Herança de Cinzas
7 Na Frequência do Caos
“Alguns segredos não se escondem, eles te chamam pelo nome."
Estou ficando louca.
O começo da manhã está uma verdadeira confusão — parece que metade da cidade decidiu acordar cedo para comprar café.
O movimento está absurdamente intenso, e todo mundo está trabalhando dobrado para dar conta da demanda.
— Luna, preciso de mais copos! — Karen fala enquanto confere quantos ainda restam.
— Certo. Becker, assume pra mim enquanto eu vou no estoque.
Ele apenas acena com a cabeça e se posiciona no caixa.
Caminho até o estoque sentindo meu corpo cansado demais para estar funcionando nesse horário.
Enquanto pego o molho de chaves no bolso, me lembro da conversa com meu padrinho no dia em que comecei a trabalhar na cafeteria.
Na época, eu não fazia ideia de onde iria trabalhar, até que um dia ele me trouxe até aqui e explicou o motivo:
Itens estavam sumindo do estoque, e ele precisava de pessoas de confiança em todos os turnos, alguém para ficar responsável pela chave do estoque.
Desde então, sempre que estou aqui, ela fica comigo.
Entro no estoque, pego os copos e os protetores térmicos e saio logo depois. Antes de ir, tranco a porta novamente.
Volto para a cafeteria, entrego os itens para a Karen e retorno para o caixa. Estou fechando a gaveta quando algo desperta meus sentidos.
Levanto os olhos instintivamente e o vejo entrando.
Não sei explicar a tensão que percorre meus nervos sempre que dividimos o mesmo ambiente — é como dois fios desencapados se tocando, o ar ao redor vibrando eletrificado.
E, como se isso não bastasse, tem o cheiro que o acompanha. O aroma de terra úmida com menta preenche o ambiente, fresco e envolvente, impossível de ignorar.
Tobias me vê, pisca um olho e segue até uma mesa no canto do salão.
Não diz nada. Só observa.
Respiro fundo, tentando ignorar a sensação incômoda de estar sob seu olhar atento enquanto trabalho.
Estou terminando meu último pedido do expediente quando meu padrinho se aproxima.
— Luna, tem como você ficar mais um pouco? A Clara vai se atrasar.
Olho rapidamente para Tobias. Ele está distraído com um cheesecake de chocolate, sem qualquer sinal de pressa.
— Tudo bem.
Volto ao atendimento.
Meia hora se passa.
Clara continua atrasada.
E Tobias continua me encarando — agora com um ar claramente questionador.
Lanço um olhar provocativo e pisco um olho, sorrindo de modo traquina.
Ele apenas balança a cabeça e volta sua atenção para o segundo copo de café.
— Pode ir embora, guria, eu assumo daqui. — Clara chega terminando de amarrar o avental.
Não perco tempo respondendo. Vou direto para o vestiário, guardo meu avental e pego minhas coisas.
Passo no escritório para entregar as chaves ao meu padrinho, não sei quem ficará com elas agora.
— Quer carona? Estou voltando para o acampamento agora — ele diz, guardando as chaves e se levantando.
— Não precisa, não vou pra casa.
— Tudo bem. Cuidado.
— Eu sempre tenho.
Ele caminha para os fundos, rindo.
Saio da cafeteria dando tchau para todos e finalmente vou encontrar o Tirano, mas ele não está mais na mesa.
Sigo para fora e o encontro escorado contra sua belíssima Harley Davidson, como se estivesse ali há horas, apesar do ar entediado que disfarça mal.
— Está 40 minutos atrasada, boneca. — Ele fala, me entregando um capacete.
Levanto uma sobrancelha.
— Bom dia pra você também. Pra onde vamos? — Pergunto, colocando o capacete e subindo na moto.
— Minha casa. — Antes que eu possa protestar, ele continua: — Segura firme.
Sem aviso, pega minhas mãos e as coloca ao redor de seu corpo antes de dar partida na moto.
Tô cansada demais para discutir, isso pode ficar para depois.
Encosto a cabeça em suas costas e agarro seu corpo com força. Me convenço de que é apenas para me segurar, mas, na verdade, só quero ficar mais perto do cheiro confortável que vem dele.
É agradável, quente, seguro. O conforto inesperado disso me desarma um pouco — como se por um instante o mundo diminuísse o volume.
Fecho os olhos, sentindo a moto acelerar.
Ele entra na rua que passa ao lado da universidade e para no estacionamento de um prédio de luxo que fica de frente para o rio Rideau.
A moto ronca ao desligar, e o silêncio que surge logo depois é tão abrupto que quase me traz de volta ao cansaço pesando nos meus ombros.
Ele desce, tira o capacete e acena para eu segui-lo. Entramos no elevador, e ele aciona o botão da cobertura.
Minha mente, ainda pesada pelo cansaço, finalmente reage.
