Herança de Avalon

25 O Batismo de Cinzas e Vidro


O helicóptero já era apenas um zumbido distante e uma luz piscante que sumia no horizonte de cinzas, mas o vácuo que deixou para trás na clareira de Inverness era insuportável. A neve, antes imaculada, agora era um campo de batalha de pegadas profundas e manchas escarlates que o frio insistia em congelar.

Mordred e Alexander se encaravam. A semelhança entre eles era uma maldição visual — o mesmo maxilar angulado, os mesmos ombros largos, mas enquanto Mordred exalava o calor febril da fúria, Alexander parecia uma estátua de gelo trincada.

— Você fala de abandono? — Alexander rosnou, o som saindo como um estalo de osso quebrado. — Eu fui arrancado do mundo! Eu vivi entre as raízes das árvores enquanto você dormia em lençóis de seda em Mayfair!

— Você escolheu o buraco onde se escondeu! — Mordred rebateu, e não foi a magia que falou primeiro, mas o punho.

Ele avançou como um animal selvagem. Não havia a elegância dos duelos de bruxos que o Conselho ensinava; era uma briga de rua, visceral e feia. O soco de Mordred atingiu o maxilar de Alexander com um estalo seco que ecoou pela floresta. Alexander cambaleou, o sangue quente sujando a neve, mas ele revidou com uma cabeçada que fez o mundo de Mordred girar em faíscas brancas e vermelhas.

Eles caíram juntos na neve, dois corpos de linhagem real rolando na sujeira, dentes e unhas. Alexander cravou os dedos no pescoço de Mordred, os olhos dilatados por uma inveja que fermentara por anos no escuro.

— Eu vi você com ela! — Alexander sibilou, o hálito com cheiro de ferro e sândalo. — Eu sentia o prazer de vocês pelo espelho! Cada toque, cada promessa... eu merecia aquela luz, Mordred! Eu sou o primogênito!

Mordred rugiu, sentindo o oxigênio escassear. Ele invocou as runas em seus braços. Elas não brilharam com a luz suave dos feitiços de proteção; elas queimaram em um verde tóxico, derretendo a neve ao redor deles e criando uma nuvem de vapor sufocante. Com um grito de puro ódio, ele desferiu uma descarga de energia bruta que arremessou Alexander para longe, fazendo seu corpo colidir contra o tronco do carvalho centenário.

Alexander cuspiu sangue e levantou-se com dificuldade, rindo de forma histérica. Sua magia, alimentada pelo ressentimento, manifestou-se como sombras sólidas que emergiam do chão como tentáculos de piche.

— Você acha que é forte porque tem o amor dela? — Alexander ergueu as mãos, e os galhos das árvores ao redor começaram a se contorcer, transformando-se em lanças de madeira negra. — O amor é uma fraqueza que eu não tenho mais. Eu sou o que resta quando a esperança morre.

As lanças dispararam. Mordred girou no ar, evocando um escudo de fogo druídico que estilhaçou a madeira em brasas, mas Alexander já estava sobre ele novamente. O embate mágico era uma sinfonia de estalos e explosões que iluminavam a floresta em tons de esmeralda e violeta.

O ar cheirava a ozônio, carne queimada e o odor doce e doentio da magia proibida.

Alexander conseguiu atingir Mordred com um feitiço de compressão que estalou as costelas do irmão. Mordred caiu de joelhos, o rosto pressionado contra o gelo, sentindo o gosto da própria derrota. Alexander aproximou-se, a bota esmagando a mão de Mordred na neve.

— Sabe o que dói mais? — Alexander sussurrou, inclinando-se, o rosto distorcido. — É saber que, mesmo que você me mate, eu já plantei a semente da dúvida nela. Ela viu você com Siobhan. Ela sentiu a sua aceitação. Você pode ter o sangue de Merlim ao seu lado, mas o seu coração pertence à mentira que Morrigan criou.

Mordred olhou para cima. Seus olhos não eram mais humanos; eram fendas de um verde incandescente, o legado sombrio de Morgana Pendragon assumindo o controle.

— Você errou em uma coisa, Alexander — Mordred disse, a voz soando como se mil vozes falassem ao mesmo tempo. — Eu não sou o filho de ouro da nossa mãe. Eu sou o pesadelo que ela criou para manter o mundo na linha.

Mordred agarrou o tornozelo de Alexander com uma força sobrenatural. O calor que emanava de suas mãos era tão intenso que a calça de Alexander começou a fumegar. Com um movimento violento, Mordred o derrubou e subiu sobre ele, desferindo uma sequência de socos carregados de magia explosiva. A cada golpe, uma luz verde iluminava a clareira, revelando o rosto ensanguentado de Alexander e a expressão de possessão de Mordred.

