Herança de Cinzas

8 Jogos Perigosos


— Eu perdi totalmente a noção do tempo.

Digo, pegando minha bolsa e procurando meu celular.

Quando o encontro, vejo que não tem nenhuma notificação.

Olho para a varanda, e a chuva começou a cair forte—o temporal que Tobias previu chegou de vez.

— Eu não tenho nada pra vestir.

Respondo, me dando por vencida.

Tobias sorri de canto, o olhar carregado de algo quase divertido.

— Posso arranjar uma blusa minha. Vai ficar praticamente uma burca em você. Já quer ir dormir, boneca?

— Tô me sentindo esgotada, mas já que eu vou ficar aqui, quero terminar logo isso.

Aponto para o cálculo incompleto.

Ele apenas assente.

Voltamos ao trabalho, e alguns minutos depois, Tobias se levanta e sai da sala.

Quando retorna, coloca uma tigela sobre a mesa, empurrando-a na minha direção.

Olho para dentro e vejo que está cheia de bolinhas de chocolate.

Solto uma risada curta.

— Valeu.

Coloco algumas na boca, sentindo o doce derreter lentamente na língua.

XXXX

Sinto meu corpo ser levantado, e um aroma familiar invade meus sentidos.

Mas o cansaço não me deixa abrir os olhos.

Me entrego àquela sensação reconfortante, apenas apreciando o cheiro que já conheço bem.

Sou colocada sobre algo macio, e então percebo minhas roupas sendo tiradas.

Minhas mãos se movem automaticamente, tentando impedir.

— Calma, Deusa, nunca faria nada que você não queira.

A voz de Tobias é baixa e tranquila, e por algum motivo, me acalma completamente.

Deixo meu corpo relaxar novamente.

Sinto um tecido frio deslizar pela minha pele, e logo depois, algo quente me envolve.

A última coisa que ouço antes de me perder no sono é um sussurro.

— Bons sonhos, Vallabh.

XXXX

Acordo com os raios de sol esquentando minha pele.

Abro os olhos devagar, esperando que se adaptem à claridade.

A decoração ao redor me é familiar.

Estou no quarto de hóspedes do Tirano.

Puxo o lençol sobre minhas pernas e percebo que não estou com meu macacão.

Apertando de leve a gola da blusa, vejo que ainda estou de lingerie.

Me levanto rápido, procurando minha roupa pelo quarto.

Nada.

Saio do quarto e atravesso o corredor silencioso.

Entro no banheiro, fecho a porta e faço minha higiene matinal.

Então, resolvo dar um jeito no que estou vestindo.

Tiro a blusa social preta e a visto novamente, desta vez como um vestido tomara que caia.

Passo as mangas pela cintura e amarro na frente, ajustando o tecido.

Me olho no espelho, e um pequeno sorriso surge.

A blusa realmente parece um vestido, um pouco acima dos joelhos e ligeiramente folgado—mas gosto do resultado.

Passo os dedos nos cabelos, penteando de forma despretensiosa e faço um coque alto.

Saio do banheiro e sigo para a cozinha.

Ainda está cedo, 7h10 da manhã, e Tobias provavelmente ainda dorme.

Decido preparar algo para o café da manhã.

Abro a geladeira, encontrando algumas laranjas—perfeito para um suco.

Enquanto procurava utensílios, precisei subir numa cadeira—essa casa de gente alta é um porre!

Depois de reunir tudo, resolvo fazer panquecas também.

O suco fica pronto, e o café na cafeteira começa a ferver

Estou fritando a última panqueca quando sinto algo se aproximando por trás.

Meu corpo reage antes que eu possa pensar.

Em um movimento rápido, viro sobre os calcanhares, a faca firmemente em minha mão, e pressiono a lâmina contra a jugular de Tobias.

Seus olhos brilham com uma mistura de surpresa e diversão, como se ele já esperasse essa reação.

— Você realmente não tem instinto de sobrevivência, tem? — minha voz sai baixa, controlada, mas meu coração martela em meu peito.


Tobias mantém a calma, um sorriso de canto surgindo em seus lábios. — Bom dia pra você também, boneca.

Minha respiração ainda está acelerada, mas mantenho o olhar firme nele. A proximidade torna impossível ignorar seu perfume—terra úmida e menta, um aroma que, de alguma forma, sempre me desestabiliza.

Por um breve segundo ele permite que o frio da lâmina o toque antes de inclinar levemente a cabeça. — Se fosse um inimigo, estaria morto, não estaria?

A pressão da faca contra sua pele se mantém por mais um instante antes de finalmente recuar.

Solto um suspiro e volto para a frigideira.

— Só não chegue por trás desse jeito.

Ele dá uma risada baixa, pegando uma caneca e servindo café. — Pode deixar, Deusa, mas preciso dizer—você sabe como começar o dia com emoção.

Meu corpo ainda vibra com adrenalina, mas apenas reviro os olhos e termino de preparar o café da manhã. Coloco a última panqueca na mesa, observando que Tobias está apenas com uma calça de moletom preta. Ele me encara, gesticulando para minha roupa improvisada. — Belo modelo.

— Valeu. Procurei minha roupa, mas não achei, então dei um jeito.

Ele bebe um gole de café e balança a cabeça. — Coloquei para lavar. Depois do café te entrego. Não vai querer café? — Pergunta ao me ver servindo suco para mim mesma.

— Não está do jeito que eu gosto.

Ele ergue uma sobrancelha, curioso. Então, bebe outro gole, avaliando meu comentário.

— Você sempre pede um expresso duplo com açúcar quando vai ao Café dos Deuses, porque te dá energia na hora. Mas antes de sair, pede um expresso sem açúcar, porque gosta do café amargo e não muito forte.

Ele me observa atentamente, surpreso.

