Herança de Cinzas
17 A Deusa Perdida
— O que você está dizendo?
Minha voz sai mais assustada do que deveria, e me xingo mentalmente por isso. A Moira continua tecendo o fio do destino, suas mãos nunca desacelerando.
— Você sabe do que estou falando. Todos aqueles pesadelos... eles serão reais.
Seu tom é afirmativo, sem espaço para dúvida.
— Você pode tentar fugir o quanto quiser, mas o que está profetizado sempre acontecerá.
Ela se volta para o tear, retomando seu trabalho.
— Se não acredita em mim, pergunte aos seus companheiros.
Minha respiração vacila, e minha mente se recusa a aceitar totalmente o que estou ouvindo. Meu olhar flutua entre Tobias e Kaique, mas não tenho coragem de encará-los diretamente. Não sei quantas outras mentiras consigo suportar.
— Do que... do que ela está falando?
Minha voz sai hesitante, e por um instante, ninguém responde. Mas então, Tobias solta um pequeno suspiro, coçando a barba por fazer. Ele parece absurdamente calmo, o que só aumenta minha frustração.
— Luna, esse não é o momento.
Minha raiva explode antes que eu possa conter. Dou um passo à frente, meu olhar se tornando afiado.
— E quando vai ser o momento?
Minha voz sai carregada de tensão acumulada.
— Porque eu acho que, se eu não tivesse descoberto tudo isso agora, vocês nunca iriam me contar por vontade própria.
Tobias não vacila. Seu tom é despreocupado, sem uma única nota de arrependimento.
— Não, não iríamos.
Minha pele se arrepia com o peso da resposta. Nenhuma hesitação. Nenhuma culpa.
Ele continua:
— Existem momentos na vida em que precisamos fazer escolhas.
Ele cruza os braços, sua postura fria e pragmática.
— Entre mantê-la viva e mentir para você, não precisei pensar muito na hora de fazer minha escolha.
Ele me encara, mas não há nenhum pedido de desculpa em seus olhos.
— Imagino que Kaique também não precisou. Muito menos Thoth ou Dionísio.
Minhas mãos se apertam em punhos, e então, me volto para Kaique.
— Há quanto tempo vocês sabem disso?
Kaique solta um pequeno riso exausto, mas há algo quebrado em sua expressão. Então, ele finalmente responde.
— A vida toda?!
Sua voz explode em pura frustração, e por um instante, parece à beira de um colapso nervoso.
— Por Zeus, Luna! Desde que consigo me lembrar, essas mentiras e conspirações fizeram parte da minha vida!
Ele passa as mãos pelos cabelos, seu peito subindo e descendo rapidamente.
— Chegou um momento em que se tornou natural viver assim.
Ele então solta um suspiro pesado, como se carregasse um peso invisível.
— E me desculpe se eu não me sinto arrependido por isso.
Seus olhos se fixam nos meus, e pela primeira vez, não reconheço quem ele é.
— Mas esse foi o preço que aceitei pagar para tê-la na minha vida.
Minha mente se dissolve em mil direções. Por um instante, não sei o que pensar.
Parece que minha vida nunca me pertenceu.
Parece que sempre fui apenas uma boneca nas mãos de outros.
Por mais que eu queira sair daqui e deixar esses dois para trás, sei que preciso deles para chegar ao acampamento. Se eles também são fantoches, então Thoth ou outro membro do conselho devem ser os verdadeiros responsáveis por isso.
Respiro fundo, ajustando minha postura. Minhas próximas palavras são definitivas.
— Nós vamos sair daqui e voltar para o acampamento.
Minha voz sai carregada de pura decisão.
— Mas deixarei bem claro que, quando pisarmos no solo da floresta, será cada um por si.
Meus olhos varrem os dois diretamente, sem hesitação.
— Quando essa prova acabar, eu não quero olhar para vocês novamente.
Nenhum dos dois ousa contestar.
— Espero que sejam capazes de lidar com o preço das suas escolhas.
Me viro sem esperar resposta e começo a caminhar para fora da cabana das Moiras.
