Herança Real

26 É Ele Para Mim


Música

Des yeux qui font baisser les miens

Un rire qui se perd sur sa bouche

Voila le portrait sans retouche

De l'homme auquel, j'appartiens

Olhos que fazem baixar os meus

Um riso que se perde em sua boca

Aí está o retrato sem retoque

Do homem a quem eu pertenço

La Vie En Rose — Edith Piaf

Capítulo 24

O Circuito de Fórmula 1 de Mônaco foi adiado. Pierre comentou comigo sobre a presença de algum cara importante não ter chegado, além de necessitarem de mais um tempinho para terminarem com as pistas.

Porém em dois dias, tudo estaria pronto novamente e, por mais incrível que pareça, Pierre estava contendo seu nervosismo nesses dias.

— Odeio protelar nervosismo! Isso vai me matar! — ele comentou depois de termos acabado de ver um programa na televisão.

— Tenta se distrair, príncipe.

— Nada funciona. A ansiedade está me rasgando ao meio.

— Relaxa. — tentei passar confiança. — Você não ganha sempre? É só um tempinho para você se aperfeiçoar mais.

— Você com esse sorrisinho até parece que sabe o futuro mesmo. — Pierre bufou. — Não quero mais pensar nisso!

Eu ia rir de leve quando a porta foi aberta. Um dos médicos de meu pai estava na abertura, pedindo para conversar sobre a situação de John.

Subitamente, fiquei tensa.

— Boa tarde, Vossa Majestade. — o médico fez uma vênia. — E senhorita Kane.

— Ora, adiante o assunto, homem!

— Príncipe, acalme-se — eu pus minha mão para impedir Pierre de amedrontar o médico. De assustada, já bastava eu. — Pode falar, doutor.

— Bom... Como sabem, o senhor Kane está mantido em coma induzido há um mês, que é o tempo necessário, geralmente, para o corpo lidar com os próprios traumas para que, então, possamos acordá-lo.

— Certo. Entendemos. Já deu um mês, vão acordá-lo?

Prendi a respiração após a pergunta de Pierre.

— Na realidade, Vossa Majestade, para iniciarmos este processo precisamos de um indício de que o corpo do paciente está reagindo, e hoje pela manhã notamos uma leve movimentação na mão dele e uma atividade cerebral maior registrada.

— Meu pai vai acordar a qualquer momento?

— Não, senhorita Kane, mas não são más notícias. Isto quer dizer que seu pai está reagindo e vamos continuar a diminuir os medicamentos a fim de que ele possa voltar no momento certo.

— Já começaram por hoje?

— De certo, Majestade.

— Obrigado pelo seu esforço e de sua equipe, doutor.

Pierre cumprimentou o médico e, atônita, me sentei.

— Você está bem? Parece bem verde.

— Não vou vomitar. — certifiquei-o. — Meu Deus, ele vai acordar. Nem parece que é real, sonhei com isso por dias e dias...

— Serena, querida... Vamos ter esperança sim, mas seu pai vai precisar do tempo dele. Criar expectativa para acordá-lo agora pode ser doloroso, pois o corpo dele está bastante debilitado pelo câncer e..

— Não precisa, Pierre, eu sei! Só parece que, dentro da profundeza lamacenta que se tornou minha mente, um raio de sol surgiu.

O príncipe me sorriu e deu um aperto em minha mão.

— Então trate de seguir a luz, garota.

[...]

No dia seguinte à notícia acerca de meu pai, decidi que estava na hora de voltar para a casa de Jean. Primeiramente porque eu não aguentava viver somente em um cômodo, sem nada para ocupar uma mente pessimista, e, em segundo lugar, eu sentia muita falta do resto da vida. Digo, Marie me fazia falta, por Deus! Como alguém pode sentir saudade de gritos e ordens dadas a todos momentos?

Com somente uma bolsa, deixei o andar privativo do hospital. Nenhum dos meus três comparsas — como Vic tinha denominado a ela e aos dois da realeza — estava ciente da minha decisão. À espreita, esperei o momento em que pude ficar sozinha e acalmei minha mente sobre o estado do meu pai não estar piorando, agarrando-me à esperança no meu coração. Quase sai só de burca, de tanto pano, pela rua de tão... Deslocada que sentia, mas o óculos escuro serviu para cobrir minhas olheiras.