Como, em tão pouco tempo, ele conseguiu tanta coisa?
Um apartamento na cobertura de um prédio desses deve custar o salário da minha vida inteira. E o jeito natural com que ele pressiona o botão da cobertura só reforça que esse mundo é comum para ele.
As portas do elevador se abrem e seguimos pelo corredor.
Ele destranca a porta, abre passagem para mim e entra logo atrás. Entro no apartamento e paro na sala, absorvendo os detalhes ao meu redor.
O piso é de madeira escura, combinando perfeitamente com as paredes de tijolos aparentes, que dão um ar sofisticado ao ambiente. A luz do sol entra pela porta da varanda na sala, refletindo no verniz do piso.
Ao lado da sala, um corredor separa o espaço do balcão de mármore da cozinha americana. A decoração da cozinha segue o mesmo estilo, me lembrando o sótão de uma casa antiga, mas muito mais elegante e moderna — com potes de vidro alinhados perfeitamente no armário, como se ele realmente usasse aquilo… ou como se alguém tivesse organizado tudo para ele.
Tobias passa por mim e segue para a cozinha.
— Tá com fome?
A pergunta vem casual, mas seu olhar é atento.
— Não muito, na verdade.
Respondo, seguindo-o e me sentando em um dos bancos altos do balcão.
Ele pega uma cafeteira italiana Moka, colocando o café e a água antes de ligar o fogo. Reflito se fico calada, mas não posso deixar a oportunidade passar.
— A menos que esteja a fim de tomar um chá de café, aconselho a colocar mais pó.
— Falou a barista.
Tobias para o que está fazendo e me encara, um sorriso discreto no canto dos lábios.
Levanto do banco e dou a volta no balcão, pegando o vidro de pó da mão dele e colocando mais na cafeteira.
Ele não protesta. Apenas me observa, sua expressão carregando algo indecifrável — como se estivesse medindo cada movimento meu.
Enquanto esperamos o café ficar pronto, começamos a arrumar a mesa juntos. Nossos cotovelos se tocam brevemente, nenhum de nós recua.
Quando o café fica pronto, Tobias serve duas xícaras, me entrega uma e se senta de frente para mim.
A mesa tem de tudo um pouco: pães, frutas, bolo, frios. Pego um pedaço de bolo de chocolate e provo.
Está absurdamente gostoso.
Mesmo focada na minha xícara, sinto o peso do olhar dele sobre mim. Levanto os olhos e encontro suas esmeraldas intensas.
Tobias segura o olhar, deixando-o ali, cravado em mim, como se algo o prendesse naquele instante.
Sinto um calor súbito, algo no olhar dele me deixa elétrica. Ao mesmo tempo, me inunda de uma paz que não sei explicar e que nunca havia sentido antes.
É uma contradição deliciosa e perigosa, como se meu corpo reconhecesse algo antes da minha mente.
Ele mantém o contato visual por tempo suficiente para me fazer esquecer de respirar, então desvia a atenção para sua xícara.
Finalmente, ele toma o primeiro gole do café. Fico esperando alguma reação.
— Dá pra tomar.
A resposta seca me faz soltar uma risada espontânea.
Volto a beber meu café, apreciando o silêncio confortável que nos envolve. Nenhum de nós quer quebrá-lo.
Quando termino, vou até a pia para lavar as louças.
— Pode deixar que eu lavo depois.
Tobias diz ao me ver começar.
— Tudo bem. Não me importo de lavar.
Estou terminando de lavar um prato quando sinto o calor do corpo dele atrás de mim.
Os braços de Tobias passam ao meu redor, me prendendo entre ele e a pia. Meu coração para por um instante e depois acelera mais do que deveria.
Ele toma a bucha das minhas mãos e começa a lavar uma xícara; sinto sua respiração quente no meu ouvido.
Um arrepio percorre minha pele. Meu corpo reage antes que eu consiga processar.
Ele termina de lavar a xícara e, então, abaixa a cabeça, deixando seu nariz roçar suavemente em meu pescoço antes de inspirar fundo.
Minhas mãos se apoiam na pia, como se precisassem segurar alguma parte de mim que ameaça se perder.
Fecho os olhos, apreciando o toque fugaz e tentando controlar o que quer que esteja acontecendo dentro de mim, uma mistura de tentação e alerta, impossível de diferenciar.
— Doce e apimentado. Afiado. Como você. — Ele sussurra contra minha pele, como quem guarda um segredo no meu pescoço, e se afasta devagar.
O calor de sua presença desaparece repentinamente, deixando apenas uma inquietação no lugar. O ar parece voltar a circular, mas não do jeito que deveria.
— Vamos lá, temos muito trabalho pela frente.
Ele caminha para a sala, e eu levo um minuto para me recompor antes de seguir atrás. Minhas mãos procuram meu caderno na mochila como se a ação pudesse organizar o que ficou desorganizado por dentro.
