Herança de Avalon

26 Abismo de Vidro


O quarto 402 do Hospital Real de Edimburgo tornou-se uma cela de luxo revestida de silêncio e assepsia. Charlotte via o mundo através de um véu de analgésicos e exaustão, mas a memória da caverna permanecia nítida como uma cicatriz recente: o cheiro de mofo, o calor das chamas mágicas de Alexander e o peso do próprio corpo sendo carregado para a liberdade.

O Inspetor Miller entrou no quarto pela terceira vez naquela semana. Na primeira visita, logo após o resgate, ele fora enfático: “Vamos caçar esse homem, Sra. Vancroft. Ninguém escapa ileso de um sequestro e de uma tentativa de homicídio contra uma recém-nascida.”

Agora, o rosto de Miller era uma máscara de desconforto. Ele olhou para Julian, que estava sentado ao pé da cama, e depois para Mordred, que permanecia nas sombras do canto do quarto, com o braço imobilizado e o olhar perdido.

— Sra. Vancroft... vasculhamos cada centímetro das coordenadas. — Miller limpou a garganta, evitando o olhar dela. — Enviamos cães farejadores, equipes de busca térmica e geólogos. Não existe caverna, senhora. A única abertura que encontramos naquelas rochas era uma fenda estreita... pequena demais para um homem. Caberia apenas a senhora, encolhida. E não havia sinais de fogueiras, nem inscrições, nem... Alexander.

— Você está mentindo! — O grito de Charlotte rasgou a garganta seca. — Eu dormi naquela cama de pedra! Eu bebi a água dele!

— O que encontramos foi a senhora, sozinha, em um estado avançado de hipotermia e delírio — continuou Miller, com uma suavidade que doía mais que um tapa. — A ciência chama isso de "espaço de refúgio mental". Seu cérebro criou um cenário para você sobreviver à dor do parto solitário no gelo.

Charlotte sentiu o quarto girar. Ela olhou para Julian, esperando que ele a defendesse, mas o marido apenas apertou sua mão com uma força que parecia sufocar sua circulação.

— Eu disse a você, meu amor — Julian sussurrou, a voz como seda fria. — A mente faz coisas terríveis quando o corpo está morrendo.

Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo metálico. Cian Vane, o pai de Mordred, entrou no quarto. Sua presença era como um carvalho antigo, mas ele parecia vergado por um peso insuportável. Ao ver o filho e Charlotte, ele não trouxe esperança, mas o golpe final na sanidade dela.

— Charlotte... Mordred... — Cian começou, a voz trêmula. — Eu ouvi os relatórios da polícia. Eu precisava ver com meus próprios olhos os registros de família que eu escondi por tanto tempo.

Mordred se aproximou, o rosto pálido. — Pai, eu lutei com ele. Eu senti o sangue de Alexander nas minhas mãos!

Cian fechou os olhos, e uma lágrima pesada escorreu por seu rosto marcado. — Você lutou contra um fantasma, meu filho. Alexander... o seu irmão mais velho... ele nunca sumiu. Quando ele percebeu que não conseguiria controlar a própria magia instável, ele se entregou à escuridão. Ele se matou há quinze anos, Mordred. No antigo chalé de caça. Eu mesmo encontrei o corpo. Eu o enterrei em solo não sagrado para que Morrigan não soubesse do fracasso da linhagem.

— NÃO! — Charlotte berrou, tentando se levantar, mas a dor na bacia a puxou para baixo como correntes de ferro. — Ele me tocou! Ele falou sobre vocês!

— Alucinações auditivas são comuns em casos de choque térmico — disse Julian, olhando para Cian com um entendimento tácito que fez o estômago de Charlotte revirar. — Cian, obrigado por esclarecer a verdade. É melhor que eles saibam agora do que vivam perseguindo sombras.

Charlotte começou a tremer. A realidade estava derretendo. Se Alexander estava morto, quem a carregara? Quem Mordred espancara na neve? A loucura começou a rastejar por sua mente como uma névoa preta.

