Herança de Sangue
6 Chuva de Sangue
Notas iniciais
Janine estava dividindo com Margarida, a enorme cama de casal que já foi sua por muitos anos. Lá fora a chuva não dava trégua. A televisão ainda funcionava, porém não era possível sintonizar canal algum. Por fim desistiram de assistir e a desligaram. Na mesma hora a luz piscou duas vezes. Na terceira vez, apagou e não voltou mais. Janine não conseguiu segurar o grito.
A chuva não era a única coisa que deixava Janine com medo. O escuro também era apavorante para ela. E a combinação dos dois só piorava a situação. Fechou os olhos e começou a ficar com a respiração ofegante. Margarida tentava acalmar a amiga.
– Calma Janine! Estou aqui com você. Nada vai te acontecer.
– Eu sei, amiga! Não consigo entender esse meu medo irracional. Já fui a psicólogos, psiquiatras... Não consegui curar isso até hoje!
– Relaxa! Daqui a pouco a energia volta. Vou descer e buscar algumas velas. Espere aqui!
– Eu vou com você! Não existe a menor possibilidade de eu ficar sozinha aqui!
– Deixe de ser medrosa, mulher! Nem parece que já está fazendo vinte e oito anos!
– Nossa, é mesmo! Tinha me esquecido completamente que era meu aniversário!
– Está de brincadeira, né? Não é possível que alguém esqueça o próprio aniversário!
– Sério! Tenho corrido tanto nesses dias que perdi a noção de tempo, me esqueci completamente!
Margarida e Janine destrancaram a porta do quarto e desceram vagarosamente as escadas. Janine tentava usar o celular para iluminar os degraus. A escada fica de frente para as grandes janelas da sala. Foi possível ver as luzes do farol de um carro iluminar a porta. Quase de frente para elas. O Carro entrou na garagem da casa ao lado.
– Deve ser Mateus! Vamos lá! Quero falar com ele!
– Sério, Janine? Sair na chuva? Deixa pra amanhã! Ele deve estar cansado!
– Tia Eliete deve estar com ele! Deve ter comida na casa deles!
– Ok, me convenceu. Você me tirou de casa antes de eu poder jantar. Meu estômago está roncando.
As duas correram para a porta, cruzando a sala. Margarida estava na frente, não viu a mesinha de centro, obviamente por causa da falta de luz. Sua canela bateu diretamente no canto do móvel. Seu grito foi instantâneo. Janine ao ver Margarida mancando, desviou e chegou à porta, primeiro.
Quase caiu para trás quando abriu a porta. O vento forte vindo de fora fez uivava e deixava o cabelo de Janine todo bagunçado. O temporal estava forte! As árvores pareciam dançar, e a chuva chegava a machucar a pele de tão forte. Era possível ver o clarão na casa da frente, provavelmente ele tinha um gerador, ou uma lanterna forte.
“Aquele velho maluco ainda está acordado!”, pensou Janine. Mateus estava ainda dentro do carro, parecia sem coragem para enfrentar a chuva. Janine já estava no canto do alpendre, gritando-o com toda sua força, ensopada por causa do vento que fazia parecer que estava chovendo por todo lado.
Mateus finalmente decidiu abrir a porta e descer. Desceu sozinho. Janine estranhou. Esperou até que ele chegasse ao alpendre para perguntar. A chuva era tanta que tinham que conversar quase aos berros.
– Cadê tia Eliete, Mateus?
– Uai, não está em casa? Eu cheguei anteontem e fui para a fazenda. Estou voltando agora.
– Não vi ninguém em casa o dia todo. Cheguei mais cedo, tinha que mostrar a casa para os novos compradores.
– Será que está no cartório até agora? Vou entrar e ver se ela deixou algum bilhete. Oi Margarida! Tudo bem contigo?
– O-o-oi, Mateus. Estou aqui fazendo companhia para essa medrosa. E você? O que conta de novo?