Vic havia me dito que nossas fotos — adicionando meu ato 'heroico' nas revistas do principado — causaram um furor descomedido entre o povo, então tratei de me esconder o máximo que podia de todos, afinal até Vic já tinha sido abordada na rua para fotos e abraços.

As pessoas seguiam seus rumos, apressadas, estressadas ou relaxadas, pelas ruas. Enquanto eu me perguntava se minha vida entraria nos eixos, segui o caminho que tinha procurado até a casa de Jean e estaquei na porta.

Aquela mesma porta que há dois meses fora meu portal para outro mundo...

Bati com a aldrava e esperei.

— JAMES! — ouvi uma voz conhecida soar depois de um tempo esperando. — CADÊ O MALDITO MORDOMO QUANDO SE PRECISA DELE?!

Sorri. Marie parecia altiva como sempre.

— TEREI QUE FAZER SEU SERVIÇO, JAMES, MAS O SENHOR SABERÁ! E... Residência dos Burn... SERENA?!

— Shiu, mulher, estou disfarçada! — tirei o óculos e empurrei uma Marie chocada para dentro de casa. — É gritando que você atende às visitas? Tsc, tsc, Marie.

— SERENA QUERIDA! — a governanta ignorou meu comentário e me apertou forte nos braços.

— Também senti sua falta.

— Céus! Não te vejo há... Ah, menina, que cara é essa?... Um mês! Venha, vou fazer algo para você comer.

— Estive desleixada para a aparência. — respondi, sendo puxada pela mão de Marie até a cozinha. — Desculpe não vir falar nada durante o episódio que passou.

— Ah, querida, eu entendo perfeitamente! Pronto, coma esta torta que foi feita agorinha! Você passou por uma situação muito delicada, Serena, não se desculpe por nada... Veio para ficar?

Olhei para minha mochila e mordi o lábio.

— Talvez. Posso ficar aqui ou alguns dias dormir por lá, mas certamente voltarei ao dia.

— Fico muito satisfeita de saber disso. — Marie me sorriu, calorosa. — A casa ficou bem triste durante sua ausência.

— Puxa, senti falta daqui também.

Eu não sabia que estava com fome até ver o pedaço bonito que Marie me empurrara, e então o devorei como se fosse morrer.

— Serena... Eu sei que é delicado o assunto, mas... Seu pai está bem?

Suspirei.

— Ele tem câncer. Me disse isso antes de desmaiar e irmos ao hospital. E é em estágio terminal. — prendi as lágrimas e Marie notou meu rosto vermelho.

— Ah, querida, não chore, venha.

— Ele estava em coma, mas estão tentando trazê-lo de volta.

— Tudo se resolverá, meu amor, vamos, você parece precisar de um descanso. Também precisa de cuidados, Serena querida, não se esqueça disso.

No abraço de Marie, sendo transportada para meu velho quarto, percebi que sentia falta de uma figura conhecida que simplesmente me desse um colo de mãe.

[...]

— Sua loira, irá aparecer hoje, não é?

— Príncipe, claro que sim. Já confirmei umas, deixei-me me ver... Ah, é! Duzentas mil vezes!

— É que não ponho muita fé em você, sabe como é.

— Só hoje! Já falei muitas vezes, Pierre! — exclamei, ao telefone.

Aquele garoto tinha me ligado pela terceira vez ao dia e eu suspeitava que o motivo era por estar apreensivo.

— Não precisa ficar com medo, príncipe, você não é tão bom nisso?

Pierre suspirou do outro lado da linha.

— Você pare de caçoar da minha pessoa, garota.

— Estou citando suas próprias palavras! — eu sorri. — Mas fala sério, Pierre, não se preocupe com isso. Confie em seu potencial e dê o seu melhor na hora certa.

— É... Pode ser. Olha, garota, vou desligar que preciso terminar algo.

— Ok, mas não me ligue de volta!

Antes de desligar, pude ouvir um xingamento de Pierre.