— E a minha filha? — ela perguntou, a voz falhando em um pânico histérico. — Onde está a minha filha?

Julian inclinou-se sobre ela, o rosto a centímetros do dela. O cheiro dele era limpo, estéril, sem o odor de magia ou de floresta.

— Ela está na neonatal, Charlotte. Mas os médicos estão preocupados. Eles dizem que a instabilidade da sua mente pode ter afetado a percepção do parto.

Charlotte olhou para Mordred, implorando com os olhos para que ele dissesse algo, mas Mordred parecia estar afundando em seu próprio abismo. Ele olhava para as próprias mãos, como se questionasse se o sangue que vira nelas na floresta era real ou apenas o suor do seu próprio colapso mental.

— O médico sugeriu um isolamento total — Julian disse, levantando-se e caminhando até a janela que dava para a cinzenta Edimburgo. — Sem magia, sem Mordred, sem as histórias de Avalon. Apenas você, eu e a medicina. É o único jeito de você não perder a guarda da criança para o Estado por incapacidade mental.

Charlotte olhou para o teto, sentindo-se enterrada viva. O plano de Julian estava se fechando ao redor dela como uma armadilha perfeita de Freida McFadden: ele não precisava de magia para destruí-la; ele só precisava fazer com que ela não confiasse nos próprios sentidos.

E, no berço de vidro da UTI Neonatal, a bebê — que tinha os olhos verdes intensos dos Le Fay e a aura dourada de Merlim — começava a chorar, um som que ninguém no quarto de Charlotte podia ouvir, abafado pelas paredes acústicas e pelas mentiras de um homem que sabia que, para possuir a herança, ele primeiro precisava apagar a verdade.

O hospital era um teatro de marionetes, e Julian Ashcroft segurava os fios com uma precisão cirúrgica. No final do corredor da ala VIP, longe dos olhos de Alistair e Eleanor, ele se encontrou com Siobhan. Ela não parecia a mulher sofisticada de Mayfair; seus olhos tinham um brilho febril e ela segurava um frasco de cristal âmbar escondido na dobra da manga.

— A dosagem precisa ser exata — sussurrou Siobhan, entregando o frasco a Julian. — É a Névoa de Lethe. Misturada ao soro intravenoso, ela não apaga memórias, ela as fragmenta. Faz a verdade parecer um sonho e o sonho parecer uma psicose. Charlotte nunca mais confiará no que vê.

Julian guardou o frasco, um sorriso gélido brincando em seus lábios. — E Mordred?

— Ele já está bebendo da própria culpa. Eu garanti que a água na ala de curativos estivesse batizada. Ele vai começar a duvidar se realmente lutou na floresta ou se sua magia Le Fay finalmente o transformou no monstro que ele sempre temeu ser.

Julian assentiu. Ele não se importava com as linhagens, com os ritos ou com o solo sagrado. Ele queria o poder. Morrigan, a matriarca sombria que ele encontrara secretamente nas sombras de Londres, lhe prometera o impossível: o Despertar. Ela jurara que, se ele a ajudasse a capturar a neta — a criança que carregava a fusão inédita do sangue de Merlim e Le Fay —, ela realizaria um ritual para transferir uma parcela dessa magia para ele.

Julian era um homem de negócios. Ele acreditava que tudo tinha um preço, até a alma. O que ele não sabia, em sua arrogância humana, era que a magia não era uma mercadoria. Morrigan sorria nas sombras porque sabia que Julian era apenas um receptáculo descartável. Ninguém se tornava mágico; ou você nascia com o fogo nas veias, ou era consumido por ele.


No quarto, Charlotte sentia o soro gotejar em sua veia como agulhas de gelo. O mundo estava ficando "elástico". As paredes brancas pareciam respirar.

— Julian... — ela chamou, a voz arrastada, como se falasse debaixo d'água. — A bebê... eu ouvi o choro dela... ela tinha olhos verdes...