O único som que ressoa na minha mente é o barulho do tear, tecendo algo que não posso ver, mas sinto pesar sobre mim.
Tobias e Kaique me acompanham, mas permanecem calados.
— Por aqui.
Tobias finalmente quebra o silêncio, tomando a frente. Eu não digo nada, apenas o sigo. Já caminhamos por quase uma hora quando avisto uma casa no topo de uma colina.
A vegetação ao redor é diferente da que ficava próxima à casa das Moiras. A grama é mais verde, e a brisa tem cheiro de mar.
Tobias caminha diretamente para a entrada da casa. Quando chega à porta, retira uma chave do bolso e a insere na fechadura, abrindo-a em seguida.
— O que você está fazendo?
Minha voz sai desconfiada, e por um instante, ele não responde.
— A casa é minha.
Ele aponta para uma estrutura à direita.
— Tem um carro reserva no galpão.
Meus olhos varrem o local, mas a noite escura não me permite enxergar bem. Apenas percebo um lago próximo à casa, o que explica o cheiro da brisa.
Tobias continua:
— A chave do carro está aqui dentro. Não precisam entrar. Eu só vou pegar o que preciso e sair em seguida.
Eu apenas concordo com a cabeça, enquanto Kaique solta um resmungo incompreensível. O tempo passa. Silêncio absoluto. Kaique finalmente se manifesta, sua voz levemente desconfiada.
— Ele está demorando muito, não acha?
Meu olhar se volta para a porta da casa. Tobias já deveria ter voltado.
— Ele deve estar procurando a chave. — Minha resposta sai automática. — Talvez não estivesse onde ele imaginou.
Kaique assente, mas então solta:
— Faz sentido. Vou entrar para ver se ele precisa de ajuda.
Mas antes que ele vá, ele me encara. Meu olhar se estreita imediatamente.
— O quê? — Cruzo os braços. — Não vou entrar com você. Se quiser ir, vá sozinho.
Ele solta um suspiro, mas não contesta, e então entra na residência. E eu apenas fico parada, esperando.
Começo a caminhar em direção ao lago, aproveitando a brisa noturna. A noite está quente, e sinto minha pele começar a ficar grudenta. Procuro um local para me acomodar e acabo sentando sobre uma pedra próxima à margem, deixando o vento refrescar meu rosto.
Meus olhos se voltam para a casa de Tobias. A escuridão não permite que eu veja seus detalhes com precisão, mas percebo que a casa é bem cuidada. As paredes de madeira refletem um brilho envernizado sob a luz da lua.
Ela é um pouco maior que a casa das Moiras, mas nada imponente. Uma chaminé desenha-se contra o céu, mas não expele fumaça.
Meu corpo relaxa por um instante.
De repente, um som de algo quebrando rompe o silêncio. Me concentro e consigo escutar vozes alteradas dentro da casa. Provavelmente uma briga.
Irmãos... Por Zeus, que coisa surreal.
Pondero por um momento. Deixo que resolvam sozinhos ou me envolvo?
Não tenho a mínima vontade de interferir em um conflito familiar, mas se isso ficar sério, a viagem para o acampamento pode ser atrasada. Não posso perder mais tempo.
Solto um suspiro pesado, desço da rocha e caminho para a cabana. Assim que atravesso a porta, os gritos se tornam mais audíveis, mas ainda não consigo entender completamente o que dizem.
A sala está vazia, e não presto atenção na decoração. Minha prioridade é chegar até eles. Percorro um corredor estreito, que leva a duas portas e, ao final, um cômodo que imagino ser a cozinha.
A primeira porta está aberta, e é dali que vêm as vozes. Caminho até lá, mas paro antes de atravessar a soleira.
Então, escuto algo que me deixa em alerta imediato.
— Eu não tive nada a ver com a morte dela! Eu já falei isso várias vezes, Kaique!
Minha pele se arrepia. O que diabos está acontecendo?
Kaique não hesita ao responder. Mas sua voz vem diferente agora. Mais baixa, mas carregada de fúria contida.
