Herança de Avalon
29 O Altar das Cinzas
O corredor do hospital tornou-se um corredor de mármore e morte. Quando Alexander deu o passo para fora das sombras, o ar pareceu ser sugado para um vácuo. Não era apenas a presença física de um homem; era a materialização de uma impossibilidade.
Morrigan, a mulher que comandava as sombras de Avalon com um punho de ferro, vacilou. Suas mãos, ainda impregnadas com o ato letal que cometera no quarto de Siobhan, tremeram violentamente. Ela olhou para Alexander e, por um instante, a matriarca impiedosa desapareceu, dando lugar a uma mulher estilhaçada.
— Alexander... — a voz dela foi um suspiro quebrado, um som que Mordred e Cian nunca acreditaram que ela fosse capaz de emitir.
Alexander não se moveu. Ele permanecia ali, a personificação da perfeição Le Fay: a postura impecável, os olhos verdes como esmeraldas polidas, mas com uma frieza que cortava mais que o bisturi de um cirurgião.
— Olá, mamãe — ele disse, e a palavra "mamãe" soou como uma maldição cuspida em uma catedral. — Você parece ter visto um demônio. Ou talvez... apenas o reflexo do seu maior pecado.
Flashback: O Luto de uma Rainha sem Reino
Naquele momento, as defesas de Morrigan desmoronaram e ela foi arremessada quinze anos para trás.
Ela se lembrou da noite no antigo chalé. Lembrou-se do cheiro de fumaça e do silêncio ensurdecedor que se seguiu ao suposto suicídio. Quando Cian lhe deu a notícia, Morrigan não apenas chorou; ela se desintegrou.
Alexander sempre fora seu orgulho. Diferente de Mordred, que carregava a rebeldia e a instabilidade, Alexander era a luz da linhagem. Ele era lindo, dotado de uma inteligência que humilhava os anciões e uma gentileza que era o único ponto de ternura no coração de pedra de Morrigan. Ela o amava com uma intensidade obsessiva, uma adoração que beirava o sagrado.
Naquela noite, Morrigan Le Fay rastejou pelo chão de terra da clareira, as unhas cravadas na lama até sangrarem. Ela clamou aos deuses antigos, aos nomes proibidos de Avalon, oferecendo sua própria alma em troca da vida do primogênito. Ela uivou para a lua até perder a voz, implorando que a escuridão lhe devolvesse o seu sol. O sofrimento dela foi humano, bruto e absoluto. A perda de Alexander fora o evento que matara a pouca humanidade que restava nela, deixando em seu lugar apenas a amargura e a sede de controle.
Ela o enterrara no solo de sua própria alma, transformando seu luto em um altar de ódio.
O Confronto do Presente
De volta ao corredor hospitalar, a realidade batia no rosto de Morrigan com a força de uma ressaca. Alexander caminhou em direção a ela. Cada passo dele ecoava no peito de Morrigan como o badalar de um sino fúnebre.
— Eu vi você chorar naquelas cinzas, mãe — ele sussurrou, parando a centímetros dela. — Eu vi você se tornar um monstro porque achou que tinha me perdido. Mas a verdade é que você nunca me teve. Você amava o que eu representava, não o que eu era.
Morrigan tentou falar, mas as lágrimas inundaram seus olhos, descendo pelas rugas que a maldade e o tempo haviam esculpido. Eram lágrimas de uma mãe que acabara de ver um milagre, mas um milagre que trazia o julgamento consigo.
— Meu filho... meu Alexander... — ela estendeu a mão, querendo tocar o rosto dele, confirmar que a carne era quente, que ele não era uma projeção da Névoa de Lethe.
Mordred e Cian observavam a cena, catatônicos. Eles nunca viram Morrigan demonstrar uma fração daquela vulnerabilidade. Para eles, ela era uma força da natureza, uma montanha inabalável. Ver aquela mulher poderosa soluçar, com o peito subindo e descendo em uma agonia visceral, era mais assustador do que a própria aparição de Alexander.
— Você está vivo — ela engasgou, a voz subindo uma oitava. — Você... você voltou para mim.
Alexander sorriu, mas não havia calor naquele gesto. Era o sorriso de Verity, de quem guarda o segredo mais sujo sob a pele mais bonita. — Eu não voltei para você, mãe. Eu voltei para o que é meu. E para o que você roubou de mim.
