Herança de Cinzas
16 Os Fios do Destino
— Atenas? Tá de zoação? — questiono incrédula, encarando Tobias.
— Estou falando cem por cento sério. — Ele responde, olhando ao redor. — Já estive aqui vezes o suficiente para reconhecer essa paisagem.
Kaique parece enxergar uma possibilidade nisso e pergunta esperançoso:
— Então você deve saber uma forma de voltarmos para o acampamento, não é mesmo?
Tobias hesita por um momento, antes de responder:
— Mais ou menos. O celular de vocês tem sinal? — Ele puxa o próprio aparelho do bolso da calça e verifica a antena. — Pedir um Uber seria a forma mais fácil para chegarmos ao portal mais próximo.
Eu e Kaique trocamos olhares confusos.
— É sério isso?
— É claro que sim. Vamos, chequem os seus celulares.
Ele solta um pequeno suspiro e vira a tela na nossa direção. O vidro está rachado em vários pontos.
— Durante a queda, acabei caindo em cima do meu. Provavelmente vai ser perda total.
Kaique confere o próprio celular e balança a cabeça.
— Sem sinal.
Vasculho minha mochila, retiro o meu aparelho e verifico a tela. O resultado é o mesmo.
— O meu também, sem antena.
Tobias solta outro suspiro, ajustando a mochila no ombro.
— Ok, então vamos ter que ir pela forma mais difícil.
Ele observa o horizonte, analisando o caminho.
— Não sei exatamente onde estamos, então continuaremos descendo a trilha até encontrarmos alguém que possa nos informar como chegar até Plaka.
Ele se volta para nós antes de continuar:
— É um vilarejo que fica na base da Acrópole. De lá, eu consigo nos levar até o portal sozinho.
Kaique assente, ajustando a postura.
— Entendi. Então é bom começarmos a andar. Pelo visto, vai ser uma longa caminhada.
Solto um suspiro resignado e me viro para a trilha, começando a caminhar.
Já estamos caminhando há algum tempo, e o sol se pôs completamente. Isso me preocupa muito, pois o prazo da prova está se esgotando rapidamente. Todo nosso esforço pode acabar sendo em vão.
— Será que ainda vai demorar muito para encontrarmos alguém? — pergunto para Tobias, que caminha um pouco à minha frente. Ele não hesita ao responder.
— Não muito. Acho que aquilo deve ser uma casa.
Meu olhar segue sua mão, que aponta para uma pequena construção a cerca de 500 metros de onde estamos. Preciso me concentrar muito para enxergá-la.
— Tem fumaça subindo pela chaminé, então provavelmente há alguém lá.
Ele se vira levemente para mim.
— Por quê?
Respiro fundo antes de responder.
— Estou preocupada com o tempo para o fim da prova.
Tobias solta um pequeno sorriso, verificando o relógio no pulso.
— Entendi. Mas, levando em consideração a diferença de fuso horário, lá ainda deve ser por volta das duas da tarde.
Minhas sobrancelhas se levantam.
— É verdade. Havia me esquecido desse detalhe.
O silêncio retorna por alguns instantes, mas uma questão começa a me incomodar. Decido não adiar mais.
— Então… Qual é o lance entre vocês dois?
Minha cabeça se inclina levemente na direção de Kaique, que caminha alguns passos à nossa frente. Tobias franze o cenho.
— Como assim?
Reviro os olhos, impaciente.
— Sem essa de se fazer de desentendido. — Meus olhos oscilam entre os dois. — Desde a época em que você ainda morava no acampamento, vocês já se estranhavam. Mas parece que agora essa tensão entre vocês está pior do que nunca.
Ele não responde imediatamente. Apenas solta um suspiro pesado e passa a mão pelos cabelos antes de finalmente falar.
— É complicado…
Ele parece escolher as palavras com cuidado.
— No começo, era só uma birra infantil, sabe? Algo do tipo “eu sou o filho mais forte de Poseidon”. — Ele exala um pequeno riso sem humor antes de continuar. — Mas, com o passar dos anos, isso acabou evoluindo e se transformando em uma grande bola de ressentimento acumulado. No fim das contas, ele me culpa por algo que não é exatamente minha culpa.
Minha expressão se torna mais curiosa.
— E o que seria isso?
Mas então, Tobias corta a conversa abruptamente.
