Herança de Avalon

24 A Herança de Avalon


Charlotte estava prostrada diante do carvalho centenário, uma carcaça de dor contra o tronco rugoso que parecia zombar de sua fragilidade humana. As contrações não eram mais apenas ondas; eram incêndios florestais que pareciam derreter seus órgãos internos, transformando seu ventre em um cadinho de agonia e linhagem. Suas forças haviam se esvaído, drenadas pela neve que agora servia como um lençol mortuário. O frio deixava seu corpo anestesiado, uma dormência cruel que precedia o fim, e o arrependimento subia por sua garganta com o gosto metálico do sangue. Ela deveria ter pensado melhor. O impulso da liberdade a jogara no coração do nada, e agora ela colocava a vida da filha em um altar de gelo.

Cada espasmo era uma sentença. Charlotte sentia como se suas costelas estivessem se partindo sob o peso de um céu invisível, o osso de sua bacia se transformando em estilhaços de vidro que cortavam sua carne de dentro para fora.

— Por favor... — ela sibilou, os dedos enterrados na terra congelada, arrancando raízes e neve. — Mordred...

Mas a imagem dele no espelho d'água de Alexander a perseguia. Ela via Mordred com Siobhan, via o toque suave, a aceitação da mentira. Por que ele viria? Por que ele deixaria a paz de uma vida morna para resgatar uma mulher que era feita de guerra e segredos? A dúvida doía mais que o parto; era uma pontada fria no centro de sua alma, o medo de que, no fim, ela fosse apenas um fantasma na vida dele.

A quilômetros dali, a floresta gemia.

Alexander tropeçava entre os pinheiros, uma mão pressionada contra o peito onde o golpe de Charlotte deixara uma queimadura mágica de um dourado pulsante. Ele estava ferido, sua visão turva pelo sangue e pela raiva. Ele a queria de volta. Não por amor, mas por necessidade de posse — uma obsessão que cheirava a enxofre e sândalo.

— Charlotte! — o grito dele era um uivo de lobo ferido, ecoando pelas montanhas, fazendo os pássaros fugirem da madrugada.

Mas havia outro som. O ronco de um motor sendo levado ao limite, o grito do metal contra o asfalto.

Mordred não dirigia; ele possuía a estrada. Ele sentia cada contração de Charlotte em seus próprios nervos, uma ressonância de sangue que fazia seus olhos brilharem em um verde elétrico. Ele saltou do carro antes mesmo que ele parasse totalmente à beira da estrada de Inverness. Ele correu. Seus pulmões queimavam, seus pés batiam na neve com a força de um martelo.

Ele sentia o cheiro dela. Sangue, suor e a magia cítrica de Merlim que estava sendo expelida para o mundo.

Na floresta, o tempo parou para Charlotte. A pressão tornou-se insuportável. Um grito agônico rasgou seus lábios, um som que não pertencia a uma mulher, mas a uma rainha de Avalon reivindicando sua prole. No meio do gelo, o calor da vida forçou seu caminho.

— Charlotte!

A voz não vinha do espelho. Não era uma mentira de Alexander.

Ela abriu os olhos, as pupilas dilatadas, e viu a silhueta dele rompendo a névoa. Mordred parecia um deus caído, coberto de neve e desespero. Ele desabou ao lado dela, ignorando o frio, as mãos trêmulas segurando o rosto dela enquanto ela dava o último empurrão, um esforço que parecia arrancar sua alma do corpo.

O silêncio das Highlands foi quebrado por um choro agudo, cristalino e poderoso.

Mordred aparou a criança com as mãos manchadas de terra e linhagem. Uma menina. Ela tinha os olhos dele e a aura dela. No momento em que a pequena pele tocou o ar congelado, uma onda de calor mágico emanou do carvalho, derretendo a neve em um raio de dez metros.

Charlotte, exausta, sentiu o calor do corpo de Mordred contra o seu. Ele não estava com Siobhan. Ele estava ali, sangrando com ela, respirando o mesmo ar gélido.

— Você veio... — ela sussurrou, as pálpebras pesadas.

— Eu sempre virei — Mordred respondeu, a voz quebrada, encostando a testa na dela enquanto envolvia a filha no seu casaco de lã. — Nem que eu tenha que queimar o mundo inteiro para te encontrar.

Mas, nas sombras, a poucos metros dali, os olhos de Alexander observavam. Ferido, rejeitado e transbordando um ódio que a presença do herdeiro só fazia aumentar. A herança de Avalon havia nascido, mas o preço de seu primeiro suspiro estava prestes a ser cobrado em sangue.