O impacto emocional foi demais para o corpo de Morrigan, já exausto pelo ritual e pelo assassinato de Siobhan. Seus olhos reviraram, os joelhos cederam e ela desabou no chão do hospital, um monte de seda negra e dor, desmaiando diante do filho que ela passara uma década e meia chorando.
Mordred correu para amparar a mãe, mas seu olhar ficou preso no de Alexander. O ar entre os irmãos vibrava.
— O que você quer, Alexander? — Mordred perguntou, a voz trêmula.
Alexander ajustou as abotoaduras de prata de seu casaco e olhou para o berçário, onde o filho de Siobhan — o herdeiro ilegítimo — dormia.
— Eu quero a verdade, Mordred. E quero ver a Charlotte. — Ele fez uma pausa, e o brilho nos seus olhos tornou-se predatório. — Dizem que ela tem uma filha linda em Belgravia. Uma menina com olhos verdes... muito parecidos com os nossos olhos..
O terror gelou o sangue de Mordred. A peça final do quebra-cabeça estava no lugar, e o abismo entre eles acabara de se tornar infinito.
O enterro de Siobhan, realizado nas colinas fustigadas pelo vento do Norte, parecia uma cena arrancada de um pesadelo gótico. O céu estava da cor de cinzas frias, e a chuva fina, misturada ao gelo, cortava o rosto dos parentes que choravam ao redor do caixão lacrado. Os pais dela, alheios à bolha de ar que Morrigan injetara no soro da filha, seguravam as mãos de Mordred com uma gratidão que o fazia querer vomitar. O menino, o pequeno segredo de Julian, permanecia em uma incubadora em Londres, lutando por um fôlego que seu nascimento já marcara como maldito.
Mas o verdadeiro horror não estava no túmulo. Estava na figura de Alexander, parado ao lado de Morrigan sob um guarda-chuva negro.
Desde que Morrigan acordara de seu desmaio no hospital, ela se transformara. A matriarca fria e calculista dera lugar a uma mulher possessiva, cujos olhos não abandonavam o rosto do primogênito. Era um amor doentio, quase profano; ela tocava o rosto de Alexander constantemente, certificando-se de que a carne era real, enquanto ele se deixava adorar com uma condescendência predatória. Eles pareciam dois amantes sombrios em um baile de máscaras, ignorando o luto ao redor.
No retorno para Londres, dentro do carro blindado que cortava a névoa da estrada, o silêncio era uma corda esticada até o ponto de ruptura. Mordred, com as mãos manchadas pelo solo fresco do cemitério, olhou para o irmão. O rosto de Alexander era uma cópia perfeita e cruel do seu, mas desprovido de qualquer rastro de humanidade.
— Você venceu, Alexander — Mordred disse, a voz rouca, carregada de um cansaço que vinha dos ossos. — Pode ficar com tudo. O controle das empresas Vane, o comando do clã, o trono de Avalon que a nossa mãe tanto preza. Eu não me importo mais. Eu renuncio a cada centavo e a cada título.
Morrigan, sentada ao lado de Alexander, apertou a mão do filho favorito, seus olhos brilhando com uma satisfação maligna.
— A única coisa que você jamais terá — continuou Mordred, os olhos verdes flamejando com a última centelha de vontade — é a Charlotte. Ela nunca será sua. Ela é o meu fôlego, a minha redenção. Fique com o império, mas deixe-a em paz.
Alexander soltou uma risada baixa, um som que pareceu o estalar de ossos secos. Ele inclinou-se para frente, a luz dos postes de luz passando ritmicamente pelo seu rosto, revelando um brilho de loucura lúcida.
— Ah, meu querido irmão... — Alexander sussurrou, a voz carregada de uma arrogância que faria Julian Ashcroft parecer um amador. — Você ainda não entendeu a natureza do jogo. Eu não preciso "tomar" nada. Quem escolhe o mestre é a presa. E quem escolhe quem terá o prazer de salvá-la... é a Charlotte. Ela ainda não sabe que o fantasma dela tem braços quentes e uma verdade que vai destruir tudo o que você construiu.
Longe dali, no isolamento dourado de Belgravia, o terror parecia uma realidade de outro planeta. Charlotte estava sentada no tapete de lã branca do berçário, o sol da tarde filtrado pelas cortinas de linho.
— Veja você, Lyra... olhe para a mamãe — Charlotte sorria, e por um momento, a névoa de poções em sua mente parecia ter dado trégua.