Tobias se senta no chão, ligando o notebook que está sobre a mesa de centro.
Me sento ao lado e pego meu caderno de anotações da mochila.
— Já tem alguma ideia em mente?
Ele pergunta enquanto digita algo no computador.
— Tive algumas, mas nenhuma delas me agradou de verdade.
— Me explica cada uma, depois vemos o que dá pra aproveitar.
Começo a descrever minhas ideias e mostro alguns rascunhos que construí.
Ele pega uma caixa retangular em cima da mesa, abre e tira um par de óculos de grau com armação quadrada.
Coloca os óculos, se inclina um pouco para os papéis e se concentra.
Tenho que admitir.
Ele fica perigosamente sexy concentrado.
E com esses óculos?
Quase comestível.
O tempo passa rápido, nos envolvendo no trabalho até que esquecemos completamente do resto do mundo.
Só voltamos à realidade quando a barriga de Tobias ronca.
Solto uma risada.
— Fome?
— Pois é.
Ele responde, rindo de leve.
Se levanta e segue para a cozinha. Eu o acompanho, hesitando por um instante.
— Hum… Tobias, eu…
A frase tropeça antes de sair. Sinto um constrangimento repentino que não combina comigo.
Ele se vira para mim com um olhar questionador.
— Timidez não combina com você, boneca.
Ele ergue uma sobrancelha, sua expressão carregada de desafio.
Minha respiração trava. Eu tinha algo para dizer, mas a intensidade do seu olhar me desestabiliza. É como se ele estivesse constantemente tentando capturar tudo que pode de mim. Me pergunto se ele percebe o quanto isso me desestabiliza.
— Nada. Já disse para não me chamar assim.
Solto a resposta frustrada, desviando-me para seguir até a cozinha, mas Tobias segura meu braço.
Seu toque é quente, quase insuportável. Expulsando o frio do inverno como se ele nunca tivesse existido. Minha pele acende como se alguém tivesse acendido uma pequena brasa sob a superfície.
— Não me dê as costas. O que queria?
Sua voz baixa, firme.
— Já falei que não era nada. Agora me solta.
Meu tom sai irritado, tento puxar meu braço, mas ele não cede.
— Luna…
Por um instante, penso que ele não vai soltar. Mas então, ele fecha os olhos, inspira fundo e suaviza o toque.
— O que você quer, Deusa?
Sua voz vem mais calma agora.
O apelido me pega desprevenida e faz um arrepio percorrer minha coluna. É como se a palavra abrisse espaço dentro de mim antes que eu tivesse chance de impedir — quente, inesperada, íntima demais.
Meu peito aperta, não pelo apelido em si, mas pelo jeito que ele diz… como se me enxergasse de um lugar onde eu mesma desconheço.
Ele solta meu braço.
Respiro devagar, tentando ignorar o que quer que tenha acabado de acontecer. Mesmo assim, “Deusa” continua pulsando debaixo da pele, insolente, como um segredo que não aceita ser esquecido.
— Tomar um banho.
Ele aponta para o corredor.
— Segunda porta à direita. Tem toalha no armário.
E então, sai da sala, me deixando ali.
Com um nome novo ecoando em minha mente. E a incômoda certeza de que ele sabe exatamente o efeito que causa.
O corredor, assim como a sala, tem uma decoração predominantemente de madeira.
Abro a segunda porta à direita, como Tobias indicou, e encontro o banheiro.
Diferente do restante da casa, ele foge completamente da decoração rústica. É todo de mármore preto, com um toque refinado e minimalista. O tipo de ambiente que faz o mundo parecer silencioso ao redor.
Tomo um banho rápido com a água gelada, despertando os sentidos e espantando o cansaço.
Visto um macacão azul-escuro com estampa de flores, que havia colocado na bolsa antes de sair.
Faço um coque frouxo nos cabelos e opto por ficar descalça; o aquecedor faz com que o frio não incomode. O mármore aquecido sob meus pés traz um conforto inesperado.
Não passo maquiagem. Faz tempo que não fico “natural”, e por algum motivo, hoje parece o momento certo para isso.
Saio do banheiro e um cheiro delicioso invade minhas narinas. Meu estômago desperta na mesma hora. Algo quente, amanteigado e absurdamente convidativo.
Caminho até a cozinha, encosto-me no balcão e observo o Tirano.
Ele está de costas, olhando algo no forno, que provavelmente é o causador daquele aroma irresistível.
Mesmo sem virar, ele sabe que estou aqui e olha rapidamente por cima do ombro, confirmando minha presença. É rápido demais para ser casual. Ele sempre sabe.
Dou a volta no balcão e me sento à mesa, observando-o pegar uma luva térmica e retirar uma travessa fumegante do forno.
Ele está trazendo o prato para a mesa, mas de repente para no meio do caminho.