Julian sentou-se ao lado dela, acariciando seu cabelo com uma ternura que aterrorizava. — Você não ouviu nada, querida. A UTI Neonatal é isolada acusticamente. Isso é o trauma falando. O médico disse que você está desenvolvendo uma fixação perigosa em Mordred e nessas fantasias de Alexander.

— Mas o Mordred estava aqui... — Charlotte tentava focar a visão, mas o rosto de Julian parecia se multiplicar.

— Mordred foi embora, Charlotte. Ele percebeu que a presença dele só te machuca. Ele aceitou que a criança é fruto de uma vida que ele não pode sustentar.

Era a mentira final. Mordred não tinha ido embora; ele estava desmaiado em uma cadeira na ala de espera, mergulhado em um sono induzido pela poção de Siobhan, tendo pesadelos onde ele mesmo era o carrasco de Charlotte na caverna.


Enquanto isso, na Unidade Neonatal, uma figura que não deveria estar ali observava a incubadora 07. Os sensores de movimento não dispararam. As câmeras de segurança mostraram apenas um chiado estático.

Morrigan Le Fay estendeu a mão pálida e tocou o vidro temperado. A bebê, que dormia profundamente, abriu os olhos. Não eram os olhos de um recém-nascido comum; eram orbes de um verde elétrico, circulados por um anel de ouro puro.

— Tão pequena e já tão carregada de destino — sibilou Morrigan, sua voz como o roçar de folhas secas. — Julian acha que terá o seu poder. Pobre humano... ele só está preparando o berço para que eu leve você de volta para Avalon.

Morrigan olhou para o corredor, onde Julian se aproximava. Ela desapareceu nas sombras no momento em que ele entrou. Julian olhou para a criança, sentindo uma fome de poder que o cegava para o fato de que ele era apenas o carcereiro temporário de uma herdeira que Morrigan pretendia moldar como sua sucessora sombria.

Charlotte estava presa em sua própria mente, Mordred estava afogado em culpa química, e Julian acreditava ser o mestre do jogo. O palco estava montado para a maior traição da história das duas famílias: o roubo de uma vida que ainda nem tinha nome, mas que já era o prêmio de uma guerra entre a ganância humana e a maldade imortal.

O ar na Unidade Neonatal era denso, carregado com o cheiro metálico de ozônio e o bipe rítmico e hipnótico dos monitores cardíacos. Para Charlotte, sentada na cadeira de rodas com o ventre ainda latejando em uma agonia surda, o mundo parecia feito de papel molhado. As luzes fluorescentes vibravam acima de sua cabeça, um zumbido que se infiltrava em seus ouvidos como formigas elétricas.

— Cuidado, querida — sussurrou Julian, suas mãos grandes e firmes em seus ombros. O toque dele, que outrora era um porto seguro, agora parecia o aperto de uma mordaça de veludo. — Você está frágil. A névoa na sua mente ainda não baixou.

Quando a enfermeira finalmente depositou o fardo minúsculo e quente nos braços de Charlotte, o tempo colapsou. A bebê era pequena, uma criatura de pele translúcida onde as veias pulsavam com um brilho dourado quase imperceptível. No momento em que a pequena boca procurou o seio de Charlotte, uma conexão ancestral foi selada.

O toque foi um estilhaço de vidro na consciência de Charlotte.

Ela não sentiu apenas a fome da filha; ela sentiu a memória da filha. Imagens viscerais, gravadas no sangue e no líquido amniótico, inundaram sua visão. Charlotte viu — com a clareza de quem vive a cena — Julian no escritório, os olhos frios enquanto Siobhan derramava um líquido verde-esmeralda em um frasco etiquetado com seu nome. Ela ouviu o sussurro gélido de Morrigan: "Ela é o receptáculo, Julian. Deixe que ela se perca na própria loucura enquanto preparamos o berço."

Charlotte soltou um arquejo sufocado, o leite descendo em uma pontada de dor que se misturava ao terror. Mas a Névoa de Lethe, a poção que gotejava em suas veias, reagiu como um anticorpo cruel. As imagens começaram a derreter, distorcendo-se em sombras grotescas.