— Algo que não lhe diz respeito.
Minha boca se fecha de imediato, surpresa pela resposta cortante.
— Okay… — Preciso me recompor por um segundo, mas então recupero o tom. — Então, você é inocente nessa tal história que não me diz respeito?
Tobias solta um pequeno riso irônico, mas sua expressão se mantém sombria.
— Não existe ninguém que seja completamente inocente no nosso mundo, Luna.
Ele ajusta a postura antes de continuar.
— Mas posso dizer que também não sou inteiramente culpado como ele julga.
Meu olhar se estreita.
— E por que você nunca tentou conversar com ele para explicar o seu lado dessa história?
Tobias hesita por um momento, refletindo.
— No começo, eu até pensei em fazer isso. — Ele solta um pequeno suspiro. — Mas depois percebi que as coisas seriam bem mais fáceis se continuassem do jeito que estavam.
Ele solta uma risada curta e sem humor.
— Só que, no final, o tiro saiu pela culatra.
Ele passa a mão pelos cabelos antes de continuar.
— Acabei deixando-o nutrir esse rancor por mim durante todos esses anos. E isso tornou as coisas mais complicadas do que eu esperava. — Ele então me encara, sua voz mais firme agora. — Isso é tudo que você vai saber por mim. Se quiser saber mais, vá perguntar pra ele.
Fico surpresa com a capacidade dele de mudar de assunto tão repentinamente.
— Ok, ok, não precisa se trancar no seu mundinho particular de novo.
Minha voz soa mais casual, tentando suavizar a conversa. Ele me lança um olhar nada gentil. Reviro os olhos.
— Não me olhe assim. Você sabe que eu tenho razão.
Ele solta um pequeno suspiro irritado, mas não contesta.
— Acho que aquilo é uma cabana.
Kaique se vira para nós e aponta para uma estrutura à frente. Tobias já havia me mostrado antes.
— Parece que há fumaça subindo pela chaminé.
Tobias assente.
— Sim. Se tudo der certo, acho que conseguiremos chegar ao portal antes do amanhecer.
Ele ajusta a mochila antes de completar:
— Então, chegaremos ao acampamento pouco antes do fim do prazo da prova.
Minha voz sai pensativa.
— As nossas pontuações serão péssimas…
Kaique solta um pequeno sorriso.
— Mas pelo menos iremos voltar sãos e salvos, né?
Meu olhar se ilumina antes de responder.
— Elementar, meu caro Watson. Elementar.
Eles riem da minha referência a Sherlock Holmes, e seguimos o restante da trilha conversando amenidades. Apesar da tensão entre os dois, o clima ainda é agradável. Mas algo na calmaria me preocupa, o presságio de uma tempestade por vir.
— Certo, dado o meu péssimo histórico com as provas desse torneio e o cenário perfeito de filme de terror do tipo Pânico na Floresta, qual dos dois homens corajosos vai até lá pedir informações?
Kaique me olha com um misto de deboche e incredulidade.
— É sério isso?
Cruzo os braços, determinada.
— Seríssimo, eu não entro aí nem fudendo!
Tobias solta uma risada curta, provocativa.
— Achei que fosse mais corajosa, Boneca.
Reviro os olhos, já antecipando o jogo psicológico.
— Isso não vai funcionar comigo. Pode me desafiar à vontade.
Minha atenção se volta para Tobias, esperando sua decisão. Ele dá de ombros, ajeitando a postura.
— Tudo bem, então somos só eu e você.
Se vira para Kaique e solta:
— Mas sabe, a encrenqueira que eu conheci alguns anos atrás não fugia de uma aventura, não é mesmo, Kaique?
Kaique solta uma risada leve.
— É verdade, Tobias. Inclusive, se bem me lembro, ela até se dizia a pessoa mais corajosa do acampamento.
Reviro os olhos de novo, cruzando os braços.
— Pois é, né, mas as pessoas mudam. Já disse que não vou cair nessa. O que os moços estão esperando? Vamos lá, temos uma prova para terminar.
Sem paciência para mais provocações, os empurro levemente na direção da casa. Tobias solta um pequeno riso e dispara:
— Certo, vamos lá. Pelo visto, os filhos de Poseidon realmente são os melhores.
Kaique o acompanha, jogando mais lenha na fogueira.