– Bem cheguei de férias dia seis. Devo ficar até o fim de Janeiro por aqui.
– Que legal, vamos marcar de fazer algo, depois!
– Vamos sim!
Margarida era apaixonada por Mateus. Sempre achou lindo aquele rapaz loiro e branco que morava na sua rua. Ele, porém, nunca deu-lhe atenção. Ela chegou a achar que ele fosse gay, pois nunca a notava, mesmo se ela se produzisse toda. Talvez acreditar que ele tivesse outra preferência a fizesse se sentir melhor, e ajudava a negar a rejeição.
Mateus já estava todo molhado. Desceu do parapeito do alpendre da casa de Janine e foi rumo a sua casa. Tentou abrir a porta. Estava trancada. Bateu as mãos nos bolsos procurando pela chave. Lembrou-se que estavam no carro. Correu para buscá-las. Molhou-se ainda mais. Parecia que tinha entrado numa ducha. Janine e Margarida estavam no alpendre esperando que ele desse notícias sobre o paradeiro de Eliete.
Mateus destrancou a porta e entrou. A porta ficou aberta. Ele começou a demorar lá dentro. Janine decidiu conferir o que estava acontecendo. Enquanto isso Margarida estava tentando acalmá-la dizendo que ele devia ter ido tomar um banho ou mesmo acabou dormindo.
– Dormindo? Molhado daquele jeito? É ruim hein! Eu falei pra ele que estávamos com fome. Por isso ainda estou esperando aqui. Ele ficou de olhar se tia Eliete havia feito algo para comer.
– Então vamos esperar. Ele deve estar montando um prato pra gente! Meu estômago está roncando.
A chuva forte, e o vento, abafaram os gritos de Mateus. As duas continuavam sentadas na velha cadeira de balanço do alpendre, esperando o retorno do jovem. De repente ele sai gritando. Com as mãos sujas de sangue! Janine quase caiu da cadeira com o susto! As duas correram em direção a Mateus!
Apesar de estar completamente molhado pela chuva, era possível perceber que ele estava chorando! Suas mãos estavam ensanguentadas! Seu choro conseguia ser ouvido, mesmo com o barulho do temporal. Janine abraçou-o, sem sequer saber o que acontecera. Margarida permaneceu estática. Os três estavam parados na porta da casa de Eliete, na chuva. O sangue nas mãos de Mateus escorria misturado com água e lágrimas. A calçada, próximo a eles, estava tomando uma coloração vermelha.
– Janine, minha mãe está morta!
– O que? Como assim? O que aconteceu?
– Venha ver! Não sei o que aconteceu!
Os dois entraram correndo na casa. Margarida entrou atrás. A casa de Eliete só tinha um andar, o quarto dela ficava no fim do corredor. Mateus entrou puxando Janine pelo braço! A casa estava muito escura. A energia ainda não havia voltado. Mateus puxou o celular do bolso, e o usou para iluminar o quarto. Janine ficou paralisada!
Eliete estava deitada na cama, com os braços e pernas abertos. Vestida apenas com uma calça jeans. Havia um corte em sua barriga, de mais ou menos quinze centímetros. Pelo jeito que Mateus balançou a lanterna foi possível perceber que o corte havia sido feito para retirar os órgãos internos. Ele chorava desesperadamente. Janine perdeu o controle sobre as suas pernas. Teria caído ao chão se Margarida não tivesse chegado naquele momento e a segurado por trás.
Mateus ligou para a polícia, era a única coisa que podia fazer naquele momento. Os três foram para a sala. Em menos de cinco minutos foi possível ouvir o barulho das sirenes. As três únicas viaturas da Cidade estavam paradas na porta da casa de Eliete. O Delegado Celso chegou atrás na única viatura da polícia civil da cidade. A energia voltou assim que ele desceu do carro.