Eu pensava seriamente em comparecer ao evento daquele dia, pois sabia que a imprensa estaria em peso por lá. Todavia, eu havia me comprometido e estaria ali para dar o suporte a Pierre, caso necessitasse.

— Querida? — Marie dera duas batidinhas na porta antes de entrar. — Vejo que já está pronta. A senhorita Beaumont está à espera.

— Obrigada, Marie. Mas ei... Você acha que estou exagerando? — indaguei, receosa pela escolha do vestido branco e a tiara.

— Claro que não! Está linda! E noto que finalmente seguiu meus conselhos.

Rimos juntas até encontrar Vic me esperando na porta.

— Aleluia, sereia! — a ruiva estava impecável em seu vestido rosa, rodadinho e com um brilho discreto. — Como eu estou?

— Incrível, Vic! Só você para combinar uma roupa que dê certo com um chapéu!

Vic abriu um sorriso enorme.

— Oras, muito obrigada. — ela respondeu e nos encaminhamos para seu carro estacionado do outro lado da rua.

— Ei, cuidado! — gritei, tentando alertar a Vic que ia na frente e seria o alvo certeiro de um ciclista cego.

O estalido foi inevitável. Vic foi ao chão, junto do ciclista, e corri para acudi-la.

— Oh meu Deus, Vic! Você está bem?

Por sorte, não fora algo muito grave, então quando Vic tentava levantar com a ajuda de seu motorista que havia saído ao vê-la caída, virei-me para discutir com o maluco da bicicleta quando notei sua fisionomia coberta por uma máscara e um capacete.

— Você! — vociferei ao mesmo tempo em que o ciclista levantava e corria para sua bicicleta, mas vislumbrei seus olhos rapidamente.

Olhos de um azul claríssimo. E o ciclista trajava uma blusa branca com detalhes em azul que eu tinha certeza de que eu quem tinha escolhido aquela roupa!

Incapaz de falar algo pela surpresa ao reconhecer Pierre, ele somente subiu em sua bicicleta, sorrindo marteiro, e passou perto de mim para falar algo e depois desaparecer em velocidade pelas ruas.

— Eu precisava arranjar algo alternativo para aliviar a tensão! Au revoir!

[...]


Eu não sabia como funcionava um circuito de Fórmula 1.

— Será que demora muito? — cochichei para Vic num momento em que tínhamos conseguido nos livrar dos fotógrafos e suas perguntas.

— O quê? Essa sessão de fotos intermináveis? Não sei, porque ainda precisamos ir para o camarote e a porta está lotada deles. — uma Vic meio rabugenta respondeu.
A verdade era que, depois de sua queda na rua, ela estava possessa com o tal ciclista descuidado. E para o infortúnio de minha amiga, eu só podia rir.

Não dedurei Pierre, pois tinha certeza de que ele seria a primeira pessoa a provar da ira da meiga e bondosa Victorine Beaumont.

— Não, sua louca, estou falando do circuito! Nunca vi um, demora demais?

Eu me sentia nervosa por Pierre, embora este já fosse figurinha antiga no evento.

— Como é para ver quem tem mais velocidade, tem que ser rápido, né, Sereia — Vic riu de mim e me puxou pela mão. — Vamos logo ao camarote que começa daqui a pouco e os urubus não nos deixarão em paz!

Para ter noção, Vic estava até chateada com as câmeras! Afinal, ela narrava o quão especial era a pessoa de roupa que fora rasgada em sua queda na rua, o valor afetivo que se sobrepunha ao estético. Não contestei, mas sabia que tinha um grande melodrama envolvido.

— Por que ficam tanto em cima de nós agora?

— Depois de sua boa ação, querida, as causas beneficentes já te procuram, então depois do desfile no baile, até os fashionistas entraram na onda. É óbvio, claro, que o povo adorou uma figura feminina que inovasse em suas ações.

Revirei os olhos. Tudo bem que, antes, eu ajudava com a ONG dos animais e tudo o mais, como me voluntariar para passeios e dinâmicas, mas agora... As pessoas ainda me viam como um exemplo?

— Sinto muito por fazê-la ser perseguida — sussurrei para minha amiga ruiva, que bufou.