— Concordo plenamente. Quem diria que a pessoa que grita coragem aos quatro ventos teria medo de uma casa estranha.
Eles continuam se provocando, e, por mais que eu tente ignorar, não consigo segurar a irritação.
— Vão se ferrar vocês dois!
Sem esperar, começo a caminhar em direção à casa, passando entre os dois e esbarrando propositalmente em seus ombros. Eles apenas riem e me acompanham.
Quando chegamos à entrada, Tobias é o primeiro a pisar na varanda. O piso de madeira range sob seu peso, e, apesar da fumaça que vimos subindo pela chaminé, a casa está estranhamente silenciosa. Ele se aproxima da porta e bate suavemente.
— Olá? Tem alguém aí?
Nenhuma resposta. Seu olhar se volta para a maçaneta, e ele testa seu movimento.
— A porta está destrancada.
Kaique observa o local, avaliando a situação.
— Devemos entrar? — pergunto, meio em dúvida sobre invadir uma casa desconhecida.
Tobias mantém a expressão firme.
— Pode ser que tenha alguém lá dentro que não conseguiu escutar.
Kaique solta um pequeno suspiro antes de responder.
— Não me leve a mal, mas o local não é tão grande assim para que quem esteja lá dentro não consiga ouvir alguém aqui fora. Mas não custa nada dar uma olhada para ver se encontramos alguém ou algo que seja útil para voltarmos para casa.
Tobias assente e empurra a porta.
— Vamos lá, então.
A casa por dentro é tão simples quanto por fora. As paredes e o piso também são de madeira. O espaço é amplo e quase vazio. Uma lareira acesa à direita ilumina o ambiente com uma luz fraca e alaranjada. Provavelmente, a fumaça que vimos veio dela. Ao centro há uma mesa rústica, onde repousa um lampião a gás, e ao redor três cadeiras envelhecidas. O restante do cômodo está deserto.
Kaique caminha lentamente pelo espaço, franzindo o cenho.
— Estão ouvindo isso?
Me concentro, ajustando os ouvidos. E então escuto. Algo parecido com murmúrios. Meu peito se contrai instintivamente.
— São…
Não consigo terminar a frase. O som não faz sentido para mim ainda. Kaique ajusta a postura, tentando decifrar.
— Parece vozes.
Tobias observa a sala, seu olhar varrendo cada detalhe.
— Estão vindo dali.
Ele aponta para uma porta no canto direito, antes oculta pela lareira. Agora percebo que a luz lá dentro é mais forte do que na sala. Kaique toma a iniciativa, indo na frente, seguido por Tobias. Eu fico por último.
Mas então, Kaique se assusta com algo que vê e recua abruptamente, esbarrando em Tobias. Tobias, por sua vez, parece paralisado, encarando o espaço à frente com uma rigidez alarmante. Minha respiração acelera.
— O que foi? O que vocês estão vendo?
Tento passar por eles para enxergar, mas sou impedida pelo braço de Tobias, que me segura firmemente. Minha voz se ajusta para uma reclamação, mas então as vozes ficam mais nítidas. E eu finalmente entendo o que estão dizendo.
— Estão… cantando?
Kaique não hesita ao responder.
— É um verso antigo. Temos que sair daqui.
Me concentro nas palavras. Demoro um instante para reconhecer, mas quando acontece… Um arrepio sobe por minha coluna, e meu sangue esfria violentamente.
Num fio de linha
Amarra-se o que é importante
Segure o fio com carinho
Não soltes tão cedo
Então a história vai começar
Solte essa ponta e veja
A lâmina fria vai brilhar
Então a história vai acabar
Minha voz vem quase em um sussurro.
— Moiras… Como… Como elas vieram parar aqui?
Kaique ainda mantém os olhos fixos na porta, seu rosto tenso.
— Não são elas que estão no lugar errado. Somos nós.
Meu coração dispara. Tobias parece absorver completamente a informação. Então, ele solta:
— Eu sei onde estamos.
Kaique e eu prendemos a respiração ao esperar sua explicação. Ele continua, seu tom pesado.
— Santuário de Zeus Polieus. Por um momento, achei a vegetação muito parecida com a da Acrópole, mas não tinha certeza.
Ele troca olhares conosco e conclui:
— Segundo os pergaminhos antigos, a casa das Moiras fica em algum lugar entre o templo de Atenas e o Santuário de Zeus Polieus.
