu algo se apertar em seu peito. Ele a vira sair, não como uma derrotada, mas como uma rainha que escolhe seu próprio caminho.

- Que mulher notável — murmurou, quase para si.

- Alteza, temos compromissos. Alguns ministros nos espera. — Cedric balançou a agenda em sua frente.

Liam forçou-se a seguir, mas a imagem da jovem de olhos tempestuosos não o abandonou. Durante as negociações, durante o jantar, durante toda a tarde, ele pensou nela. Na forma como caminhava. Na dignidade ferida que escondia atrás da postura impecável. Será se alguém realmente a via?

Ao final do dia, quando a comitiva de Cristal partiu de volta para o norte, Liam olhou pela janela do carro oficial, vendo as torres de Ametista sumirem no horizonte.

- Cedric, descubra tudo o que puder sobre Louise Valliere.

- Alteza, isso é...

- Apenas descubra.

O que Liam não sabia era que o rei de Ametista também o observava. E, onde um jovem príncipe via uma mulher fascinante, um monarca via uma oportunidade política perfeita.

Na noite seguinte o rei finalmente foi ver o filho. Louis e Eloá estavam em uma sala, longe dos olhares curiosos. Minutos depois, o rei entrou, sozinho. Seu rosto estava cansado, mas sua postura ainda era de autoridade.

Havia despachado a comitiva de Cristal a pouco, agora era hora de lidar com seu filho.

- Sente-se — ordenou, indicando duas cadeiras.

Eles obedeceram.

- Louis, você conseguiu o que queria. O casamento com Louise Valliere está desfeito. — o rei sentou-se diante deles. — Mas isso não significa que você está livre de responsabilidades.

- Eu sei, meu pai.

- Sabe mesmo? — o ei inclinou-se. — Você causou um escândalo internacional. Diante da comitiva de Cristal. Diante de toda a corte. A honra desta família foi manchada.

- Assumo as consequências.

- Que consequências? — o riu, amargo. — Você acha que vai simplesmente casar com sua plebeia e viver feliz? O povo vai chamá-la de usurpadora. A nobreza vai isolá-la. Sua vida será um inferno, Louis. E a dela também.

- Você pode intervir! — Louis o desafiou.

- Não farei. Você vai viver de acordo com as consequências de seus atos. — o rei decretou.

Eloá empalideceu, mas manteve a compostura.

- Estou disposta a enfrentar o que for preciso, majestade. Amo seu filho.

- Amor. — o rei suspirou, essa geração mais nova. — Jovem, amor não enche estômago vazio. Amor não cala fofocas. Amor não sustenta um reino.

- Mas sustenta uma alma — ela respondeu, simples.

O rei a observou por um longo momento. Havia algo nela, uma força quieta, uma determinação que ele não pudera deixar de notar.

- Você vai começar o treinamento para princesa! — ordenou, levantando-se. — Vou pensar no que fazer com vocês. E Louis... Você será designado ao quartel na próxima semana. O casamento fica para daqui um ano, até a poeira baixar.

Sem deixar vez para questionamentos.

- Sim majestade! — os dois concordaram.

[No dia anterior]

O carro parou diante da mansão da família Valliere em silêncio. Louise desceu com a ajuda do motorista, seus movimentos eram automáticos, sua expressão vazia.

O ministro Marcus e Amanda desceram atrás dela, o rosto do ministro mais sério que o normal, o da mãe banhado em lágrimas que ela tentava disfarçar.

- Louise... — a mãe começou.

- Por favor, mãe. Agora não! — Louise ergueu a mão. — Preciso de um momento.

Subiu as escadas para seu quarto sem olhar para trás. Margo a seguiu, hesitante.

- Senhorita, quer que eu prepare...

- Não, Margo. Pode se retirar. Preciso ficar sozinha.

A porta se fechou.

Louise sentou-se na cama, a postura ainda ereta, as mãos sobre o colo. Olhou para o nada por um longo tempo. O vestido azul-noite, com suas estrelas bordadas, parecia agora uma fantasia ridícula.

Ela não chorou.

Vallieres não choram.

Mas algo dentro dela se quebrou. Uma confiança que levara anos para construir. Uma certeza de que, se fizesse tudo certo, se seguisse todas as regras, se fosse perfeita, as coisas dariam certo.

Não deram.

Ela pensou nas palavras de Louis: "você pode até conseguir o que quer: o trono, o título, a coroa, mas nunca terá meu respeito, eu sequer gosto de você". Agora entendia. Ele nunca a vira como pessoa. Apenas como um obstáculo. Uma ambiciosa. Uma aproveitadora.

- Por que ele pensa assim de mim? — murmurou para si mesma. — O que eu fiz para merecer esse desprezo?