— Não há nada para se desculpar, Sereia. Tudo bem que os modistas se juntaram aos paparazzi, mas o status de meu pai já me trazia isso.

Às vezes, eu esqueci que andava com a filha do diretor do principal órgão político-econômico do principado. Ri de meus pensamentos ao refletir minhas companhias; tinha como melhor amiga a filha de um político, me sentia amiga íntima — e devedora! — de um príncipe, e estava apaixonada por um futuro duque...

Na verdade, por essa última parte meu sorriso ruiu bem como meu ânimo quando chegamos ao camarote e visualizei a pessoa que tanto se destacava dentre todas juntamente com a outra pior pessoa que conheci: Blaire de Rohan, futura duquesa de Valentinois.

Argh! Como acalmava o embrulho em meu estômago e a frieza em minha garganta ao ver Conrad tão próximo a Blaire que as mãos dela quase tocavam a coxa dele?

— Não deixe isso te afetar.

Vic apertava minha mão com força e desviei minha atenção para ela.

— Não irei. — forcei um sorriso para tranquilizá-la e notei como era o camarote.

Diante da linha de partida/chegada, em um pico de um morro, era uma estrutura que dava para ver tudo do alto. À direita, o mar furioso fustigando as rochas. À frente, barreiras no perímetro da rua e um amontoado de carros e seus condutores. Ao que deu a entender, o camarote era reservada para presenças ilustres, da realeza e política.

Não preciso dizer que minha presença ali se devia ao príncipe, não é?

Meus olhos se focaram em Conrad novamente e fui retribuída. Percebi que o rapaz ia nos chamar, todavia a ruiva ao meu lado nos levou para as cadeiras da frente, próximas ao vidro.

— Não vamos sentar perto deles? — perguntei, sentindo um aperto por não ter tido a chance de ouvir Conrad.

— Não, aqui tem melhores lugares da corrida, não quer? — Vic arqueou a sobrancelha sugestivamente. — Vamos, Sereia, não queremos que nosso dia fique ainda mais arruinado ao lado de Blaire.

— Ora, ora, quem é você e o que fez com a Victorine, amiga da Barbie? — murmurei baixinho em resposta enquanto me sentava.

— O tal ciclista doido me deixou com um humor do avesso!

Ri sozinha.

Depois de trocarmos alguns assuntos, notei a movimentação na pista lá embaixo e soube que estava para iniciar a corrida, então mordi o lábio, nervosa.

— Boa tarde, senhoritas — a voz de Conrad se fez audível no vão entre minha cabeça e a de Vic. — Ansiosas para a corrida?

Embora tivesse perguntado a nós duas, eu soube que ele notara meu nervosismo.

— De verdade? Não. O príncipe sempre ganha — Vic respondeu um tanto quanto sonhadora ao falar de Pierre, e me perguntei se ela o trataria assim ainda se soubesse que o tal doido da bicicleta e o príncipe eram compatíveis.

— Meu primo adora esportes e esse é um dom dele, realmente — Conrad retrucou e sentou-se na cadeira ao meu lado. — Não fica nervosa, Se, é para apreciar o show.

— Mas eles não podem se acidentar nessas ruas estreitinhas demais? E nessa velocidade toda!

— Já sabem com o que vão lidar — ele respondeu e buscou minhas mãos. — Senti sua falta. Tudo bem?

Vê-lo com aquele sorrisinho de lado, meio acanhado, meio brincalhão me fez esquecer qualquer preocupação.

— Eu também senti a sua. E sim, estou melhorando.

Eu sabia que ele perguntava principalmente em relação ao meu pai, que por sinal estava respondendo aos estímulos dos médicos para acordá-lo, como verifiquei pela manhã naquele dia.

— Fico feliz por isso. Está ansiosa para conversar com ele?

— Um pouco. — desviei os olhos do rosto de Conrad, não querendo me aprofundar no assunto. — Há coisas para serem esclarecidas.

Mesmo sob o olhar estranho do rapaz ao lado, deixei que nossas mãos se juntassem em um bolo que acalmava meu interior.

— E como está na sua casa? — sussurrei próximo ao seu ouvido. — Não vi sua mãe aqui.