Kaique solta um pequeno suspiro trêmulo.
— Até hoje ninguém tinha conseguido chegar até aqui. Pelo menos, nenhum mortal.
Minhas mãos começam a suar. Meu peito se contrai.
E então, apenas consigo expressar:
— Que grande sorte a nossa, hein?
Minha voz sai firme, mas por dentro, estou apavorada
— Vamos embora daqui enquanto elas não se importam com a nossa presença. No momento em que começarem a se incomodar, não haverá como sair.
Kaique se vira lentamente, sua expressão carregada de urgência.
— Você já consegue nos levar para o portal, não é mesmo?
Tobias assente.
— Sim.
Tecnicamente, as Moiras não são criaturas violentas, mas sua capacidade de prever o destino as torna extremamente perigosas. Elas podem revelar fatos do passado ou previsões do futuro que podem levar alguém à loucura, e quando insultadas, têm o poder de cortar o fio da vida de um indivíduo, encerrando sua existência instantaneamente.
— Certo.
Minha respiração vem mais pesada, mas começo a me virar para sair do local. Então o verso das Moiras cessa repentinamente. E uma voz atravessa o silêncio, nos fazendo parar no mesmo instante.
— Vai embora sem saber a verdade, Leptynis?
Minha mente trava completamente, e um peso se instala no meu estômago. A palavra Leptynis soa familiar de um jeito aterrorizante. Em diversos pesadelos que tive ao longo dos anos, era assim que me chamavam. Quando pesquisei o significado, descobri que era "destruidora". Minha voz sai cortada pelo impacto da revelação.
— Que merda é essa que elas estão falando?
Tobias permanece firme ao meu lado, mas sua voz vem carregada de urgência.
— Não sei, mas não importa. Continue andando.
Ele gesticula na direção da porta. Então, outra voz se manifesta, diferente da primeira. Mais penetrante.
— Até quando vai deixar que eles mintam para você?
Kaique chama meu nome, mas eu não consigo olhar para ele. As palavras das Moiras ainda ecoam nos meus ouvidos, bloqueando todos os outros sons ao redor. Meu peito se contrai com a necessidade de saber mais. E então, elas dizem algo ainda mais perturbador.
— Você não quer saber por que a chamam de Leptynis nas visões? Nunca foram apenas sonhos.
Visões.
No fundo, sei que irei me arrepender disso depois. Mas também sei que não consigo seguir em frente com essas dúvidas pesando em minha mente. Respiro fundo e me viro, caminhando na direção do quarto onde elas estão.
Kaique reage imediatamente.
— Luna, não faça isso!
Ele vem atrás de mim, seu tom carregado de preocupação genuína.
O ambiente é pequeno, tomado por fios vermelhos vivo que se espalham pelas paredes. Três máquinas de tear ocupam o centro da sala, escuras e imponentes. Nas cadeiras de frente para cada tear, três figuras sinistras.
As Moiras não param de tecer, suas mãos trabalhando em movimentos precisos e constantes. Seus cabelos brancos são longos e desordenados. Suas roupas são mantos cor de sangue, cobrindo suas formas encurvadas e misteriosas. Seus rostos ainda estão ocultos. Mas eu sei exatamente quem elas são.
Minha voz sai hesitante, mas determinada.
— O que vocês disseram sobre os sonhos?
A Moira do meio para um instante, seu olhar se movendo para as paredes cobertas de fios. Sua voz é áspera, mas precisa.
— Onde estava o fio?
Ela examina a parede à esquerda.
— Estava ali?
Suas mãos continuam trabalhando no tear, sem parar por um segundo sequer. Ela então se volta para a direita, sua voz saindo de maneira errática e divertida.
— Ou será que era ali?
De repente, ela parece encontrar o que buscava. Seu tom se torna mais intenso.
— Ah, já sei. É esse aqui!
Ela para de tecer abruptamente, e o som alto da madeira me faz dar um leve salto involuntário. Seu olhar se volta para sua irmã, Átropos. Ela ergue um fio vermelho, e Átropos segura uma tesoura de prata brilhante. O objeto é ligeiramente menor que meu antebraço, mas sua lâmina exala um brilho ameaçador.
