Herança de Sangue
5 Uma nova tempestade
Notas iniciais
Janine correu para o único hotel da cidade. O Hotel da Dona Sônia. Na verdade o hotel estava mais para uma pousada, ou albergue. Era pequeno, mas aconchegante. O hotel ficava à beira da rodovia de acesso à cidade.
A cidade só tinha uma estrada que a ligava à rodovia federal, e consequentemente a capital. Sendo assim, só passava pela cidade quem realmente tinha que resolver algo ali. Não era uma cidade de passagem. Janine entrou correndo. Lá fora os primeiros pingos de chuva começavam a cair.
– Oi Dona Sônia. Tudo bem com a senhora? Preciso de um quarto para passar a noite. Amanhã vou efetivar a venda da casa, e partirei de vez da cidade!
– Nossa, minha linda. Tenho uma má notícia, não há nenhum quarto disponível. Uns técnicos da empresa de energia estão na cidade, para realizar a manutenção na rede. Ocuparam todos os quartos. Até os colchões extras eles estão usando.
– Ai meu Deus, e agora? O que vou fazer? Está começando a chover! — Lá fora um estrondo baixo de trovão já ecoava. Uma tempestade estava chegando.
– Sinto muito, minha filha. Gosto muito de você, mas infelizmente não há nenhum lugar onde possa hospedá-la aqui. Porque não fica na casa de seu pai?
– Não! Não! Sem chance! Não quero passar outra noite naquela casa! Já sofri demais ali.
– É só por uma noite, nada de mal pode lhe acontecer! A não ser que me diga que tem medo de fantasmas ou assombrações!
– Claro que não, dona Sônia! Se Deus não existe, quem dirá assombrações!
– Olha, minha filha! Cuidado com a boca, Não diga uma heresia dessas assim! Deus castiga!
– Tá bom, dona Sônia! Acho que é melhor eu ir pra casa mesmo. Lá pelo menos ninguém vai ficar me pressionando pra respeitar um Deus que sequer existe.
Janine falou isso no calor da discussão, mas a verdade é que ela tinha muito medo de voltar àquela casa, ainda mais para passar a noite. Não que ela tivesse medo de fantasmas. Mas não se sentia bem naquele lugar.
Lá fora o tempo fechava ainda mais. E o início da noite ficou ainda mais escuro com tantas nuvens carregadas. A chuva começava a engrossar, e Janine sabia que não seria capaz de ir embora nessas condições. Pensou em dormir na casa de uma de suas tias. Eliete morava ao lado da casa de seu pai, e Mariana, duas ruas abaixo.
Sua tia preferida era Eliete, porém Mariana era viúva, e morava sozinha. Seria mais fácil conseguir se hospedar na casa dela. Partiu pra lá. Os pingos de chuva aumentavam. Teve que mudar a velocidade do limpador de para-brisas de sua Pajero. Sempre quis um carro como aquele. Depois que conseguiu vender as propriedades herdadas do pai, pôde, enfim, comprar.
Ao chegar à casa de Mariana, encontrou todas as luzes apagadas. Buzinou algumas vezes. Nenhuma resposta. Talvez ela estivesse na casa de Eliete. Porém, lembrou-se que ela não estava em casa mais cedo, quando fora mostrar a casa aos compradores. Não custava nada tentar. Partiu para a casa de Eliete. O clarão de um raio iluminou a rua toda. Janine chegou a fechar os olhos.
Chegou em frente à casa de Eliete, parou o carro. Desceu e correu para a porta da casa. Estava tudo escuro. Ainda chegou a tocar a campainha e bater na porta. Nenhuma resposta do lado de dentro. Teria que dormir na casa de seu pai. Mas não entraria sozinha naquela casa, à noite. Teve a ideia de chamar Margarida para lhe fazer companhia. Assim, as duas poderiam colocar os assuntos em dia. Apesar da diferença de idade, as duas cresceram juntas.
Correu para a casa rosa de Dona Carmem. A luz da sala estava acesa. Menos mal, pelo menos ali havia alguém! Buzinou. Não queria descer do carro. A chuva estava ainda mais forte. E os trovões cada vez mais próximos. Margarida apareceu na janela.
– Margarida! Que bom que está em casa! Tenho um convite a lhe fazer! Vamos passar a noite comigo lá em casa? Preciso de companhia.
– Sério, Janine? Tenho medo daquela casa.
– Eu também tenho. Uma faz companhia pra outra. A gente dorme no meu quarto. Bom pra gente aproveitar, e colocar as fofocas em dia!
