Herança Real

27 Mentes Suspeitas



"A desconfiança é criada como uma pequena fagulha em um chão sensível de álcool, sem possuirmos o controle do iminente incêndio."


Capítulo 25

CONRAD


Blaire estava esquisita.

Eu havia chegado ao camarote para assistir ao início da corrida de Fórmula 1, na qual Pierre estava concorrendo, como sempre. Não tinha ido buscar Serena a pedido da mesma, mas meus pés já estavam inquietos para ir buscá-la eu mesmo.

Até a de Rohan me encontrar sentado em uma cadeira na parte mais traseira do camarote.

— Conrad! Finalmente te encontrei.

— Boa tarde, Blaire. — respondi, sendo momentaneamente distraído de minha inquietação para notar o semblante preocupado da loira à minha frente. — Aconteceu alguma coisa?

— Não! Quero dizer... Sim! — Blaire torceu os dedos Cobertos de anéis, nervosamente. — Temos que conversar.

Franzi o cenho. Blaire sempre que me encontrava, tratava-me de uma forma diferenciada, entusiasmática, eu sabia, e tudo por causa do ideal que nossa sociedade deixava florescer: que seríamos um casal perfeito. Eu não lhe dava expectativa, mas era cortês como a todos, embora tivesse diminuído consideravelmente para não dar mais chances à imaginação da garota.

— Podemos conversar, sim... Vá algum dia lá na mansão.

— Não, Conrad! Tem que ser agora.

— Por que a urgência? — levantei-me da cadeira para não falar tão distante da interlocutora.

— Porque é um assunto que gostará de saber, duque.

Blaire sorriu, pretensiosamente, e eu quis recuar, porém o fluxo de pessoas que havia entrado me empurrou, fazendo-me sentar novamente e a loira me acompanhou ao lado.

— Mas acho que nós podemos tratá-lo depois.

— Aposto que se arrependerá de não saber por agora, Conrad. — Blaire insinuou e pousou a mão em minha perna, porém eu nem prestava mais atenção ou conseguia sentir algo.

Ao lado da ruiva, Serena apareceu no camarote lotado. Deslumbrante, os olhos âmbar percorriam o ambiente. Cruzou com o meu olhar e pude jurar que uma batida minha falhou, bem lá dentro do meu peito.

Eu poderia segurá-la e nunca mais deixá-la ir para longe.

Afastei Blaire na mesma hora em que Serena desapareceu e recobrei meus sentidos.

— Blaire, onde você quer chegar?

— Oh, querido, em lugar nenhum.

Não dei importância para seu sorriso ladino e fui à procura de Serena.

Parecia que eu não a via há uma eternidade.

(...)

— É bastante sério o que eu tenho para falar, Conrad!

— Não estou interessado, com licença. — pronunciei quando a afastei do caminho a fim de me distanciar o máximo possível da cena que iria se desenrolar com meu primo e Serena lá embaixo.

— Você estará sim! Precisa me escutar!

Caminhei mais determinado para o fim do camarote e notei as duas entradas opostas para o banheiro.

— Ah, por favor, Blaire! Deixei-me sozinho. Agora.

A loira parou, bruscamente.

— Nossa, por que está tão irritado? — desdenhou. — Nunca falou assim, Con, acalme-se, estou aqui.

Bufei, ainda mais irritado.

— Humpft! Não estou com paciência para bons modos.

Virei-me para me dirigir ao banheiro e fugir daquela criatura faladoura sem limites, porém me enganei se havia achado que seria fácil me livrar dela.

De supetão, fui empurrado na parede oposta à porta quando a abri e ouvi o barulho da tranca se fechando.

— Se você só vai me escutar assim, melhor ainda que seja em particular mesmo.

De olhos arregalados, me deparei com Blaire guardando a chave do banheiro no decote do vestido.

— Não fique tão surpreso, docinho. — ela sorriu. — Só eu e você. Finalmente.

— Você ficou louca, mulher?! Não pode estar acontecendo!

— Não vejo nada de mau nisso, Con, calma!

— Você nos trancou em um banheiro! Juntos, publicamente! — passei as mãos pelos cabelos, sentindo meus poros dilatarem de estresse. — Enlouqueceu, só pode.

— Oh, me desculpe. Mas preciso falar com você!

— Sabe o risco de fofocas disto assim, senhorita?!

— Bem... Pensando nisso agora... Não seria ruim.

— Seria péssimo!

Meu Deus. Desfazer um mal entendido daquele tamanho seria uma dor de cabeça.

Serena.

Minha nossa.

— Você está louca, Blaire.

— Não estou! — Blaire exclamou, vermelha de raiva. Apontou o dedo em riste para meu rosto. — Você precisa saber que está sendo enganado e caindo na armadilha mais velha da história! A do amor, seu idiota!

