Herança de Avalon

31 O Limiar da Forca


A noite nas Terras Altas não tinha estrelas; tinha o peso de um teto de chumbo que parecia desabar sobre as colinas de Inverness. O vento cortante uivava entre os pinheiros negros, carregando o cheiro de neve e de uma estática mágica tão densa que fazia o ar vibrar. Dois carros blindados pararam no acostamento da estrada de terra, os faróis iluminando a névoa espessa que protegia os domínios do clã Le Fay.

À frente do grupo, Mordred e Cian guiavam Charlotte, Alistair, Eleanor Vancroft. Mas, a menos de quinhentos metros dos portões de ferro do castelo, todos pararam abruptamente. O ar diante deles distorceu. Uma parede invisível, fria e pulsante com runas purpúreas, erguia-se até onde os olhos podiam ver. Era a barreira de isolamento absoluto de Morrigan e Alexander.

Cian estendeu a mão pálida, tocando o vácuo. Faíscas de eletricidade negra estalaram contra seus dedos, arrancando um rastro de sangue de sua pele.

— É uma barreira de sangue e sombras — disse Cian, a voz grave ecoando na escuridão. — Se tentarmos forçar a passagem agora, seremos desintegrados antes de tocar os portões. Precisamos recuar, estudar a estrutura rúnica e encontrar uma brecha.

— Nós não temos tempo! — Alistair Vancroft deu um passo à frente, o rosto vincado pelo desespero de um avô. — Minha neta está lá dentro com aqueles psicopatas!

— Cian tem razão, pai — Charlotte interveio, sua voz surpreendentemente firme, embora seus olhos verdes carregassem a palidez do trauma. Ela deu um passo à frente, a mente trabalhando com as memórias que finalmente se organizavam após o fim da poção. — Eu vi uma estrutura semelhante em um dos grimorios antigos dos Aurelius na casa da vovó. Há um contrafeitiço de dispersão molecular. Ele é capaz de quebrar a barreira, mas drena muita energia e dura apenas alguns minutos. Teremos que ser cirúrgicos. Rápidos.

Alistair olhou para a névoa, engolindo em seco, e depois para a esposa, Eleanor, que tremia de frio e exaustão.

— Então faremos o seguinte: montamos acampamento aqui, sob a proteção das árvores. Descansamos algumas horas. Antes do sol nascer, quando a guarda deles estiver mais baixa, Charlotte quebra a barreira e nós invadimos.

Todos concordaram com um aceno silencioso. O desespero foi temporariamente canalizado na mecânica da sobrevivência. Eles buscaram nos porta-malas as barracas térmicas, cobertas pesadas e os equipamentos de acampamento. Ninguém falava. O som das estacas sendo cravadas na terra congelada era o único testamento de que ainda estavam vivos.

Quando a barraca de Charlotte ficou pronta, o silêncio da solidão a esmagou. Ela se sentou sobre o isolante térmico, encolhendo-se sob uma manta pesada. O peso das últimas semanas — a névoa química, a mentira de Julian, o sumiço de Lyra — desabou de uma só vez. Ela escondeu o rosto nas mãos e começou a chorar. Não era um choro contido; era um pranto silencioso, o corpo inteiro tremendo em espasmos de puro pânico materno.

O zíper da barraca correu devagar. Mordred entrou, trazendo consigo o cheiro de chuva e o calor de seu próprio corpo. Ele não pediu permissão; apenas se acomodou ao lado dela na penumbra, permitindo que Charlotte se apoiasse em seu peito.

— Sinto muito... — ela murmurou entre os soluços, a voz abafada contra o casaco dele. — Sinto muito por tudo, Mordred. Por Siobhan. Pelo enterro que você teve que enfrentar ...

Mordred soltou um suspiro longo, os olhos fixos no teto de lona da barraca. Sua mão subiu para acariciar os cabelos dela, um toque trêmulo, mas protetor.