Não era mais uma luta por ideais. Era a destruição mútua de dois seres que compartilhavam o mesmo DNA e o mesmo vazio.

— Você... nunca... terá... a minha... vida! — Mordred gritava a cada impacto, o som de carne contra carne misturando-se aos gritos agônicos de Alexander.

Alexander, em um último esforço, convocou uma explosão de sombras que os separou, arremessando ambos em direções opostas. O silêncio voltou à clareira, pesado e denso. Alexander estava caído perto de um riacho congelado, respirando com dificuldade, a magia em torno dele falhando como uma lâmpada queimada.

Mordred levantou-se, cambaleando, o peito subindo e descendo. Ele olhou para o irmão — o menino que ele mal lembrava, o homem que tentara roubar sua alma. A fúria ainda estava lá, mas o vazio era maior.

— Vá embora — Mordred disse, a voz baixa, carregada de uma exaustão que chegava aos ossos. — Se eu te vir de novo, se você chegar a um quilômetro de distância de Charlotte ou da minha filha, eu não vou usar magia. Eu vou arrancar o seu coração com as minhas próprias mãos.

Alexander olhou para ele, um sorriso de sangue nos lábios. — Nós somos iguais, Mordred. Você só ainda não percebeu que a sua luz é apenas uma sombra que ainda não escureceu.

Com um movimento fluido e sombrio, Alexander dissolveu-se na névoa, deixando Mordred sozinho na clareira ensanguentada, com o cheiro da filha ainda impregnado em sua pele e o peso de uma guerra familiar que apenas começou a cobrar seu preço.

Mordred caiu de joelhos, as mãos enterradas na neve, soltando um grito de agonia que as Highlands guardariam para sempre.

Mordred estava de joelhos na neve, o grito de agonia ainda ecoando entre os carvalhos, mas o vazio que se seguiu foi preenchido por um pânico gélido e motorizado. Ele não tinha mais magia; Alexander a drenara, a luta a esgotara. Ele era apenas um homem, um homem quebrado, cujas mãos ainda estavam manchadas com o sangue de Charlotte e o verniz viscoso do nascimento da filha.

Ele se levantou, os ossos protestando com estalos secos, e cambaleou em direção ao carro. Cada passo era uma batalha contra a gravidade. Ele entrou no veículo, o cheiro de Charlotte ainda impregnado — um perfume de sândalo e agora, o odor metálico e visceral da vida que quase se esvaiu.

A viagem de Inverness a Edimburgo foi um borrão de asfalto cinzento e faróis que cortavam a madrugada escocesa como lâminas. O velocímetro marcava velocidades que desafiavam a física, mas para Mordred, o carro parecia rastejar. A culpa, densa e asfixiante como o nevoeiro das Highlands, sentou-se ao lado dele no banco do passageiro.

Eu a deixei sozinha.

A imagem de Charlotte desfalecendo na neve, a pele tornando-se translúcida como porcelana sob o frio, repetia-se em sua mente em um ciclo torturante. Ele lembrava da sensação térmica da vida dela saindo do corpo, o calor que emanava dela sendo engolido pela noite de Inverness. E a menina... aquela criatura minúscula, cujo choro fora a única nota de esperança em meio ao caos. Ele lembrava do peso quase inexistente dela em seus braços, da fragilidade que parecia poder se quebrar com um suspiro.

— Lute, Charlotte. Por favor, lute — ele sussurrava, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante.

Ele se culpava por cada escolha. Por não ter quebrado o feitiço de Morrigan mais cedo. Por ter permitido que Siobhan e Julian orbitassem suas vidas como abutres. Por Alexander. A existência do irmão era a prova viva de que tudo o que Mordred acreditava ser sua vida era uma construção de vidro prestes a estilhaçar.

A cada quilômetro que o aproximava de Edimburgo, a conexão de sangue latejava em sua têmpora. Ele sentia a fraqueza de Charlotte, o batimento cardíaco dela que era como o bater de asas de um pássaro ferido.

Ao entrar nos limites da cidade, o sol começava a surgir, um disco pálido e frio que não trazia calor. Mordred estacionou o carro de qualquer jeito em frente ao hospital, as pernas tremendo tanto que ele quase caiu ao sair. Ele não era mais o herdeiro imponente dos Le Fay; era um sobrevivente de um desastre que ele mesmo, em sua omissão, ajudara a criar.