Não havia resposta.

Horas se passaram. O sol se pôs. A noite caiu. Louise continuava sentada na mesma posição, imóvel, os olhos secos e vazios.

Foi então que ouviu vozes vindas do andar de baixo. Seus pais. Eles deviam pensar que ela dormia, pois não faziam esforço para falar baixo.

- Foi minha culpa — a voz de sua mãe, arrasada. — Minha culpa.

- Não diga isso. — O pai, tentando consolar.

- Digo, sim. Eu sabia. Sabia que Louis não a queria. Sabia que ele a evitava. Sabia e mesmo assim... Ele disse que não gostava dela, mesmo assim não a impedi. Disse a ela que dever era mais importante que amor. Que felicidade era luxo. — A voz da mãe se rompeu em um soluço. — Minha filha. Minha pequena Louise. Eu a coloquei nessa situação.

Louise prendeu a respiração.

- Nós a colocamos, Amanda — o pai corrigiu, sua voz pesada de culpa. — Aceitamos o acordo. Treinamos ela para isso. Acreditamos que estávamos fazendo o melhor.

- Mas não era o melhor. — a sua mãe chorava abertamente agora. — Ela nunca foi feliz, você sabe disso. Nunca. Desde criança, só treinava, só estudava, só se preparava. E eu deixei. Deixei porque pensei que era o caminho certo.

- Era o que sabíamos fazer.

- Não é desculpa, Marcus! — mãe elevou a voz, algo que raramente fazia. — Nós a ensinamos a sufocar todos os sentimentos. A esconder todas as dores. A ser perfeita para os outros. E agora? Agora ela está lá em cima, sozinha, com o coração partido, e nem consegue chorar. Porque nós a ensinamos que chorar é fraqueza.

O silêncio se estendeu por um momento.

- Eu trocaria tudo — a mãe continuou, mais baixo agora. — Títulos, posição, tudo. Para vê-la sorrir de verdade. Para vê-la apaixonada. Para vê-la feliz.

- Eu também — o pai admitiu, a voz rouca. — Mas não podemos voltar atrás. Só podemos estar com ela agora.

- Estar com ela? — a mãe riu, sem humor. — Ela não vai deixar. Ela vai sorrir amanhã e dizer que está bem. E vai continuar sendo perfeita. Porque foi o que ensinamos. A culpa é sua mesmo Marcus, ela puxou esse seu senso de responsabilidade!

- Você quer protestar?! — Marcus perdeu um pouco da seriedade, para acalmar a esposa.

- Eu bem que queria mesmo! Quebrar aquele palácio inteiro.

Louise ouviu passos subindo as escadas. Depois, o silêncio.

Ela continuou sentada na cama, imóvel.

As palavras da mãe ecoavam em sua mente: "nem consegue chorar. Porque nós a ensinamos que chorar é fraqueza."

E era verdade.

Ela queria chorar. Queria gritar. Queria quebrar alguma coisa. Mas seu corpo não obedecia. Seus olhos permaneciam secos. Sua postura, ereta. Sua expressão, serena.

Perfeita. Sempre perfeita.

Naquela noite, Louise Valliere não dormiu. Ficou sentada na cama, olhando para a janela, vendo as estrelas surgirem e desaparecerem no céu. E pela primeira vez em sua vida, questionou-se se a perfeição valia o preço que pagava.

Louis estava em seus aposentos, Eloá ao seu lado. Pela primeira vez em meses, ele se sentia livre.

- Conseguimos — murmurou, segurando as mãos dela. — Estamos livres.

Eloá sorriu, mas seus olhos estavam perturbados.

- Louis... Teremos que lidar com a Louise no futuro?

- Sim. — sua expressão escureceu ligeiramente. — Ela é uma nobre da família do ministro... Ocasionalmente teremos que nós encontrar.

- Ela não...

- Isso não é mais problema nosso.

- Mas... — Eloá hesitou. — Louis, não fomos injustos, certo?

Louis ficou em silêncio por um momento. A imagem de Louise saindo do salão, a cabeça erguida, a postura impecável, assombrava-o.

- Não sei — admitiu. — Talvez eu tenha sido injusto.

- Talvez.

- Mas não importa agora. — ele apertou suas mãos, inclinando o rosto para próximo ao dela. — Conseguimos. Estamos juntos. É o que importa.

Eloá acenou, mas algo em seu olhar dizia que ela não tinha tanta certeza. Louis a beijou e todos seus pensamentos foram esquecidos.

Lá fora, a lua brilhava sobre Ametista.

E na mansão silenciosa do ministro, Louise em seu vestido azul-noite esperava o amanhecer sem conseguir dormir.