— Não sinta — ele disse, a voz rouca, despida de qualquer artifício. — Meu casamento com Siobhan foi uma farsa do início ao fim. Uma teia de manipulações onde ela me usava para se manter perto do poder do clã. Eu não sinto a morte dela, Charlotte. A única coisa que me dói, a única coisa que lamento, é aquele menino inocente que ficou para trás na UTI de Londres, pagando o preço pelos pecados dos pais.

Ele se inclinou, colando sua testa à dela na escuridão.

— Eu sinto muito por nós passarmos por isso. Não era para ser assim. Nada disso era para ser assim.

Charlotte soltou uma risada sem graça, um som triste que morreu rapidamente no ar frio. Eles pensaram, ao mesmo tempo, na calmaria dourada de Toscana. Pensaram em como pareciam distantes os dias em que o único problema deles era o peso de seus sobrenomes. Olhar para onde haviam acabado — em uma barraca no meio do gelo, caçando a filha sequestrada — era quase surreal.

— Quando a barreira cair amanhã... quero que você faça uma coisa por mim — Mordred sussurrou, segurando o rosto de Charlotte com as duas mãos. Seus olhos verdes, queimavam com uma urgência sombria. — Assim que encontrar a brecha, pegue a Lyra e corra. Não olhe para trás. Não tente me ajudar. Eu vou lidar com a minha mãe. Eu vou parar o Alexander.

— Eu não quero mais brigas, Mordred — ela implorou, as lágrimas voltando a molhar os dedos dele. — Eu quero que isso acabe. Quero que essa guerra entre nossas famílias termine de uma vez.

— Eu também quero, Lottie. Mais que tudo — ele encostou os lábios na testa dela. — Mas conhecendo a mãe que tenho e o irmão que acabou de voltar dos mortos... eles jamais vão desistir da Lyra sem lutar. Eles não são apenas ambiciosos, Charlotte. Eles são perturbados. Fanáticos. Eles veem a nossa filha como uma coroa, não como uma criança. Eles não vão parar até que um de nós caia.

O silêncio que se seguiu foi o mais denso daquela noite. Era o peso da mortalidade aceita. Diante da possibilidade real de que a manhã seguinte trouxesse o fim de suas vidas, as máscaras e os ressentimentos de anos simplesmente evaporaram, deixando apenas a verdade crua e inevitável de suas almas.

— Eu amo você — Mordred confessou, e a palavra flutuou entre eles como um feitiço definitivo. — Eu tentei odiar você, tentei me afastar, tentaram me fazer te esquecer, mas cada batida do meu coração pertence a você desde o primeiro dia.

Charlotte olhou para ele, o peito doendo com uma intensidade que quase superava o pânico.

— Desde o momento em que conheci você, Mordred... eu sempre fui metade de uma pessoa. Eu passei a vida inteira procurando o que faltava em mim, e só sou inteira quando estou com você. Eu nunca deixei de te amar. Nem por um segundo.

Os lábios de Mordred colidiram contra os dela com a força de uma fratura exposta. Não houve o recuo ou a hesitação que os assombrara por anos; foi um choque violento de dentes, carne e o gosto salgado e quente das lágrimas de Charlotte que ele engoliu com uma urgência ensandecida. A boca dele era uma possessão desesperada, punitiva, que arrancava o ar dos pulmões dela, enquanto as mãos grandes e calejadas de Mordred enterravam-se na nuca de Charlotte, puxando-a com tanta força que seu couro cabeludo ardeu. Havia uma tensão sexual ali que não era apenas desejo; era uma fome visceral, um predador nascido do fundo de seus traumas acumulados, clamando por anestesia.

O chão congelado de Inverness sumiu sob o peso da febre que os atingiu. As roupas pesadas foram arrancadas com pressa ríspida, botões saltando e tecidos rasgando na penumbra, até que a pele nua dela encontrasse a dele. O choque térmico arrancou um arquejo agudo de Charlotte — o peito dela contra o tórax maciço e cicatrizado dele, o calor do sangue de Mordred irradiando como metal em fusão contra a palidez de suas costelas. O contato físico era quase doloroso de tão absoluto. Cada centímetro onde seus corpos se prendiam parecia fundir a pele, uma conexão carnal que limpava a névoa que Julian deixara em sua mente.

