Herança de Avalon
30 O Eco do Pendor
A mansão de Belgravia cheirava a cinzas e a um inverno que se recusava a deixar o peito de Charlotte. Quando as portas se abriram para a entrada de Mordred, o som do trinco pareceu um tiro no silêncio do hall. Ele entrou com as botas sujas da lama fresca do cemitério do Norte, o casaco pesado ainda retendo o frio das colinas onde Siobhan fora enterrada.
No centro da sala de estar, Charlotte parecia menor do que realmente era, uma silhueta pálida engolida pelo sofá de linho cru. Seus pais, Eleanor e Alistair Vancroft, flanqueavam-na como sentinelas de uma tragédia.
— Mordred... — o nome saiu dos lábios de Charlotte como um rascunho de som, desprovido de ar.
Ela segurava uma xícara de chá com as duas mãos, os nós dos dedos brancos pela pressão. A porcelana tremia, fazendo o líquido escuro ondular, mas ela não bebeu uma única gota; o calor da xícara era a única coisa que a impedia de congelar por dentro.
— Eu... eu não consigo me lembrar de tudo — ela sussurrou, a voz embargada, os olhos verdes fixos no líquido. — Parece que passei as últimas semanas sob uma névoa. Como se eu estivesse dopada, assistindo à minha própria vida através de um vidro embaçado. E agora... agora que a névoa sumiu, ela não está mais aqui.
Eleanor limpou uma lágrima da bochecha da filha, sussurrando palavras de conforto que morriam no teto alto da sala. Mordred contornou a mesa de centro e sentou-se no sofá oposto. Seus olhos encontraram os de Charlotte. Foi um choque térmico; a conexão elétrica que sempre existira entre eles estalou no ar, mas agora estava soterrada sob camadas de exaustão e pânico.
— Onde ele a levaria, Charlotte? — a voz de Mordred era um estrondo baixo, contido. — Pense. Julian tinha propriedades? Algum refúgio que ele não tenha lhe contado?
— Eu não sei — ela soltou um soluço seco, o peito subindo e descendo em uma arritmia violenta. — Eu achei que o conhecia. Mas o homem que me olhou antes de eu desmaiar... eu não sei quem era.
Alistair andava de um lado para o outro ao fundo, falando ao telefone com a Scotland Yard em tons ríspidos de autoridade e desespero. Charlotte não ouvia. Ela sentia apenas um buraco físico no centro do peito, uma sensação de vácuo que parecia sugar seus pulmões e esmagar seu coração a cada batida. As lágrimas finalmente transbordaram, quentes e silenciosas, lavando a palidez de seu rosto. Ela não sabia — e ninguém ali ousava imaginar — que o homem que ela procurava agora era apenas carne sem vida, apodrecendo nas entranhas de Mayfair.
Charlotte ergueu os olhos pesados para Mordred, notando as olheiras profundas e o vinco de dor em sua testa.
— Você não deveria estar aqui — ela murmurou, a voz quebrada pela culpa. — Você acabou de enterrar Siobhan. Seu filho... seu menino está na UTI de um hospital lutando pela vida. Você tem o seu próprio inferno para cuidar.
Mordred inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. A distância entre eles pareceu encurtar até que o ar ficasse escasso.
— A Lyra também é minha filha, Charlotte — ele disse, a voz caindo para um sussurro visceral que fez o corpo dela estremecer. — Não existe outro lugar no mundo onde eu devesse estar. Eu vou mover o céu e a terra para trazer a nossa menina de volta.
Eles se encararam. Foi um segundo eterno. Havia um amor doentio, indomável, um jogo perdido que eles continuavam jogando porque não sabiam como respirar separados. O desejo de Mordred era atravessar o espaço que os separava, puxá-la para seus braços e protegê-la de toda a escuridão do mundo, mas a gravidade da situação mantinha seus corpos ancorados, rígidos pela dor.
Charlotte limpou o rosto com as costas da mão, tentando acessar a clareza de sua linhagem Aurelius.
— Precisamos de magia, Mordred — ela disse, os olhos brilhando com uma nova urgência. — A polícia não vai encontrar Julian se ele usou runas de ocultamento. Nós precisamos... nós precisamos da sua mãe. Morrigan é uma das feiticeiras mais poderosas que já pisou nesta ilha. Apesar de tudo o que aconteceu entre nossas famílias, ela não deixaria a neta sofrer.