– OK, ok! Vou falar com minha mãe. Espere aí!
– Como se eu houvesse outro lugar para ir!
Poucos minutos depois, Margarida saiu correndo pela porta, rumo ao carro. Estava de camisola, e segurava um guarda-chuva preto. Bateu no vidro da porta do passageiro. Janine destrancou a porta. Ela entrou, e as duas foram para a famosa casa número Treze.
Janine parou o carro, e hesitou por alguns segundos em descer. Enquanto isso, Margarida já atravessava o jardim da frente correndo. O Vento forte virou seu guarda-chuva ao avesso. Janine desceu e correu. Abriu a porta, com pressa. A chuva aumentava.
A porta rangeu. O clarão de um raio iluminou toda a sala. Janine tateou a parede procurando o interruptor. Finalmente conseguiu acioná-lo. A luz piscou e finalmente iluminou a sala. Era estranho estar ali. Tantas lembranças boas de infância se misturando às lembranças ruins da vida adulta.
***
Seu Silva não era mal. Pelo menos não totalmente mal. Janine havia presenciado inúmeras demonstrações de carinho dele. Uma vez correndo no quintal, ela caiu. O Joelho começou a sangrar no mesmo instante. Lá de fora ela escutou o grito dele! Porém, ao sair e vê-la sangrando e chorando. Ele mudou sua expressão de raiva. Pegou-a no colo, levou-a ao banheiro, lavou o machucado, tomando todo cuidado para não fazer doer. Deu-lhe um beijo na testa. E sorriu. Dizia que ela tinha os olhos da mãe.
Marcos tinha coração! Só que a perda de sua amada lhe deixou amargurado e desiludido. O problema é que nem as irmãs conheciam esse lado amoroso e atencioso de Seu Silva.
Mariana era a mais velha dos três irmãos. Perdeu o marido quando Janine estava com 15 anos. Não chegou a ter filhos. Dedicou boa parte de sua vida a cuidar de Janine. Ela era enfermeira, estava se aposentando. Era a vaga dela que Kelly havia assumido.
Eliete era casada. Tinha um filho, Mateus. Seu marido, Jaime, havia fugido com uma amante, quando Mateus nasceu. Nunca mais foi visto. Eliete era a caçula, e Mateus havia completado dezoito anos em junho. Estava fazendo faculdade de medicina na capital, mas sempre que podia vinha passar um tempo com a mãe. Dezembro que era mês de férias, com certeza estaria na cidade. Eliete trabalhava no cartório de registros da cidade. Ela era responsável pelo registro de todas as crianças nascidas em Sonhos. Não que fossem muitas.
Quase sempre Janine se encontrava com Mateus, na capital. Saiam para lanchar juntos e conversar. Apesar de ser dez anos mais novo, ele era muito inteligente, e Janine gostava de passar horas conversando. Parecia que tinham um estoque de assuntos infinito.
***
Margarida precisou ir ao banheiro. Usou o debaixo mesmo, próximo à cozinha, que estava mais perto.
– Janine!!! – Gritou Margarida.
O grito assustou Janine de tal forma que ela quase caiu da poltrona, em que estava sentada. Correu para o banheiro assustada! Bateu na porta já sem fôlego!
– Margarida! Você está bem? O que aconteceu? Fala comigo!
– Não tem papel, Janine! E agora?
– Ah, sua vaca! Quer me matar do coração? Achei que tinha lhe acontecido algo!
– E aconteceu! Estou sem papel! Como vou sair do banheiro, agora?
As duas riram bastante da situação. Janine pegou um pedaço que sempre carregava na bolsa, e entregou à Margarida. O coração de Janine ainda estava acelerado.
As duas subiram juntas as escadas. A cada degrau subido era possível escutar o rangido da madeira. A lâmpada sobre a escada estava queimada. A cada relâmpago o corredor se iluminava, com as sombras das árvores criando assombrosas silhuetas. Por um momento Janine teve a sensação de ter ouvido o rangido da porta do quarto de seu pai. Devia ser coisa de sua cabeça.
A porta de seu quarto ficava de frente para a do quarto de Seu Silva. As duas estavam fechadas. Abriu a porta de seu quarto. As duas entraram. Margarida acendeu a luz. Logo atrás Janine fechou a porta, e trancou a fechadura.
– Por que isso, Janine? Está com medo de alguém entrar no quarto?
– Melhor prevenir do que remediar, né amiga?