— Você pode falar quantas vezes quiser, eu não vou acreditar!
Ele pausa, como se ajustasse seu tom. Quando volta a falar, sua voz parece ainda mais sombria.
— Ela estava melhorando e, então, de repente, eu recebo uma ligação do hospital informando que ela teve uma parada cardiorrespiratória e faleceu.
Minha respiração trava. Kaique continua, sem hesitação.
— Justo no dia em que você foi visitá-la.
Ele solta o golpe final.
— Como posso acreditar que não foi sua culpa?! POR QUÊ?! POR QUE VOCÊ TINHA QUE IR VER ELA?!
Minha mente desmorona em perguntas que não fazem sentido ainda.
Mas então Tobias explode.
— PORQUE ELA PEDIU! INFERNO!
Sua voz vem carregada de frustração. Um estrondo irrompe pelo cômodo, outro objeto quebra com força. Quando ele volta a falar, sua voz vem diferente.
Cansada.
Derrotada.
— Imagine a minha surpresa ao receber uma ligação do hospital informando que a mulher que se intitulava minha mãe queria me ver!?
Por um instante, percebo que há uma amargura profunda ali.
— Eu não pretendia ir, mas a curiosidade falou mais alto. Então, acabei indo.
Kaique ainda não parece satisfeito. Seu tom vem mais direto agora.
— Por que ela queria lhe ver? Isso não faz sentido.
A resposta de Tobias vem sem hesitação, mas há algo terrivelmente sombrio por trás de suas palavras.
— Concordo plenamente. No fundo, eu tinha esperança de que ela quisesse se desculpar por rejeitar o filho mais velho e abandoná-lo.
Ele pausa.
— Como eu fui ingênuo.
Ele solta uma risada sem qualquer alegria. E, quando volta a falar, seu tom vem carregado de ressentimento puro.
— Acredita que eu ainda fiquei surpreso quando ela começou a me ofender? — Ele solta um pequeno suspiro irônico, seus olhos provavelmente fixos no irmão. — E me culpar por todas as desgraças que aconteceram na vida dela e do seu querido filho.
Sua voz muda de novo, e, pela primeira vez… Ela parece cheia de pena.
— Mas eu cheguei a sentir dó quando vi sua reação ao ouvir que, na verdade, o seu querido filhinho também não presta.
O silêncio recai por um segundo.
— Ela me chamou de mentiroso quando falei que todos os gastos hospitalares dela eram pagos com o dinheiro que o filho dela ganhava para ser amigo da filha de Thoth.
Meu corpo inteiro paralisa.
Minha visão fica turva.
Minha respiração se torna impossível.
Não.
Não pode ser.
Kaique é meu amigo. Sempre foi.
Ele não aceitaria dinheiro para isso.
Não poderia.
Mas então, meu peito explode em dor.
Minha garganta se fecha, impedindo o ar de circular.
Minhas pernas fraquejam, escorrego pela parede e desabo no chão, tentando respirar.
Meus dedos tremem, e minha mente grita para encontrar qualquer justificativa racional.
Isso não pode ser real. Mas nada faz sentido. Nada parece certo.
Kaique tenta reagir, mas sua voz vem cortada pelo impacto da revelação.
— Co… Como você sabe disso?
Tobias não hesita um segundo sequer. Ele solta um pequeno suspiro irritado, e então responde com pura lógica cruel.
— Pelo amor de Zeus, Kaique, você acha que eu sou idiota? Você realmente queria que eu acreditasse que bancava todos os gastos hospitalares dela, seu estilo de vida nada barato, sem mencionar o carro que comprou aos dezoito anos… tudo isso com o simples salário de estagiário nos estabelecimentos do acampamento?
Ele solta um pequeno riso sem humor algum.
— Me poupe.
Kaique não responde imediatamente. Seu silêncio é pior do que qualquer resposta.
— Ninguém. — A voz de Tobias vem fria, sem hesitação. — Eu invadi o escritório do Dionísio em um dos dias em que ele estava fora.