Mordred engoliu em seco. A menção à mãe trouxe de volta a imagem de Morrigan chorando no hospital, despedaçada pelo retorno de Alexander. Ele pegou o celular e discou para a mansão de Mayfair. A ligação demorou a ser atendida por um dos funcionários da governança.
— Arthur? É o Mordred. Minha mãe está em casa? Preciso falar com ela imediatamente.
— Sr. Mordred... — a voz do funcionário do outro lado estava trêmula, assustada. — A Sra. Vane não está. Ela saiu há cerca de uma hora. Estava... estava muito alterada. Parecia com pressa.
Mordred franziu o cenho, o estômago revirando com um novo pressentimento ruim.
— Como assim com pressa? Para onde ela foi?
— Ela ordenou que preparassem o carro principal. Eu a vi colocar algumas malas no porta-malas. Ela mencionou algo sobre retornar ao Norte, para as propriedades antigas... para Inverness. Ela não parecia querer ser seguida, senhor.
Mordred ficou imóvel por um instante, o telefone colado à orelha. Malas? Inverness? No meio do caos da morte de Siobhan e do nascimento do bebê, por que Morrigan fugiria para as Terras Altas com tanta urgência? E por que Alexander não a impedira?
— Entendi, Arthur. Obrigado — ele desligou, o som do clique ecoando como o fechamento de uma armadilha.
Ele olhou para Charlotte, que o observava com uma expectativa dolorosa nos olhos verdes. O suspense no quarto mudou de forma, tornando-se mais denso, mais gótico.
— Ela não está em Londres — Mordred disse, a voz baixa e tensa. — O funcionário disse que ela pegou malas e seguiu para o Norte.
Charlotte deixou a xícara de chá cair sobre a mesa de centro. O líquido escuro espalhou-se pelo mármore como uma mancha de sangue, mimetizando a verdade que nenhum deles conseguia ver. A teia de Morrigan havia se movido para o solo sagrado e maldito do Norte, e o verdadeiro monstro da história acabara de levar a herdeira para o lugar onde todas as mentiras haviam começado.
Alistair e Eleanor trocaram um olhar pesado, uma conversa silenciosa de décadas de casamento que se resumia a uma única certeza: eles precisavam agir, e precisavam fazer isso longe daquela sala onde a dor era densa demais para se respirar.
— Vamos até a central com o detetive — Alistair disse, a voz rígida de quem tenta não desmoronar. — Vou usar cada contato que tenho no ministério. Nós vamos encontrar a nossa menina, Charlotte.
Eleanor beijou o topo da cabeça da filha mais uma vez, um toque trêmulo, antes de seguirem em direção ao hall. O som dos passos dos pais de Charlotte se afastando foi seguido pelo baque surdo da porta principal se fechando.
E então, o silêncio desabou sobre Belgravia. Um silêncio perigoso.
Charlotte e Mordred permaneceram imóveis, separados pela distância exata entre dois sofás e um abismo de anos de mágoa, desejo e traumas acumulados. O ar entre eles parecia saturado de estática, pesado como a atmosfera que antecede uma tempestade de raios. Ela o encarou através dos cílios úmidos, a respiração curta fazendo o peito subir e descender sob a seda da blusa.
Mordred a observava com uma intensidade que chegava a ser violenta. Ele via a mulher que amava acima de sua própria sanidade, livre das poções, com os olhos azuis brilhando com a pureza selvagem que ele conhecera em Toscana. Havia medo ali. Um pânico visceral pela filha desaparecida, mas havia também uma confusão magnética que puxava os dois corpos na mesma direção. Cada célula dele clamava para que ele cruzasse aquele espaço, mas o peso de Siobhan, da UTI, de Julian e do retorno de Alexander agia como uma corrente invisível.
O lábio inferior de Charlotte tremeu. A represa de sua resistência quebrou mais uma vez, e um soluço baixo e doloroso escapou de sua garganta, cortando a distância entre eles.
Foi o limite de Mordred.
Ele se levantou em um movimento fluido, os passos rápidos ecoando no mármore até que ele estivesse de joelhos diante dela, puxando-a para seus braços. Charlotte desabou contra o peito dele. Suas mãos agarraram o tecido do casaco de Mordred com uma força desesperada, enterrando o rosto em seu pescoço. O cheiro dele — ozônio, chuva e a masculinidade indomável dos Le Fay — a atingiu como um soco físico. Ela chorou até que seu peito doesse, sentindo os braços massivos dele a apertarem contra si, como se ele pudesse absorver a agonia dela para dentro de suas próprias veias.
— Eu estou aqui — ele sussurrou contra o cabelo dela, a voz rouca, vibrando direto na pele de Charlotte. — Eu estou aqui, Lottie.
