Herança de Avalon
32 O Ouro e o Sangue
A fortaleza de Inverness gemia como um navio de madeira prestes a partir ao meio. O teto de granito começou a ceder, soltando blocos colossais que despencavam em meio a uma chuva de poeira e estática mágica. No centro do caos, Charlotte brilhava como um sol em supernova, o ouro líquido rasgando sua pele em uma erupção de poder incontrolável. A energia pura de Merlim a consumia, fazendo a gravidade distorcer e o ar crepitar com o calor de um holocausto alquímico.
Em meio ao pandemônio, Eleanor Vancroft agiu com a precisão cega do desespero. Ignorando as pedras que caíam ao seu redor, ela avançou pela cortina de vapor e fumaça. Alexander, momentaneamente cego pelo clarão dourado de Charlotte, perdeu o equilíbrio ao ter a visão ofuscada. Em um movimento rápido e letal, Eleanor arrancou Lyra dos braços do rapaz. A manta escura envolveu a neta enquanto Eleanor rolava pelo chão de escombros, protegendo o pequeno corpo com o próprio torso, rastreada pelo instinto feroz de uma leoa.
Atrás deles, o som de carne rasgando e ossos estalando ecoou acima do barulho do teto que desabava. Mordred não pensou. A fúria por ver sua filha ameaçada obliterou qualquer resquício de laço sanguíneo. Ele se jogou contra Alexander. O impacto entre os dois homens idênticos foi brutal, enviando ambos direto para o chão de granito. Não havia magia ou polidez aristocrática; eram apenas dois animais lutando pela sobrevivência e pelo ódio. Mordred enterrou os nós dos dedos no rosto do irmão, sentindo a cartilagem do nariz de Alexander ceder sob o impacto, enquanto o irmão revidava cravando as unhas no ombro de Mordred, rasgando o sobretudo e a pele em um frenesi sangrento.
Livre da contenção mágica, Charlotte aterrissou pesadamente no chão de pedra, o corpo banhado pelo brilho incandescente e radioativo de suas veias abertas. Suas pupilas haviam desaparecido, tomadas por um dourado cego. Diante dela, sem recuar um único centímetro, Morrigan Le Fay emergiu da fumaça. A matriarca mantinha um sorriso sádico e doentio, as mãos escuras tecendo barreiras de sombras que tentavam abafar a luz de Avalon.
O confronto entre as duas foi um turbilhão de feitiços e fúria crua. Rajadas de vento cortante colidiram com ondas de luz sólida, estilhaçando as colunas remanescentes do salão. Mas o abismo na mente de Charlotte não seria preenchido apenas com magia. Com um grito gutural que rompeu o ar, ela ignorou os feitiços, fechou a distância em um segundo e desferiu um tapa violento no rosto de Morrigan, o som estalando como um tiro no ambiente em ruínas.
Antes que a matriarca pudesse contra-atacar, as mãos banhadas em ouro de Charlotte dispararam para a frente, fechando-se ao redor do pescoço pálido de Morrigan. Ela a prensou contra um pilar de obsidiana, os dedos afundando na carne macia. A força sobre-humana do sangue Aurelius bloqueou a traqueia da mulher, sufocando-a.
Morrigan, no entanto, não se debateu. Com o rosto arroxeado pela falta de ar e os olhos injetados, ela inclinou a cabeça e soltou uma gargalhada rouca e sádica, um som asqueroso que vibrou direto contra as palmas das mãos de Charlotte.
— Pode... apertar... sua inútil — Morrigan sibilou, o veneno escorrendo por entre seus lábios trêmulos. — Acha que me matar muda alguma coisa? O seu precioso Julian... ele passava as noites na cama, comendo a Siobhan enquanto você dormia dopada... porque você nunca... nunca foi suficiente para ele...
A revelação sádica e cruel explodiu no cérebro em chamas de Charlotte. O ar pareceu sumir. O pânico e o trauma colidiram com uma força atômica.
— Lottie, não! — a voz de Mordred ecoou do outro lado do salão, enquanto ele imobilizava Alexander no chão coberto de neve e entulho. — Se você sujar as mãos com o sangue dela, você vai se arrepender para o resto da vida! Essa escuridão nunca vai sair de você!
Morrigan, sentindo a hesitação nos dedos trêmulos de Charlotte, forçou um sorriso horripilante, encarando a nora com um ódio absoluto.
— Ele é um fraco igual ao pai, Charlotte. Você é patética — a voz dela arranhou o ar, desafiadora até o último segundo. — Se não esmagar a minha cabeça agora, eu vou me levantar. Eu vou matar você e o meu filho, e vou criar a pequena Lyra para ser um monstro exatamente como eu.