Sua postura permanece firme, e seu tom não carrega nenhum arrependimento.
— Estava procurando qualquer coisa que pudesse usar contra você. Eu só queria te desmoralizar publicamente.
O silêncio paira por um instante. E então, Tobias expõe a verdade cruel.
— Na época, eu ainda tinha certo ressentimento por não ser aceito por vocês. Pela minha família.
Kaique permanece imóvel, mas sua respiração fica irregular. Tobias continua, e o que ele diz desmorona qualquer esperança de negação.
— Mas imagine minha surpresa ao esbarrar com a folha de pagamentos do mês sobre a mesa dele… e ver seu nome lá.
Minha mente se recusa a aceitar, mas Tobias não para.
— Depois disso, só precisei insistir um pouco.
Ele então conclui, como se o peso do segredo já não importasse mais.
— E o próprio Dionísio assumiu que você recebia uma pensão para "cuidar" da Luna.
Por um instante, o silêncio se instala. Mas então, Kaique tenta justificar. Sua voz vem hesitante, porém firme.
— Não é bem assim. — Ele solta um pequeno suspiro pesado, sua postura se ajustando. — Não vou mentir, no começo era só pelo dinheiro, mas as coisas mudaram.
Porém Tobias não se importa com isso. Seu tom vem afiado, sem paciência para justificativas.
— Não me interessa.
Ele ajusta os ombros, seu olhar travando-se no irmão.
— Na verdade, eu tenho que te agradecer por isso.
Kaique franze o cenho, sem entender a mudança de tom.
— Porque foi depois de descobrir isso que eu decidi que não seria igual a você.
O ressentimento transborda na voz de Tobias.
— E que não queria mais fazer parte dessa família podre.
Kaique fecha os olhos por um instante, como se quisesse se afastar da conversa.
— Uma mãe que abandona o filho e o culpa pela rejeição de um homem que nunca a amou.
Ele solta um pequeno suspiro irônico antes de continuar.
— E um irmão que recebia dinheiro para ser amigo de alguém.
Ele então inclina ligeiramente o corpo para frente, e seu olhar se torna afiado como uma lâmina.
— Ou será que ainda recebe?!
O efeito é imediato.
— CALA A BOCA!
Kaique grita, sua voz carregada de um descontrole absoluto. O som de objetos quebrando enche o ambiente.
Meu peito se contrai. Me sinto sufocando. Minha mente fica nublada, os sons se tornam distantes, e tudo ao meu redor perde o foco. Meu corpo perde as forças.
Caio de lado, minha cabeça bate contra o chão com um impacto seco. Minha visão se escurece, e a última coisa que escuto antes de apagar é meu nome sendo chamado pelos dois homens que me colocaram nessa situação.
O mundo ao meu redor desmorona. Tudo se torna fragmentado e distorcido, vozes se sobrepõem, rostos se dissolvem no escuro.
O chão não existe. O ar se torna pesado demais para respirar.
Estou caindo. Sou arremessada para um espaço que não consigo definir, uma floresta sem árvores, um abismo sem fim.
De repente, vejo Tobias ao meu lado. Mas ele não é o Tobias que conheço, seus olhos estão tomados por sombras.
Quando tento falar, minha voz não sai. Ele apenas me observa, sem emoção, enquanto tudo ao redor se parte como vidro quebrado.
— Você nunca esteve no controle.
Agora é Kaique quem fala, seu rosto obscurecido pela distância.
— Você só acreditou no que queríamos que acreditasse.
Eu tento correr.
Mas não há para onde ir. Não há estradas. Não há terra sob meus pés.
— Você era um fantoche.
A voz de Dionísio preenche o espaço. Agora todos estão lá, suas silhuetas se misturam às sombras que me cercam.
Thoth.
Ártemis.
Apollo.
Dionísio.
Kaique.
Tobias.
Todos sabiam.
Todos esconderam.
Eu nunca fui nada além de uma peça em um jogo que nunca soube que estava jogando.
O chão finalmente me encontra, e desabo em uma superfície áspera e fria. Quando tento me levantar, algo envolve meus pulsos.