— E ontem, quando eu fiz café, você não tomou tudo. — Inclino a cabeça, divertida. — Porque estava doce demais. Eu, por outro lado, gosto de um bom mocha com chocolate ralado por cima.

Piscando um olho para ele, vejo Tobias soltar uma risada surpreendida.

Após o café, voltamos ao trabalho. Eu finalizo os cálculos da programação básica, enquanto Tobias está focado na estrutura do servidor.

— Luna?

— Hum… — Respondo, sem tirar os olhos do código.

— Você já parou pra pensar que nem todos os alunos vão querer usar a placa de identificação? Sempre tem aqueles metidos a fodões que gostam de ir contra as regras.

Minha testa franze levemente.

— Não tinha pensado nisso ainda.

Ele me observa, antes de continuar.

— E se as placas não fossem apenas para rastreamento, mas também para acesso às instalações do campus?

Minha mente faz as conexões rapidamente.

— No lugar das placas usaríamos os cartões de acesso, certo?

— Exato. Precisaríamos adaptar os leitores de cartões para reconhecer o novo formato.

— Isso é fácil. Consigo fazer em uma tarde.

Ele assente, satisfeito.

Voltamos ao trabalho, e quando percebo, já estou completamente mergulhada nos rabiscos da interface. Meus olhos encontram Tobias, e a ideia de capturar aquele momento surge instantaneamente. Pego o lápis e começo a desenhá-lo. Ele está sentado no chão com as pernas cruzadas, com um caderno na mão, mordendo a ponta do lápis. A luz do sol que entra pela varanda realça sua pele dourada, e seus olhos carregam uma intensidade silenciosa.

Quando inclino a cabeça mudando o ângulo, algo me chama atenção: Exatamente sobre seu coração, há uma tatuagem. Não parece uma tatuagem [VF1] [VF2] comum — é uma frase dourada, meio apagada, com textura de relevo, como se tivesse sido forjada com ferro quente. Seu tom vermelho misturado ao dourado parece queimar como a chama de uma fogueira.

Está escrita em uma língua estranha, com traços que lembram hieróglifos. Meus olhos percorrem os símbolos, tentando decifrar seu significado, até que uma palavra salta à minha memória: Vallabh. Algo dentro de mim reage àquele nome, como se o reconhecesse, embora eu não saiba de onde.

Minhas sobrancelhas se franzem ligeiramente quando percebo que parte da inscrição parece… incompleta. Alguns símbolos estão desbotados, quase apagados pela pele ou pelo tempo.

Fico hipnotizada e me dedico a capturá-la no desenho com todos os detalhes possíveis. Quando termino, observo o resultado final e percebo que ficou incrível. Fico feliz, admirando os traços que capturam Tobias com uma precisão inesperada.

Viro a página e volto para os esboços da interface. Me concentro em ajustar os primeiros rascunhos e, depois de muitos rabiscos, consigo ficar minimamente satisfeita com o resultado preliminar. Deixo meu caderno sobre a mesa, desvio o olhar para o relógio na parede e percebo que já é quase meio-dia. Ainda não comemos nada.

Levanto e resolvo preparar o almoço. Ao lado, o Tirano está imerso em anotações, concentrado no caderno aberto diante dele, e decido não o interromper. Sigo para a cozinha, abrindo armários e a geladeira, tentando decidir o que preparar. Depois de analisar os ingredientes, escolho fazer fricassê de frango. Organizo tudo, preparo a receita e coloco a travessa no forno.

Programo o timer do fogão e decido fazer suco de maracujá com hortelã. Assim que finalizo o suco, coloco-o na geladeira, depois verifico o forno. Ainda falta um tempo para o fricassê ficar pronto, então resolvo voltar para a sala.

Quando entro, percebo que a sala está vazia. Me aproximo um pouco mais e então vejo Tobias na varanda, falando ao telefone.

Meus lábios se abrem para chamá-lo, mas paro no meio do caminho ao ouvir algo que me interessa.

— ...ela tá comigo, Kaique, então para de escândalo, ok?

A voz dele soa grave e firme, carregada de impaciência contida.

Ele faz uma pausa, ouvindo a outra pessoa.

— Até quando ela quiser.

Outra pausa prolongada. Minha testa franze levemente.

— Não importa o que você acha...

Tobias rosnava no telefone, os nós dos dedos brancos ao redor do aparelho.

Então, de repente, algo muda.

Ele troca de idioma—mas não para um idioma comum.

As palavras que saem de sua boca não soam apenas estrangeiras, soam antigas, como se o próprio ar vibrasse com aquele som esquecido.

O timbre grave da sua voz torna a cadência ainda mais enigmática.

Meu estômago se revira.

Aquela língua…

Meus olhos vagam instintivamente para o peito de Tobias, para a tatuagem que eu desenhei horas atrás. A conexão se forma antes mesmo de eu conseguir nomeá-la. O idioma que Tobias acabou de usar é o mesmo que está gravado sobre sua pele.

Ele termina a ligação e desliga o telefone sem hesitar.

Fico imóvel, tentando processar o que acabei de ouvir. O que diabos foi isso?

Estou sem entender o sentido dessa conversa. É tudo muito estranho.

Antes que Tobias se vire, começo a caminhar em direção a ele. Mas, assim que ele se volta, meu foco muda. Meu caderno de desenho está em sua mão.

— Já pensou em tentar a academia de artes, Deusa? Tem muito talento.

Ele vira algumas páginas, até parar em uma. Seu sorriso se alarga.

— Belo desenho. Devo admitir que o modelo ajudou bastante, mas ainda assim, é um ótimo trabalho.

Ele pausa, olhando com mais atenção, e então me mostra a página. O desenho que fiz dele mais cedo.

Cruzo os braços, divertida.

— Foi um grande desafio encontrar um ângulo menos feio.

Brinco, piscando um olho.

Tobias solta uma risada genuína e começa a caminhar em minha direção.