Seu olhar se fixa em algo em mim, e sua expressão fica séria demais para ser apenas curiosidade.
Meu coração treme por um instante.
Olho para meu braço, tentando entender o que ele viu.
Um hematoma esverdeado se formou ali, no meu braço direito. Tem o formato nítido de cinco dedos. Toco levemente, sentindo uma pontada incômoda, mas nada que eu não possa suportar.
Aparentemente, o aperto de Kaique durante nosso encontro na universidade foi mais intenso do que imaginei. Todos os meus banhos foram apressados ou cansados, então acabei não percebendo.
Isso não é algo novo — normalmente, eu sempre tenho algum hematoma pelo corpo.
A reação de Tobias, no entanto, me preocupa mais do que o próprio machucado.
Vejo a tensão em seus ombros, sua expressão se fechando, o maxilar trincando; é possível ver o leve tremor nas suas mãos, um indicativo de que seu autocontrole está se esvaindo. É como observar uma tempestade se formando atrás de olhos verdes demais para esconder qualquer coisa.
Por um breve instante, ele me lembra de mim mesma anos atrás, quando ainda não conseguia controlar minhas emoções. Quando a raiva explosiva era minha única válvula de escape.
E isso… me assusta um pouco.
Se tivermos um confronto, será que eu conseguiria vencê-lo?
Ele pisca algumas vezes e desvia o olhar para a travessa, como se forçasse a si mesmo a seguir em frente.
Tobias serve uma porção generosa para mim e outra para ele.
Começamos a comer em silêncio — um silêncio que poderia ser tenso, mas que acaba se tornando estranhamente tranquilo. Quase confortável, como se ambos estivéssemos tentando não cutucar feridas que ainda não sabemos nomear.
Fico tentando entender sua reação.
Ele está com raiva de quem me machucou?
Ele acha que eu estava escondendo o machucado com minha roupa de manga?
O que se passa na cabeça dele?
Eu realmente quero descobrir a resposta desses questionamentos?
Nós não somos amigos, apenas parceiros de estudo. Não há necessidade de procurar mais dramas para minha vida.
Após algum tempo, ele se levanta, pega uma jarra na geladeira e serve dois copos.
Olho para o líquido com curiosidade, e antes que eu pergunte, ele responde:
— Laranja.
O almoço segue calmo. Quando terminamos, sinto um peso agradável no estômago.
Ele termina pouco depois de mim, e decidimos que eu lavo a louça enquanto ele enxuga e guarda. A sincronia é tão natural que parece ensaiada — e isso, de algum modo, me inquieta ainda mais.
Enquanto trabalhamos, quebro o silêncio.
— Então, onde aprendeu a cozinhar assim?
Ele me olha, erguendo uma sobrancelha.
— Isso foi um elogio, Deusa?
A palavra ressoa dentro de mim. Ele disse de novo.
A mesma voz baixa, carregada, que sempre parece saber exatamente onde me acertar.
Disfarço minha reação e finjo que não percebi.
— Eu aprendi a cozinhar com minha mãe. — Seu tom muda ligeiramente, ficando mais pensativo. — Ela sempre me ensinou a ser independente. Saber cozinhar fazia parte desse pacote.
Por um instante, ele parece perdido em pensamentos. Então, sua expressão suaviza.
Ele me observa de modo diferente agora, como se estivesse percebendo algo novo.
— Você fica melhor assim. — Franzo o cenho, sem entender. — Sem maquiagem. Eu gosto.
Sinto um leve desconforto e desvio o foco. Não sei o que fazer com elogios vindos dele; são raros, intensos e sempre soam perigosamente verdadeiros.
— Pronto, vamos voltar ao trabalho?
Seco as mãos e mudo de assunto sem hesitação. Ele sorri de canto, como se soubesse exatamente o que acabei de fazer, mas não comenta nada.
— Claro, vamos lá.
Voltamos para a sala e mergulhamos de vez no projeto. Já passa das três da tarde quando decidimos fazer uma pausa.
Vou até a cozinha tomar água, mas ao retornar, paro antes de entrar na sala.
Tobias está falando com alguém ao telefone. E sua voz está fria demais para ser uma conversa casual.
A curiosidade fala mais alto, e eu me encosto na parede, prestando atenção. Meu corpo reage à frieza no tom dele, como se reconhecesse um tipo de perigo silencioso.
— ...eu não estou nem aí para o que você quer. Se tem alguém que dita as ordens pra mim, é ela, então o que ela quiser que eu faça, eu vou fazer.
Ele frisa a palavra ela, como se fosse uma provocação direta.
A pessoa do outro lado responde, mas não consigo ouvir. Ele permanece em silêncio, ouvindo.
Então, solta uma resposta cortante:
— Vai ser um prazer ver você perder a cabeça e o coração por ela, porque é isso que ela vai fazer: conquistar e destruir. Afinal, está no sangue dela.
Há outra pausa.