— É porque ela ainda está tentando lidar com as coisas. — Conrad suspirou. — Tenho cuidado da Casa, mas ela andava trancada em seu quarto a maior parte do tempo e só sabe falar sobre o ducado.

— Nossa, que pena. Queria poder ajudar a você, Conrad.

— Você sorrindo, já me ajuda e muito, Sereia. — Conrad murmurou, entre um sorriso é um beijo terno em minha testa.

[...]

— Foi ele?!

— SIM! AI MEU DEUS! — Vic exclamou, batendo as mãos no vidro, eufórica. — Não arregale os olhos, Serena!

O carro de Pierre fora o primeiro a chegar e o camarote foi à loucura. Os fotógrafos e a cobertura internacional deliravam e formaram um aglomerado em torno do príncipe, e Vic surtava.

— Sabia que ele conseguiria! Sabia!

— Orgulhoso do meu primo.

Não respondi nem a Vic nem Conrad. A vitória por um amigo também nos contagia, de forma que não deixei de sorrir por ver Pierre lá embaixo com um enorme sorriso de satisfação e contentamento.

— Ora! Mas o que ele está fazendo?

— A quem o príncipe está chamando?

— Olhem isso! Vossa Majestade está sorrindo para cá!

— Fotógrafos estão tirando fotos nossas!

Uma balbúrdia se instaurou no momento em que Pierre apontou para o camarote, fazendo o gesto de chamar alguém.

O pior não foi o barulho e os comentários envaidecidos de alguns, mas sim a certeza da direção do olhar do príncipe.

Ele só podia estar brincando comigo.

— Sereia, acho que é com você — Vic murmurou. — Olha lá!

— Não se pode ter certeza — rebati, com a maior vontade de me afundar em um buraco e ficar longe de todos os olhares.

— É você. — a voz cortante de Conrad me alertou. — Sim, Serena, é você a quem ele está chamando.

— Ora! — exclamei, assustada com a súbita mudança da fisionomia dele. — Não pode ser eu!

Vic apontou para mim, como se perguntasse, e Pierre acenou positivamente.

Mentira, né?

— Não vou.

— E vai deixá-lo pagar de bobo internacionalmente?

— Você está louca?! Eu não vou!

— Serena, precisa ir!

— Não irei!

Eu estava irredutível e já ia me virar para me esconder quando Conrad voltou a falar.

— Vá, Serena. Ele é o príncipe, não é?

Seu rosto estava disforme e intransponível, de uma forma que eu nunca vira antes.

— Sereia, se for, terminará mais rápido. Depois te salvarei, prometo — Vic amenizou a tensão instalada decorrente da guerra de olhar entre mim e Conrad.

Não desviei o olhar do verde esmeralda que já me era conhecido. Conrad quem virou para o lado e saiu, desaparecendo da minha vista.

Vic ficou muda, estranhamente silenciosa de volta em sua cadeira e encarei o que devia fazer.

Claro que depois mataria Pierre.

Desci, quase tropeçando, respirando fundo a cada passo e baixando a cabeça quando os flashes começaram.

— Ainda bem que veio logo — as mãos de Pierre me alcançaram e rapidamente me puxou para o seu lado. — Bom, senhores, como perguntaram a quem eu tinha conversado sobre o nervosismo da corrida, aqui está a pessoa! Serena Kane, uma ótima amiga, mas impaciente para conversas em telefones.

Os repórteres riram com o príncipe e tive certeza de que meus olhos estavam esbugalhados de vergonha.

— Sorria, garota, é só uma foto. — o príncipe mandou, sorrindo ao meu lado e pousando para alguns.

— Haha, como queira, Majestade. — respondi entredentes, certa de que ele saberia, pelo forma como o tratei, que eu estava chateada por estar naquela situação.

Pierre tratou de espantar a todos e me puxou pelo braços para ficarmos mais afastados.

— Desculpe-me, garota, eu só quis brincar com eles. Ah, mas com você também.

— Se eu soubesse que ficaria com tanta vergonha, nem teria saído da cama hoje!

Pierre gargalhou. Ele não ligava mesmo para os meus dramas, mesmo que eu estivesse visivelmente chateada e constrangida. Por isso bufei e levantei a cabeça, deparando-me com a cena entre Blaire e Conrad.