— Então devo admitir que o talento da desenhista ajudou muito.

Ele continua se aproximando, e eu sigo recuando.

— Com certeza.

Respondo, risonha.

Tobias reduz a distância entre nós, e eu sinto meu coração acelerar. Ele se inclina ligeiramente, seu olhar prendendo o meu como um ímã. Por um breve instante, tudo à nossa volta desaparece.

O ar parece mais denso, minha respiração se torna instável, e a proximidade faz o calor dele envolver minha pele. Meu corpo reage antes da minha mente, como se soubesse o que viria a seguir. Mas no último segundo, Tobias para.

O brilho divertido em seus olhos desaparece, substituído por algo indecifrável. Ele não recua imediatamente—sua mão se ergue lentamente e, com um gesto preciso, ajusta a mecha solta do meu cabelo, deslizando os dedos por trás da minha orelha.

O toque é breve, mas ainda assim, provoca uma eletricidade cortante que percorre minha pele. Minha garganta seca e, por um instante, não sei como reagir. Eu deveria me sentir aliviada? Decepcionada?

Não sei dizer qual sentimento me domina mais. Sinto a ausência do que poderia ter acontecido como um peso invisível no ar. Ele me observa, a ponta dos dedos ainda próxima do meu rosto, mas logo recua.

Seu olhar passa rapidamente pelo meu caderno, ainda aberto sobre a mesa, e ele arqueia a sobrancelha.

— Você realmente capturou bem os detalhes.

A mudança de assunto parece intencional, mas a tensão que ainda vibra no ar denuncia que aquilo não foi apenas um comentário casual.

Um pequeno alarme nos desperta do transe. Ele se afasta como se nada tivesse acontecido. Mas algo aconteceu.

— Acho que o nosso almoço tá pronto.

Eu permaneço ali, imersa em um turbilhão silencioso de pensamentos. Apenas assinto, sem conseguir formular palavras. Ele segura minha mão, guiando-me até a cozinha. Me sento à mesa, ainda tentando me recuperar.

Tobias abre o forno, retira a travessa com o fricassê e a coloca na mesa já arrumada. Começamos a comer em silêncio, mas algo me chama atenção.

Sua tatuagem.

Pisca mais intensa do que antes. Não sei dizer se foi efeito da luz ou se realmente está diferente, mas por um instante, ela parece viva. O brilho dourado pulsa sutilmente, como se respondesse a algo que eu não consigo ver.

Seguro o garfo com mais firmeza, refletindo sobre o que acabei de perceber. Eu poderia estar imaginando coisas. Ou não. Decido não mencionar. Ainda.

— De onde você e Kaique se conhecem? — Pergunto, quebrando o silêncio.

— Do acampamento. — Ele responde sem levantar os olhos do prato.

— E por que vocês se odeiam tanto?

— Ele não aceita ser rejeitado e vive correndo atrás de mim. — Finalmente, ele ergue os olhos para me encarar.

Então, volta a comer.

Eu arqueio uma sobrancelha, descrente.

— Claro. Já desconfiava. Agora o real motivo?

Ele suspira, visivelmente desinteressado no assunto.

— Não tem um motivo. Nunca nos demos bem. — Dá de ombros, encerrando a conversa.

Eu poderia pressioná-lo. Mas algo me diz que essa conversa ainda vai voltar.

Por enquanto, deixo passar.

— Certo…

Terminamos de comer, e Tobias arruma a cozinha enquanto vou tomar um banho.

Quando termino, percebo que ele ainda não trouxe minha roupa.

Enrolo uma toalha ao redor do corpo e saio do banheiro.

Entro na sala e vejo Tobias sentado no sofá, os pés sobre a mesinha de centro, jogando futebol no Xbox. Me escoro na parede, forçando uma tosse para chamar sua atenção.

Nada.

Me aproximo um pouco mais, mas antes de chegar até ele, escorrego na água que pingava do meu corpo. Solto um grito, me preparando para o impacto, mas não sinto o chão.

— Sempre desastrada, né, Deusa? — A voz divertida de Tobias chega antes de perceber que ele me segurou.

Suas mãos firmes estão sobre minha cintura, e seu olhar desce até a toalha antes de me encarar novamente. Ele ergue uma sobrancelha.

— Minhas roupas. — Digo, e questiono internamente se minha voz realmente saiu.

— Claro. — Ele me ajuda a ficar de pé, sem desviar o olhar.

O tempo parece congelar por um segundo.

Sinto seu olhar sobre mim, intenso, analítico—e algo dentro de mim reage. Tobias move a mão para o meu rosto, ajeitando uma mecha solta do meu cabelo atrás da minha orelha. O toque é breve, mas provoca uma eletricidade cortante que percorre minha pele. Minha garganta seca e, por um instante, não sei como reagir.

Ele recua, soltando um sorriso quase provocador antes de sair da sala para buscar minhas roupas.

Eu permaneço ali, ainda tentando entender o que acabou de acontecer.

Pouco depois, ele retorna com minhas roupas limpas e dobradas.

— Obrigada. — Saio da sala, ainda sentindo minhas pernas meio fracas, e vou para o quarto de hóspedes.

Me visto, ajeito o cabelo, faço uma maquiagem leve e passo um batom que encontrei na bolsa.

Quando volto para a sala, Tobias está recolhendo meus papéis.

Me sento, esperando que ele termine.

— Pronto. — Ele me entrega todas as folhas, e eu as guardo na bolsa.

— Será que teria alguma chance de conseguir uma carona? — Pergunto, fazendo uma cara pidona.

Ele ri baixo.

— Ao seu dispor, madame. Vou apenas trocar de roupa. — Diz, saindo da sala.

Me aconchego no sofá, pegando o controle do videogame para ver o que ele estava jogando. Dou play e continuo a partida de futebol. Estou ganhando quando ele retorna.