Depois, ele começa a rir. Mas não há humor algum no som.
O que está acontecendo?
E, mais importante… Quem está do outro lado da linha?
— Por consideração a ela eu vou dar um último aviso: já é a segunda vez que você está envolvido nos machucados dela. Antes que exista uma terceira, eu vou lhe mandar para conversar pessoalmente com Hades.
A voz dele soa fria e calculada antes da ligação ser encerrada bruscamente.
Tobias exala impaciência, sem esconder sua irritação.
Então, seus olhos se voltam para mim.
— É feio escutar as conversas dos outros, Deusa.
Cruzo os braços, disfarçando minha curiosidade com um ar casual. Ou tentando. O apelido ainda vibra em algum lugar dentro de mim, irritante e irresistível ao mesmo tempo.
— Não tenho culpa se meu parceiro de estudos não me fala sobre ele. Então preciso descobrir de outras formas.
Ele solta uma risada curta, mas sua expressão continua tensa.
— Problemas com a namorada?
Pergunto sem demonstrar muito interesse.
— Ciúmes?
Rebate, levantando uma sobrancelha.
Agora é minha vez de rir.
— Apenas curiosidade. Pelo pouco que entendi, você parece estar metido em um baita triângulo amoroso complicado.
Ele parece refletir por um momento antes de responder.
— Acho que podemos definir assim. Mas isso não é da sua conta.
— Ok. Não está mais aqui quem falou.
Dou de ombros, encerrando o assunto. Ou fingindo que consigo. A conversa ecoa entre nós como algo que ainda não terminou.
Tobias se aproxima e é possível perceber a mudança na sua postura, reassumindo o papel de tutor. Ele se senta novamente e inclina-se ligeiramente para a frente, a expressão carregada de uma seriedade incomum. O ambiente parece ajustar o próprio ritmo para acompanhar o dele.
— Eu estava pensando, Luna…
Quando ele me chama pelo nome, sei que vem coisa séria.
— Todas as suas ideias são boas, mas precisamos de apenas um projeto. Ele precisa ser perfeito, porque todos os outros trabalhos serão desenvolvidos a partir dele.
Eu assinto, absorvendo a informação. Anoto a palavra “perfeito” e sublinho duas vezes.
— Certo. Sim. E o que você sugere?
Ele gesticula levemente, como se já tivesse pensado nisso antes.
— Das suas ideias, a que mais me chamou atenção foi o programa para supervisionar alunos. Mas já existem as monitorias para isso.
Ele pausa, avaliando como continuar. Os olhos passam pelas minhas anotações, como se procurassem um ponto de partida.
— E se, em vez de supervisionar, o programa rastreasse os alunos?
Minha testa franze levemente.
— Rastreasse? Como assim?
Tobias se recosta, cruzando os braços.
— Temos um problema sério no campus. Durante as festas, muitas pessoas bebem demais e acabam desaparecendo.
Ele respira fundo, visivelmente preocupado com o assunto.
— Existe uma parte do campus que faz divisa com uma floresta. Quem entra lá bêbado pode acabar se perdendo, e já houve casos de alunos que nunca foram encontrados.
Minhas mãos ficam imóveis sobre o caderno. O grafite encosta no papel sem riscar.
— Você quer criar um sistema de rastreamento?
Pergunto, já começando a anotar ideias.
— Exatamente. O programa funcionaria com um sistema de rastreamento inteligente, conectado a um aplicativo complementar.
Assinto, interessada.
— O sistema usaria placas de identificação semelhantes às dos militares. — Ele continua. — Pequenas, discretas, resistentes. Usadas no pescoço como cordão, garantindo que seja mais difícil de perder.
— E o rastreador? — Pergunto, já esboçando o conceito no papel.
Setas, círculos, um fluxograma nascendo entre linhas tortas.
— Incorporado na placa e ativado apenas dentro do campus e em casos de emergência.
A proposta faz sentido, mas um detalhe me incomoda.
— Como será feito o monitoramento?
Tobias sorri de canto, antecipando minha dúvida.
— Em vez de rastrear cada aluno 24/7, o campus terá estações fixas de monitoramento. Essas estações utilizarão Bluetooth Low Energy (BLE) para rastreamento interno e GPS para áreas externas.
A ideia parece bem pensada.
— Isso reduz consumo de energia e mantém a precisão.
Eu assinto, convencida. Escrevo “BLE + GPS = precisão/eficiência” e coloco um asterisco ao lado.
— E como um aluno saberia que está em uma área de risco?
Ele aponta para o caderno, indicando mais detalhes.
— No aplicativo, o aluno pode verificar sua própria localização e receber alertas se estiver em uma zona de risco, como a floresta.
— E se alguém desaparecer?
— Basta ir à sala de segurança, digitar o nome ou o código de identificação, e o sistema localiza a posição do aluno na área de cobertura.