A bebê estava cada vez mais robusta, as dobrinhas das pernas e braços sendo o testemunho de uma vida que florescia contra todas as probabilidades. Lyra soltou uma gargalhada cristalina, os olhinhos verdes — aquele verde Le Fay tão profundo — brilhando enquanto ela brincava com as próprias mãos, tentando agarrar a luz que dançava no ar.
Charlotte sentia uma onda de amor tão visceral que chegava a doer. Ela beijava os pés da filha, sentindo o cheiro de leite e bebê, alheia ao fato de que Julian, do outro lado da porta, observava o relógio, esperando o sinal de Morrigan.
Ela não sabia que o homem que ela vira na caverna, o homem que ela jurava ser uma alucinação de sua loucura, estava agora em um carro blindado entrando nos limites de Londres. Ela não sabia que Alexander Le Fay não era apenas um fantasma, mas o verdadeiro arquiteto do trauma que ela carregava no sangue.
Charlotte brincava com a filha, rindo das reações fofas de Lyra, sem perceber que o vidro de proteção de Belgravia estava prestes a estilhaçar. O pesadelo não era mais um sonho; ele tinha nome, sobrenome e estava vindo buscar a herança que Julian e Mordred achavam que possuíam.
O amor de Charlotte por Mordred era uma canção triste, mas o retorno de Alexander era o silêncio absoluto que precede o fim do mundo.
As semanas em Londres passaram com uma velocidade cruel, como se o tempo estivesse sendo acelerado por uma mão invisível e malévola. Alexander Vance Le Fay não apenas retornou; ele reocupou seu espaço com a precisão de um predador que nunca saiu do topo da cadeia alimentar. Nos jornais financeiros, sua "ressurreição" era tratada como um milagre corporativo; nas sombras, ele se situava nas empresas Vane com uma frieza que fazia os diretores mais antigos tremerem.
Enquanto isso, em Belgravia, o castelo de vidro de Julian Ashcroft começava a apresentar rachaduras. A Névoa de Lethe, a poção que Siobhan destilava com maestria, estava chegando ao fim do último frasco. Com Siobhan apodrecendo no solo frio do Norte, Julian sentia o pânico latejar sob sua máscara de controle. Sem a alquimia dela, a mente de Charlotte começaria a acordar. E uma Charlotte acordada era o fim de Julian.
No escritório do Parlamento, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som da caneta de Julian riscando papéis. Ele estava exausto. Mordred tentara ligar dez vezes naquela manhã, mas Julian bloqueava cada tentativa, mantendo Charlotte em um isolamento sensorial absoluto.
A porta do gabinete se abriu sem que a secretária anunciasse.
Julian nem sequer levantou a cabeça.
— Eu disse que não queria ser interrompido...
— O silêncio é um luxo perigoso, Julian. Especialmente quando se está sentado sobre uma montanha de cadáveres e mentiras.
A voz era um chicote de seda. Julian congelou. Sua caneta parou no meio de uma assinatura, deixando uma mancha de tinta negra no papel, como uma ferida. Ele ergueu os olhos devagar. Alexander estava parado diante da mesa, as mãos nos bolsos do sobretudo de caxemira, observando o escritório com um desprezo soberano.
Julian ficou catatônico. O ar parecia ter sido drenado da sala. A presença de Alexander era física, opressora, carregada com o cheiro de incenso e algo muito antigo.
— Você... — Julian engasgou, a voz falhando. — Você deveria estar morto.
Alexander soltou uma risada curta, um som sem alegria que fez os pelos dos braços de Julian se arrepiaram. Ele caminhou lentamente até a mesa de carvalho maciço e deslizou os dedos pela superfície polida.
— Morto é um conceito relativo para os Le Fay, como você bem sabe — Alexander inclinou-se para frente, o rosto a centímetros do de Julian. Os olhos verdes brilhavam com uma malícia letal. — Mas vamos falar de vida, Julian. Vamos falar daquela criança que você deixou para trás na UTI. O pequeno "órfão" da Siobhan.
Julian sentiu o sangue fugir do rosto.
— Eu não sei do que você está falando. O filho é do Mordred.
Alexander deu um tapa seco na mesa, um estrondo que ecoou como um tiro.
— Pare com o teatro! — Alexander sibilou, sua voz descendo para um tom gutural de terror puro. — Eu sei de tudo. Eu vi as sombras nas paredes. Eu vi as vezes em que você e Siobhan se perdiam em um sexo profano e desesperado, bem aqui, nesta mesma mesa, enquanto planejavam destruir a Charlotte e o meu irmão.