— Quem te ensinou a jogar assim? — Pergunta, ao ver o placar final.

— É difícil não aprender quando se tem um melhor amigo/irmão viciado.

Ele sorri, pegando outro controle.

— Joga uma partida comigo antes de irmos.

Ele sugere, e eu brinco:

— Não gosto de humilhar ninguém.

Ele solta uma risada.

— Tenho certeza que se alguém aqui for humilhado, esse alguém não será eu.

Enquanto Tobias se acomoda ao meu lado, meus olhos vagam instintivamente para seu peito. Os pedaços da tatuagem visíveis pela cava da sua camiseta estão apagados novamente. O brilho desapareceu completamente. Como se nunca tivesse estado lá.

Iniciamos outra partida e, nos primeiros minutos, marco um gol.

Comemoro com um sorriso vitorioso, rindo da cara de espanto dele.

Quando venço a primeira rodada, ele crava o controle no sofá.

— Revanche! — exige, a voz rouca reverberando pelo ambiente e fazendo meu estômago dar voltas inesperadas.

Perdemos a noção do tempo jogando. Não me lembrava da última vez que tinha me divertido tanto—muito menos com alguém como Tobias.

— Vamos? — Ele se levanta, e finalmente posso observá-lo direito.

Meu Deus.

A regata preta colada ao torso, a jaqueta de couro que só aumentava seu ar perigoso, o jeans frouxo de cintura baixa. Até o boné azul desgastado ficava sexy naquele ângulo.

Meus dedos formigam com a vontade de toca-lo.

— Yep. — Salto do sofá antes que meu corpo decida por mim.

No elevador, um silêncio carregado se instala. Quando estamos quase no estacionamento, ele aperta um botão aleatório. O elevador dá um solavanco e para.

— Tobias? — Minhas costas se arqueiam contra a parede fria.

Ele avança como um predador.

Uma mão cerra minha cintura, a outra afasta meus cabelos do rosto com uma delicadeza que contrasta com a força do seu corpo contra o meu.

— Deixo você me bater depois... — Seu hálito quente queima minha pele.

Seu olhar mergulha no meu, como se estivesse decidido a capturar algo invisível.

Por um instante, só o som das nossas respirações existe.

Então, ele hesita.

A tensão entre nós permanece densa no ar, mas, ao invés de seguir em frente, Tobias desvia o olhar por um breve segundo.

Sua mão desliza lentamente por meu rosto, ajustando uma mecha solta atrás da minha orelha.

O toque sutil carrega o mesmo peso de um beijo não dado.

Minha garganta seca.

Algo se acende dentro de mim.

A hesitação dele, o espaço vazio que ficou entre nós… não. Eu não queria que aquilo terminasse assim.

Sem pensar, meus dedos agarram sua jaqueta, puxando-o sem aviso.

Tobias mal tem tempo de reagir antes de eu selar nossos lábios, encerrando de vez o jogo silencioso que vínhamos travando.

O impacto nos consome.

O beijo carrega tudo o que foi reprimido—fome, urgência, necessidade.

Ele não hesita mais.

Seus braços me envolvem com firmeza, seu corpo me prensando contra a parede fria do elevador.

Suas mãos deslizam pela minha cintura, exploram sem pressa, enquanto nossos lábios se movem em perfeita sintonia.

O ar desaparece, e tudo que existe é ele.

Meu coração martela, cada célula do meu corpo incendiado pela proximidade, pelo sabor, pela maneira como Tobias me reivindica sem palavras.

Só nos afastamos quando os pulmões exigem ar, mas ele não se move.

Nossas testas permanecem unidas, respirações descompassadas, e pela primeira vez, eu o vejo vulnerável.

O elevador volta a funcionar, mas nenhum de nós se mexe.

Apenas o silêncio entre nós diz tudo.


Eu deveria estar arrependida, isso não deveria acontecer.

Mas não estou.

No carro, o som toca "What's Up" dos 4 Non Blondes.

Ainda estou tentando recuperar o fôlego. Meus lábios ainda formigam. O gosto de Tobias ainda está ali, como uma marca invisível.

Para minha surpresa, ele canta baixinho. A cena é tão inesperada que solto uma risada.

— O quê? — Ele franze o nariz adoravelmente.

— Nunca imaginei você cantando anos 90.

— Tenho muitos lados, boneca. — Seu sorriso é pura provocação.

Na estrada, com o vento dançando em nossos cabelos e as músicas ecoando, me sinto… leve. Livre. Como se aquele beijo tivesse quebrado algo dentro de mim que eu nem sabia estar preso.

Até que o portão do acampamento surge à frente, trazendo a realidade de volta. O peso do mundo recai sobre mim novamente. Mas Tobias não parece diferente.

Está ali, tranquilo, como se não tivesse me beijado com a intensidade de uma tempestade.

— Tá entregue, Deusa. — Seus dedos tamborilam no volante.

Minha voz falha ligeiramente quando respondo.

— Obrigada pela… carona.

Mordo o lábio, ainda marcado pelo seu beijo.

Mas ele não menciona.

Como se nada tivesse acontecido.

— Quando continuamos o projeto?

Tobias solta um sorriso torto, aquele tipo de sorriso que carrega um desafio implícito.

— Seu horário de almoço é meu agora. — É uma ordem, não um convite. — Convence o Chefão a adiar seu treino.

Apenas aceno e saio do carro sem responder. Seus olhos me acompanham, atentos, mas ele não diz mais nada.

Tobias é tempestade em forma de homem—linda de se ver, perigosa de se tocar.

E eu?

Bem…

Sempre fui o tipo de pessoa que mergulha no mar revolto sem hesitar. E pela primeira vez, sinto que estou prestes a ser arrastada pela correnteza.

[VF1]" Com o fogo divino gravado em minha alma, minha lâmina e meu sangue pertencem à Vallabh. Que a minha força seja seu escudo e minha vida, sua oferenda."


