O azul tirreno de Capri segurava a última luz do verão como se não quisesse soltá-la. Era um tom tão profundo, tão irreal, que parecia feito de magia antiga e promessas quebradas.

No convés da balsa que cortava as águas em direção ao continente, Charlotte Aurelius Vancroft e Mordred Vane Le Fay pareciam duas forças opostas presas em uma trégua frágil e perfeita.

O vento brincava com os cabelos loiros de Charlotte, fios dourados que dançavam contra o céu que escurecia. Ela era leve como a brisa matinal: delicada, magra, com uma doçura que parecia capaz de acalmar até o mar mais agitado. Ao seu lado, Mordred era a tempestade contida. Alto, de ombros largos e porte atlético, ele projetava uma sombra protetora sobre ela. Seus olhos verdes, que haviam passado o verão calmos sob o sol da Toscana, agora carregavam uma inquietação crescente. As visões já começavam a voltar — sussurros de sombras, pedras antigas e segredos que o chão parecia ansioso para revelar.

— De todas as pessoas que eu poderia ter me apaixonado neste verão... — murmurou Charlotte, a voz suave carregada de um sorriso triste — tinha que ser você.

Ela sentia o peito dele contra suas costas, o calor firme de seu corpo, a respiração quente roçando seu pescoço enquanto ele depositava um beijo lento ali.

Mordred sorriu contra sua pele, a voz baixa e rouca:

— Karma é uma bosta, né?

Charlotte suspirou, saudosa, apertando-se mais contra ele. Virou o rosto e encontrou os olhos dele. O mundo ao redor parecia desaparecer por um instante.

— Odeio ter que me despedir do sol... de acordar todos os dias ao seu lado... e voltar para a realidade cruel e burocrática de Londres.

A voz dela embargou. Seu coração batia devagar, pesado, saboreando cada segundo do calor dele como se já soubesse que seria o último por um longo tempo.

Mordred virou-a gentilmente nos braços, as mãos grandes segurando sua cintura com uma possessividade delicada. Seus lábios se encontraram em um beijo lento, profundo, quase desesperado — o tipo de beijo que carrega promessas e medos ao mesmo tempo. O mundo girava devagar ao redor deles.

Até que o baque surdo da balsa atracando os trouxe de volta à realidade.

O sol de Nápoles batia forte no asfalto do porto, mas Charlotte sentiu um calafrio percorrer sua espinha no instante em que avistou o sedã preto estacionado logo à frente. A pequena insígnia de prata no capô brilhava como uma sentença.

O sonho de Capri havia terminado.

O motorista, um homem de quepe e expressão impassível, desceu do carro com a formalidade de quem cumpria ordens inquestionáveis.

— Srta. Vancroft — disse ele, a voz seca como um golpe. — Seus pais foram enfáticos. O jato já está com as turbinas ligadas. Lady Catherine não tolera atrasos, especialmente no seu aniversário de oitenta anos.

Charlotte apertou a mão de Mordred com mais força. Ela parecia ainda mais delicada naquele vestido leve de linho branco, os cabelos loiros presos em um coque desfeito pelo vento do mar. Seus olhos azuis, claros como o céu de verão, buscaram os dele, implorando por um plano de fuga que ambos sabiam ser impossível.

— Eles não perdem tempo, não é? — murmurou Mordred, a voz baixa.

Ele estava ali, com sua mochila surrada pendurada no ombro, os braços fortes e bronzeados contrastando com a palidez repentina do rosto. Parecia um intruso naquele mundo de jatos particulares e famílias antigas.

— É só um jantar, Mordred. Eu vou dar um jeito — disse Charlotte, tentando manter a voz firme, embora sentisse o coração martelando contra as costelas.

— Não é só um jantar, Charlotte. É Londres. É a sua família.

Ele olhou para o motorista, que mantinha a porta do carro aberta como uma contagem regressiva silenciosa.

— Eu sinto as visões voltando. Desde que pisamos no continente, o chiado na minha cabeça não para. É como se o chão estivesse tentando me contar um segredo que eu não quero ouvir.