Mordred a arrastou para baixo de si, o peso do corpo dele pressionando-a contra o isolante térmico, os quadris pesados afundando entre as coxas abertas de Charlotte com uma possessão brutal. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, os dentes cravando-se de leve na curva de sua clavícula, arrancando um gemido rouco que ele silenciou imediatamente ao prender a boca dela na sua outra vez. Os dedos dela cravaram-se nas costas largas de Mordred, as unhas rasgando a pele dele, buscando ancoragem no meio do abismo.

Quando eles se uniram por inteiro, o impacto fez o corpo de Charlotte arquear violentamente, as costelas subindo em busca de ar enquanto a crueza daquele encaixe perfeito e impiedoso a preenchia. Era um ritmo desesperado, ritmado pelo som do vento lá fora e pelos espasmos dos músculos tensos dele dentro dela. Cada investida profunda de Mordred arrancava um som abafado de sua garganta, um compasso cego de carne contra carne que fazia a lona da barraca tremer. Ele a segurava pelas coxas, elevando o quadril dela para afundar ainda mais, como se quisesse deixar sua marca gravada nos ossos de Charlotte antes que o amanhecer os destruísse.

Eles se moviam no limite da exaustão, os corpos cobertos por uma película fina de suor e eletricidade, os batimentos cardíacos colidindo em uma única arritmia violenta. Não havia delicadeza; era o desespero de dois condenados que caminham em direção à forca e decidem queimar a corda antes que ela aperte o pescoço. No ápice daquela entrega, quando o prazer se misturou à dor do pânico iminente, Mordred travou o corpo contra o dela, os olhos verdes cravados nos dela na escuridão, expelindo o resto de sua alma para dentro de Charlotte enquanto as paredes de seu corpo se contraíam ao redor dele em espasmos incontroláveis. Eles pertenceram um ao outro ali, expostos e sangrando em espírito, cientes de que, se a morte os reivindicasse nas próximas horas, eles teriam gozado do próprio inferno no limiar do abismo.

O calor que restava do corpo de Mordred era a única barreira entre Charlotte e a percepção de que ela estava prestes a caminhar em direção à sua própria ruína. Quando ela abriu os olhos, sua pele ainda retinha a umidade e a febre daquela entrega desesperada na penumbra, o peito dele subindo e descendo contra suas costas como um porto seguro que o mundo tentava inundar. Por um segundo, o cheiro de suor, terra e eletricidade fez o horror do lado fora parecer um delírio. Mas a luz que se infiltrava pela lona não era o anúncio do sol; era o tom azul-escorregadio, cadavérico e gélido que precede a alvorada nas Terras Altas.

O zíper da barraca correu com um estalo seco e violento. A voz de Cian entrou no espaço como uma lâmina de gelo.

— Mordred. Charlotte. Levantem. É o momento.

O choque de realidade foi físico, um estalo que fez os músculos de Charlotte se contraírem. Eles se vestiram com uma ríspida e dolorosa pressa, o silêncio entre os dois carregado com o peso de uma sentença de morte. Ninguém se tocou. Ao saírem para o ar livre, o cenário era de um gótico sufocante. A escuridão parecia ter se condensado nas últimas horas, tornando-se mais espessa, mais pesada — aquele breu absoluto e hostil que antecede o amanhecer, onde a névoa parece ganhar dentes. Alistair e Eleanor já esperavam junto aos carros, os rostos pálidos e rígidos sob o capuz dos casacos, parecendo estátuas de sal moldadas pelo desespero.

À frente deles, a barreira de Morrigan pulsava no vácuo. Não era apenas um escudo; era uma criatura de energia. As runas púrpuras flutuavam no ar congelado, girando e zumbindo com a malevolência de uma colmeia de vespas mecânicas, distorcendo os pinheiros ao fundo como se a realidade estivesse derretendo.