Concordo, mas um pensamento me provoca.
— E se quiséssemos expandir a área de rastreamento?
Ele desvia o olhar, refletindo sobre a questão. Os dedos tocam a borda do notebook, num gesto breve de cálculo.
— Depende do quanto você quer aumentar.
Mordo de leve o lábio inferior, pensando na resposta.
Então, solto o desafio.
— Digamos que a nível nacional.
Tobias solta uma risada rápida, achando que estou brincando.
Mas quando vê meu olhar sério, sua risada morre no meio do caminho.
Ele me observa por um instante, depois responde.
— Bom, é possível. Mas precisaríamos de algumas coisas.
Ele começa a listar.
— Uma antena com um pré-amplificador de sinal para maior cobertura. Autorização para ancorar o sistema a um satélite nacional ou global. E uma unidade de controle avançada dentro do campus para gerenciar dados, porque as instalações atuais não suportariam essa demanda.
— E, antes que você pergunte: não, não é vigilância constante. É um “modo sentinela”. O sistema fica em baixo consumo, só acorda quando dois gatilhos coincidem: (1) o aluno entra numa zona de risco mapeada; (2) o app detecta inatividade prolongada ou deslocamento incoerente. Ou quando um pedido de ajuda é acionado no aplicativo.
— O app mostraria a localização apenas para o próprio aluno e para a equipe de segurança. Nada de mapa aberto para terceiros. A palavra-chave aqui é consentimento e política de privacidade clara.
— Nas áreas internas, as estações BLE fariam uma espécie de “geocerca” por proximidade, e não por vigilância contínua. Lá fora, um GPS de baixa taxa de atualização, com amostragem adaptativa.
— Se a rede cair, temos redundância: buffers locais na estação, envio posterior dos dados e um canal SMS de emergência do app — simples, barato, resiliente.
Me recosto na cadeira, absorvendo as informações. Sinto a dimensão do projeto se expandir dentro de mim, como um mapa que abre novas dobras.
— Parece que temos muito trabalho pela frente.
Começo a organizar todas as anotações, mas percebo que Tobias continua me olhando.
— O que foi?
Ele sorri de leve, desviando para o notebook.
— Nada. Mãos à obra.
E, assim, mergulhamos de volta nos cálculos, esquemas e diagramas, enquanto a tarde passa num piscar de olhos. O relógio perde a importância; o projeto, não.
Termino o esboço da interface básica no tablet do balcão e só então percebo que estou sozinha na sala.
Olho rapidamente para a cozinha, mas não há ninguém lá também.
Me levanto e sigo até a varanda, que oferece uma vista perfeita do rio.
Nada.
Volto para dentro, e tudo continua silencioso demais.
Há três portas no lado direito do corredor e quatro do lado esquerdo.
Sigo até a metade do corredor e resolvo chamá-lo.
— Tiranooo!
Nenhuma resposta.
Tento mais uma vez, aumentando o nível da provocação.
— Babaca supremo!
Nada.
Decido começar pela ala direita, abrindo a primeira porta. É um escritório, seguindo a decoração de madeira predominante do resto da casa.
De um lado, uma mesa coberta de papéis, uma poltrona atrás dela e duas cadeiras na frente. Do outro lado, um sofá próximo a um bar discreto.
O ar tem cheiro de couro e papel antigo; tudo está meticulosamente alinhado, como se qualquer desalinho denunciasse uma intrusa.
Mas o que realmente prende minha atenção são os quadros pendurados nas paredes laterais.
São lindos e carregados de significado. Retratam uma guerra intensa e, ao mesmo tempo, uma paz contraditória do autor.
Céus abertos contra lanças erguidas; silhuetas em marcha e um horizonte de calma impossível — é como se o quadro respirasse depois do impacto.
Passo mais um minuto admirando-os antes de sair e fecho a porta.
Passo pela segunda porta: banheiro, já sabia disso.
A terceira porta está trancada, com uma belíssima tranca digital, é um dos modelos mais recentes da marca, com reconhecimento de biometria.
O que será que ele guarda aqui com esse padrão de segurança?
Decido verificar o lado esquerdo.
A primeira porta revela um quarto de cores suaves e móveis básicos; a falta de personalidade na decoração me leva a crer que é um quarto de hóspedes.
A segunda porta me surpreende.
Uma academia particular enorme. De um lado, há vários tipos de aparelhos modernos. Do outro, um tatame com um armário próximo. A parede dos fundos é inteira de vidro, oferecendo uma vista espetacular do rio e parte da cidade.
Tapetes impecáveis, halteres organizados por peso, o cheiro metálico limpo.
Sigo para a terceira porta, mas ela também está trancada.
Só resta uma opção.
Abro a quarta porta e encontro um quarto diferente. A madeira ali é mais escura, dando um ar mais sóbrio e elegante.