Ele era o druida atormentado. O homem que sussurrava profecias durante o sono. E ali, no meio do barulho do porto, ele parecia prestes a se romper.

Charlotte ignorou o olhar reprovador do motorista e segurou o rosto de Mordred com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas.

— Me escuta. No primeiro dia da lua cheia. No Observatório de Greenwich. À meia-noite. Eu vou estar lá. Não importa se meu pai colocar guardas na minha porta.

Mordred a puxou pela cintura e a beijou mais uma vez — um beijo rápido, desesperado, com gosto de sal, de verão e de despedida.

— Se você não aparecer, eu vou derrubar os portões daquela casa, Charlotte. Eu não me importo com quem o seu pai pensa que é.

— Srta. Vancroft, por favor — insistiu o motorista, agora mais ríspido.

Charlotte entrou no carro. O couro do banco estava gelado pelo ar-condicionado, um contraste cruel com o calor que ainda sentia na pele. Através do vidro fumê, ela viu Mordred caminhar sozinho em direção ao terminal de embarque comum, misturando-se à multidão de turistas. Ele não olhou para trás.

Ele sabia. A partir daquele momento, eles não eram mais apenas dois jovens apaixonados em uma ilha italiana.

Eram herdeiros de uma guerra antiga que estava prestes a recomeçar.

Enquanto o carro acelerava em direção à pista privada, Charlotte abriu a bolsa e tocou o pequeno pingente de ouro que Merlim deixara para sua linhagem. Ele vibrava contra seus dedos, quente, quase vivo.

— De tantos homens neste mundo... tinha que ser ele? — murmurou ela, mais para si mesma do que para o motorista.

O homem a observava pelo retrovisor. Charlotte sustentou o olhar, os olhos marejados.

— O coração quer o que o coração quer.

Do outro lado da cidade, na fila do raio-x do aeroporto, Mordred sentiu a tatuagem rúnica em suas costas queimar como ferro em brasa. A voz de sua mãe já ecoava em sua mente, invadindo cada pensamento, cada lembrança.

O dever o chamava.

E ele sabia que, desta vez, não poderia ignorá-lo por muito tempo.


Assim que Charlotte entrou no jato particular, se deixou cair na poltrona de couro macio, o corpo pesado de uma exaustão que ia além da física. Seus olhos se perderam na janela, observando o aeroporto de Nápoles e os aviões alinhados na pista, prontos para decolar. Em poucas horas estaria de volta a Londres, e a mera ideia já apertava seu peito como uma mão invisível.

A aeromoça se aproximou com passos silenciosos, o uniforme impecável e a expressão neutra de quem estava acostumada a servir famílias como a dela.

— Senhorita Vancroft, sua mãe mandou a roupa para o jantar. Assim que pousarmos, você irá direto para a propriedade em Cotswolds. Todos estão ansiosos para te ver.

Charlotte forçou um sorriso pequeno, embora sentisse o peso de cada palavra.

— Tenho certeza que sim… também estou ansiosa para ver todos.

Havia verdade em sua voz, mas também um pesar profundo. Ela não sabia como os pais reagiriam quando contasse sobre Mordred. Muito menos como diria ao seu ex-noivo que, dessa vez, não haveria volta. Seus olhos se fecharam por um instante, e tudo o que desejava era conseguir se teletransportar — desaparecer no ar e reaparecer nos braços dele, onde quer que estivesse.

A mente dela fugiu para longe, para a Toscana, para uma noite que ainda queimava em sua memória como se tivesse acontecido ontem.


“A cortina fina do quarto da propriedade balançava suavemente com a brisa quente da noite italiana. Charlotte estava deitada sobre o peito de Mordred, sentindo-o subir e descer enquanto ele recuperava o fôlego. Os dois riam baixinho, ainda presos no calor e na intimidade do momento que acabara de compartilhar.