Charlotte deu um passo à frente. O vento cortante de Inverness açoitou seu rosto, mas ela não sentiu o frio. O pânico por Lyra havia sofrido uma mutação final no fundo de seu útero; transformara-se em uma calmaria homicida. Por aquela criança, ela cavaria o solo congelado com as próprias unhas até o centro da terra.

Ela estendeu os braços em direção à parede invisível, os dedos abertos, apontados para o coração das runas. No segundo seguinte, o sangue Aurelius respondeu. Não foi um chamado suave; foi uma ignição violenta. O ouro alquímico em suas veias entrou em combustão, e ela sentiu a essência de Merlim acordar como um gigante adormecido chicoteando seu sistema nervoso de dentro para fora.

Charlotte abriu a boca, e a voz que saiu de sua garganta fez o chão de granito vibrar sob as botas de Mordred. Não era mais uma voz humana; era dupla, tripla, um coro de séculos de linhagem sagrada que arranhava o ar como garras de bronze. Ela começou a recitar as palavras antigas, uma melodia rítmica, arcaica e magnífica, que parecia arrancar o próprio oxigênio do ambiente:

— Aethel-gard... Sol-vane... Ignis aurum in venis... — Suas pupilas sumiram por completo, engolidas por duas esferas de ouro derretido que emanavam filamentos de luz pura. A temperatura ao redor de seu corpo subiu tanto que o gelo sob seus pés começou a chiar e a evaporar em colunas de vapor. — Ex-solvi catenam, frange limen! Ouro de Avalon, quebre o véu!

O efeito foi de um surrealismo avassalador, uma manifestação de poder puro capaz de paralisar os sentidos e suspender o próprio tempo ao redor.

A energia mágica não fluiu de Charlotte; ela foi arrancada, extorquida de seu corpo. Ela sentiu como se ganchos invisíveis e incandescentes tivessem perfurado sua medula espinhal, sugando sua força vital direto da base do crânio. Uma fraqueza brutal cravou-se em seus ossos com a dor de um congelamento imediato; seus joelhos tremeram, e o gosto acre e quente de metal subiu à sua boca. Suas veias saltaram sob a pele do pescoço e dos braços, brilhando em um dourado radioativo, como se seu próprio corpo estivesse prestes a se despedaçar para dar passagem àquela torrente de poder divino. Ela sentia que ia morrer, que sua alma estava sendo espremida até o limite, mas a imagem de Lyra era a âncora que a mantinha de pé.

No ponto exato onde a voz e a luz dourada de Charlotte colidiram com o vácuo rúnico, a barreira de Morrigan começou a gritar. Um som agudo, ensurdecedor, como vidro temperado sendo triturado por uma broca gigante, ecoou por toda a colina de Inverness. Faíscas púrpuras e douradas explodiram no ar, cegando Alistair e Eleanor, que cobriram os rostos.

O tecido da realidade diante deles rasgou-se de cima a baixo com o estrondo de um trovão de verão, revelando uma fenda profunda de luz sólida que expunha, finalmente, o caminho de pedra que levava aos portões escuros do castelo.

A barreira estava rompida. O portal para o inferno dos Le Fay estava escancarado, e a fraqueza devastadora nos ossos de Charlotte era o preço de sangue que dava início ao massacre.

As solas das botas de Mordred ecoaram contra o chão de granito rachado assim que eles cruzaram o limiar do castelo de Inverness. O silêncio que os recebeu não era pacífico; era o silêncio de um túmulo esquecido pelo tempo. Ali dentro, a imponência gótica que Charlotte lembrava de suas piores memórias parecia ter se degradado. A fortaleza assemelhava-se mais a ruínas ancestrais do que a uma residência clânica: grandes pilares de pedra corroídos pelo tempo, paredes nuas onde a umidade desenhava sombras grotescas e um teto alto que parecia engolir a pouca luz do amanhecer.