Fios de ouro.
Eles se movem por vontade própria, prendendo-me como algemas vivas. O tear das Moiras ergue-se diante de mim, e vejo meu próprio fio tremeluzindo à frente.
Cloto segura a tesoura. Átropos sorri com um brilho perverso nos olhos. O fio está prestes a ser cortado.
A lâmina desce em um golpe.
Eu acordo.
Minha respiração vem em rajadas irregulares, meu corpo banhado em suor frio. Meu peito se contrai violentamente, como se ainda estivesse aprisionado por aqueles fios invisíveis.
O mundo real se reconstrói lentamente ao meu redor. Mas o peso do pesadelo ainda está dentro de mim. Porque nada naquilo foi apenas um sonho. Foi uma verdade disfarçada de delírio.
Minha mente retorna lentamente, e então percebo que estou dentro de um carro.
Meu corpo está deitado no banco de trás, e minha cabeça apoia-se no colo de Kaique.
— Foi apenas um pesadelo. — Ele tem o rosto encostado na janela, olhando para fora, mas sua mão faz um carinho suave nos meus cabelos.
Me sento de uma vez, afastando-me para o outro lado do banco, meu corpo ainda tremulo com os resquícios do pesadelo.
Kaique se assusta com minha movimentação repentina. Meus olhos o encaram diretamente, e pela primeira vez…
Não consigo enxergar a mesma pessoa que sempre conheci.
Então, percebo os cortes em seu rosto. Um supercílio ferido. Um lábio rachado.
Meus olhos flutuam para Tobias. Seu rosto reflete uma expressão neutra, mas pelo retrovisor vejo um corte fino na maçã do seu rosto. Olho para suas mãos firmes no volante, e percebo machucados ali também.
Eles brigaram em algum momento, enquanto eu estava inconsciente. Minha voz vem mais controlada agora, mas ainda carregada de frustração.
— O que aconteceu?
Tobias responde.
— Você desmaiou no corredor. — Sua voz vem cansada, mas ainda firme. — Como você não acordava e estávamos ficando sem tempo, decidimos pegar a estrada.
Minha mente processa a informação lentamente, mas então Kaique tenta retomar o assunto.
— Luna, sobre o que você escutou…
Mas Tobias interrompe antes que ele possa continuar. Seu tom vem direto, sem paciência.
— Kaique, acho que agora não é o melhor momento.
Kaique ignora completamente o aviso. Ele olha diretamente para mim, sério, determinado.
— Eu só quero saber…
Ele respira fundo.
— O quanto você escutou?
Minha expressão se fecha, e minha voz vem cortante.
— O suficiente para desencadear uma crise de ansiedade e me fazer desmaiar.
Meus olhos se fixam nele sem hesitação.
— Mais alguma pergunta?
Kaique desvia minimamente o olhar, como se não soubesse como reagir. Mas então, ele tenta novamente.
— Eu sei que você disse que agora não é o momento para isso…
Seus olhos retornam aos meus.
— Mas, por favor, me dê a chance de explicar as coisas direito.
Minha mente se mantém fechada para qualquer desculpa. Porém, uma pergunta começa a se formar em minha cabeça.
E antes que eu possa me conter ela sai automaticamente.
— Você ainda recebe?
Kaique pisca algumas vezes, visivelmente confuso.
— O quê?
Minha voz vem afiada como uma lâmina.
— O dinheiro, Kaique.
Meu olhar se mantém travado no dele.
— Você ainda é pago para me fazer companhia?
O silêncio paira.
Sua voz vem mais baixa agora.
— Não.
Mas eu não paro por aí. Porque agora eu preciso saber tudo.
— Quando você parou de receber?
Kaique ajusta os ombros antes de continuar sua explicação.
— Logo depois, minha mãe ficou doente os gastos aumentaram, e por mais que eu tivesse uma boa quantia guardada, não era o suficiente para arcar com tudo.
Ele solta um pequeno suspiro antes de revelar:
— Então continuei recebendo.
Meu peito se aperta.