— O-o que? Mas o que raios você está dizendo?

— Estou afirmando que tenho provas de que Serena é uma impostora.

¨*¨*¨*¨*¨

Para ser sincero, todas as palavras que jorraram da boca de Blaire pareciam ter flutuando entre o pequeno espaço entre nós naquele cubículo trancado. Toda aquela história parecia tanto uma ficção que eu não podia acreditar em um só ponto.

— Com que base você está dizendo isso, Blaire? É sério e não pode sair afirmando isso sobre Serena. — falei, seriamente, após Blaire terminar de explodir suas novidades em mim.

— Com base concretas, querido. Na noite do baile para o príncipe, sua mãe me procurou com certa desconfiança acerca dela. E eu não se sei você sabe, mas... Hm, vejamos, minha mãe tem contatos na área investigativa do principado, e sua mãe sabe, é isso que importa! Então pediu para que eu ajudasse minha mãe nesse trabalho de descobrir as origens e objetivos de Serena Kane.

— Não consigo acreditar.

— Contra fatos não há argumentos. — respondeu. — Eu soube agora, também. Precisei contar a você porque me preocupo, Conrad! Sua mãe está sabendo desde ontem, mas ainda precisamos saber mais algumas coisas para concluir e expor a todos.

— Como é?! Isso não é verdade. Olha só, Blaire, eu sei que você tem uma rixa com Serena, mas não saia falando dela para todos, ouviu bem? Ela não merece isso e, caso for verdade, iremos conversar com ela particularmente!

— Você foi mesmo fisgado por ela.

Blaire tinha assombro no rosto.

— Ela te enfeitiçou.

— Pare com isso, oras, ela não tem culpa de nada. — bufei, tentando fazer minhas próprias palavras se concretizarem dentro de mim.

— Não feche os olhos para as coisas, Conrad. Eu sei que é ruim se iludir com alguém.

Fitei Blaire. Não respondi nada.

Todas as palavras ainda pairavam no ar, me sentindo sufocar. Puxei a gravata para folgar o pescoço e pus a cabeça entre as mãos, sentado no banheiro.

Serena não teria guardado segredo de toda aquela história sobre si mesma se soubesse. Conversamos inúmeras vezes sobre o passado e nós mesmos, ela não teria fingido tudo.

— Você está tentado a acreditar nela porque acha que está apaixonado por ela.

— Não acho que estou. Tenho certeza.

Pronunciar meus sentimentos a alguém que não fosse a dona deles me fazia sentir o peso da afirmação.

Sim, eu estava apaixonado. Sim, meu coração não queria destituir a imagem irreal e imaculado que havia feito de Serena, porque ela era assim.

Não podia ser diferente.

... Não é?

— Você só a conhece há... O que? Vamos ver... Dois meses, mais ou menos, Conrad, francamente, não pode duvidar de provas só poque acha que a conhece.

Eu não tinha nada para responder a Blaire e suas palavras ferinas.

— Eu só vou acreditar quando tiver provas. — decretei, querendo que minha mente se acalmasse e meu coração parasse de correr lá dentro.

— Estão com sua mãe. A última, porém, vamos terminar em alguns dias.

Com a visão turva, pisquei para afastar a imagem dos possíveis acontecimentos que se sucederiam se tudo fosse verídico. E meu corpo tinha vontade própria para se contorcer ao imaginar tudo aquilo.

Era mais forte do que eu a vontade de proteger Serena, mas... E as provas? E a verdade?

Quem era o dono da verdade, ali?

E qual era ela.

A corda da incerteza laçou meu pescoço com força e destreza.

— Saia agora, Blaire.

— O que?! Mas, Conrad!

— Agora. Não me faça mandar de novo.

Não levantei o olhar para saber que ela tinha bufado, insatisfeita.

— Não seja idiota.

Ouvi o barulho de destranca da porta e depois a solidão me saudou no cubículo.

Eu esperei um tempo após a saída de Blaire e decidi que iria, de uma vez por todas, desvendar com minha mãe.

¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨


Você não vai me salvar?

eu não quero ficar

Apenas vagando através desse mar da vida


Você não vai me salvar?

A casa estava silenciosa. Apesar de sermos apenas meu pai, eu e minha mãe em uma grande casa, ela não costumava se silenciar com frequência. Franzi o cenho.

Meu pai nos abandonou depois de uma vida saturada. Havia deixado uma carta, com infinitos dizeres e perdão, alegando que não queria gastar o resto de sua vida preso em formalidades como já fizera com grande parte dela. Falava que o amor por minha mãe era sufocante e nem poderia ser amor, ele se deu conta, era um fanatismo. Uma meta a ser alcançada quando ganhasse o coração daquela mulher e domasse seu gênio. Sua vida, construída pedra por pedra, havia sido uma mentira. E ele decidira derrubar o muro de uma vez.