O ar gélido de Inverness agia agora como um veneno silencioso. Charlotte sentiu a consciência oscilar, as bordas de sua visão se tornando brancas e turvas, fundindo-se com a neve ao redor. O choque térmico, aliado à perda massiva de sangue, fazia seu corpo tremer de forma violenta, um ritmo espasmódico que ameaçava parar seu coração a qualquer segundo.

— Charlotte! Fica comigo, abre os olhos! — a voz de Mordred era um trovão de desespero.

Com as mãos manchadas de vida e terra, ele pegou a pequena recém-nascida — frágil, quente e coberta pela herança de Avalon — e a posicionou delicadamente sobre o peito de Charlotte. O contato da pele do bebê contra o frio marmóreo da mãe foi um choque de realidade. Mordred arrancou o próprio casaco de lã pesada, envolvendo as duas em um casulo de calor humano e proteção.

— Você não vai morrer. Eu não deixo você morrer — ele sussurrou contra o ouvido dela, enquanto, com a mão livre e trêmula, tateava o celular no bolso.

Ele digitava números de emergência com uma fúria cega, gritando coordenadas para o aparelho, a voz falhando enquanto implorava por uma equipe médica, por um milagre, por qualquer coisa que não fosse o silêncio daquela floresta.

— Mordred... — Charlotte murmurou, a voz quase inaudível, o rosto pálido como a lua.

— Shh, não fala. Guarda a energia para ela.

Mas o silêncio da madrugada foi subitamente rasgado por um passo pesado sobre a neve. Mordred ergueu o olhar, pronto para atacar qualquer ameaça, mas o que ele viu paralisou seus pulmões.

— Solte-a, Mordred. Você já causou dano o suficiente.

Alexander emergiu da névoa como uma aparição saída de um pesadelo ancestral. O rosto estava pálido, a marca da explosão mágica de Charlotte ainda ardia em seu peito, mas seus olhos brilhavam com uma determinação doentia.

Mordred sentiu o sangue fugir do rosto. Ele parecia ter visto um fantasma, ou um espelho distorcido de si mesmo que ele acreditava ter sido enterrado nos mitos da família.

— Alexander? — a voz de Mordred saiu como um sopro quebrado. — Você... você morreu. Mãe disse que você...

— Mãe mentiu sobre muitas coisas, irmão — Alexander deu um passo à frente, a mão estendida, a magia de sândalo e terra sufocando o ar. — Afaste-se dela. Ela é minha redenção, não o seu troféu.

— Ela é a mãe da minha filha! — Mordred rugiu, levantando-se parcialmente, colocando-se como um escudo vivo entre o irmão e as duas vidas vulneráveis na neve.

A tensão entre os dois irmãos era um arco voltaico prestes a explodir, uma guerra de linhagens que esperou décadas para ser travada. Alexander rosnou, invocando sombras que pareciam ganhar vida própria nos galhos das árvores, enquanto Mordred incendiava o próprio sangue com a magia dos druidas.

O confronto físico era iminente, mas o céu decidiu intervir.

Um som rítmico e ensurdecedor começou a vibrar as árvores. Luzes artificiais, brancas e impessoais, varreram a clareira, cegando os dois homens. Julian Ashcroft, movido por uma obsessão que rivalizava com a de Mordred, não viera sozinho. Ele rastreara o GPS do carro de Mordred com a precisão de um homem que usa a lei para caçar o que é seu.

O helicóptero de resgate desceu baixo o suficiente para criar uma ventania de neve que dificultava a visão. Julian saltou antes mesmo que os patins tocassem o solo, seguido por paramédicos equipados com mantas térmicas e tanques de oxigênio.

— Tirem-nas daqui! Agora! — Julian gritou, correndo em direção a Charlotte. Ele não olhou para Mordred, nem para a figura estranha de Alexander. Seu foco era a mulher que, tecnicamente, ainda era sua esposa perante o mundo humano.

Os paramédicos agiram com uma eficiência cirúrgica. Em segundos, Charlotte e a bebê foram colocadas em macas, envoltas em papel alumínio térmico para combater a hipotermia.

— Mordred... — Charlotte tentou esticar a mão enquanto era içada para o helicóptero, mas a escuridão do choque finalmente a levou.

O helicóptero partiu com um estrondo, levando a luz e a esperança em direção ao Hospital Real em Edimburgo, deixando para trás apenas o cheiro de querosene e o ódio purificado entre dois irmãos.

Mordred permaneceu parado, olhando para o céu enquanto o som das hélices desaparecia. Ele então se virou lentamente para Alexander. O choque dera lugar a uma fúria ancestral.