— Mas somente para bancar o tratamento dela.
Seu olhar se torna mais distante, como se revivesse algo que não quer lembrar.
— Depois que ela morreu, conversei com Dionísio e parei de receber de vez.
Minha mente trabalha rapidamente para absorver tudo.
Respiro fundo.
— Entendi.
Minha voz vem mais controlada, mas não há espaço para alívio.
A verdade está ali aberta. Irreversível.
— Saber que você passou quase onze anos da sua vida sendo pago para ficar ao meu lado…
Minha respiração oscila, mas não vacilo.
— Não é algo fácil de digerir.
Meu olhar se fixa nele, e então concluo.
— Mas eu não posso ser hipócrita de dizer que nunca errei e aprendi com meus erros.
Meu tom vem firme, mas definitivo.
— Você errou, mas se arrependeu e corrigiu a situação. — Minha expressão se ajusta, e então coloco um ponto final no assunto. — Estou encerrando isso entre nós.
Meu olhar flutua rapidamente entre os dois.
— Mas isso não muda os fatos.
Minha voz se torna mais sombria.
— Vocês dois participaram desse teatro no qual eu fui feita de fantoche todos esses anos.
Minha respiração vem mais curta, mas mantenho minha postura.
— E isso… eu não consigo perdoar.
O silêncio recai completamente sobre o carro.
Então, acrescento minha última decisão.
— Quando chegarmos ao acampamento, cada um seguirá seu caminho.
Nenhum dos dois se pronuncia. Então, seguimos o restante do caminho em silêncio absoluto.
Vinte minutos depois, Tobias finalmente anuncia:
— Chegamos.
Ele para o carro, e todos saímos para o ar fresco. Estamos no topo de uma colina, muito parecida com a do Jardim Suspenso. A madrugada escura não me permite enxergar muito ao redor.
Tobias liga uma lanterna e caminha na frente. Ele para diante do portal, e sua voz soa pesada agora.
— Para a casa dos semideuses.
A luz do portal brilha, e o ambiente inteiro se ilumina. Tobias se volta para nós, seu olhar neutro.
— Vamos?
Ele ajusta a postura antes de concluir:
— Nos vemos no acampamento.
Ele atravessa primeiro. Eu vou logo atrás. Kaique vem por último.
Minha visão se desfaz em luz, e então sou arremessada contra a terra macia da floresta do acampamento.
Minha respiração vem mais aliviada. Nunca estive tão feliz em sentir o cheiro dessa terra. Me sento, tentando recuperar o fôlego.
E então…
Vejo o painel de classificações.
O nome de Tobias atualiza em penúltimo lugar. O meu aparece logo abaixo. Mas então meu olhar cai sobre o nome de Kaique.
E ele está riscado.
Meu peito se aperta novamente.
Isso significa que… a próxima prova será a última. E apenas um filho de cada Deus participará.
Tobias foi o primeiro a chegar ao acampamento. Isso significa que ele se classificou como filho de Poseidon. Consequentemente, Kaique foi desclassificado.
Minha voz vem carregada de urgência e autoridade.
— Vocês dois!
Meu olhar varre os dois que ainda estão sentados, encarando o painel.
— De pé.
Minha respiração vem mais firme agora.
— Nós temos que ter uma longa conversa com os anciões dessa merda aqui.
Minha postura se ajusta.
— O que estão esperando?
Meu olhar se torna mais afiado.
— Eu não vou falar novamente.
Os dois se levantam calados. E me seguem até a tenda do conselho. Assim que entro na tenda, agradeço mentalmente por todos estarem lá. Isso vai facilitar as coisas.
Apollo se exalta primeiro, sua voz carregada de irritação e surpresa.
— O que você pensa que está fazendo, Luna? Não pode entrar aqui assim!
Mas eu não dou espaço para isso, meu tom vem cortante.
— Calado, Apollo. Meu assunto não é com você.
Ele me encara assustado, assim como Dionísio. Mas Ártemis e Thoth, eles não demonstram surpresa alguma.