Contudo, assim que a pesada porta de carvalho se fechou atrás deles, algo mudou. O vento cortante e a nevasca implacável das Terras Altas sumiram, barrados por uma magia invisível. O ar gélido deu lugar a um calor súbito e confortável, quase maternal, que subia das frestas das pedras. Era uma atmosfera densa, que cheirava a resina queimada e terra molhada.

Mordred mantinha o braço firme ao redor da cintura de Charlotte, servindo de sustentação para o corpo dela, que ainda tremia pela exaustão do contrafeitiço. As veias douradas sob a pele da Aurelius lentamente voltavam ao normal, mas a fraqueza em seus músculos era tamanha que ela mal conseguia firmar os pés no chão. Alistair e Eleanor caminhavam logo atrás, os olhos vasculhando cada fresta escura daquela imensidão de pedra, enquanto Cian liderava a marcha com uma calma perturbadora.

Uááá... Uááá...

O som rasgou a quietude das ruínas como uma lâmina quente.

Era o choro de Lyra. Um choro agudo, desesperado, o pranto de uma criança que sentia o perigo ao seu redor.

No mesmo segundo, a fraqueza nos ossos de Charlotte desapareceu, consumida por uma descarga violenta de adrenalina materna. Ela se desprendeu do abraço de Mordred com um sobressalto, quase caindo para frente, mas recuperando o equilíbrio pelo puro instinto de proteção. Seus olhos azuis se arregalaram, as pupilas dilatando na penumbra.

— Lyra! — o grito de Charlotte saiu arranhado por sua garganta seca.

Ela deu três passos rápidos em direção ao centro do grande salão em ruínas, mas parou abruptamente, cobrindo os ouvidos com as mãos. A arquitetura caótica do castelo e a própria magia que impregnava as pedras criaram um efeito acústico aterrorizante. O choro da bebê ricocheteava nas colunas corrompidas, subia pelo teto abobadado e descia pelas escadarias de carvalho ao fundo.

O lamento de Lyra parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo. Vinha do corredor escuro à esquerda, do abismo das masmorras abaixo de seus pés e da galeria superior onde as sombras se moviam. Era um eco labiríntico, uma armadilha sensorial projetada para desorientá-los, fazendo com que o coração de Charlotte batesse na garganta enquanto ela girava no mesmo lugar, completamente perdida no som da própria filha.

Do alto da escadaria em ruínas, um farfalhar de seda escura quebrou a cacofonia dos ecos. Morrigan Le Fay começou a descer os degraus de pedra com uma lentidão calculada, majestosa e terrível, como uma rainha caminhando para sua coroação sobre um rastro de cadáveres. O calor confortável que invadira o castelo parecia emanar diretamente dela, um abraço sufocante e doentio.

Cian deu um passo à frente, os olhos fixos na esposa, a mandíbula rígida. Mas antes que ele pudesse erguer a voz ou a varinha, Morrigan apenas ergueu a mão esquerda e moveu o dedo indicador em um arco sutil, descendente.

O ar acima de Cian pesou toneladas. Um estalo seco ecoou pelo salão quando os joelhos dele colidiram violentamente contra o granito rachado. Ele soltou um arquejo sufocado, os braços trêmulos tentando sustentar o peso invisível que esmagava suas costas, obrigando-o a se curvar até o chão.

— É de uma indelicadeza atroz, Cian, trazer visitas à nossa antiga casa sem me avisar para que eu preparasse uma recepção apropriada — disse Morrigan, a voz macia como veludo e cortante como vidro.

Com um sadismo refinado, ela continuou a descer e a caminhar em direção ao centro do grande salão. A cada passo que Morrigan dava, a gravidade sobre Cian se deslocava, forçando o próprio marido a se arrastar de joelhos e mãos pelo chão de pedra atrás dela, como um animal domesticado e humilhado diante dos olhos de todos. Alistair tentou intervir, mas Mordred o segurou pelo braço, os olhos fixos na mãe, sabendo que qualquer movimento em falso custaria a vida de Cian.