Minha mãe não ficou triste. Mas possessa seria a palavra ideal para descrevê-la. Eu jurava que ela iria atrás dele só para espancá-lo se fosse possível. Ela falava das 'aparências'.

E eu só podia sentir um vazio ainda maior, sem explicações. Havia guardado minha dor para cuidar da de Serena e o processo facilitou minha própria ferida. Eu sentiria falta de meu pai, sim, mas se ele ia ser feliz, que fosse do jeito que pensava e eu estava satisfeito. Ele tinha prometido se comunicar comigo quando se ajeitasse.

Alexandra Hanôver proclamou, para a sociedade, uma especialização acadêmica do marido do outro lado do oceano e eu pensava quando ela ia ter que afirmar publicamente sobre essa tal especialização eterna.

Bom, ela lidaria com isso quando chegasse a hora, afirmou. No entanto, dentro das quatros paredes e ao lado de uma garrafa, ela descontava suas frustrações. Eu suspeitava que o abandono de meu pai havia sido a última fissura que destruiu o reservatório emocional de minha mãe. Ela lidava com raiva, de tudo que já tinha passado por sua vida. E lidava assim todos os dias.

Não era estranho vê-la semiconsciente no quarto ao fim do dia, mas eu sabia que era o único jeito que ela queria lidar com a situação. Às vezes, já com olhos fechados e molenga em meus braços, ela chorava, alucinando, por algo. E pronunciava o nome dele toda hora, lamuriosa de um jeito que eu não conhecia.

Não sabia que havia uma Alexandra que chorava por trás da muralha que ela havia criado pra si mesma.

E o dono da muralha parecia ser um 'Jorge', já que era o nome que ela chamava sem cessar enquanto eu a levava para a cama.

Eu preferia esperar um tempo para minha mãe melhorar e, caso não cessasse, iria tentar intervir. Mesmo que em outras tentativas de fazê-la parar só tenham me dado gritos, sermões e um 'cuide da sua vida, garoto'.

E, mesmo que ela virasse outra pessoa quando estava em seu quarto, a casa não havia ficado silenciosa. Mas estava. E eu me assustei.

Corri as escadas, já na escuridão, e fui ao seu quarto. Estava vazio, arrumado como sempre estivera.

O barulho ritmado de algo batendo me chamou atenção para seguir ao escritório e na penumbra, a silhueta de minha mãe se destacava pela pouca luz do abajur da mesa.

Ela nem parecia minha mãe. Aparentava uma desconhecida, os malares proeminentes, mais magra, cabelos presos e desalinhados. E o meu verde refletido em seu rosto estava afundado em olheiras.

— Mãe?

Ela não me respondeu. Continuou batendo uma pequena estaca de madeira de um bracelete que havia desenterrado de suas coisas e não a soltava mais.

— Já sei de tudo — anunciei, sabendo que ela não queria falar, mas entendia perfeitamente. — Quero conversar com ela, mãe.

— Não.

A rispidez e a ordem ecoaram por todo o cômodo frio. As janelas estava abertas e o vento açoitava-as, ainda trazendo o barulho fustigante do mar nos morros abaixo.

— Por que não?

— Não temos certeza se ela é filha dele mesmo.

— Mãe, por favo-

— Não, Conrad, já disse. — os verdes opacos me furaram. — Não ouse me desobedecer.

— O que você tem em mente? — perguntei, minha voz saindo mais baixo do que eu desejava. A imagem de minha mãe perdendo os fios que a conectavam com a realidade era difícil de assistir.

— Vou fazer uma última busca com a senhora de Rohan e será isto.

Não respondi.

A estaca de madeira em formato de cruz que pendia do bracelete era pontiaguda e forte, continuava ritmada na madeira da mesa.

— Só peço que sejamos discretos. Com qualquer coisa, mãe. Precisamos falar unicamente com Serena, em particular.

Eu não costumava falar como um general ditando ordens bem como Alexandra fazia, mas meu instinto de proteção por Serena transformou minha voz. E ainda bem que minha mãe não protestou.

— Como desejar.

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Meus lindos/as! Eu queria pedir desculpa pela demora e me justificar! Dizer também que sinto faltaaaa de todos vocês e desse casalzinho!

Eu estive demorando mais para postar, pois estou dividindo o tempo em estudar (mais) na minha vida. Quero ser médica. Hahaha, acho que isso já é explicação suficiente! É isso! Ainda escreverei nos espacinhos de tempo que terei e, aos poucos, eles virão. É minha prioridade finalizar HR e já estamos no meio do caminho, então estou feliz!

Me faleem suas suposições e conjecturas! Beijos!