Julian tentou se levantar, mas suas pernas eram como gelatina. Alexander o segurou pelos ombros com uma força sobre-humana, obrigando-o a olhar para o abismo em suas pupilas.
— Aquele menino na incubadora não tem uma gota do sangue Le Fay. Ele é seu, Julian. O fruto da sua ganância e da luxúria de uma mulher que você descartou como lixo. Imagine o que o clã faria se soubesse que você tentou infiltrar um humano comum na linhagem de Morgana... Imagine o que a Charlotte faria se soubesse que o homem que ela chama de marido estava engravidando a mulher do homem que ela ama, enquanto a drogava.
— O que você quer? — Julian soluçou, o terror quebrando sua espinha.
Alexander soltou-o e limpou as mãos, como se tivesse tocado em algo imundo.
— Eu quero a Charlotte. E quero a Lyra. Elas nunca pertenceram a você, nem ao fraco do Mordred. Elas são o meu prêmio por ter sobrevivido ao inferno.
Ele se virou para sair, mas parou na porta, olhando por cima do ombro com um sorriso que prometia mais dor do que Julian poderia suportar.
— Continue dando o resto da poção a ela, Julian. Mantenha-a dócil por mais alguns dias. Eu quero que ela esteja bem calma quando eu chegar para levá-la. E quanto ao seu filho... reze para que ele não sobreviva. Porque se ele viver, ele será a prova viva do seu crime. E eu não sou tão benevolente quanto o meu irmão.
A porta se fechou com um clique metálico. Julian desabou na cadeira, o peito subindo e descendo em espasmos de pânico. Ele olhou para a mesa onde possuíra Siobhan e sentiu uma náusea violenta. O jogo chegara ao fim, e ele acabara de descobrir que, no tabuleiro de Alexander Le Fay, ele era apenas um peão prestes a ser sacrificado.
O teto do quarto em Belgravia não era mais uma superfície sólida. Para Charlotte, deitada entre os lençóis de cetim que agora pareciam feitos de navalhas, o gesso parecia se liquefazer, se transformando em uma massa cinzenta e pulsante. A última gota da Névoa de Lethe havia sido processada por seu fígado horas atrás, e o vácuo químico que ela deixou para trás estava sendo preenchido por uma avalanche de realidade.
A dor começou na base do crânio.
Não era uma dor de cabeça comum; era a sensação física de uma barreira de vidro sendo estilhaçada de dentro para fora. Charlotte arqueou o corpo, os dedos cravando-se no colchão com uma força desumana. Cada bipe do monitor de babá eletrônica soava como uma martelada em um nervo exposto.
— Ah... — o som escapou de seus lábios como um suspiro de agonia.
As memórias, que antes eram sombras borradas e distantes, começaram a se organizar com uma violência traumática. Não era um retorno suave; era um bombardeio.
Primeiro veio o frio. A lembrança da neve de Inverness atingiu sua pele com tamanha nitidez que seus dentes começaram a bater freneticamente, embora o quarto estivesse aquecido a 22°C. Ela sentiu o peso do próprio corpo na caverna, o cheiro de sândalo... e o rosto. O rosto que a poção a obrigara a esquecer ou a tratar como um delírio.
— Alexander... — ela murmurou, a voz falhando.
Mas, junto com o nome, veio a sobreposição cruel das imagens de Julian. A mente de Charlotte era um campo de batalha. Ela via Julian segurando sua mão no hospital, mas a imagem oscilava, revelando o mesmo Julian injetando algo em seu soro. Ela via o sorriso dele, mas agora notava o brilho de posse doentia nos olhos dele.
A agonia física tornou-se insuportável.
Charlotte sentiu as vísceras se contraírem. Uma náusea violenta a obrigou a se inclinar para fora da cama, o suor frio escorrendo por seu pescoço, encharcando a camisola de seda. Seus sentidos, antes anestesiados, voltaram com uma sensibilidade hiperativa. O cheiro do perfume de Julian no travesseiro ao lado cheirava a enxofre e traição. O silêncio da casa era, na verdade, um grito abafado.
— Lyra... — ela tentou chamar, mas o nome da filha parecia o único ponto de luz em um oceano de escuridão.
As memórias de Craig Dun voltaram. O toque de Mordred. A conexão elétrica, visceral, que Julian nunca fora capaz de replicar. Ela lembrou-se do momento exato em que percebeu que Julian não era quem dizia ser. Lembrou-se de Siobhan. Do olhar de Morrigan.