A loira platinada cochichava ao ouvido dele, que transformava a expressão várias vezes, de braços cruzados.

Não gostei nada daquilo.

— Ora, vamos logo que quero jantar — Pierre chamou minha atenção.

— E quero ir para casa.

— O que?! Não, eu ganhei! Faremos a festa daqui a quatro dias, mas sairemos para jantar, garota!

— Você faz planos e me inclui, mas nem me convidou — eu acompanhei os passos do príncipe. — Não estou no clima.

Ver Conrad tão próximo à víbora me deixava nauseada.

— Oh, Serena, não faça drama, hein. Chame a ruivinha também, mas não conte que eu fui a derrubá-la!

— Irei chantageá-lo com isso, pode deixar.

Pierre continuou a tagarelar enquanto eu enchia meu coração de esperança, esperando Conrad descer para falar comigo.

Entretanto, ele tinha desaparecido.

— Ele teve um compromisso urgente, Serena — Vic me alertou quando percebeu meu olhar distante. — Já se foi.

— Percebi.

Pierre se aproximou.

— Vamos, garotas?

— Só se for sem flashes! — declarei. — Sério, deve existir um restaurante secreto.

— Certamente, mademoiselles, sigam-me.

[...]

(play na música)

É ele para mim

Eu para ele na vida

Ele me disse, me jurou pela vida

Estávamos em um tradicional restaurante francês. Discreto, escondido e com ótimo cardápio. Ao palco, uma dupla estava na performance de uma música. Não havia muitas pessoas ao salão, porém era bem frequentado.

— Sabe, príncipe, foi uma bela corrida. — Vic elogiou, bebendo um pouco do vinho em sua taça.

— Obrigado — Pierre respondeu, pomposo. — E sabe que deve me chamar de Pierre, não é, ruiva?

Vic sorriu, de lado.

Quando ele me toma em seus braços

Ele me fala baixinho

Eu vejo a vida em rosa

Pelas paredes de vidro azuis, eu observava o fim da tarde, com um mar calmo, pacífico.

— Serena?

— Ah! Oi — respondi depois de ser cutucada por Pierre.

— Não vai beber? Este vinho é ótimo.

— Pode provar, sereia, é muito bom. — Vic corroborou com o príncipe.

— Ah, é claro que irei — peguei minha taça, molhando os lábios e sentindo um aperto na garganta. Pigarreei. — Estava... Er... Pensando, desculpem.

— Não irei nem perguntar em quem.

Vic riu do comentário de Pierre. Só revirei os olhos.

Ele me diz palavras de amor

Palavras de todos os dias

E isso me toca

— Está tudo bem, sereia.

— Concordo com a ruiva, garota. Se não está, vai ficar.

Olhei para as duas pessoas que tinham um espaço cativo em meu coração. Eu podia chamá-los de amigos, podia contar com eles, confiar. Era um presente dividir parte de mim, da minha vida, com eles.

E por que eu sentia como se faltasse algo?

Olhos verdes anuviaram minha mente.

Entrou no meu coração

Um pouco de felicidade

Da qual eu conheço a causa

Conrad.

Puxa, como ele me fazia falta. E sua repentina mudança de atitude havia me magoado. Mesmo que estivesse apressado, teria se despedido de mim, certo? Então, por que não o fez?

Pior: porque deixara Blaire tão próxima mais de uma vez, como se aproveitasse de minha ausência?

"Não quero perdê-la! " A voz dele, naquela tarde nos jardins, retumbou em minha cabeça.

E desde que eu o percebo

Então sinto em mim

Meu coração que bate

E descobri que eu quem não queria perdê-lo. E a sensação se apoderava em meu estômago, me deixando enjoada, era medo. Era o prenúncio de coisas ruins.

.

.

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HOLA LINDOS E LINDAS! Quero muito agradecer a todos vcs, que leem, que acompanham, que comentam e me deixam muito feliz!

AGRADECER pelas 1.2K de leituras! Obrigada!

E até o próximo!

P.S.: QUERO AS REAÇÕES DE TODOS EM CADA PARTE DO CAP.