Então, sem hesitar Átropos corta o fio. O som metálico da tesoura deslizando me causa um frio na espinha. Láquesis solta o fio cortado no chão e se vira para mim, seu olhar me atravessando completamente.
Meu corpo se contrai ao ver seu rosto. Ela é pálida, sua pele marcada por anos de trabalho com o destino. Seu olho esquerdo está costurado com fios pretos, e sua boca parece não ter lábios. Seus dedos são longos e afiados, marcados por inúmeros cortes. Seu corpo curvado, sua presença avassaladora.
Ela fala, sua voz carregada de um tom perversamente divertido.
— Cuidar do destino da humanidade não é muito bom para a beleza, não é mesmo?
Meu olhar permanece congelado, ela parece perceber meu choque. Sua boca se curva minimamente, e ela acrescenta:
— Não precisa se desculpar.
E então, a outra irmã, Cloto, fala.
— Ela é bonita, Láquesis?
Láquesis sorri lentamente.
— Tão bela quanto a própria morte, querida Cloto.
Então, como se fosse um jogo cruel, ela se volta para sua irmã.
— Por que você não dá uma olhada?
Cloto se vira para mim, seu rosto refletindo a deformidade da irmã. Ela é quase idêntica, mas seus dois olhos estão costurados. Ela puxa um dos fios dos olhos, e abre um deles para me ver.
Minha respiração prende completamente. Ela me observa por um instante, antes de murmurar:
— Oh, realmente muito bela.
Mas então, os fios que haviam sido arrancados começam a se costurar sozinhos. Seus olhos se fecham novamente, e ela solta um resmungo de desgosto.
Láquesis caminha lentamente pelo local, seus dedos deslizando pelos fios.
— Você possui muitas dúvidas, menina. — Ela pausa, e então continua. — Mas só posso lhe dar o prazer de sanar uma.
Ela se vira, segurando cinco fios vermelhos à minha frente.
— Então escolha com sabedoria.
Ela ergue os fios, revelando sua oferta cruel.
— Todos esses fios têm respostas para os seus questionamentos. Basta tocá-los. Escolha o que você quer e pegue-o.
Kaique toca meu ombro, sua voz carregada de preocupação intensa.
— Luna, nada é de graça, e nós não sabemos o preço disso. Não faça isso!
Tobias solta um pequeno suspiro e finalmente concorda com Kaique.
— Você sabe que eu não costumo concordar com ele, mas dessa vez ele tem razão, Deusa.
Mas antes que eu possa responder, Átropos se volta para nós. Seu olhar atravessa Tobias e Kaique com um brilho perigoso.
E então… Eu escolho.
A sensação começa como um deslizamento brusco, como se estivesse sendo sugada para dentro de um turbilhão invisível. O chão sob meus pés desaparece, e um frio cortante percorre minha espinha. O limbo ao meu redor se estende em todas as direções, sem cor, sem peso, sem lógica.
Então, tudo se torce e se comprime. Minha visão se desfaz em fragmentos antes de se reorganizar em um novo cenário. De repente, sinto o impacto de seu corpo contra o chão, não dá cabana das Moiras, mas de um lugar completamente diferente.
O cheiro de pergaminhos antigos e madeira encerada preenche meus sentidos. O som abafado de conversas ecoa pelo espaço. Meu coração dispara ao reconhecer os rostos ao seu redor. Thoth sentado à mesa. Dionísio na janela. Apollo e Ártemis no sofá. Kaique entrando pela porta.
Tento falar, mas ninguém reage. Eles não me veem.
— Ele chegou.
A voz de Dionísio rompe o silêncio e, desta vez, ele se vira para os outros membros do conselho. Suas feições estão rígidas como nunca antes.
— Vamos esperá-lo, assim contamos para os dois juntos.
Os outros assentem. O ambiente pesa com a expectativa do que está por vir. Algum tempo depois, há uma batida na porta. Thoth pede que entre.
Tobias atravessa a soleira como uma águia em busca de sua caça, seus olhos analisando tudo ao redor. Apollo gesticula na direção da cadeira ao lado de Kaique.
— Entre e sente-se, Tobias.
Tobias não perde tempo.
— Pode começar.
Thoth não faz rodeios.
— Vou ser direto, Tobias. Alguém está tentando machucar a Luna de todas as formas possíveis, mas isso você já sabe, não é mesmo?