Os policiais começaram a fotografar o quarto e a casa. O carro do Instituto Médico Legal da capital estava vindo para retirar o corpo. Aquela cena aterrorizante permaneceria por mais algumas horas. Mateus estava abatido sentado no sofá da sala, ao seu lado Margarida tentava consolá-lo. Janine se levantou e foi buscar um copo d’água para ele na cozinha. Ao entrar, viu o bolo sobre a bancada, e os ingredientes ainda na mesa. Percebeu que sua tia estava lhe preparando um bolo de aniversário, antes de ter sido morta. Começou a chorar. As lágrimas escorriam pelo rosto. Pegou um copo no armário e encheu com água. Antes de voltar limpou o rosto, precisava ser forte para dar apoio ao Mateus.
Quando voltou à sala Celso já estava fazendo perguntas a Mateus:
– Onde o senhor estava hoje ao longo do dia?
– Estava na fazenda, seu Celso. Cheguei dia 06, deixei minhas coisas aqui e fui para a fazenda. Havia muitas coisas a fazer por lá. Minha mãe estava há dois meses sem ir lá. Precisava conferir tudo, e ver como estavam os animais e funcionários.
– Que horas saiu de lá, hoje?
– Saí era umas seis horas. Antes da chuva começar. A fazenda fica a quase trinta quilômetros daqui. A chuva me pegou no caminho. Vim devagar.
– O senhor tem testemunhas que comprovem que você esteve o dia todo na fazenda?
– Como assim, seu Celso? O Senhor está insinuando que eu matei minha mãe?
– Eu não insinuei nada. Você que acabou de fazer isso. Eu apenas perguntei se haveria alguém pra confirmar que você passou o dia na fazenda.
– Sei, sei! Claro. Todos os funcionários da fazenda podem confirmar que eu estava lá.
– Eu e Margarida o vimos chegar, doutor Celso.
– Janine? – Celso finalmente reconheceu a filha de Seu Silva – Como você está? Não sabia que estava na cidade.
– Cheguei hoje! Vim para mostrar a casa de meus pais a um comprador. Estava planejando ir embora amanhã.
– Interessante! Chegar à cidade bem no dia em que um crime nos mesmos moldes que o do seu pai, aconteceu.
– O que está insinuando, doutor?
– Não estou insinuando nada. Vocês têm que entender que no primeiro momento todos são suspeitos.
– Entendo sim.
O Delegado ainda fez algumas perguntas, como se alguém haveria de querer a morte de Eliete, se ela possuía inimigos... Aquelas perguntas “padrão”, que todo policial faz em momentos assim.
Quase uma hora depois o Veículo do IML chegou. Foi doloroso ver homens colocarem sua mãe em um saco preto. A mulher que o acompanhou em todos os momentos de sua vida, agora se resumia a um peso dentro de um saco.
– Vamos levá-la para o IML. Os investigadores devem terminar o trabalho até a manhã. Recomendo que você durma um pouco. Quando liberarem o corpo para o velório eu te ligarei.
– Vamos lá para casa, Mateus. Você dorme no quarto de hospedes. Eu sei o que está passando. E acho que não te fará bem dormir nesta casa hoje.
– Eu não estou com sono. Não quero dormir. – Mateus ainda chorava. Seu rosto já estava vermelho.
– Mateus, você precisa dormir. Amanhã o dia será longo. Você vai precisar estar descansado.
– Ok. Vamos para lá, então. Vou tentar descansar um pouco.
Os três seguiram para a casa de Janine. Ela e Margarida ficaram no quarto em que já estavam hospedadas. Mateus foi para o quarto de hospedes. Ninguém sequer olhou em direção ao quarto de Seu Silva. Parecia até que tudo estava acontecendo de novo. A noite foi longa para ambos. Elas dormiram rapidamente, afinal o dia havia sido pesado. Ele, ainda demorou a pegar no sono. Não acreditava ainda que sua mãe havia sido morta de uma forma tão brutal.
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