Ele atravessou as portas automáticas do Hospital Real, o casaco ainda sujo de terra e sangue, os olhos verdes opacos pela exaustão. O mundo estéril do hospital, com seus bipes rítmicos e luzes fluorescentes, parecia uma afronta à violência da floresta.

— Onde ela está? — ele exigiu na recepção, a voz rouca, carregada de uma autoridade que vinha do desespero absoluto. — Charlotte Vancroft?

Ele sabia que Julian estaria lá. Sabia que o confronto seria inevitável. Mas enquanto subia as escadas em direção à UTI, a única coisa que importava era o fio invisível que ainda o ligava ao peito de Charlotte. Ele precisava dizer a ela que a mentira acabara. Que, entre o gelo de Inverness e as luzes de Edimburgo, ele finalmente entendera que não havia linhagem, coroa ou feitiço que valesse mais do que o próximo suspiro dela.

O corredor da UTI parecia subitamente apertado, as paredes brancas reverberando uma tensão que não era apenas emocional, mas vibracional. Alistair e Eleanor Aurelius Vancroft permaneciam rígidos. Como descendentes diretos da linhagem de Merlim, eles sempre carregaram sua magia como um segredo de Estado, uma armadura invisível sob seus trajes aristocráticos. Para eles, Julian era o porto seguro humano — o genro comum, previsível e útil que manteria Charlotte ancorada na realidade mundana, longe das tempestades de sangue ancestral.

Ao verem Mordred surgir como uma visão do próprio inferno — coberto de terra, sangue seco e fuligem mágica —, Alistair deu um passo à frente, as mãos cerradas, sentindo o ar crepitar com a energia Le Fay que emanava do rapaz.

— Julian, afaste-se — ordenou Alistair, a voz baixa e autoritária, seus olhos brilhando com uma centelha dourada que apenas um iniciado reconheceria. — Você não entende com o que está lidando. Este homem é...

— Eu sei exatamente com o que estou lidando, Alistair — Julian interrompeu, a voz fria e desprovida do habitual respeito submisso.

Eleanor paralisou, a mão voando à boca.

— Julian, do que você está falando? Você está chocado pelo estresse, querido, não sabe o que diz...

— Eu sei sobre Avalon. Sei sobre as runas. Sei sobre a linhagem que vocês tanto escondem — Julian encarou os sogros, e pela primeira vez, o humano parecia o mais estável naquela sala. — Quando Charlotte sumiu em Craig Dun, quando o mundo de vocês colapsou em segredos que eu não conseguia decifrar... foi o Mordred quem me contou.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Alistair e Eleanor travaram, encarando Mordred como se ele tivesse cometido o maior sacrilégio possível: quebrar o Estatuto de Sigilo para um humano.

— Você contou a ele? — Alistair rugiu, voltando-se para Mordred. — Você expôs séculos de história a um... um estranho?

Mordred, que acabara de desabar na cadeira de plástico, soltou um riso seco e exaurido. Ele não tinha mais forças para as etiquetas da elite mágica.

— Eu não contei a um estranho, Alistair — Mordred murmurou, a cabeça pendida para trás contra a parede gélida, os olhos fechados. — Eu contei ao homem que estava procurando a mulher, sua filha e a mãe da minha filha. Enquanto vocês faziam rituais de proteção em salões fechados, ele estava na lama comigo. Ele merecia saber por que o mundo dele estava pegando fogo.

Julian permaneceu ao lado de Mordred, uma aliança bizarra entre o herdeiro das sombras e o homem comum.

— O médico virá a qualquer momento — Julian disse, tentando trazer a conversa de volta à realidade estéril do hospital. — Parem de brigar por linhagens. Minha esposa e aquela criança são as únicas coisas que importam agora.

Alistair olhou para o estado deplorável de Mordred — os cortes profundos no rosto, as mãos inchadas da luta física e o cheiro de magia queimada.

— Por que você está assim? — perguntou Eleanor, a voz suavizando pela primeira vez ao notar a dor visceral no rosto do rapaz. — O que aconteceu na floresta?

— Meu irmão — Mordred suspirou, sentindo o peso do mundo esmagar seus ombros. O sono o puxava como uma correnteza. — Alexander... ele nunca morreu. Ele a levou para uma caverna, tentou reescrever a mente dela. Tivemos um acerto de contas que deveria ter acontecido há décadas.

Ele abriu os olhos por um segundo, olhando para os pais de Charlotte com uma melancolia devastadora.