— Mordred é um nome diferente — comentou ela, traçando preguiçosamente círculos com o dedo sobre a pele dele. Era estranho pensar que, poucas horas antes, ele havia sido apenas um desconhecido que lhe dera um dos melhores encontros casuais de sua vida.

Ele virou o rosto para ela, os olhos verdes brilhando com uma ternura que desmentia o sorriso torto.

— Charlotte é bem comum… para uma pessoa tão extraordinária.

Eles se encararam por um longo instante, o ar entre eles carregado de algo que ia além da atração física. Quem era aquela estranha que o havia encantado tão rapidamente?

— Se você usa essa cantada com todas, preciso admitir que deu certo — disse ela, rindo baixinho. — Mas me conte mais sobre você, Mordred. De onde vem? O que faz?

— Vane Le Fay.

Assim que o sobrenome deixou os lábios dele, Charlotte se apoiou nos cotovelos, o corpo enrijecendo. Ela puxou o lençol rapidamente para cobrir o peito, engolindo em seco.

— Vane Le Fay? De Londres?

Havia um pesar imediato em sua voz. Mordred arqueou uma sobrancelha, curioso, o sorriso ainda brincando nos lábios.

— Sim. Por quê? Só me falta você dizer que é a mesquinha Charlotte Aurelius Vancroft. Porque seria…

— Seria o quê? — interrompeu ela, pulando da cama e vestindo as roupas com pressa, o coração disparado.

Ele se sentou, confuso, sem entender a mudança repentina.

— Olha, me disseram que você era o mais lerdo e burro da sua família. Com tanto cara naquele lugar, por que justo você? Eu tenho o péssimo hábito de escolher errado.

— Não estou entendendo — disse ele, levantando-se e segurando gentilmente o braço dela antes que ela alcançasse a porta.

Charlotte parou, respirando fundo. Seus olhos se encontraram, o silêncio entre eles denso e constrangedor.

— Eu sou Charlotte Aurelius Vancroft.

Por um segundo, o tempo pareceu congelar. Os dois se encararam, processando a magnitude do que havia acontecido em questão de horas. Então, sem dizer mais nada, Mordred a puxou pela cintura com firmeza e a beijou intensamente, despindo novamente tudo o que ela acabara de vestir. O beijo era urgente, faminto, como se soubesse que aquele erro delicioso já era tarde demais para ser desfeito.”


Quando Charlotte abriu os olhos, Londres se estendia minúscula lá embaixo, um tapete cinzento de luzes e chuva fina que brilhava como agulhas de prata. Seu coração pulsava devagar, quase catatônico, como se o corpo tivesse decidido que era mais seguro não sentir nada.

A aeromoça se aproximou com passos silenciosos e pousou a mão gentil em seu ombro.

— Teve um verão incrível, não é, senhorita? — murmurou ela, o sorriso cansado mas sincero.

Charlotte conseguiu apenas assentir. Incrível. Intenso. Proibido. Três meses que agora pareciam um sonho roubado de outra vida.

Por alguma razão enterrada milhares de anos atrás, seus ancestrais e os de Mordred haviam decidido que as duas linhagens deviam permanecer em lados opostos da magia. Hoje, apaixonada por ele como estava, ela via com clareza cruel o quanto isso poderia ter sido evitado. Poderiam ter trabalhado juntos. Poderiam ter sido mais fortes. Mas a magia de Charlotte era antiga — a avó sempre dissera que nela corria o poder tão puro quanto o de Merlim. No entanto, naquele momento, ela não se sentia mágica. Sentia-se apenas humana. Triste. Com medo. Com o coração partido em pedaços que ninguém jamais poderia consertar.

Ela subiu o zíper do vestido preto com dedos trêmulos. O tecido pesado e frio abraçava seu corpo como uma segunda pele, marcando cada curva com elegância impiedosa. Uma fenda sutil na perna esquerda revelava um lampejo de pele bronzeada pelo sol de Capri, enquanto o decote profundo nas costas deixava exposta a umidade gelada de Londres que já se infiltrava na cabine. Era o uniforme perfeito da herdeira Vancroft: sofisticado, controlado, invisível.