Uma cama king size ocupa a parede lateral direita. Ao lado da cama, uma porta que provavelmente leva ao closet. A outra está entreaberta, e é possível ouvir o som de chuveiro ligado vindo dela.
O barulho cessa repentinamente. Um momento depois, Tobias sai do banheiro.
Molhado.
Uma toalha frouxa ao redor da cintura. Ele usa outra toalha para secar o cabelo úmido.
Peito definido e os bíceps marcados. Pingos escorrem pela clavícula e somem no tecido da toalha. O tipo de visão que derruba qualquer argumento racional.
Ele para bem na minha frente, ainda com a mão no cabelo, e ergue uma sobrancelha, como se desafiasse a minha reação.
— Aprovado?
A pergunta vem acompanhada de seu famoso sorriso de canto.
Cruzo os braços, fingindo indiferença.
— Dá pro gasto.
Ele ri alto, e eu acabo sorrindo de leve.
— Não te achei na sala, então resolvi procurar. Acabei vindo parar aqui.
Falo despreocupadamente, e ele ri de novo.
— Senta aí. Não vou demorar.
Ele desaparece para dentro do closet, e eu me acomodo na poltrona próxima à janela.
O vidro vai do teto ao chão, assim como na academia, permitindo uma visão panorâmica do movimento lá fora.
O sol já se pôs, tingindo o céu de tons profundos. Carros viram pontos de luz no asfalto, o rio corre como uma lâmina escura, e por um segundo o silêncio parece pacífico.
Fecho os olhos, encostando a cabeça na poltrona.
O dia foi intenso. E ainda está longe de acabar.
O cheiro de terra molhada invade meus sentidos e sei que ele retornou para o quarto.
— Te chamei algumas vezes para avisar que ia tomar banho, mas você estava tão concentrada que nem percebeu. Então resolvi te deixar lá e vim. Vamos?
Continuo de olhos fechados, apreciando o aroma familiar.
— Luna?
A voz dele soa mais próxima agora, mas ainda não abro os olhos.
— Deusa.
O nome ecoa pelo quarto, carregado de algo indefinível, quase como se fosse um toque de devoção.
Meus olhos se abrem devagar, encontrando a profundidade daqueles verdes intensos.
Agora que estou mais perto, consigo analisar melhor: a cor realmente lembra uma Tsavorita, brilhante e rara.
— Tudo bem?
Balanço a cabeça, sem precisar dizer nada.
— Cansada?
— Um pouco.
— Fome?
— Nem tanto.
Ele se afasta ligeiramente, e só então percebo o que está vestindo.
Uma bermuda de moletom escura, regata branca, descalço. Os cabelos foram penteados só com a mão, o que só acentua seu charme despretensioso.
— Vamos. Vou pedir alguma coisa pra gente comer.
Voltamos para a sala, e Tobias pega o celular para ligar para um restaurante de comida mexicana.
— Tacos pra gente.
Ele se senta no sofá, dando tapinhas leves no assento ao lado, indicando onde devo sentar.
Me acomodo ao lado dele enquanto ele finaliza o pedido e aproveito para procurar meu celular na bolsa.
Encontro o aparelho, mas ele está desligado — provavelmente descarregou. Procuro meu carregador portátil, conecto ao celular e aguardo alguns instantes antes de ligá‑lo.
Assim que liga, vejo que tenho algumas chamadas perdidas.
Duas do Thoth.
Cinco do Kai.
Antes que eu possa pensar muito sobre isso, Tobias se levanta.
— Já volto.
Ele vai até a cozinha, desaparecendo pelo corredor.
Aproveito a chance e envio mensagens rápidas para os dois, avisando que estou na casa de um colega, trabalhando em um projeto da faculdade.
Kai responde quase imediatamente, perguntando se vou querer carona.
Olho para a cozinha e vejo Tobias colocando algumas coisas sobre a mesa.
Dispenso a carona do meu amigo. Meu pai, como esperado, apenas me manda ter cuidado.
Guardo o celular e me recosto no sofá. Em algum momento acabo cochilando e desperto com a campainha tocando.
Me levanto para atender, mas Tobias já está na porta.
Ele recebe a comida e, depois, segue para a cozinha.
Estou indo atrás dele quando ele já volta, trazendo os tacos e dois pratos, colocando tudo sobre a mesa de centro.
Ele vai até a cozinha novamente e retorna com uma garrafa de Coca‑Cola e dois copos, que também coloca na mesa.
Começamos a comer em silêncio.
Nossa relação é estranhamente funcional. Mal nos falamos, mas nos entendemos — na maior parte do tempo.
Ele sabe ser bem irritante quando quer.
O jantar passa sem muitas palavras e, ao terminar, percebo que perdi completamente a noção do tempo.
— Que horas são? — pergunto, levando os pratos para a cozinha.
— Nove e meia.
— Nossa, o tempo voa.
Minha voz sai levemente surpresa.