— Sinto muito — sussurrou ele. — Mais uma vez, a minha família foi o monstro na vida da filha de vocês. Eu falhei em protegê-la do meu próprio sangue.

Mordred fechou os olhos novamente, o corpo entrando em um estado de exaustão profunda, enquanto os Vancroft, agora despidos de seus segredos diante de Julian, vigiavam as portas da UTI como sentinelas de um reino que estava prestes a mudar para sempre. As primeiras 24 horas haviam começado, e o destino de Merlim e Le Fay dependia agora de bipes eletrônicos e da vontade de viver de uma mulher que já havia enfrentado o impossível.


O corredor da UTI, mergulhado em um silêncio hospitalar que parecia amplificar o som de cada respiração, foi subitamente cortado pelo abrir de portas automáticas. O cirurgião-chefe, ainda vestindo o avental azul marcado pelo cansaço de uma noite inteira, caminhou em direção ao grupo. Seu olhar alternava entre os Vancroft, a frieza de Julian e o estado deplorável de Mordred.

— Ela está acordada — disse o médico, e a frase caiu no ambiente como um suspiro coletivo de alívio que, em segundos, transformou-se em uma nova camada de tensão. — O quadro estabilizou mais rápido do que esperávamos. Ela é forte. Podem entrar para vê-la, mas um de cada vez. Aos poucos.

Alistair e Eleanor deram um passo à frente, mas o médico ergueu a mão.

— Quanto à bebê, ela está na neonatal. O acesso é restrito. Somente a mãe, assim que tiver condições de ser levada até lá, e o pai.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Julian e Mordred se olharam. A pergunta pairava no ar como uma névoa espessa: quem ocuparia aquela posição naquele momento? Perante a lei dos homens e os registros do hospital, Julian era o pai. Perante o sangue, as runas e a verdade visceral da floresta, era Mordred. O clima tornou-se eletrizante, um embate de direitos e segredos que nenhum deles estava pronto para resolver ali.

O médico, notando o estado de Mordred — o rosto cortado, a camisa empapada de sangue seco e os olhos injetados — franziu a testa.

— Senhor Le Fay, creio eu? O senhor precisa passar pelo atendimento imediatamente. Esses ferimentos não podem esperar. Se não cuidar deles agora, não terá permissão para circular por esta ala.

Mordred olhou para as próprias mãos, vendo a sujeira de Alexander e o sangue de Charlotte sob as unhas. Ele sentiu o peso da exaustão finalmente vencer a adrenalina. Ele não queria sair dali, mas sabia que, se desmaiasse naquele corredor, perderia qualquer chance de protegê-las.

— Eu vou — murmurou Mordred, a voz rouca, lançando um último olhar carregado de aviso para Julian. — Mas eu volto.

Ele se afastou, cambaleando em direção à ala de curativos, deixando o caminho livre. Julian, recompondo a máscara de marido dedicado e porto seguro, respirou fundo e caminhou em direção ao quarto de Charlotte.

Quando ele empurrou a porta, o som dos monitores era o único ruído. Charlotte estava pálida, quase fundida aos lençóis brancos, mas seus olhos estavam abertos. Ao ver Julian cruzar o umbral, um sorriso fraco e genuíno curvou seus lábios secos. Para ela, naquele momento de choque e quase morte, Julian não era o homem das mentiras ou das linhagens; ele era a estabilidade, o mundo onde as coisas não pegavam fogo, a âncora que a impedia de flutuar de volta para a escuridão de Inverness.

— Julian… — ela sussurrou, estendendo a mão trêmula.

Julian segurou a mão dela, sentindo a pele fria, e sorriu de volta. Mas, ao fundo, através do vidro que separava o quarto do corredor, ele viu Alistair e Eleanor observando com expressões que não eram de alegria, mas de puro cálculo.

Charlotte sorria para o marido, mas seu coração ainda batia no ritmo das contrações que Mordred aparara com as mãos. Ela sentia a segurança de Julian, mas o cheiro de ozônio de Alexander ainda assombrava seu olfato.

A verdadeira guerra não seria travada com magia, mas com o que aconteceria quando Charlotte descobrisse que o seu "porto seguro" estava disposto a tudo para manter o herdeiro de Merlim longe do verdadeiro pai.

E, na ala de curativos, Mordred sentiu uma pontada no peito. Não era um ferimento físico. Era o fio da conexão com Charlotte sendo esticado até o ponto de ruptura. Algo estava mudando. E, desta vez, ele não teria o elemento surpresa a seu favor.