“Não é real”, uma voz sussurrava dentro de sua cabeça, uma voz que soava terrivelmente como a de Julian. “Você está doente. Você está projetando seus medos. Olhe para ele... ele é o seu marido. Ele salvou você.”

Charlotte apertou a bebê contra o peito, as lágrimas escorrendo quentes e salgadas, misturando-se ao suor frio. Ela olhou para Julian, e por um segundo, viu o rosto dele se transformar na face de um demônio de porcelana. Ela fechou os olhos com força, cravando as unhas no lençol. A dúvida era um ácido, corroendo a fronteira entre o que era traição e o que era apenas o colapso de sua mente.


Horas depois, foi a vez de Mordred. Ele entrou na sala como um homem que caminha para o próprio patíbulo. O braço em uma tipoia latejava, cada fibra muscular de seu corpo clamando pela violência que ele acreditava ter exercido contra Alexander.

Ele se aproximou da incubadora, o reflexo de seu rosto pálido e cortado sobrepondo-se ao rosto da filha no vidro. Com a ponta do dedo indicador, trêmulo e esterilizado, ele tocou a palma da mão aberta da recém-nascida.

A revelação não veio como uma imagem, mas como um impacto físico no peito.

Mordred foi arremessado de volta à neve de Inverness, mas a perspectiva era outra. Ele não era mais o guerreiro protegendo a família; ele era um observador invisível de sua própria tragédia.

Ele viu a si mesmo na clareira. Viu Charlotte caída, em agonia, gritando por um nome que não existia naquele plano. E então, viu o horror absoluto: não havia ninguém diante dele.

Mordred viu sua própria imagem, possuída por uma fúria psicótica, desferindo golpes brutais contra o tronco seco de um carvalho. Viu a si mesmo conjurando chamas verdes contra rochas nuas, gritando insultos para o vazio. A "luta" contra Alexander fora um balé macabro com a própria sombra. Ele vira Alexander porque precisava que o mal tivesse um rosto, para não admitir que o monstro estava dentro dele.

O sangue em suas mãos na floresta não era o sangue de um irmão traidor; era o sangue de seus próprios nós dos dedos esfolados contra a pedra.

— Não... — o sussurro de Mordred foi um engasgo de bile e terror. — Eu senti o toque dele... eu ouvi a voz dele...

A verdade era mais dolorosa do que qualquer feitiço de Morrigan: Alexander Le Fay era um cadáver apodrecido em solo não sagrado há quinze anos. O que Mordred enfrentara fora o despertar de sua própria esquizofrenia mágica, a herança maldita de uma linhagem que, de tanto olhar para o abismo, acabou se tornando o próprio abismo.

Ele recuou, as costas batendo na parede fria da neonatal. Ele olhou para a filha — a pequena prova viva de que ele ainda era capaz de criar vida — e sentiu um nojo profundo de si mesmo. Ele era o perigo. Ele era a alucinação de Charlotte e a sua própria destruição.

No corredor, através do vidro, Julian observava. Ele não tinha magia, mas o sorriso em seus lábios era mais letal que qualquer maldição. Ele vira o momento exato em que a luz nos olhos de Mordred se apagara, substituída pela sombra da dúvida.

Charlotte estava presa em uma teia de poções que a faziam duvidar dos próprios olhos. Mordred estava acorrentado a uma verdade que o convencia de sua própria loucura. E Julian, o mestre do hospício, mantinha a mão sobre o berço da herança de Avalon, esperando o momento em que a última centelha de sanidade deles se apagasse para que ele pudesse, enfim, reclamar o poder que o sangue nunca lhe deu.

A bebê fechou os punhos e soltou um suspiro pesado, como se carregasse o peso de dois mundos que estavam prestes a se estilhaçar.

O quarto 402 estava mergulhado em uma penumbra doentia, iluminada apenas pelo brilho azulado dos monitores. O cheiro de lavanda artificial tentava, sem sucesso, mascarar o odor metálico de sangue e remédios que parecia emanar das paredes.