[VF2]— Eu perdi totalmente a noção do tempo.

Digo, pegando minha bolsa e procurando meu celular.

Quando o encontro, vejo que não tem nenhuma notificação.

Olho para a varanda, e a chuva começou a cair forte—o temporal que Tobias previu chegou de vez.

— Eu não tenho nada pra vestir.

Respondo, me dando por vencida.

Tobias sorri de canto, o olhar carregado de algo quase divertido.

— Posso arranjar uma blusa minha. Vai ficar praticamente uma burca em você. Já quer ir dormir, boneca?

— Tô me sentindo esgotada, mas já que eu vou ficar aqui, quero terminar logo isso.

Aponto para o cálculo incompleto.

Ele apenas assente.

Voltamos ao trabalho, e alguns minutos depois, Tobias se levanta e sai da sala.

Quando retorna, coloca uma tigela sobre a mesa, empurrando-a na minha direção.

Olho para dentro e vejo que está cheia de bolinhas de chocolate.

Solto uma risada curta.

— Valeu.

Coloco algumas na boca, sentindo o doce derreter lentamente na língua.

XXXX

Sinto meu corpo ser levantado, e um aroma familiar invade meus sentidos.

Mas o cansaço não me deixa abrir os olhos.

Me entrego àquela sensação reconfortante, apenas apreciando o cheiro que já conheço bem.

Sou colocada sobre algo macio, e então percebo minhas roupas sendo tiradas.

Minhas mãos se movem automaticamente, tentando impedir.

— Calma, Deusa, nunca faria nada que você não queira.

A voz de Tobias é baixa e tranquila, e por algum motivo, me acalma completamente.

Deixo meu corpo relaxar novamente.

Sinto um tecido frio deslizar pela minha pele, e logo depois, algo quente me envolve.

A última coisa que ouço antes de me perder no sono é um sussurro.

— Bons sonhos, Vallabh.

XXXX

Acordo com os raios de sol esquentando minha pele.

Abro os olhos devagar, esperando que se adaptem à claridade.

A decoração ao redor me é familiar.

Estou no quarto de hóspedes do Tirano.

Puxo o lençol sobre minhas pernas e percebo que não estou com meu macacão.

Apertando de leve a gola da blusa, vejo que ainda estou de lingerie.

Me levanto rápido, procurando minha roupa pelo quarto.

Nada.

Saio do quarto e atravesso o corredor silencioso.

Entro no banheiro, fecho a porta e faço minha higiene matinal.

Então, resolvo dar um jeito no que estou vestindo.

Tiro a blusa social preta e a visto novamente, desta vez como um vestido tomara que caia.

Passo as mangas pela cintura e amarro na frente, ajustando o tecido.

Me olho no espelho, e um pequeno sorriso surge.

A blusa realmente parece um vestido, um pouco acima dos joelhos e ligeiramente folgado—mas gosto do resultado.

Passo os dedos nos cabelos, penteando de forma despretensiosa e faço um coque alto.

Saio do banheiro e sigo para a cozinha.

Ainda está cedo, 7h10 da manhã, e Tobias provavelmente ainda dorme.

Decido preparar algo para o café da manhã.

Abro a geladeira, encontrando algumas laranjas—perfeito para um suco.

Enquanto procurava utensílios, precisei subir numa cadeira—essa casa de gente alta é um porre!

Depois de reunir tudo, resolvo fazer panquecas também.

O suco fica pronto, e o café na cafeteira começa a ferver

Estou fritando a última panqueca quando sinto algo se aproximando por trás.

Meu corpo reage antes que eu possa pensar.

Em um movimento rápido, viro sobre os calcanhares, a faca firmemente em minha mão, e pressiono a lâmina contra a jugular de Tobias.

Seus olhos brilham com uma mistura de surpresa e diversão, como se ele já esperasse essa reação.

— Você realmente não tem instinto de sobrevivência, tem? — minha voz sai baixa, controlada, mas meu coração martela em meu peito.


Tobias mantém a calma, um sorriso de canto surgindo em seus lábios. — Bom dia pra você também, boneca.

Minha respiração ainda está acelerada, mas mantenho o olhar firme nele. A proximidade torna impossível ignorar seu perfume—terra úmida e menta, um aroma que, de alguma forma, sempre me desestabiliza.

Por um breve segundo ele permite que o frio da lâmina o toque antes de inclinar levemente a cabeça. — Se fosse um inimigo, estaria morto, não estaria?

A pressão da faca contra sua pele se mantém por mais um instante antes de finalmente recuar.

Solto um suspiro e volto para a frigideira.

— Só não chegue por trás desse jeito.

Ele dá uma risada baixa, pegando uma caneca e servindo café. — Pode deixar, Deusa, mas preciso dizer—você sabe como começar o dia com emoção.

Meu corpo ainda vibra com adrenalina, mas apenas reviro os olhos e termino de preparar o café da manhã. Coloco a última panqueca na mesa, observando que Tobias está apenas com uma calça de moletom preta. Ele me encara, gesticulando para minha roupa improvisada. — Belo modelo.

— Valeu. Procurei minha roupa, mas não achei, então dei um jeito.

Ele bebe um gole de café e balança a cabeça. — Coloquei para lavar. Depois do café te entrego. Não vai querer café? — Pergunta ao me ver servindo suco para mim mesma.

— Não está do jeito que eu gosto.

Ele ergue uma sobrancelha, curioso. Então, bebe outro gole, avaliando meu comentário.

— Você sempre pede um expresso duplo com açúcar quando vai ao Café dos Deuses, porque te dá energia na hora. Mas antes de sair, pede um expresso sem açúcar, porque gosta do café amargo e não muito forte.

Ele me observa atentamente, surpreso.