— Foram vinte e três tentativas desde que ela começou a sair do acampamento. Quatro só na última semana.
Minha mente tenta acompanhar a conversa, mas nada disso faz sentido. O que diabos está acontecendo?
Thoth continua, sem hesitação.
— Hoje pela manhã, Luna deveria ter ido com Kaique para a faculdade, mas se atrasou e acabou indo com Dionísio.
Ele pausa, tornando o peso da revelação mais intenso.
— Mas quem está causando esses atentados não sabia disso. O carro do Kaique foi atacado exclusivamente no lado do passageiro.
Meu coração acelera.
— Se Luna estivesse no carro, não teria sobrevivido. As flechas que atingiram o veículo estavam envenenadas.
Minha respiração trava por um instante. Quanto mais ouço essa conversa, mais tudo se torna absurdo. Isso simplesmente não pode ser real.
Tobias ajusta a postura na cadeira, claramente incomodado.
— Vocês não me chamaram aqui apenas para passar um relatório. Fale de uma vez, Thoth.
A resposta vem sem hesitação.
— Eu quero você longe da Luna.
A reação de Tobias é imediata.
Ele se levanta, alterado, os olhos queimando com incredulidade.
— O quê?! Vocês piraram de vez?! Isso é assinar a sentença de morte dela!
Thoth mantém sua postura rígida.
— Ela não vai ficar sem proteção, Tobias.
Mas seu tom sugere que há algo mais por trás dessa decisão.
— E quem vai cuidar dela?
Kaique solta uma risada irônica antes de responder:
— Adivinha, espertão.
Meu olhar se volta automaticamente para Tobias. Seus punhos se apertam. Seus ombros ficam tensos. Toda sua presença se torna uma explosão contida de revolta.
— Vocês só podem estar de brincadeira!
Seu tom é de pura indignação.
— Eu sou o guardião dela! EU! Fui eu que aguentei a marca!
Ele aponta para o peito, seu olhar carregado de ira. Meus olhos captam o detalhe. O mesmo local onde desenhei aquela tatuagem dourada no outro dia.
Guardião?
O que diabos ele quis dizer com isso?
— Vocês são irmãos. Cem por cento. Dividem exatamente o mesmo sangue.
A voz de Apollo soa definitiva, sem espaço para questionamentos.
Minha mente prende-se nessa informação, e um sentimento antigo volta à tona.
Irmãos.
Eles são irmãos.
Apollo fez questão de frisar.
Filhos do mesmo pai.
E da mesma mãe.
Meu estômago afunda. Meu olhar se torna vago.
Tobias explode, sua voz reverberando pela sala.
— Pelo amor de Zeus! Vocês só podem estar loucos! Nós sabemos que EU sou o verdadeiro guardião!
Ele se volta para Kaique, apontando com força.
— Eu, e somente eu aguentei a marca completa! Ele não suportou nem a primeira! Não tem como ele ser o guardião!
Kaique mantém-se firme, mas a tensão no ar é palpável.
— Você não tem como saber.
Tobias perde o controle.
— Uma porra que eu não tenho!
Ele avança, segura Kaique pela camisa, e o puxa para cima. O conselho se move imediatamente.
— Tobias!
A voz de Ártemis corta o conflito, firme e inquestionável. Tobias solta Kaique, mas sua expressão permanece cheia de fúria. Ele ajusta os ombros, tentando recuperar o controle.
— Então, qual é o plano agora? Depois de quase vinte anos, vocês resolvem mudar tudo?
Thoth respira fundo antes de responder.
— Quero que você brigue com Luna.
Minha mente trava.
— Diga algo para magoá-la. Não importa o quê.
Meus pulmões parecem rejeitar o ar por um momento.
— Afaste-a de você o máximo possível. Depois disso, Kaique assumirá sua função na proteção dela.
E então, é como se tudo fizesse sentido. Foi por isso que ele fez aquilo. Foi sobre isso que ele falou quando disse que tudo estava complicado demais. Tobias solta um riso curto sem humor algum.
— Eu ainda acho isso uma palhaçada. E depois?
Thoth mantém-se firme.
— Nós vamos fazer um torneio no acampamento. Para todos os semideuses. Fora dos limites da barreira de proteção.
Tobias se exalta novamente.
— Agora já é suicídio! Vocês vão entregá-la de bandeja para quem quer que seja que queira ela morta!