Quando Morrigan atingiu o centro do salão, as sombras atrás de uma coluna de obsidiana se abriram. Alexander emergiu dali. Ele trazia Lyra nos braços. A bebê estava agitada, o choro abafado por uma manta de lã escura, os pequenos punhos lutando contra o tecido.

O estômago de Charlotte revirou em um espasmo físico de dor.

— Me dá a minha filha... Por favor, me dá a minha filha! — o apelo de Charlotte saiu rasgado, os passos instáveis avançando na direção de Alexander, as mãos estendidas no vácuo.

A resposta veio em uma sinfonia cruel: o gargalhar uníssono de Morrigan e Alexander. Duas vozes idênticas na loucura, ecoando pelas ruínas do castelo. O som era agudo, desprovido de qualquer traço de humanidade, um deboche que chicoteou o desespero de Charlotte.

— Você pode apreciar a sua filha uma última vez, Charlotte — Morrigan disse, limpando uma lágrima fictícia do canto do olho, a diversão brilhando em suas pupilas escuras. — Antes que a linhagem dela seja purificada e integrada ao que realmente importa.

Alexander deu um passo à frente, isolando-se da mãe. Seus olhos verdes — os mesmos olhos de Mordred, mas corrompidos por uma obsessão maníaca — fixaram-se em Charlotte. O sorriso dele era magnético, perigoso.

— Ou você pode vir comigo, Lottie — Alexander sussurrou, a voz caindo para um tom íntimo, aveludado, que pareceu vibrar direto na mente dela. — Venha comigo. Aceite o seu lugar. Se você se entregar a mim, nós seremos um clã perfeito. Você nunca mais precisará se separar da Lyra. Eu posso ser tudo o que você precisa. Tudo o que o fracassado do meu irmão nunca conseguiu ser. Venha...

Charlotte parou. Seus olhos azuis encontraram os dele. O ar ao redor dela pareceu desacelerar, o som do choro de Lyra se tornando distante. Havia algo na voz de Alexander, uma ressonância mágica e hipnótica, que agia como o canto de uma sereia. O ouro em seu sangue flutuou, atraído pela promessa de cessar a dor, de acabar com a guerra, de apenas segurar sua filha nos braços. Ela deu mais um passo à frente, com os movimentos fluidos, quase robóticos, os braços caídos ao lado do corpo, os olhos fixos no irmão do homem que amava.

— Charlotte, não! — o grito de Mordred rasgou o transe.

Ele se arremessou para frente, circulando a cintura dela com os braços massivos, puxando-a de volta contra o próprio peito com toda a força que tinha. Charlotte estremeceu nos braços dele, os pés arrastando no chão de pedra enquanto tentava avançar na direção de Alexander, como se estivesse amarrada por fios invisíveis que a puxavam para o abismo.

— Charlotte, olhe para mim! Sou eu! — Mordred rugiu perto do ouvido dela, o corpo inteiro tremendo enquanto a segurava contra o canto da sereia que emanava de seu próprio sangue, personificado no irmão. — Não ouça a voz dele! Ele vai destruir você!

No centro do salão, Alexander assistia à cena com o cenho franzido, os dedos apertando a manta de Lyra com uma possessividade que fez o coração de Charlotte disparar de terror real, quebrando os últimos vestígios do feitiço que ameaçava engoli-la.

O transe estalou e quebrou na mente de Charlotte como vidro temperado. A voz de Alexander perdeu a doçura hipnótica, revelando a carcaça de um homem que cheirava a terra de cemitério e a uma obsessão doentia. Nos braços de Mordred, o corpo dela parou de lutar contra a gravidade e desabou, os pulmões tragando o ar quente e denso do salão que agora parecia sufocá-la.

— Ela não vai a lugar nenhum com você, seu desgraçado — Mordred sibilou, a voz vibrando direto nas costelas de Charlotte, o peito dele subindo e descendo contra as costas dela em uma arritmia violenta de fúria e pânico.