Aos poucos, o choro desesperado diminuiu, transformando-se em uma respiração pesada, compartilhada. Charlotte se afastou o suficiente para encará-lo, mas não se soltou. Seus rostos ficaram a centímetros de distância.
Foi quando a dor e o pânico sofreram uma mutação química, transformando-se em uma tensão sexual alarmante, quase insuportável. Os olhos de Mordred desceram para os lábios trêmulos e entreabertos de Charlotte, e o calor que emanava de seus corpos parecia queimar as roupas que os separavam. A mão dele, grande e calejada, subiu pela nuca dela, os dedos se enroscando nos fios de cabelo loiros, a puxando sutilmente para mais perto.
Charlotte prendeu o fôlego. Ela conseguia sentir o batimento acelerado do coração de Mordred contra suas costelas. O desejo de se perder naquele homem, de esquecer o inferno por um único segundo através do gosto profano e familiar de sua boca, era uma força gravitacional. Eles eram o jogo perdido, a aposta autodestrutiva que nenhum dos dois conseguia largar.
Os lábios dele quase tocaram os dela. Ela conseguia sentir o calor de sua respiração.
Trrrrim.
O som estridente do telefone deixado sobre a mesa lateral, rasgou a bolha de eletricidade como uma lâmina de vidro.
Eles se afastaram abruptamente, ambos ofegantes, os rostos corados pela proximidade quase pecaminosa. Mordred engoliu em seco, se afastando para pegar o aparelho, enquanto Charlotte cobria a boca com as mãos, o coração batendo na garganta.
— Alistair? — Mordred atendeu, a voz mais grave do que o normal devido à adrenalina.
— Mordred! Graças a Deus você atendeu — a voz do pai de Charlotte veio através do viva-voz do carro, acelerada. — O detetive conseguiu. O mandado judicial para o rastreamento em tempo real do celular do Julian acabou de ser acionado pela operadora. Ele esqueceu o GPS do aparelho ligado.
Charlotte se levantou em um salto, se aproximando de Mordred, os olhos arregalados.
— Onde ele está, pai? Onde está o Julian?
— Estamos enviando o sinal direto para o notebook aí da sala, Charlotte. Mas há algo errado. O sinal... ele não está se movendo.
Mordred caminhou rapidamente até o laptop que estava aberto sobre o aparador e abriu o programa de monitoramento da polícia. Na tela de alta resolução, o mapa de Londres se expandiu, dando zoom em um ponto piscante em vermelho.
Charlotte se inclinou sobre o ombro de Mordred, a respiração dele batendo em seu pescoço enquanto ambos fixavam os olhos na tela.
O ponto vermelho brilhava estático, cravado no coração de Mayfair. Mais especificamente, a menos de duzentos metros da mansão dos Vane. A poucos passos da casa de Mordred.
Os dois se encararam. O olhar que trocaram não continha mais o calor do desejo, mas a névoa fria da incompreensão e do terror. Se Julian estava fugindo com Lyra, por que ele iria direto para o território dos Le Fay? Por que o celular do homem que roubara a herdeira Aurelius estava emitindo sinal do quintal do clã inimigo?
A confusão estampada no rosto de Charlotte encontrou o pânico nos olhos de Mordred. Eles sabiam que Morrigan havia saído com pressa para o Norte, mas o rastro de Julian dizia que ele nunca saíra de Londres. O que eles ainda não sabiam, mas começavam a pressentir no cheiro de estática que voltava a invadir a sala, era que o sinal telefônico não era um rastro de fuga.
Era o rastro de um cadáver.
A estrada para o Norte era uma fita de asfalto negro cortando a névoa, engolida pela escuridão das Highlands que se aproximavam. Dentro do carro blindado, o silêncio era interrompido apenas pelo ronco abafado do motor e pelo som rítmico dos limpadores de para-brisa contra o vidro úmido.
No banco de trás, Morrigan Le Fay parecia uma rainha entronizada nas sombras. Ela não piscava. Seus olhos verdes e densos estavam fixos em Lyra, que dormia um sono pesado no bebê-conforto, alheia à velocidade do veículo e ao sangue que mudara o destino de sua família horas antes. Com a ponta do dedo pálido, Morrigan delineou o contorno da bochecha gordinha e rosada da bebê, sentindo a vibração elétrica que emanava daquela pele tão jovem.