Era como se sua consciência estivesse sendo costurada novamente, mas sem anestesia. Cada ponto doía. Cada conexão entre um fato e outro era uma descarga elétrica em seu sistema nervoso. Ela levou as mãos às orelhas, tentando parar as vozes das memórias que agora gritavam a verdade: Ele te drogou. Ele te usou. Ele roubou a sua filha.
Charlotte desabou no tapete, o corpo tremendo em espasmos. Ela sentia cada poro de sua pele queimar. A poção que a mantinha dócil, a "esposa perfeita", fora embora, deixando em seu lugar uma mulher que agora lembrava do sabor da própria magia e do cheiro da própria ruína.
No berço, Lyra começou a chorar. Não era um choro de fome. Era um choro de reconhecimento. A bebê sentia a barreira quebrando. Sentia a mãe acordando.
Enquanto Charlotte soltava um grito rouco e abafado contra o tapete, seus olhos se abriram. Não eram mais os olhos nublados e submissos das últimas semanas. Eram olhos de uma Aurelius que acabara de descobrir que estava vivendo em um ninho de cobras.
A agonia era o preço da liberdade. E Charlotte Vancroft estava disposta a pagar cada gota de dor para recuperar o que era seu, mesmo que isso significasse queimar Belgravia até as cinzas.
A última imagem que Charlotte teve antes da escuridão total foi o vácuo. O som do choro de Lyra parecia vir de outra dimensão, um eco que se afastava enquanto o teto de Belgravia girava até se tornar um ponto negro. A dor da consciência retornando fora um tsunami que seu sistema nervoso não conseguiu suportar. Ela apagou no tapete frio, uma rainha destronada em seu próprio quarto de seda.
Quando Charlotte abriu os olhos, o silêncio era absoluto. E o silêncio, para uma mãe, é o som mais aterrorizante do mundo.
— Lyra? — a voz dela saiu como um rascunho de som.
Ela se arrastou até o berço. Estava vazio. Os lençóis ainda guardavam o calor do corpo da bebê, mas a menina não estava lá. Charlotte correu pela casa, gritando o nome de Julian, tropeçando nos móveis, mas a mansão de Belgravia estava morta. O carro dele não estava na garagem. O celular dele caía na caixa postal. O desespero não bateu; ele a esmagou, tirando-lhe o ar, transformando seu sangue em gelo.
Horas Antes
Julian Ashcroft observava Charlotte pela fresta da porta. Ele via o corpo dela se contorcer em espasmos, via o suor encharcar a camisola e ouvia os gemidos de agonia enquanto as memórias dela rompiam as correntes químicas. Ele sentia uma pontada de repulsa, não pela dor dela, mas pela sua própria fraqueza por não ter conseguido mantê-la dopada por mais tempo.
Ele pegou o telefone, as mãos suadas.
— Acabou, Morrigan — Julian sussurrou, a voz tensa. — A poção terminou e ela está acordando. O véu caiu.
— Então chegou a hora, Julian — a voz de Morrigan do outro lado era como o gotejar de veneno. — Traga a menina para Mayfair. Agora.
Julian observou Charlotte desfalecer no chão. Por um segundo, ele hesitou, mas a ambição era um motor mais forte que a culpa. Ele entrou no quarto, ignorando a mulher desmaiada, e pegou Lyra. A bebê soltou um choro agudo, um protesto instintivo contra o toque daquele homem que não tinha o seu sangue. Julian a colocou no carro e partiu, deixando para trás o rastro de uma vida que ele nunca soube como habitar.
Charlotte estava de joelhos no hall de entrada, o telefone tremendo em sua mão. Ela tentou os pais, mas a ligação caiu. Em um ato de puro instinto visceral, ela discou o número que sua alma conhecia antes mesmo de sua mente recuperar a memória.
Mordred atendeu no primeiro toque.
— Charlotte? — A voz dele era um choque de realidade.
— Mordred... ela levou a Lyra! Julian sumiu, ele levou minha filha! — Charlotte soluçava, um som bruto, gutural, que parecia arrancar pedaços de sua garganta. — Por favor, me ajuda... eu não sei o que fazer, eu estou morrendo por dentro...
— Calma, Charlotte. Respira — Mordred respondeu, sua voz carregada de uma urgência sombria. Ele estava no hospital, olhando para o filho de Siobhan através do vidro, mas seu coração já cruzava Londres. — Eu vou te ajudar. Eu vou encontrar ela. Eu juro pela minha vida que vou trazer a nossa filha de volta.