No chão de pedra, Cian soltou um gemido sufocado. A pressão que Morrigan exercia sobre seus ossos aumentou; o som do estalo de uma de suas costelas cedendo sob o peso invisível ecoou pelo salão, um ruído seco e poroso que fez Eleanor soltar um grito abafado, cobrindo a boca com as mãos trêmulas. Alistair tentou erguer a varinha, mas Morrigan sequer olhou para ele. Ela apenas sorriu, o olhar fixo no desespero de Charlotte, saboreando a agonia da Aurelius como se fosse um vinho caro.

— Vocês Vancroft são tão previsíveis — Morrigan desdenhou, os passos lentos ecoando enquanto ela contornava o marido humilhado. — Acham que o amor de vocês é uma espécie de escudo. Mas o amor é apenas o tendão que eu escolho cortar para ver vocês caírem de joelhos.

Alexander deu dois passos à frente, ignorando o rosnado de Mordred. Ele ergueu Lyra um pouco mais alto. A manta escura que cobria a bebê escorregou sutilmente, revelando o topo de sua cabecinha pálida. O choro da menina havia mudado; não era mais o pranto alto de antes, mas um ganido fraco, rouco, a respiração curtinha de uma criança que estava sendo sufocada pelo medo e pela estática mágica que flutuava no ar.

— Última chance, Lottie — Alexander disse, e o sorriso em seu rosto sangrento era uma promessa de destruição carnal. — Venha por conta própria ou eu quebro o pescoço dela aqui mesmo, na frente do seu precioso Mordred, e recolho o sangue Aurelius direto do chão.

O tempo parou. A brutalidade da ameaça atingiu Charlotte como um soco direto no peito, paralisando o seu coração. O mundo ao redor desapareceu, restando apenas aquela manta escura, o choro agoniante da filha e a certeza absoluta de que eles não estavam blefando. Eles iam matá-la. Iam retalhar sua bebê ali mesmo, nas ruínas daquela fortaleza maldita.

A dor emocional de Charlotte cruzou a última fronteira da sanidade humana, transformando-se em uma fúria atômica, molecular.

Ela não gritou. O silêncio que emanou dela foi mais aterrorizante do que qualquer estrondo.

Mordred sentiu o corpo dela congelar em seus braços, seguido por uma descarga elétrica que o arremessou para trás com violência. Ele colidiu contra um pilar de pedra, o impacto arrancando o ar de seus pulmões enquanto ele caía de joelhos, os olhos arregalados de terror pelo que via.

Charlotte começou a flutuar.

Sua pele não parecia mais tecido biológico; ela rachou em linhas geométricas perfeitas, como porcelana fina sendo destruída por um calor interno insuportável. Das fendas profundas de seus braços, de seu pescoço e de suas bochechas, o sangue Aurelius explodiu. Não era vermelho. Era ouro líquido, puro, incandescente e radioativo. As veias de seu corpo acenderam em um brilho metálico que expunha seu esqueleto através da carne, emanando uma luz sólida que cegou Alistair e Eleanor.

O ouro ferveu. As pupilas de Charlotte sumiram por completo, substituídas por dois faróis de ouro derretido que fixaram o olhar em Alexander. O ar ao redor dela subiu a centenas de graus em um segundo; o gelo que cobria as pedras do castelo evaporou instantaneamente em colunas de vapor violento, e as paredes góticas de Inverness começaram a tremer e a rachar de cima a baixo, gemendo sob o peso de uma divindade enfurecida que acabara de ser libertada.

Merlim acordara no sangue da mãe, e ele não aceitaria nada menos que um massacre.

— Afastem-se da minha filha — a voz de Charlotte sobrepôs-se a um coro milenar de sombras e trovões, fazendo o próprio teto de granito do castelo começar a desabar em pedaços sobre eles.

A guerra final havia começado. O inferno de Inverness estava prestes a ser soterrado pelo brilho cego do ouro e pelo cheiro de sangue fresco.