Minha voz vem mais carregada de peso agora.
— Agora nós sete teremos uma longa conversa.
Minha respiração vem mais forte, como se estivesse tomando controle do espaço.
— E vocês vão me explicar que merda de profecia é essa… — Meus olhos travados nos anciões. — E por que acharam que tinham o direito de manipular minha vida todos esses anos?!
Dionísio se mexe desconfortavelmente na poltrona. Seu olhar flutua para os dois homens atrás de mim. Eu percebo seu desconforto. Então, acrescento algo.
— Não precisa matá-los com os olhos.
Meu tom vem ácido agora.
— Não foram eles que me contaram.
Eu cruzo os braços, e então finalizo.
— Imaginem só a nossa sorte.
Minha voz vem afiada, carregada de sarcasmo sombrio.
— Sermos jogados em Atenas durante essa prova idiota… — Meu peito se expande lentamente. — E ainda esbarrarmos na cabana das Moiras lá, que me deram o grande presente de vislumbrar parte da conspiração de vocês sobre a minha vida.
— Por Zeus, como isso aconteceu?! — Ártemis parece realmente surpresa pela primeira vez.
— Eu adoraria saber também, assim como gostaria de entender por que elas me chamaram de Leptynis. E, por mais que eu quisesse culpar esses dois aqui por tudo isso, sei que eles são tão fantoches quanto eu. Então, qual dos quatro vai começar a me explicar essa merda toda?!
— Luna, se acalme um pouco…
— NÃO! — Um trovão ecoa do lado de fora, assustando a todos. — Eu cansei de ter calma. Quero respostas, e quero agora!
— Tobias! — Ártemis se levanta e começa a ir até ele.
— Eu estou bem. Foi apenas uma tontura, deve ser o estresse dos últimos acontecimentos. Pode ficar aí.
Ele está pálido, apoiando-se em um dos mastros que sustentam a lona da tenda.
— Tudo bem, se você quer saber, eu irei contar. Mas espero que esteja preparada para assumir as consequências das suas decisões.
— Thoth…
Ártemis tenta intervir, sua voz carregada de preocupação, mas Thoth não recua. Ele solta um suspiro pesado, passa a mão pelos cabelos, e seu olhar reflete uma exaustão antiga.
— Está tudo bem, Ártemis. Está na hora deles saberem a verdade.
Ele ajusta a postura, como se estivesse se preparando para carregar um fardo monumental. Então, finalmente revela tudo.
— Existe uma antiga profecia, que dizia que dizia que uma herdeira do Submundo carregaria em seu sangue a ruptura do Olimpo. Que, ao atingir sua maturidade, seu poder seria como o ciclo das estações, capaz de trazer renascimento, mas também destruição. Quando seu verdadeiro dom despertasse, o Olimpo se partiria em guerra.
Thoth ajusta a postura, seu olhar carregado de um peso antigo. Seu tom não carrega hesitação, somente a frieza necessária para expor uma verdade incontestável.
— Algum tempo depois Perséfone engravidou. Quando a criança nasceu, Perséfone sabia que sua existência traria mudanças irreversíveis ao Olimpo. Ela tentou protegê-la, esconder sua vinda do mundo, mas Zeus já havia sentido o desequilíbrio.
— Assim que a criança nasceu, foi capturada e levada ao Olimpo.
Minha pele se arrepia.
— Foi quando eu fui chamado até lá.
Thoth me encara por um instante, antes de continuar.
— Recebi a missão de ser guardião dessa criança.
Meu peito parece apertar com a gravidade de suas palavras.
— Zeus me informou que a enviaria para a Terra e designaria outros três deuses para me acompanhar.
Minha respiração vem mais curta agora.
— Juntos, teríamos que cuidar da garota e encontrar o filho de Poseidon citado na profecia. Os poderes da herdeira deveriam ser selados dentro de um filho de Poseidon, e sua presença mascarada. Um trono apagado. Uma ameaça adormecida.
Minha mente se recusa a aceitar completamente o que ele está dizendo., mas Thoth não para.