— Eu esperei uma vida inteira por você, minha pequena — sussurrou a matriarca, e sua voz carregava o peso gótico de séculos de profecias não cumpridas. — Uma vida inteira de casamentos arranjados, de linhagens fracas, de filhos que não compreendiam o verdadeiro propósito do poder. A herança de Avalon, a magia que vai reescrever a nossa história... não pertence a Mordred, nem pertencia àquela estúpida da Siobhan. Pertence a você, Lyra. Você é a nossa coroa.
No banco do motorista, as mãos que comandavam o volante eram firmes, adornadas por abotoaduras de prata que reluziam suavemente no painel escuro. Alexander olhou pelo retrovisor interno, e um sorriso perfeitamente alinhado, mas desprovido de qualquer calor humano, cortou suas feições.
— É uma bela visão, não é, mamãe? — a voz de Alexander ecoou pelo habitáculo com a fluidez de um predador satisfeito. — O passado e o futuro no mesmo banco. Quando toda essa poeira baixar em Londres, quando a polícia arquivar o desaparecimento daquele verme do Julian como um acerto de contas qualquer... eu finalmente poderei ter o que me cabe. Terei você comandando o nosso clã e a filha que o destino moldou para ser minha e a mãe dela.
Morrigan ergueu os olhos do bebê, encontrando o reflexo do primogênito no espelho. Ela revirou os olhos com uma condescendência fria, embora o tom de sua voz revelasse a indulgência doentia que guardava apenas para ele.
— Eu juro que não compreendo — a matriarca desabafou, ajeitando a gola de seu casaco de pele escura. — Não entendo o que aquela garota Vancroft tem de tão especial. Passei os últimos anos tentando apagar o rastro dela, e ainda assim, os meus dois filhos parecem ter uma obsessão ridícula por ela. Mordred se destruiu por aquela sonsa, e você... você passou quinze anos fingindo ser um fantasma, a observando de longe, apenas para voltar reivindicando a cria dela. O que há com Charlotte que cega os homens Le Fay?
Alexander soltou uma risada baixa, um som gutural que parecia vibrar na estática do carro. Ele mudou a marcha com precisão enquanto o carro começava a subir as primeiras colinas de Inverness.
— É a pureza, mamãe — Alexander respondeu, os olhos verdes brilhando com uma intensidade maníaca através do espelho. — O mundo é um lugar cinzento e podre, mas a Charlotte... ela é intocada. O coração dela é um santuário. E, sejamos honestos, a genética dela é impecável. Misturar o sangue Aurelius ao nosso foi o único acerto que aquele idiota do meu irmão teve em toda a vida. Eu só vim recolher os frutos da plantação dele.
Morrigan soltou um sopro de riso, o clima tenso dentro do veículo se dissipando em uma cumplicidade profana.
O comboio de viaturas cortou as ruas de Mayfair sem sirenes, mas a estática dos rádios policiais e o brilho intermitente das luzes azuis rasgavam a névoa com a violência de um presságio. No banco de trás do primeiro carro, Charlotte apertava as mãos contra os joelhos, o tecido de sua calça amassado sob a pressão de seus dedos trêmulos. Ao lado dela, Mordred mantinha o olhar fixo no painel, a mandíbula tão travada que os músculos de seu rosto pareciam pedras.
Duas quadras antes de chegarem à propriedade dos Vane, os faróis do veículo policial iluminaram um sedã cinza estacionado de forma irregular, com duas rodas sobre a calçada.
— É o carro do Julian — Charlotte engasgou, a voz subindo uma oitava, os olhos arregalados de terror.
A polícia cercou o veículo imediatamente. Duas batidas secas no vidro fumê revelaram o óbvio: o carro estava vazio. Sem cadeirinha de bebê. Sem vestígios de Lyra. Apenas o silêncio de metal frio.
Quando a comitiva invadiu os portões de ferro da mansão Vane, o cenário que encontraram era de pura estupefação. Os funcionários da governança recuaram pelos corredores de mármore, os rostos pálidos de susto diante dos distintivos e das armas empunhadas. No centro do grande salão, Cian Vane descia as escadas de carvalho, vestindo um robe de seda escura, os olhos semicerrados em uma mistura de irritação e uma frieza aristocrática.
— Que profanação é essa, Mordred? — a voz de Cian ecoou, pesada. — A polícia na minha casa?
Alistair Vancroft deu um passo à frente, o rosto vermelho de fúria e desespero.
— Onde está o Ashcroft, Cian? Ele roubou a minha neta. O sinal do celular dele deu exatamente nos limites da sua propriedade. Onde ele está se escondendo?