— E ontem, quando eu fiz café, você não tomou tudo. — Inclino a cabeça, divertida. — Porque estava doce demais. Eu, por outro lado, gosto de um bom mocha com chocolate ralado por cima.

Piscando um olho para ele, vejo Tobias soltar uma risada surpreendida.

Após o café, voltamos ao trabalho. Eu finalizo os cálculos da programação básica, enquanto Tobias está focado na estrutura do servidor.

— Luna?

— Hum… — Respondo, sem tirar os olhos do código.

— Você já parou pra pensar que nem todos os alunos vão querer usar a placa de identificação? Sempre tem aqueles metidos a fodões que gostam de ir contra as regras.

Minha testa franze levemente.

— Não tinha pensado nisso ainda.

Ele me observa, antes de continuar.

— E se as placas não fossem apenas para rastreamento, mas também para acesso às instalações do campus?

Minha mente faz as conexões rapidamente.

— No lugar das placas usaríamos os cartões de acesso, certo?

— Exato. Precisaríamos adaptar os leitores de cartões para reconhecer o novo formato.

— Isso é fácil. Consigo fazer em uma tarde.

Ele assente, satisfeito.

Voltamos ao trabalho, e quando percebo, já estou completamente mergulhada nos rabiscos da interface. Meus olhos encontram Tobias, e a ideia de capturar aquele momento surge instantaneamente. Pego o lápis e começo a desenhá-lo. Ele está sentado no chão com as pernas cruzadas, com um caderno na mão, mordendo a ponta do lápis. A luz do sol que entra pela varanda realça sua pele dourada, e seus olhos carregam uma intensidade silenciosa.

Quando inclino a cabeça mudando o ângulo, algo me chama atenção: Exatamente sobre seu coração, há uma tatuagem. Não parece uma tatuagem comum — é uma frase dourada, meio apagada, com textura de relevo, como se tivesse sido forjada com ferro quente. Seu tom vermelho misturado ao dourado parece queimar como a chama de uma fogueira.

Está escrita em uma língua estranha, com traços que lembram hieróglifos. Meus olhos percorrem os símbolos, tentando decifrar seu significado, até que uma palavra salta à minha memória: Vallabh. Algo dentro de mim reage àquele nome, como se o reconhecesse, embora eu não saiba de onde.

Minhas sobrancelhas se franzem ligeiramente quando percebo que parte da inscrição parece… incompleta. Alguns símbolos estão desbotados, quase apagados pela pele ou pelo tempo.

Fico hipnotizada e me dedico a capturá-la no desenho com todos os detalhes possíveis. Quando termino, observo o resultado final e percebo que ficou incrível. Fico feliz, admirando os traços que capturam Tobias com uma precisão inesperada.

Viro a página e volto para os esboços da interface. Me concentro em ajustar os primeiros rascunhos e, depois de muitos rabiscos, consigo ficar minimamente satisfeita com o resultado preliminar. Deixo meu caderno sobre a mesa, desvio o olhar para o relógio na parede e percebo que já é quase meio-dia. Ainda não comemos nada.

Levanto e resolvo preparar o almoço. Ao lado, o Tirano está imerso em anotações, concentrado no caderno aberto diante dele, e decido não o interromper. Sigo para a cozinha, abrindo armários e a geladeira, tentando decidir o que preparar. Depois de analisar os ingredientes, escolho fazer fricassê de frango. Organizo tudo, preparo a receita e coloco a travessa no forno.

Programo o timer do fogão e decido fazer suco de maracujá com hortelã. Assim que finalizo o suco, coloco-o na geladeira, depois verifico o forno. Ainda falta um tempo para o fricassê ficar pronto, então resolvo voltar para a sala.

Quando entro, percebo que a sala está vazia. Me aproximo um pouco mais e então vejo Tobias na varanda, falando ao telefone.

Meus lábios se abrem para chamá-lo, mas paro no meio do caminho ao ouvir algo que me interessa.

— ...ela tá comigo, Kaique, então para de escândalo, ok?

A voz dele soa grave e firme, carregada de impaciência contida.

Ele faz uma pausa, ouvindo a outra pessoa.

— Até quando ela quiser.

Outra pausa prolongada. Minha testa franze levemente.

— Não importa o que você acha...

Tobias rosnava no telefone, os nós dos dedos brancos ao redor do aparelho.

Então, de repente, algo muda.

Ele troca de idioma—mas não para um idioma comum.

As palavras que saem de sua boca não soam apenas estrangeiras, soam antigas, como se o próprio ar vibrasse com aquele som esquecido.

O timbre grave da sua voz torna a cadência ainda mais enigmática.

Meu estômago se revira.

Aquela língua…

Meus olhos vagam instintivamente para o peito de Tobias, para a tatuagem que eu desenhei horas atrás. A conexão se forma antes mesmo de eu conseguir nomeá-la. O idioma que Tobias acabou de usar é o mesmo que está gravado sobre sua pele.

Ele termina a ligação e desliga o telefone sem hesitar.

Fico imóvel, tentando processar o que acabei de ouvir. O que diabos foi isso?

Estou sem entender o sentido dessa conversa. É tudo muito estranho.

Antes que Tobias se vire, começo a caminhar em direção a ele. Mas, assim que ele se volta, meu foco muda. Meu caderno de desenho está em sua mão.

— Já pensou em tentar a academia de artes, Deusa? Tem muito talento.

Ele vira algumas páginas, até parar em uma. Seu sorriso se alarga.

— Belo desenho. Devo admitir que o modelo ajudou bastante, mas ainda assim, é um ótimo trabalho.

Ele pausa, olhando com mais atenção, e então me mostra a página. O desenho que fiz dele mais cedo.

Cruzo os braços, divertida.

— Foi um grande desafio encontrar um ângulo menos feio.

Brinco, piscando um olho.

Tobias solta uma risada genuína e começa a caminhar em minha direção.