Lá fora o temporal aumentou. Parecia aquelas tempestades de filme de terror. Um trovão atrás do outro. E em cada um, um novo arrepio tomava o corpo de Janine. Ela não fazia ideia do que a esperava naquela noite!
***
Eliete estava muito feliz, iria rever a sobrinha depois de tanto tempo. Mateus havia chegado dois dias antes, no dia seis. Hoje era a vez de Janine. Seria bom revê-la, ainda mais na véspera do aniversário de vinte e oito anos de sua amada sobrinha.
Hoje estava decidida! Não iria abrir o cartório. Iria até o mercado do Seu Jânio, para comprar os ingredientes para cozinhar um lindo bolo de aniversário para Janine. Mateus ainda estava para a fazenda! Deveria voltar só no fim da semana. Estaria tranquila pra se dedicar inteiramente ao bolo.
– Bom dia, seu Jânio!
– Bom dia, dona Eliete. Como a senhora está? Parece estar feliz, hoje!
– Estou sim, seu Jânio! Hoje Janine vem à cidade, para resolver uns assuntos pessoais. E amanhã é seu aniversário! Quero lhe fazer uma surpresa!
– Janine? A filha do diabo?
– Olha o respeito, seu Jânio! Não fale assim de meu irmão! Ainda mais sabendo que ele não está mais aqui para se defender.
– Ah, Dona Eliete, não me venha com falso sentimentalismo agora! Todos nós da cidade sabemos o quanto ele fez mal para a senhora e sua irmã! Falando nela, como ela está? Não a vejo, há dias!
– Crie vergonha, seu Jânio! Respeite sua esposa! E respeite minha irmã! Eu a vi ontem! Ela está bem, obrigada por perguntar! Agora me deixe pegar as coisas que preciso.
Jânio, o dono do mercado era apaixonado por Mariana, desde a época da escola. Porém, Mariana se casou ainda jovem, e Jânio acabou se casando com Rita, inimiga de escola das irmãs Mariana e Eliete. Coisas de escola, falavam elas. Hoje se davam muito bem.
Já era quase onze da manhã quando Eliete chegou em casa. Estava com duas sacolas de compras nas mãos. Havia comprado tudo que iria precisar para fazer o bolo de aniversário de Janine. A porta estava destrancada. Eliete nem deu atenção a isso! Devia ter saído tão empolgada que se esquecera de trancá-la.
Entrou e correu para a cozinha. Estava orgulhosa de si mesma. Meio dia e dez e o bolo já estava pronto. Só faltava decorar. Escutou o barulho do carro de Janine parar na porta. Finalmente havia chegado! Nem tirou o avental. Queria ver sua sobrinha! Correu rumo a porta da sala, para sair e vê-la. Estava tão empolgada que nem viu o que lhe derrubou. Caiu no chão com um solavanco semelhante ao que acomete um atirador de primeira viagem que não está acostumado com a arma que está manuseando, e atira sem se dar conta da força da mesma.
Tudo começou a rodar! Seu estômago doía! A pancada havia acertado o seu tórax. Parecia que havia levado uma bolada no peito. Não conseguia respirar direito. A visão estava embaçada. Revirava-se no chão buscando forças pra levantar. Tentou gritar. Não havia fôlego para isso. Quando virou a cabeça para o lado pôde ver a silhueta de alguém vindo em sua direção.
Parecia que havia ido até a porta conferir algo. E agora vinha em sua direção. A pessoa estava toda de preto. E a claridade vinda das janelas aumentava o contraste, não era possível ver o rosto! A pessoa estava com algo nas mãos. Parecia uma pá! Deve ter sido com aquilo que lhe acertou a barriga, pensou ela.
O sujeito misterioso estava cada vez mais próximo. Eliete tentou gritar. Não conseguiu! Só viu o sujeito empunhando a ferramenta que segurava nas mãos. Conseguiu finalmente ver o rosto de seu eminente assassino. O terror e medo ficaram evidentes em seu rosto!
– Vo... vo... Você? Co... como? – Sussurrou Eliete.
Depois disso só pôde ver a pá descendo em direção ao seu rosto! A pancada foi tão forte que era possível ouvir o estalido metálico, da pá quebrando os ossos da face de Eliete. O Sangue jorrou na hora por seu nariz e boca. Um dente caiu no tapete, arrancado com a força da pancada. O rosto pendeu para o lado, mostrando a mandíbula deslocada. Eliete estava morta.
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