O som do mundo exterior silenciou. O teto desabava, as chamas azuis consumiam as cortinas, mas para Charlotte só existia a voz doentia daquela mulher ameaçando o futuro de sua filha. Ela respirou fundo, puxando o ar quente e fétido do salão para seus pulmões. A sua humanidade, o resto de sanidade que guardava desde Toscana, evaporou.
Seus olhos de ouro derretem se fixaram no rosto da matriarca. Ao lado de seu pé, uma pedra colossal de granito, lascada do teto, repousava no chão. Charlotte soltou o pescoço de Morrigan apenas para se abaixar e agarrar as bordas irregulares do bloco de rocha com as duas mãos ensanguentadas.
Ela ergueu a pedra acima da cabeça. O brilho de suas veias refletiu na face distorcida de Morrigan, que ainda mantinha um sorriso de escárnio.
— Pela minha filha — Charlotte sussurrou, e a frase foi uma sentença definitiva.
A rocha desceu.
Um som ensurdecedor de osso triturado e carne explodindo ecoou pelas ruínas. Charlotte não parou no primeiro impacto. Em um transe de pura carnificina e trauma, ela levantou a pedra e a deixou cair uma, duas, três, perdendo a conta das vezes contra o crânio de Morrigan Le Fay. O impacto final esmagou a caixa craniana da matriarca de forma catastrófica. Numa cena de terror indizível, pedaços de tecido cefálico, massa cinzenta e sangue espirraram com violência para fora do crânio estraçalhado, respingando pelo queixo de Charlotte e invadindo o interior de sua boca aberta em um arquejo mudo de horror e fúria.
O castelo de Inverness silenciou, engolido pela poeira e pela tragédia absoluta.
Mesmo com o que restava de Morrigan completamente estático no chão, Charlotte não parou. O bloco de granito subia e descia em um ritmo mecânico, impulsionado por um transe de pura adrenalina e trauma acumulado. Cada golpe contra os escombros e o corpo destruído da matriarca ecoava pelo salão como um tambor fúnebre. Ela estava cega para o mundo, até que as mãos firmes e desesperadas de Alistair envolveram seus ombros, puxando-a para trás com força.
— Charlotte! Chega! Acabou, minha filha, acabou! — o pai gritava, a voz embargada pelo choque, forçando o bloco de pedra a escapar dos dedos trêmulos dela.
Do outro lado do salão, Alexander soltou um grito horrorizado, um uivo agudo que não parecia humano. Vendo o crânio da mãe reduzido a uma massa disforme no granito, ele debateu-se como um animal ferido, a loucura em seus olhos dando lugar a um desespero absoluto. Mordred, aproveitando o colapso emocional e a distração do gêmeo, usou todo o peso do seu corpo para contê-lo de vez, imobilizando seus braços e prensando-o contra o chão coberto de entulho.
Com a morte de Morrigan, a opressão mágica que esmagava o salão desfez-se instantaneamente. Cian finalmente conseguiu se mexer, respirando com dificuldade enquanto se erguia da pose humilhante em que fora mantido, limpando o sangue e a poeira das roupas com as mãos trêmulas. Alguns metros dali, Eleanor desabou contra uma coluna, apertando Lyra firmemente contra o peito e cobrindo os próprios olhos, recusando-se terminantemente a olhar para o rastro de destruição e para o que a filha fora capaz de fazer.
Aos poucos, o brilho radioativo nas veias de Charlotte começou a se apagar. O ouro alquímico recuou, deixando apenas as rachaduras profundas na pele e a crueza do sangue comum. O calor sufocante do feitiço dissipou-se, sendo substituído pelo ar gélido das Terras Altas que agora invadia o castelo destruído.
Com o corpo inteiro tremendo violentamente sob o choque da adrenalina que evaporava, Charlotte perdeu as forças nas pernas. Ela caiu de joelhos no chão de pedra, com as mãos sujas e o rosto manchado, paralisada pelo peso do que acabara de cometer, enquanto o silêncio fúnebre de Inverness se instalava sobre eles.
A luz do outono em Londres tinha uma qualidade diferente. Não era o cinzento opaco que Charlotte lembrava de seus dias de cativeiro psicológico, mas um dourado pálido e caloroso que filtrava pelas enormes janelas de guilhotina de sua nova casa em Belgravia. O cheiro de bolo de chocolate assando no forno misturava-se ao aroma de café fresco, preenchendo a cozinha de mármore e madeira clara com um conforto doméstico quase palpável.