Tobias se encosta na bancada.
— Quer continuar o projeto, ou encerramos por hoje?
Penso por um instante.
— Bom, ainda temos muito o que fazer. — Cruzo os braços, considerando as possibilidades. — Tenho algumas dúvidas sobre umas propriedades. Acho que algo não está certo. E tem partes da modelagem que eu ainda não entendi totalmente.
Respiro fundo, decidindo. — Se não for problema pra você, queria resolver pelo menos isso antes de encerrar.
Ele assente de leve, sem hesitação.
— Sem problemas. Vamos lá. Pode deixar tudo aí, depois eu lavo.
Minha expressão se fecha em pura discordância.
— Nada disso, eu ajudo.
Sem pensar, empurro Tobias gentilmente até que ele fique de frente para a pia.
Admito: ele se deixa ser empurrado, mais divertido do que incomodado. O olhar de falsa indignação dele dura dois segundos antes de virar um sorriso.
Lavamos, enxugamos e guardamos tudo, e depois voltamos para a sala.
Ele olha minhas anotações, aponta onde estão erradas, e eu as corrijo. Enquanto faço os ajustes, ele termina alguns detalhes na modelagem da arquitetura do sistema.
Quando finalizo as definições das propriedades e funcionalidades do projeto, um pensamento me ocorre.
— Tobias.
— Humm? — ele responde, sem tirar os olhos do computador.
— Você disse que vamos ter que montar uma unidade de controle para colocar o programa no ar.
— Sim — responde automaticamente, ainda sem me dar muita atenção.
Inclino a cabeça, reforçando meu ponto.
— Mas eu preciso apresentar o programa funcionando até o fim do semestre.
Tobias franze o cenho, agora parecendo captar a questão.
— A universidade não vai ajudar. Nós temos que montar tudo sozinhos.
Ele para pôr um segundo. Então sorri de canto, como se já soubesse a solução antes mesmo de eu perguntar.
— É pra isso que eu estou aqui.
Ele se levanta, acenando para que eu o siga.
Curiosa, faço o mesmo.
Paramos em frente à terceira porta do lado direito do corredor. Tobias coloca a palma da mão sobre o sensor, e a porta destrava com um clique discreto.
Ele abre, dando passagem para mim. Dou um passo para dentro e paro completamente.
Ele tem uma oficina inteira dentro de casa.
Prateleiras e mais prateleiras repletas de peças e ferramentas. Daria para montar qualquer tipo de sistema ali dentro.
É como entrar na mente dele materializada: ordem, precisão, caos contido.
— Oh, puta merda! Isso aqui é incrível!
A exclamação sai antes que eu consiga controlar. Tobias ri baixo, satisfeito com a reação.
— Acho que tenho boa parte do que vamos precisar aqui. O que faltar, posso conseguir com um amigo.
Eu apenas balanço a cabeça, ainda absorvendo o impacto da descoberta.
— Posso?
— Claro, fique à vontade.
Começo a andar pelo lugar, encantada com cada detalhe.
Paro diante de uma grande bancada de madeira, onde algo está parcialmente montado.
Acendo um abajur próximo, iluminando o que parece um projeto em andamento.
Tobias se aproxima, encostando na ponta da mesa.
— Projeto novo.
Ele responde à minha pergunta não dita.
— Para a faculdade?
Ele nega.
— Trabalho?
— Também não. É pessoal.
Levanto uma sobrancelha, analisando o objeto com mais atenção.
— E o que é?
Ele apenas sorri de canto.
— Segredo. Quando estiver pronto, quem sabe eu te mostre.
Ele pisca antes de sair da oficina.
Saímos, e assim que a porta se fecha, é possível ouvir o mecanismo de trava ativando.
Voltamos para a sala e continuamos o projeto, mas o cansaço finalmente me alcança.
Já estou há quase 48 horas sem dormir, e meu corpo começa a pesar.
Até detalhes simples ficam confusos.
— Tobias?
Ele levanta o olhar.
Antes que eu possa responder, um vento forte bate contra as portas da varanda, chamando nossa atenção.
Tobias se levanta rapidamente, trava as portas e fecha as cortinas.
— Está vindo um temporal.
Assinto, sentindo a pressão no ar aumentar.
Ele se volta para mim novamente.
— O que você queria, Luna?
Respiro fundo.
— Você se importa de me deixar no acampamento?
Tobias balança a cabeça, já antecipando a resposta.
— Eu iria sem problemas, mas esse temporal vai pegar pesado. Você sabe que não é seguro sair com esse tempo. Além disso, já está bem tarde. — Ele confere a hora no relógio. — Já passa das duas da manhã. E eu consigo ver que você está no limite. Por que não dorme aqui? Podemos aproveitar amanhã para adiantar o projeto.
Eu pisco algumas vezes.
Sinto meus ombros caírem.
Oh, Zeus… e agora?!
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