— Você não vai chegar perto delas de novo — Mordred disse, a voz baixa, letal, enquanto as runas em seus braços começavam a brilhar com um verde tóxico. — Eu não me importo se você voltou dos mortos, Alexander. Se você tentar segui-las, eu vou garantir que, desta vez, você permaneça enterrado.

O ar entre os dois irmãos pesava como chumbo, saturado pelo cheiro de ozônio e pela eletricidade estática que fazia os cabelos de Mordred se arrepiarem. Alexander cambaleou, uma das mãos pressionada contra o peito ferido, o rosto contorcido em uma máscara de mágoa que parecia ensaiada há décadas.

— Você não tem ideia do que eu passei, Mordred! — Alexander gritou, e sua voz falhou, carregada de um desespero que soava quase infantil. — Morrigan me quebrou. Ela me jogou no escuro, me transformou em um segredo vergonhoso enquanto você... você era o herdeiro de ouro. Eu fui caçado, vivi como um animal para que a sua linhagem permanecesse imaculada! Tudo o que ela fez comigo, cada cicatriz na minha alma... foi para que você pudesse brilhar!

Mordred soltou uma risada seca, um som sem alegria que cortou o vento das Highlands como uma lâmina. Ele deu um passo à frente, os olhos verdes pulsando com uma luz perigosa.

— Vitimize-se o quanto quiser, Alexander. Mas vamos deixar uma coisa clara: a escolha de sumir foi sua. Você aceitou o exílio. Você aceitou as sombras porque era mais fácil ser um fantasma do que enfrentar a nossa mãe — Mordred cuspiu as palavras com desprezo. — Se você não queria fazer parte da família, o problema era seu. Eu não pedi por esse fardo, eu não pedi pelas runas que queimam meu sangue. Eu apenas sobrevivi.

Alexander rosnou, o rosto empalidecendo de fúria.

— Sobreviveu? Você prosperou! — Alexander deu um passo trêmulo em direção ao irmão. — Eu assisti você pelo espelho d'água todos esses anos. Eu vi você ter tudo o que eu sempre quis. Eu vi a beleza gélida de Siobhan ao seu lado, a posição, o respeito... e então, eu vi Charlotte.

Alexander fez uma pausa, os olhos brilhando com uma cobiça doentia.

— Onde já se viu? — continuou ele, a voz subindo em um tom histérico. — Eu tive que ser apagado da história para você ter tudo? Você tem a esposa perfeita em Londres e o amor da herdeira de Merlim nas sombras? Sim, Mordred, eu tive inveja! Eu tive cada gota de inveja que um homem pode carregar. Eu queria a sua vida. Eu queria o toque dela, o cheiro dela... eu queria ser o pai dessa criança que você acabou de segurar. Por que você merece o paraíso enquanto eu apodreço no inferno que a nossa mãe criou?

Mordred sentiu um nojo profundo subir por sua garganta. A confissão de Alexander não trazia pena, apenas a confirmação de que o homem à sua frente era uma aberração criada pelo ressentimento.

— Você não queria Charlotte, Alexander. Você queria a minha Charlotte — Mordred disse, a voz agora baixa e letal, as runas em seus braços brilhando tanto que a neve ao redor começava a vaporizar. — Ferir a mulher que eu amo e colocar a vida da minha filha em risco no meio deste gelo não é o ato de um irmão injustiçado. É o ato de um parasita que queria roubar uma existência que nunca teve coragem de construir.

Mordred ergueu a mão, e o ar ao redor de Alexander começou a se fechar como uma mordaça invisível.

— Você disse que Morrigan te transformou em um monstro? Pois eu vou te mostrar o que o herdeiro legítimo faz com monstros que tocam no que é dele.

Enquanto as luzes do helicóptero que levava Charlotte desapareciam no horizonte, a floresta de Inverness preparava-se para testemunhar o acerto de contas que a linhagem Le Fay adiara por tempo demais. Não era mais sobre magia antiga; era sobre o ódio purificado de dois irmãos que amavam a mesma mulher por motivos opostos.

O Hospital Real em Edimburgo parecia um labirinto de luzes fluorescentes brancas e bips metálicos que perfuravam os tímpanos de Julian. O cheiro de ozônio e sangue de Inverness fora substituído pelo aroma estéril de álcool isopropílico e desinfetante.

Charlotte foi levada em uma maca, uma visão de palidez cadavérica envolta em mantas térmicas de alumínio que brilhavam sob as luzes do corredor. Logo atrás, uma incubadora de transporte protegia a pequena herdeira de Avalon — uma criatura minúscula, rosada e conectada a tubos que pareciam grandes demais para o seu corpo frágil.