Cian permaneceu imóvel. Seus olhos vasculharam o ambiente, captando o desespero de Charlotte e a rigidez de Mordred. No fundo de sua mente sagaz, as peças se encaixaram com a precisão de uma guilhotina. Ele se lembrou da partida abrupta de Morrigan com as malas. Lembrou-se do olhar de Alexander. Ele sabia. Sabia que Morrigan fizera algo hediondo, e que se Julian Ashcroft estivesse ali, ele não estaria respirando.
Mas Cian olhou para os oficiais armados ao redor e manteve a boca fechada. Ele conhecia a esposa que tinha; sabia que se revelasse a verdade ali, Morrigan seria capaz de estripar aqueles homens comuns antes mesmo que eles conseguissem puxar o gatilho. A magia Le Fay não se curvava à lei dos homens.
— Vasculhem tudo — Cian ordenou aos policiais, a voz firme e cooperativa. — Não temos nada a esconder. Se o celular desse homem está aqui, ele deve ter deixado cair no jardim.
Duas horas se passaram. O jardim foi revirado, as salas revistadas, e nada foi encontrado além do aparelho telefônico de Julian, jogado sob uma sebe de buxinho perto do muro lateral, quebrado e sem digitais. A polícia, frustrada e sem pistas concretas de Julian, começou a recuar, deixando apenas a promessa de alertas em portos e aeroportos.
Quando a última viatura cruzou os portões, restaram apenas Cian, Mordred e Charlotte no imenso salão. Charlotte desabou em uma cadeira de veludo, o choro contido finalmente explodindo em soluços que ecoavam como lamentos de morte.
— Ele não está aqui... ele não está aqui... — ela repetia, puxando os próprios cabelos. — Onde ele colocou a minha filha?
Cian caminhou até o filho e a filha dos Vancroft, a expressão despida da máscara que usara para as autoridades. Sua voz desceu para um tom sombrio e baixo.
— Julian não fugiu com Lyra, Charlotte — disse Cian, olhando fixamente nos olhos azuis dela. — Minha esposa, Morrigan, saiu daqui com malas há algumas horas. Ela estava alterada. Se o celular daquele homem ficou para trás no meu jardim, é porque ele pagou o preço por ousar negociar com ela. Morrigan está com a menina.
Mordred deu um passo à frente, o peito subindo e descendo.
— O funcionário me disse que ela falou sobre o Norte.
— E ela foi — confirmou Cian, o rosto vincado de linhas profundas. — Ela levou a criança para o único lugar onde ela acredita que o clã está seguro do mundo exterior. Para as propriedades antigas. Para Inverness.
Ao ouvir a palavra Inverness, Charlotte sentiu o sangue congelar em suas veias. Uma náusea física a atingiu, uma tontura que a fez se segurar nos braços da cadeira. As memórias da floresta gélida, da caverna úmida, do cheiro de terra e do trauma de quase perder a vida e a sanidade voltaram como facas em sua carne. O Norte era o seu inferno pessoal. O lugar onde ela fora quebrada.
Mas ela olhou para as próprias mãos, que ainda guardavam o fantasma do peso de Lyra, e o medo foi engolido por uma fúria materna que ultrapassava qualquer magia.
Ela se levantou, as pernas trêmulas, mas os olhos brilhando com o azul elétrico dos Aurelius.
— Então nós vamos para lá — Charlotte disse, a voz cortando o ar condicionado da sala como uma lâmina. — Se ela levou a minha filha para o inferno, é para o inferno que nós vamos viajar. Todos nós.
Mordred a encarou. O ar entre os dois não era mais feito de desejo contido ou de hesitação; era puro oxigênio inflamável, a promessa silenciosa de que a destruição seria mútua ou de que nenhum dos dois sairia vivo dali. No silêncio que engoliu o salão de Mayfair, a fragilidade que os afastava ruiu, dando lugar a uma urgência brutal, implacável.
O tabuleiro havia mudado de mãos. A caçada saía do asfalto vigiado de Londres e mergulhava na escuridão ancestral e selvagem das Terras Altas. O sangue que Julian Ashcroft deixara escorrer no tapete daquela mansão era apenas o prelúdio; o verdadeiro massacre estava prestes a congelar na neve de Inverness.
Charlotte ajustou o casaco com as mãos firmes, os olhos fixos na escuridão além da janela, a mente despida de qualquer rastro de submissão. Ela não ia esperar pelo amanhecer.
— Vamos — ela sibilou.
E o inferno que se preparasse, porque eles estavam a caminho.
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