Herança de Sangue
4 A casa maldita
Notas iniciais
Kelly e Alexandre acompanharam Janine pela casa. A sala era grande, e as grandes janelas ao lado das portas deixavam-na bem iluminada. Havia um sofá de couro de costas para a porta e voltado para a estante. Nela havia um televisor antigo, fotos de família, e alguns objetos de decoração, ainda empoeirados.
Do lado esquerdo, havia uma poltrona de couro, que Janine ao olhar se lembrou do pai sempre sentado nela, para assistir as notícias na TV. Do outro lado ficava a escada que dava ao andar dos quartos. Atrás da poltrona passava o corredor que levava á cozinha. Bem em frente havia a porta para o escritório de Seu Silva. Nele havia várias estantes com livros, uma mesa em frente à janela onde ele sentava para conferir os documentos das fazendas.
No Corredor para a cozinha, também havia um pequeno banheiro, para as visitas, principalmente. Assim ninguém precisaria subir ao andar dos aposentos apenas para usar o banheiro. A cozinha era grande, com armários embutidos. Um refrigerador grande, e um fogão de seis bocas. Havia sobre um balcão alguns eletrodomésticos, como micro-ondas e liquidificador. Um pequeno balcão no meio da cozinha separava a mesma ao meio, ficando na outra ponta uma espécie de sala de jantar, com uma mesa pequena de vidro, e quatro cadeiras. Também nessa sala havia um pequeno armário onde guardavam alguns mantimentos.
Saindo pela cozinha, o quintal era enorme. Havia uma pequena área de serviço, com tanque e uma lavadora, pro lado esquerdo. Embaixo do tanque havia um pequeno armário para guardar os produtos de limpeza. No lado direito havia uma área grande, coberta, e com uma churrasqueira. No centro do quintal uma piscina, coberta por uma lona azul. Janine se lembrava que quando pequena adorava dar banho em suas bonecas na piscina. Depois que atingiu a adolescência nunca mais havia entrado novamente nela.
Subiram as escadas, que tinham um corrimão e o piso em madeira. Ainda bem cuidada. Janine havia passado um óleo neles. Inclusive alertou o casal a tomar cuidado para não escorregar ao subir. No piso superior de frente à escada havia um corredor longo. Com duas portas à esquerda e duas portas à direita. A primeira porta à esquerda era a do quarto de Seu Silva. A segunda era a porta do banheiro coletivo. Do lado direito a primeira porta era do quarto que pertenceu à Janine, e a segunda porta de um quarto de visitas.
Começaram pelo quarto de Janine. Tudo estava do jeito que ela havia deixando um ano antes, quando decidiu se mudar para a capital. Um enorme guarda-roupa do lado Esquerdo. A cama no centro, com a cabeceira sob a Janela. Do Lado direito a porta para o pequeno banheiro do quarto, e encostada nesta parede uma escrivaninha, ainda com alguns livros da época de faculdade sobre ela.
Janine sentiu um arrepio ao entrar naquele quarto novamente. Não conseguia tirar da cabeça a noite em que seu pai foi assassinado. Como ela não ouvira barulho nenhum? Pelas contas do legista seu pai havia sido morto antes de meia noite. Portanto ela ainda estava acordada. Os pensamentos sobre isso voltavam à tona de maneira tão brutal que nem ouvira o casal lhe fazendo perguntas.
– Você irá sentir saudades daqui, Janine?
– Hum, ham? O que? Desculpe-me estava distraída.
– Perguntei se você irá sentir saudades desta casa?
– Ah, tenho memórias boas de minha infância. Porém o último acontecimento não me fará sentir falta deste lugar.
– Hum, entendo! Dói falar sobre isso, né?
– Não, não! Já superei. Vamos continuar.
O quarto de visitas era menor, e mais simples. Havia um guarda-roupa na parede direita, próximo à porta. Uma cama no outro canto, encostada na parede esquerda, e um tapete em frente a cama, A janela tinha uma cortina escura, que estava fechada.
O Banheiro em frente a este quarto era maior que o debaixo e do quarto de Janine. Ao abrir a porta, já se via à direita uma pia enorme, com um armário embaixo. Sobre ela um espelho oval de quase um metro de altura, fixado na parede.
Ao lado o sanitário, e o Box para banho, de vidro fosco, Ainda fechado. A grande janela estava aberta. Talvez estivesse sempre aberta. Era raro alguém usar aquele banheiro. Ficava de frente para a rua. De fora, chegavam a pensar que era a janela de outro quarto.