Em Mayfair, a mansão dos Vane exalava uma aura de triunfo maligno. Morrigan estava sentada em sua poltrona de veludo negro quando Julian entrou, carregando Lyra, que agora dormia um sono pesado, induzido por um leve sedativo.
Morrigan se levantou, um sorriso de satisfação predatória iluminando seu rosto pálido. Ela pegou a neta nos braços, sentindo o pulsar da magia de Merlim e Le Fay sob a pele da criança. Era a sua obra-prima.
— Finalmente — sibilou Morrigan. — A herdeira de Avalon está em casa.
Julian limpou o suor da testa, o olhar fixo na criança.
— Eu cumpri minha parte, Morrigan. Agora eu quero a minha. Você prometeu. A magia, o lugar no clã... eu entreguei tudo o que você pediu.
Morrigan olhou para Julian. Seus olhos negros brilharam com uma malícia que o fez dar um passo atrás.
— Você quer a sua parte, Julian? — ela perguntou, a voz suave como a morte. — Sim, você merece o seu pagamento.
Ela fez um sinal imperceptível com a cabeça. Antes que Julian pudesse reagir, as sombras nos cantos da sala pareceram ganhar vida. Morrigan não usou magia sutil. Ela queria sangue.
Ela estendeu a mão livre e, com um movimento brusco, a realidade ao redor de Julian se partiu. Lâminas invisíveis de força cinética, puras e cruas, atingiram o peito de Julian, o arremessando contra a parede de carvalho. O som de seus ossos quebrando ecoou como tiros no salão.
— Você achou mesmo que um verme humano como você se sentaria à mesa dos deuses? — Morrigan caminhou até ele enquanto Julian tentava respirar, o sangue jorrando de sua boca, manchando sua camisa de seda branca.
Ela cravou os dedos mágicos na garganta dele, não para sufocá-lo, mas para rasgar. Julian tentou gritar, mas apenas um gorgolejo sangrento saiu. Com um puxão violento de sua vontade, Morrigan fez com que as artérias do pescoço de Julian explodissem. O sangue espirrou quente e vibrante, pintando os móveis caros e o rosto de Morrigan, que não desviou o olhar.
Julian Ashcroft morreu no chão de Mayfair, os olhos arregalados em choque, engasgado no próprio sangue, enquanto via a mulher que o usara voltar a ninar a criança que ele roubara.
— O lixo foi removido — sussurrou Morrigan, limpando uma gota de sangue do rosto enquanto Lyra, no berço, continuava a dormir o sono dos inocentes. — Agora, Alexander... agora o trono é nosso.
O grito de Charlotte não foi um som humano; foi o estilhaçar de uma alma que, após semanas de silêncio químico, despertava para o próprio inferno. O vácuo da mansão em Belgravia engoliu sua voz, devolvendo apenas o eco gélido de corredores vazios e o cheiro residual de talco de bebê que ainda flutuava no ar, como um fantasma. Ela desabou no mármore frio do hall, as unhas arranhando o chão, os olhos fixos no vazio onde, horas antes, existia uma vida.
Em Mayfair, o cenário era o avesso daquele desespero: era o triunfo da morte.
O corpo de Julian ainda espasmava levemente quando as sombras, conjuradas pelo testamento sombrio de Morrigan, começaram a se enroscar em seus membros quebrados. O sangue, um rastro escuro e viscoso que manchava o tapete persa, parecia ser sugado pela própria escuridão. Não houve dignidade no seu fim. Ele morreu como viveu: um peão que acreditou ser rei, agora arrastado para o esquecimento como um resto de carne inútil. O som de seus sapatos de couro arrastando no chão foi o último protesto de uma existência feita de traição.
Morrigan não olhou para trás. Ela se aproximou do berço onde Lyra repousava, indiferente ao massacre. Com um gesto maternal e doentio, ela limpou um respingo de sangue quente que havia atingido a borda do berço, seus dedos longos e pálidos acariciando o ar acima da criança.
— Finalmente — sussurrou ela, sua voz vibrando com uma doçura terrível que fazia o ar da sala ficar pesado. — O sangue está limpo. O intruso foi removido.
Na penumbra do canto da sala, Alexander emergiu, observando o rastro de sangue desaparecer sob a porta da adega. Seus olhos verdes brilharam com uma satisfação visceral, o reflexo exato da loucura que agora governava aquela casa.
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