— Então devo admitir que o talento da desenhista ajudou muito.

Ele continua se aproximando, e eu sigo recuando.

— Com certeza.

Respondo, risonha.

Tobias reduz a distância entre nós, e eu sinto meu coração acelerar. Ele se inclina ligeiramente, seu olhar prendendo o meu como um ímã. Por um breve instante, tudo à nossa volta desaparece.

O ar parece mais denso, minha respiração se torna instável, e a proximidade faz o calor dele envolver minha pele. Meu corpo reage antes da minha mente, como se soubesse o que viria a seguir. Mas no último segundo, Tobias para.

O brilho divertido em seus olhos desaparece, substituído por algo indecifrável. Ele não recua imediatamente—sua mão se ergue lentamente e, com um gesto preciso, ajusta a mecha solta do meu cabelo, deslizando os dedos por trás da minha orelha.

O toque é breve, mas ainda assim, provoca uma eletricidade cortante que percorre minha pele. Minha garganta seca e, por um instante, não sei como reagir. Eu deveria me sentir aliviada? Decepcionada?

Não sei dizer qual sentimento me domina mais. Sinto a ausência do que poderia ter acontecido como um peso invisível no ar. Ele me observa, a ponta dos dedos ainda próxima do meu rosto, mas logo recua.

Seu olhar passa rapidamente pelo meu caderno, ainda aberto sobre a mesa, e ele arqueia a sobrancelha.

— Você realmente capturou bem os detalhes.

A mudança de assunto parece intencional, mas a tensão que ainda vibra no ar denuncia que aquilo não foi apenas um comentário casual.

Um pequeno alarme nos desperta do transe. Ele se afasta como se nada tivesse acontecido. Mas algo aconteceu.

— Acho que o nosso almoço tá pronto.

Eu permaneço ali, imersa em um turbilhão silencioso de pensamentos. Apenas assinto, sem conseguir formular palavras. Ele segura minha mão, guiando-me até a cozinha. Me sento à mesa, ainda tentando me recuperar.

Tobias abre o forno, retira a travessa com o fricassê e a coloca na mesa já arrumada. Começamos a comer em silêncio, mas algo me chama atenção.

Sua tatuagem.

Pisca mais intensa do que antes. Não sei dizer se foi efeito da luz ou se realmente está diferente, mas por um instante, ela parece viva. O brilho dourado pulsa sutilmente, como se respondesse a algo que eu não consigo ver.

Seguro o garfo com mais firmeza, refletindo sobre o que acabei de perceber. Eu poderia estar imaginando coisas. Ou não. Decido não mencionar. Ainda.

— De onde você e Kaique se conhecem? — Pergunto, quebrando o silêncio.

— Do acampamento. — Ele responde sem levantar os olhos do prato.

— E por que vocês se odeiam tanto?

— Ele não aceita ser rejeitado e vive correndo atrás de mim. — Finalmente, ele ergue os olhos para me encarar.

Então, volta a comer.

Eu arqueio uma sobrancelha, descrente.

— Claro. Já desconfiava. Agora o real motivo?

Ele suspira, visivelmente desinteressado no assunto.

— Não tem um motivo. Nunca nos demos bem. — Dá de ombros, encerrando a conversa.

Eu poderia pressioná-lo. Mas algo me diz que essa conversa ainda vai voltar.

Por enquanto, deixo passar.

— Certo…

Terminamos de comer, e Tobias arruma a cozinha enquanto vou tomar um banho.

Quando termino, percebo que ele ainda não trouxe minha roupa.

Enrolo uma toalha ao redor do corpo e saio do banheiro.

Entro na sala e vejo Tobias sentado no sofá, os pés sobre a mesinha de centro, jogando futebol no Xbox. Me escoro na parede, forçando uma tosse para chamar sua atenção.

Nada.

Me aproximo um pouco mais, mas antes de chegar até ele, escorrego na água que pingava do meu corpo. Solto um grito, me preparando para o impacto, mas não sinto o chão.

— Sempre desastrada, né, Deusa? — A voz divertida de Tobias chega antes de perceber que ele me segurou.

Suas mãos firmes estão sobre minha cintura, e seu olhar desce até a toalha antes de me encarar novamente. Ele ergue uma sobrancelha.

— Minhas roupas. — Digo, e questiono internamente se minha voz realmente saiu.

— Claro. — Ele me ajuda a ficar de pé, sem desviar o olhar.

O tempo parece congelar por um segundo.

Sinto seu olhar sobre mim, intenso, analítico—e algo dentro de mim reage. Tobias move a mão para o meu rosto, ajeitando uma mecha solta do meu cabelo atrás da minha orelha. O toque é breve, mas provoca uma eletricidade cortante que percorre minha pele. Minha garganta seca e, por um instante, não sei como reagir.

Ele recua, soltando um sorriso quase provocador antes de sair da sala para buscar minhas roupas.

Eu permaneço ali, ainda tentando entender o que acabou de acontecer.

Pouco depois, ele retorna com minhas roupas limpas e dobradas.

— Obrigada. — Saio da sala, ainda sentindo minhas pernas meio fracas, e vou para o quarto de hóspedes.

Me visto, ajeito o cabelo, faço uma maquiagem leve e passo um batom que encontrei na bolsa.

Quando volto para a sala, Tobias está recolhendo meus papéis.

Me sento, esperando que ele termine.

— Pronto. — Ele me entrega todas as folhas, e eu as guardo na bolsa.

— Será que teria alguma chance de conseguir uma carona? — Pergunto, fazendo uma cara pidona.

Ele ri baixo.

— Ao seu dispor, madame. Vou apenas trocar de roupa. — Diz, saindo da sala.

Me aconchego no sofá, pegando o controle do videogame para ver o que ele estava jogando. Dou play e continuo a partida de futebol. Estou ganhando quando ele retorna.