— Ártemis foi escolhida como forma de punir Poseidon.
Ela não reage à afirmação. Permanecendo em silêncio absoluto.
— Apollo decidiu acompanhar a irmã.
Apollo também não diz nada, apenas desvia levemente o olhar.
— E, por último, Dionísio.
Dionísio permanece tenso, mas não interrompe. Thoth pausa por um instante, antes de acrescentar:
— Juntos, tivemos a ideia de montar o acampamento.
Sua voz vem mais profunda agora, carregada de significado.
— Seria mais fácil manter por perto os semideuses que queríamos proteger.
Minha mente trabalha rápido para conectar os pontos. Mas então, Thoth revela o detalhe mais devastador.
— Com o tempo, a pequena herdeira da profecia começou a desenvolver poderes muito fortes para sua pouca idade.
Minha pele se arrepia violentamente.
— Quando encontramos os filhos de Poseidon, decidimos realizar o ritual de selagem.
Minha garganta se fecha.
— Todos os seus poderes foram selados dentro do primogênito de Poseidon.
Meus olhos se arregalam minimamente, mas não consigo formular palavras ainda.
— Durante todos esses anos, vivemos para protegê-la.
A última frase vem carregada de um peso esmagador.
— E impedir que o mundo acabe.
Eu não consigo falar imediatamente.
Foi muita informação.
Muitos anos de segredos resumidos em poucas palavras.
Meu peito parece sufocar, e por um instante tento organizar meus pensamentos.
Então, finalmente encontro forças para perguntar.
— Isso significa…
Minha voz sai quase como um sussurro, mas então fico firme.
— O que isso significa?!
Thoth me encara diretamente, e sua resposta vem sem hesitação.
— Isso significa, Luna, que você não é uma semideusa. Você é o nome que ecoa nessa profecia. Você é aquela que pode destruir o Olimpo ou redefini-lo. O equilíbrio entre morte e criação. O ciclo que Zeus tentou quebrar e falhou. E agora… não há mais como esconder isso. Seu destino foi selado no momento em que nasceu.
— Você é uma Deusa do Olimpo.
— Filha de Perséfone e Hades.
— A herdeira do Trono de Zeus.
Minha mente desmorona completamente. Minha voz vem cortada pelo choque.
— Eu… sou… uma deusa?
Meu peito afunda com a revelação absoluta.
Meu corpo parece não pertencer mais a si mesmo.
Mas Thoth continua, sem permitir pausa para o impacto.
— Durante todos esses anos, você não conseguiu desenvolver nenhum dom. — Seus olhos se ajustam, como se soubesse o peso do que estava prestes a dizer. — Porque todos os seus poderes foram selados dentro do Tobias.
Minha respiração trava completamente.
— Mas por algum motivo, eles começaram a se manifestar.
Meu olhar se fixa nele.
— E nós não sabemos por que isso está acontecendo.
— O que aconteceu com Perséfone?
Dionísio responde antes que Thoth possa fazê-lo. Sua voz vem mais baixa agora, carregada de um peso que não deveria pertencer a ele.
— Foi aprisionada no Tártaro logo depois do seu nascimento. Um aviso, uma sentença...
Ele solta um pequeno suspiro triste antes de concluir.
— E está lá até hoje.
Minha visão oscila por um instante, tentando absorver tudo. Outra pergunta surge antes que eu possa hesitar.
— E por que tem alguém querendo me matar?
Thoth ajusta a postura como se soubesse que essa pergunta era inevitável. Mas quem responde, novamente é Dionísio.
— Nem todos concordam com a forma como Zeus conduz o Olimpo. Se você morrer, será o fim da nossa existência.
Minha mente explode em mil perguntas que não têm respostas fáceis.
Eu…
Sou uma deusa.
E a existência do universo inteiro depende da minha vida.
Meu corpo parece congelar com essa ideia.
Minha voz vem hesitante, quase sem vida.
— Como isso… é possível?
O silêncio cai sobre a tenda.
E pela primeira vez desde que voltei, não sei se quero ouvir a próxima resposta.
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