Por fim, o último cômodo da casa a ser visitado estava próximo. O quarto de Seu Silva. Janine havia entrado naquele quarto pela última vez, no dia em que seu pai foi morto. O choque foi tamanho que ela desmaiou. Quando acordou estava na casa de sua tia, Eliete, que morava ao lado, deitada no sofá da sala.
Abrir aquela porta de madeira, que ainda rangia, fez renascer todas as lembranças daquele dia fatídico. Era como se ela pudesse ver novamente seu pai deitado na cama, com a barriga aberta. Foi possível ver da porta o corpo dele oco, através do grande corte.
O quarto de Seu Silva era o maior. À esquerda havia um enorme guarda-roupas, que quase encostava no teto, que, a propósito, tinha um enorme lustre de cristais pendurado. O Lustre era uma paixão de Marta. Depois de sua morte Seu Silva nunca o retirou. A cama era a mesma que o casal escolheu após o casamento. Enorme, com colchão de molas, muito confortável. À direita, ficava o banheiro, que era o maior da casa. Nele havia uma banheira grande, onde Marta tomava longos banhos para aliviar as dores da gravidez.
Janine estava pálida. É como se ainda pudesse ver o pai, com a cara assustada, e os olhos arregalados. Aquela cena havia sido bloqueada por ela. Há meses não pensava sobre isso. Hoje as lembranças se tornaram vivas. É como se tudo estivesse acontecendo novamente. A dor de ver o pai morto, policiais a acusando de ter cometido o crime. Vizinhos lhe olhando já a condenando. A imprensa mostrando-a como a sobrevivente de um crime macabro.
– Janine? Janine? Você está bem?
– Oi, estou sim! Só um pouco cansada.
– Foi aqui que aconteceu aquilo tudo com o seu pai?
– Foi sim. Isso é problema pra vocês? Muitos deixaram de comprar a casa depois de saberem o que aconteceu aqui.
– Não, não! Somos ateus! Não temos superstições! Adoramos a casa! Vamos ficar com ela, não é amor?
– Vamos, sim! Adorei tudo! Precisa de algumas reformas, mas nada pesado! Amei esse lustre!
– Janine, nós vamos voltar à capital para falar com o gerente de nosso banco! Amanhã a gente volta para assinar os papéis!
– Ok. É ótimo saber que vocês gostaram. Espero que essa casa ajude vocês a serem felizes tal qual eu fui aqui.
Já descendo as escadas Janine percebeu que havia deixado a chave no quarto que pertencia a seu pai.
– Podem ir descendo! Vou voltar para pegar a chave, e trancar a casa. A gente se vê amanhã!
Janine subiu com pressa. Não queria passar mais nenhum minuto naquela casa. Pegou a chave e desceu as escadas correndo. Quase caiu, por causa do piso lustrado. Segurou-se no corrimão. Achou que desceria rolando os degraus restantes.
O molho de chaves na mão lhe distraiu, e nem percebeu que o casal já havia ido embora. Quase deu com a cara na porta, que estava fechada. Finalmente achou a chave que seria necessária para trancar a porta da frente. Girou a maçaneta e ia saindo apressadamente quando o susto a fez paralisar na porta!
Deu de cara, com Seu Jorge, o vizinho da frente. Ele estava parado de frente à porta. Quando ela finalmente se recuperou do susto, disse ao vizinho!
– Poxa, Seu Jorge, quase me mata de susto!
– Quem me dera! Sua assassina, bem que você merecia morrer!
– Credo, Seu Jorge, o que deu no senhor? De onde tirou isso? O senhor foi um dos que deu entrevista falando que acreditava na minha inocência quanto a morte do meu pai.
– Não estou falando daquele crápula! Eu mesmo teria lhe ajudado a matá-lo se tivesse me pedido!
– O senhor está me assustando!
– Você matou sua mãe! Se não fosse por você, ela estaria viva! Eu a teria só pra mim, agora!
– Eu tenho mais o que fazer! O senhor me dê licença! Não tenho tempo a perder com isso!
Janine trancou a porta e saiu apressada. Deixando Jorge em pé, parado em frente a porta de sua casa. Aquele momento foi assustador. Sempre achou aquele senhor assustador. Lembrou-se de quando era criança, ele quase atropelou seu pai, gritando que ele nunca mereceu Marta. Seu Silva chegou a chamar a polícia. Foi a maior confusão.
Já passava das cinco da tarde. O tempo estava começando a fechar! Aquela seria uma noite chuvosa. Janine ainda não havia perdido o medo de trovões!
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