— Quem te ensinou a jogar assim? — Pergunta, ao ver o placar final.

— É difícil não aprender quando se tem um melhor amigo/irmão viciado.

Ele sorri, pegando outro controle.

— Joga uma partida comigo antes de irmos.

Ele sugere, e eu brinco:

— Não gosto de humilhar ninguém.

Ele solta uma risada.

— Tenho certeza que se alguém aqui for humilhado, esse alguém não será eu.

Enquanto Tobias se acomoda ao meu lado, meus olhos vagam instintivamente para seu peito. Os pedaços da tatuagem visíveis pela cava da sua camiseta estão apagados novamente. O brilho desapareceu completamente. Como se nunca tivesse estado lá.

Iniciamos outra partida e, nos primeiros minutos, marco um gol.

Comemoro com um sorriso vitorioso, rindo da cara de espanto dele.

Quando venço a primeira rodada, ele crava o controle no sofá.

— Revanche! — exige, a voz rouca reverberando pelo ambiente e fazendo meu estômago dar voltas inesperadas.

Perdemos a noção do tempo jogando. Não me lembrava da última vez que tinha me divertido tanto—muito menos com alguém como Tobias.

— Vamos? — Ele se levanta, e finalmente posso observá-lo direito.

Meu Deus.

A regata preta colada ao torso, a jaqueta de couro que só aumentava seu ar perigoso, o jeans frouxo de cintura baixa. Até o boné azul desgastado ficava sexy naquele ângulo.

Meus dedos formigam com a vontade de toca-lo.

— Yep. — Salto do sofá antes que meu corpo decida por mim.

No elevador, um silêncio carregado se instala. Quando estamos quase no estacionamento, ele aperta um botão aleatório. O elevador dá um solavanco e para.

— Tobias? — Minhas costas se arqueiam contra a parede fria.

Ele avança como um predador.

Uma mão cerra minha cintura, a outra afasta meus cabelos do rosto com uma delicadeza que contrasta com a força do seu corpo contra o meu.

— Deixo você me bater depois... — Seu hálito quente queima minha pele.

Seu olhar mergulha no meu, como se estivesse decidido a capturar algo invisível.

Por um instante, só o som das nossas respirações existe.

Então, ele hesita.

A tensão entre nós permanece densa no ar, mas, ao invés de seguir em frente, Tobias desvia o olhar por um breve segundo.

Sua mão desliza lentamente por meu rosto, ajustando uma mecha solta atrás da minha orelha.

O toque sutil carrega o mesmo peso de um beijo não dado.

Minha garganta seca.

Algo se acende dentro de mim.

A hesitação dele, o espaço vazio que ficou entre nós… não. Eu não queria que aquilo terminasse assim.

Sem pensar, meus dedos agarram sua jaqueta, puxando-o sem aviso.

Tobias mal tem tempo de reagir antes de eu selar nossos lábios, encerrando de vez o jogo silencioso que vínhamos travando.

O impacto nos consome.

O beijo carrega tudo o que foi reprimido—fome, urgência, necessidade.

Ele não hesita mais.

Seus braços me envolvem com firmeza, seu corpo me prensando contra a parede fria do elevador.

Suas mãos deslizam pela minha cintura, exploram sem pressa, enquanto nossos lábios se movem em perfeita sintonia.

O ar desaparece, e tudo que existe é ele.

Meu coração martela, cada célula do meu corpo incendiado pela proximidade, pelo sabor, pela maneira como Tobias me reivindica sem palavras.

Só nos afastamos quando os pulmões exigem ar, mas ele não se move.

Nossas testas permanecem unidas, respirações descompassadas, e pela primeira vez, eu o vejo vulnerável.

O elevador volta a funcionar, mas nenhum de nós se mexe.

Apenas o silêncio entre nós diz tudo.


Eu deveria estar arrependida, isso não deveria acontecer.

Mas não estou.

No carro, o som toca "What's Up" dos 4 Non Blondes.

Ainda estou tentando recuperar o fôlego. Meus lábios ainda formigam. O gosto de Tobias ainda está ali, como uma marca invisível.

Para minha surpresa, ele canta baixinho. A cena é tão inesperada que solto uma risada.

— O quê? — Ele franze o nariz adoravelmente.

— Nunca imaginei você cantando anos 90.

— Tenho muitos lados, boneca. — Seu sorriso é pura provocação.

Na estrada, com o vento dançando em nossos cabelos e as músicas ecoando, me sinto… leve. Livre. Como se aquele beijo tivesse quebrado algo dentro de mim que eu nem sabia estar preso.

Até que o portão do acampamento surge à frente, trazendo a realidade de volta. O peso do mundo recai sobre mim novamente. Mas Tobias não parece diferente.

Está ali, tranquilo, como se não tivesse me beijado com a intensidade de uma tempestade.

— Tá entregue, Deusa. — Seus dedos tamborilam no volante.

Minha voz falha ligeiramente quando respondo.

— Obrigada pela… carona.

Mordo o lábio, ainda marcado pelo seu beijo.

Mas ele não menciona.

Como se nada tivesse acontecido.

— Quando continuamos o projeto?

Tobias solta um sorriso torto, aquele tipo de sorriso que carrega um desafio implícito.

— Seu horário de almoço é meu agora. — É uma ordem, não um convite. — Convence o Chefão a adiar seu treino.

Apenas aceno e saio do carro sem responder. Seus olhos me acompanham, atentos, mas ele não diz mais nada.

Tobias é tempestade em forma de homem—linda de se ver, perigosa de se tocar.

E eu?

Bem…

Sempre fui o tipo de pessoa que mergulha no mar revolto sem hesitar. E pela primeira vez, sinto que estou prestes a ser arrastada pela correnteza.

Notas finais
Esse capítulo deixa um quentinho no <3 XOXO