Na TV da sala, o logotipo do futebol passava sem som, um detalhe comum trazido de suas raízes para ancorar aquela nova realidade. Pela primeira vez em trinta anos, Charlotte sentia o ar entrar e sair de seus pulmões sem o peso de uma ameaça iminente. Ela estava em paz.
O tempo, no entanto, encarregou-se de colocar cada peça em seu devido lugar, moldando o destino daqueles que sobreviveram ao inferno de Inverness.
Julian acabou se tornando apenas uma sombra burocrática. Sem que as autoridades humanas jamais compreendessem os meandros do mundo bruxo, ele foi oficialmente declarado como desaparecido pela Scotland Yard, e seu nome virou apenas tinta esquecida em um arquivo frio de Mayfair.
Enquanto isso, Alexander passou a habitar o silêncio de uma cela acolchoada. Condenado pelo sequestro de Lyra, ele agora passava os dias em um hospital psiquiátrico judiciário de segurança máxima, encarando paredes brancas enquanto tentava, em vão, conjurar uma magia que suas mãos trêmulas e sua mente fragmentada já não conseguiam alcançar.
Morrigan Le Fay recebeu o veredito final da própria terra que tentou dominar. O relatório oficial atestava que a matriarca falecera devido ao desmoronamento catastrófico da estrutura antiga do castelo de Inverness; a rocha usada contra ela acabou soterrada por toneladas de granito, sepultando de vez o monstro sob a história.
Por outro lado, Cian surpreendeu a todos ao se permitir florescer na ausência da esposa. O homem mórbido, curvado e silencioso que antes arrastava os pés pelos corredores escuros deu lugar a alguém de postura firme e presente, que assumiu a transição dos negócios do clã com uma energia totalmente renovada e os olhos focados no futuro, finalmente livre do peso das sombras que o esmagavam.
Charlotte, vestindo um suéter de tricô macio e calça jeans, mexia a massa de brigadeiro na panela até atingir o ponto de enrolar. Da mesa da cozinha, ela observava Lyra. A menina, agora com as bochechas coradas e os cabelos finos começando a crescer, batia palmas e ria enquanto a babá montava blocos coloridos no tapete.
Charlotte sorriu, um gesto leve e genuíno. Pouco depois do massacre nas Terras Altas, ela havia convocado os representantes restantes dos clãs Aurelius e Le Fay. Sua declaração fora curta, fria e irrevogável: Chega de guerra. Chega de linhagens sagradas, de tronos de Avalon ou de grimórios de sangue. Ela abrira mão de qualquer título, de qualquer herança mística. Tudo o que ela queria, e tudo o que exigia, era uma vida comum e humana para si e para a filha.
O som do trinco da porta da frente ecoou, seguido por passos firmes no piso de madeira.
Mordred entrou na cozinha. O casaco pesado trazia o frescor da rua, mas seus olhos verdes — agora limpos de toda a dor e desespero — iluminaram-se ao focar em Charlotte. Em seus braços, ele carregava o pequeno bebê de Siobhan e Julian. O menino, que passara meses lutando pela vida na UTI de Londres, agora estava forte, gordinho e saudável. Ele tinha os olhos expressivos da mãe, mas a estrutura da feição lembrava inegavelmente Julian.
Com um cuidado surpreendente para suas mãos tão grandes, Mordred ajeitou o menino no cadeirão alto perto da mesa, oferecendo-lhe um brinquedo de borracha que o bebê agarrou imediatamente com entusiasmo.
Mordred deu dois passos à frente, diminuindo a distância entre ele e Charlotte. Suas mãos se espalmaram na cintura dela, apuxando para perto com uma firmeza nostálgica, e ele a beijou ternamente. Foi um beijo calmo, demorado, que carregava o gosto do chocolate que ela provara e o calor de uma promessa cumprida. Não havia a urgência da forca ou o desespero do gelo; era apenas o encaixe de duas almas que haviam encontrado o porto seguro.
Eles olharam juntos para a cena: Lyra balbuciando no tapete, o menininho Arthur batendo o brinquedo no cadeirão e os dois ali, dividindo o mesmo teto. Era, sem dúvida, a família mais disfuncional, estranha e remendada que o mundo moderno poderia conceber. Uma colagem de traumas, perdas e sobrenomes malditos.
Mas dava certo.
A calmaria daquela tarde foi suavemente interrompida pelo som da campainha e pelo eco de vozes conhecidas no hall de entrada. Segundos depois, Alistair e Eleanor Vancroft entravam na cozinha, trazendo consigo o vento fresco de Londres e os braços cheios de sacolas. Logo atrás, Cian vinha com um semblante leve, carregando uma garrafa de vinho e ostentando um sorriso que há cinco meses ninguém imaginaria ver em seu rosto.