Charlotte estava submersa em um sono que não trazia descanso. Sob as pálpebras, seus olhos moviam-se freneticamente, capturando flashes de uma floresta que gritava e de uma bebê que a olhava com olhos de ouro. O suor frio colava os fios de cabelo em sua testa pálida, e seus lábios se moviam em preces mudas, implorando para acordar de um pesadelo que ela já não sabia onde começava.

Julian moveu-se como uma sombra silenciosa ao lado do leito. Com dedos ágeis e desprovidos de qualquer tremor, ele retirou um pequeno frasco do bolso interno do paletó. O cristal âmbar brilhou por um segundo antes de ele injetar o conteúdo viscoso diretamente na bolsa de soro.

— Durma, meu amor — ele sussurrou, a voz macia como o roçar de uma navalha na seda. — Deixe que o mundo real desapareça. Aqui, eu sou a única verdade que lhe resta.

Charlotte soltou um gemido abafado, o corpo retesando-se sob os lençóis enquanto a Névoa de Lethe invadia sua corrente sanguínea. Ela sentiu o coração tropeçar, uma sensação de queda livre que a fez agarrar o lençol com as unhas, mas seus olhos não abriram. Ela estava sendo enterrada viva dentro da própria mente.

Do lado de fora, através da pequena fresta da porta, Mordred observava. A visão de Julian manipulando o soro fez seu sangue ferver, mas, no segundo seguinte, a dúvida química plantada por Siobhan agiu. O corredor pareceu ondular. Ele piscou, e a imagem de Julian injetando a poção transformou-se na imagem de Julian apenas ajustando o suporte do soro, um marido zeloso cuidando da esposa doente.

“Eu estou louco”, Mordred pensou, a mão cravada na parede para não cair. “Eu vi Alexander na neve e ele não estava lá. Eu vi o sangue e ele era meu. O que eu estou vendo agora é apenas o meu ódio criando monstros onde existe apenas um homem comum.”

Ele não podia confiar nos próprios olhos. Não podia confiar no próprio coração, que batia com a irregularidade de um relógio quebrado.

Alistair e Eleanor aproximaram-se pelo corredor, os rostos marcados pela exaustão e pela gratidão solene dos Vancroft.

— Mordred — Alistair falou baixo, colocando uma mão pesada sobre o ombro do rapaz. — Os médicos disseram que suas lesões físicas estão sob controle. Você salvou a nossa filha. Apesar de tudo... obrigado.

Mordred olhou para os pais de Charlotte, mas viu apenas um vulto distorcido pela névoa mental.

— Eu preciso ir — a voz de Mordred saiu rouca, quase um rosnado de um animal ferido. — Preciso voltar para casa... para a minha esposa. Siobhan está grávida, ela precisa de mim. Charlotte está estável agora. Ela tem vocês.

Ele não contou o que viu. Não contou sobre a sensação de que o soro de Charlotte estava batizado com trevas, nem sobre a bebê que lhe mostrara o cadáver de seu irmão. Se contasse, seria apenas mais uma prova de sua esquizofrenia mágica. Ele era um perigo para elas. Cada segundo que ele passava perto de Charlotte era um risco de que sua escuridão a consumisse.

— Vá em paz, Mordred — Eleanor sussurrou, tocando-lhe o braço.

Ele se virou e caminhou pelo corredor, o som de suas botas ecoando como batidas de martelo em um caixão. A cada passo, ele deixava um pedaço de sua alma naquele quarto de hospital. Ele atravessou as portas automáticas e sentiu o vento gelado de Edimburgo açoitar seu rosto, mas o frio não limpava a sensação de sujeira.

Mordred entrou no carro e seguiu em direção ao sul, fugindo da verdade para se esconder em uma mentira conveniente. E, no quarto 402, Charlotte soltou um grito mudo enquanto Julian, sentado ao seu lado, começava a cantarolar uma canção de ninar que Morrigan costumava cantar para os filhos que ela destruíra.

O jogo de sombras estava completo. O lobo fora expulso, a presa estava drogada, e o monstro humano agora guardava.