Dionísio se recosta no sofá, soltando um suspiro carregado de ironia.
— Isso vai depender da sua vontade de salvá-la.
O plano é insano. Tudo é insano. E Tobias sabe disso. Ele respira fundo, mas sua voz vem carregada de cansaço.
— Vocês piraram de vez. Quando eu devo começar?
Thoth não vacila.
— Amanhã. O torneio será daqui a oito dias.
— E o que acontece depois?
Thoth não hesita ao responder.
— Se você falhar, ela morre. Consequentemente, você também. Se você conseguir, ela sobrevive e terá a chance de reconquistá-la.
Então, Kaique faz a pergunta definitiva.
— Como assim?
Sua testa franze, e ele parece ligar os pontos.
— Você gosta dela?
Tobias solta um riso curto, carregado de ironia.
— Temos mais coisas em comum do que parece, irmãozinho!
Antes que eu possa processar tudo fica nublado. Meu corpo é puxado para longe da visão. Sou jogada de volta à cabana das Moiras.
— Luna! Graças a Zeus você voltou! — Kai fala, se aproximando para me abraçar, de repente as lembranças da cena vivida agora a pouco me veem a mente e eu rastejo para trás, desviando do seu abraço. — Luna? O que foi?
— O que você viu? — Tobias pergunta e posso perceber o receio na sua voz.
— Vocês... Vocês são irmãos.
— Mas é claro, Luna, somos filhos de Posseidon. — Kai fala.
Eu sempre soube que Tobias e Kaique eram irmãos. Era uma daquelas verdades silenciosas que a gente aceita sem pensar demais — dois filhos do mesmo deus, criados no mesmo ambiente, rivais por natureza. Mas agora... agora tudo parece diferente.
— E filhos da mesma mãe, não é mesmo? — pergunto e vejo meu amigo ficar pálido e até mesmo o Tobias parece segurar a respiração.
Saber que também compartilham o sangue da mesma mãe muda tudo. Não pela biologia em si, mas porque isso revela o quanto esconderam de mim. O quanto decidiram o que eu podia ou não saber. Eles sabiam. Eles me olharam nos olhos por semanas, meses — talvez anos — e nunca contaram. Me trataram como uma peça frágil num jogo que eles jogavam em silêncio. A revelação não é sobre DNA. É sobre confiança.
— Esse torneio estupido está acontecendo por minha causa, não é mesmo?
— Não é bem assim, Luna.
— PARE DE NEGAR! EU VI! — grito, ficando de pé. — VOCÊS E O CONSELHO PLANEJANDO TUDO ISSO!
— Eu não estou negando. — Tobias responde, sem se alterar com o meu grito. — Mas preciso que você entenda que o mundo não gira sempre em torno da sua existência. No começo realmente o objetivo era capturar quem estava tentando matá-la. — Explica e percebo que ele sabe qual cena eu vi.
— E vocês não pensaram sequer por um momento me contar, afinal eu sou a mais interessada em continuar viva. Ou a minha opinião não importa, já que eu sou apenas uma semideusa imprudente e sem poderes que não tem serventia nenhuma a não ser servir cafés.
— Já chega, Luna! — Kaique fala sério e acabo me calando pelo susto, ele nunca foi de levantar a voz para mim. — Eu entendo que você esteja chateada e com raiva, mas não pense que nós somos os vilões dessa história, por mais que tenhamos a nossa parcela de culpa, somo tão marionetes quanto você nisso tudo. Se quer descontar toda a sua raiva em alguém, espere um pouco mais e a despeje no conselho.
— Solte essa ponta e veja, a lâmina fria vai brilhar, então a história vai acabar. — Láquesis volta recitar o verso, ela agora está sentada no seu tear novamente. — Os destinos estão mudando novamente, os fios estão voltando para as minhas mãos e cada vez mais perto da lâmina fria de Cloto.Principalmente o seu, guardião.
Fala e começa a rir. Guardião, foi assim que o Tobias se referiu a si mesmo na lembrança que eu vi. O que ela quis dizer com isso?
— Você não pode fugir do seu destino, logo, logo vários fios serão cortados e você será a causadora disso, Leptynis! — Ela fala, se virando e me lançando um sorriso assustador que faz com que eu sinta meu sangue gelar.
Fale com o autor