À mesa, o bolo de chocolate e os doces dividiam espaço com as risadas. Alistair, instalado na cabeceira, gesticulava animadamente enquanto contava uma de suas velhas piadas de bastidores da política dos clãs, fazendo Eleanor revirar os olhos com carinho e Cian soltar uma gargalhada genuína. No cadeirão, o pequeno Arthur balbuciava alegremente, batendo os pezinhos e tentando alcançar um pedaço de pão.
No meio de um breve segundo de silêncio, quando todos recuperavam o fôlego da última risada, um som baixinho e agudo chamou a atenção de todos.
— Ma... ma.
O garfo de Eleanor parou no meio do caminho. Alistair congelou. Charlotte largou a xícara de café, os olhos verdes arregalando-se instantaneamente enquanto olhava para o tapete. Lyra estava sentada, apontando as mãozinhas gordinhas na direção de Charlotte, com os olhinhos brilhando.
— Mama! — ela repetiu, mais firme, abrindo um sorriso banguela.
A sala inteira simplesmente se derreteu. Eleanor soltou um suspiro emocionado, Alistair aplaudiu como se estivesse diante do maior feito da história de Avalon, e Charlotte cobriu a boca, as lágrimas de felicidade inundando seus olhos enquanto se abaixava para pegar a filha no colo e sufocá-la com beijos, sob o olhar profundamente orgulhoso e terno de Mordred.
Mais tarde, o silêncio reconfortante voltou a reinar no andar de cima. Arthur e Lyra finalmente haviam pego no sono, vencidos pelo cansaço de uma tarde cheia de mimos dos avós.
No quarto do casal, Mordred se sentou na beirada da cama king-size, soltando um suspiro longo que vinha do fundo da alma. Ele começou a desabotoar a camisa preta, jogando-a de qualquer jeito no chão, seguida pelos sapatos.
— Lottie, eu não estou nem acreditando — ele disse, a voz rouca de sono, passando a mão pelos cabelos desalinhados. — Depois de três semanas direto acordando de madrugada para ajustar o relógio biológico do Arthur e ninar a Lyra, nós finalmente vamos conseguir dormir oito horas seguidas. O silêncio neste quarto é a coisa mais bonita que eu já vi na vida.
Charlotte, que estava parada na porta do banheiro de suíte, apenas o encarou. Ela usava um pijama confortável, mas seus braços estavam cruzados atrás das costas e havia uma expressão perigosamente estática em seu rosto.
Mordred parou de puxar o lençol, semicerrando os olhos verdes ao notar o silêncio dela.
— O que foi? Um deles acordou? Não me diga que o Arthur perdeu a chupeta de novo.
Sem dizer uma palavra, Charlotte descruzou os braços e estendeu a mão direita para a frente. Entre os seus dedos, um pequeno bastão de plástico branco exibia, de forma cristalina e indiscutível, duas linhas paralelas de um rosa bem forte.
Mordred encarou o objeto. Olhou para as duas linhas. Olhou para o rosto de Charlotte. Voltou a olhar para o teste. O cérebro do temido ex-guerreiro do clã Le Fay pareceu travar por cinco segundos inteiros, processando a informação com a velocidade de um computador antigo.
— Isso... isso é o que eu acho que é? — ele gesticulou, a voz subindo um oitava, perdendo toda a postura.
— É — Charlotte mordeu o lábio inferior, segurando o riso diante da cara de pânico cômico do marido. — Parabéns, papai. O Arthur e a Lyra vão ganhar um irmãozinho. Ou irmãzinha.
Mordred soltou o lençol e desabou de costas no colchão, encarando o teto com os olhos arregalados, enquanto uma risada nervosa escapava de sua garganta. Ele cobriu o rosto com as mãos, murmurando contra as palmas:
— Adeus, oito horas de sono. Foi bom conhecer vocês por exatamente dois minutos.
Charlotte soltou a gargalhada que estava prendendo e caminhou até a cama, jogando-se em cima dele. Mordred a envolveu em seus braços, rindo junto, a beijando com uma leveza que há muito tempo não experimentavam. A família deles continuaria sendo a mais caótica, barulhenta e completamente disfuncional de Belgravia — e nenhum dos dois mudaria absolutamente nada.
A paz e o amor finalmente reinavam naquele espaço protegido de Belgravia. E Charlotte compreendeu, enquanto encostava a cabeça no peito largo de Mordred e ouvia o pulsar calmo de seu coração, que se existia algo parecido com a lendária e sagrada Avalon na terra, não era um lugar mítico ou uma ilha oculta na névoa. Era aquilo. Era o amor deles, reconstruído sobre as ruínas de tudo o que os tentara destruir.
FIM ...
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