— Código Vermelho na obstetrícia! — gritava uma enfermeira enquanto as portas duplas da UTI se fechavam, deixando Julian para trás, com as mãos manchadas pelo sangue de uma esposa que ele amava com uma posse desesperada e uma filha que ele sabia, no fundo de sua alma humana, que não era sua.

Julian desabou em uma das cadeiras de plástico da recepção. O silêncio que se seguiu foi pior que o caos da floresta. Ele pegou o celular, as mãos tremendo tanto que errou a senha três vezes. Ele precisava ligar para os Vancroft.

— Alistair? — Julian falou, a voz saindo como um sussurro quebrado quando o pai de Charlotte atendeu. — É a Charlotte. Nós a encontramos... mas ela está na UTI. O bebê nasceu. Inverness... foi um massacre. Venham para Edimburgo agora.

O Hospital Real em Edimburgo parecia um labirinto de luzes fluorescentes brancas e bips metálicos que perfuravam os tímpanos de Julian. O cheiro de ozônio e sangue de Inverness fora substituído pelo aroma estéril de álcool isopropílico e desinfetante.

Charlotte foi levada em uma maca, uma visão de palidez cadavérica envolta em mantas térmicas de alumínio que brilhavam sob as luzes do corredor. Logo atrás, uma incubadora de transporte protegia a pequena herdeira de Avalon — uma criatura minúscula, rosada e conectada a tubos que pareciam grandes demais para o seu corpo frágil.

— Código Vermelho na obstetrícia! — gritava uma enfermeira enquanto as portas duplas da UTI se fechavam, deixando Julian para trás, com as mãos manchadas pelo sangue de uma esposa que ele amava com uma posse desesperada e uma filha que ele sabia, no fundo de sua alma humana, que não era sua.

Julian desabou em uma das cadeiras de plástico da recepção. O silêncio que se seguiu foi pior que o caos da floresta. Ele pegou o celular, as mãos tremendo tanto que errou a senha três vezes. Ele precisava ligar para os Vancroft.

— Arthur? — Julian falou, a voz saindo como um sussurro quebrado quando o pai de Charlotte atendeu. — É a Charlotte. Nós a encontramos... mas ela está na UTI. O bebê nasceu. Inverness... foi um massacre. Venham para Edimburgo agora.


Enquanto isso, atrás das portas de vidro reforçado, a batalha pela vida era visceral. Charlotte estava em choque hipovolêmico; seu corpo, exausto pela magia drenada e pelo parto prematuro sob frio extremo, lutava para não desligar. Médicos injetavam soro e bolsas de sangue O negativo em suas veias colapsadas. A monitoração cardíaca era uma linha errática de picos e vales.

Na Unidade Neonatal, a bebê lutava com a mesma ferocidade de Mordred. Seus pulmões, ainda imaturos, esforçavam-se para inflar. Cada respiração era um triunfo da genética Le Fay sobre a fragilidade humana. As enfermeiras observavam, maravilhadas com o calor que emanava da incubadora, um calor que parecia desafiar as leis da termodinâmica.

Horas depois, que pareceram décadas para Julian, o cirurgião-chefe saiu da unidade, retirando a máscara e revelando um rosto marcado pelo cansaço. Julian levantou-se num salto, os olhos injetados.

— Como elas estão? — perguntou Julian, a voz carregada daquela intensidade possessiva característica de quem não aceita perder.

— Conseguimos estancar a hemorragia — explicou o médico, com uma cautela que fez o estômago de Julian revirar. — O quadro da Sra. Vancroft é estável, mas é uma estabilidade frágil, Sr. Ashcroft. Ela sofreu um trauma físico e térmico severo. As próximas 24 horas são essenciais. Se o corpo dela não responder aos antibióticos e à transfusão nas próximas horas, poderemos ter falência múltipla de órgãos.

O médico fez uma pausa, olhando para a incubadora através do vidro.

— E a menina... ela é uma lutadora. Mas nasceu muito antes do tempo. Está sob observação constante.

Julian acenou, sentindo um vazio no peito. Ele olhou para o corredor, esperando ver a figura imponente de Mordred aparecer a qualquer momento, mas só havia o vazio. Ele sabia que, enquanto ele estava ali protegendo os destroços de sua família "perfeita", Mordred estava em algum lugar de Inverness, resolvendo com sangue o que a medicina não podia tocar.

A tensão era palpável, um drama mudo onde o tempo era o único inimigo que o dinheiro de Julian ou a magia de Charlotte não podiam comprar. Cada batida do relógio na parede da UTI era um lembrete de que a linhagem de Merlim estava por um fio, pendurada entre a morte branca da floresta e a sobrevivência em um berço de vidro.