Charlotte calçou as sandálias de pedrarias douradas, prendeu as joias ao redor do pescoço e dos pulsos — ouro frio contra pele ainda quente de lembranças italianas. Seus cabelos loiros, agora ondulados em ondas perfeitas e sedosas, caíam em cascatas sobre os ombros. Quando o baque surdo do pouso ecoou pela cabine, ela apertou o braço de couro da poltrona até os dedos ficarem brancos.

A aeromoça sorriu novamente, olhos profundos e cansados.

— Bem-vinda de volta, Srta. Vancroft. Sua família a espera.

Charlotte se levantou, ajeitando o vestido com um gesto automático. Suas coisas seriam enviadas diretamente para Kensington. Ela não precisava se preocupar com nada. Nunca precisava.

O vento úmido de Londres a atingiu como um tapa assim que desceu as escadas do jato. Uma chuva breve havia passado, deixando o asfalto brilhante e o ar carregado de cheiro de asfalto molhado e fumaça distante. O motorista abriu a porta do Bentley preto sem dizer uma palavra. Ela entrou, o couro gelado contra suas coxas, e soltou um suspiro longo, dolorido. Sabia que seria difícil ficar sem Mordred. Mas nas primeiras horas longe dele, o vazio já parecia impossível de suportar.

A mansão da avó em Cotswolds brilhava como um cenário de conto de fadas sombrio. Quando as portas duplas se abriram, o que deveria ser um simples jantar de aniversário revelou-se uma recepção digna da família real. Lustres de cristal lançavam luz dourada sobre tapetes persas, mesas carregadas de porcelana fina e taças de cristal. O ar cheirava a charutos caros, perfume francês e flores frescas. Aristocratas que valorizavam harmonia, tradição e lealdade acima de tudo.

Lady Catherine — sua avó — era o centro de tudo. Cabelos grisalhos presos em um coque impecável, postura de quem ganharia guerras apenas mexendo o mindinho. O corpo ainda esguio e elegante, como se o tempo tivesse medo de tocá-la. Ela abraçou Charlotte com força, e o cheiro familiar de algodão limpo e lavanda invadiu seus sentidos.

— Minha querida, que saudade. Achei que não chegaria a tempo.

— Jamais perderia seu aniversário, vovó.

Charlotte sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Sentia-se dividida: em casa e, ao mesmo tempo, completamente deslocada. Queria contar tudo. Queria gritar que havia passado três meses amando o homem errado. Mas não podia.

— Tenho uma surpresa para você, querida — disse a avó, radiante, apontando para o salão.

Charlotte seguiu o gesto e sentiu o estômago revirar.

Julian abria caminho entre os convidados, o sorriso iluminando o rosto como sempre. Braços fortes de quem remava todas as manhãs no Tâmisa envolveram sua cintura e a giraram no ar. O abraço era familiar, quente, seguro. Tudo que ela não queria.

Quando seus pés tocaram o chão novamente, ela ajeitou o vestido e o cabelo, o riso sem graça preso na garganta.

— Julian… que surpresa.

A avó observava os dois com olhos brilhantes de esperança. Charlotte queria correr. Queria respirar. Queria Mordred.

Ela escapou o mais rápido que pôde, buscando os pais do outro lado do salão. O abraço da mãe foi caloroso, mas as lágrimas que escaparam dos olhos de Charlotte foram impossíveis de conter.

— Por que está chorando, meu amor? — perguntou a mãe, segurando seu rosto.

— Saudade, mamãe. Só isso.

O pai a envolveu em seguida, cheiro de colônia cara e charuto.

— Capri fez milagres com você. Está bronzeada, linda.

Charlotte riu, mas a voz saiu embargada.

— Por que a vovó convidou Julian?

O pai baixou a voz, discreto.

— Ela achou que era o que você queria. Ele tem sido… presente. Arrependido.

Charlotte sentiu o peito apertar. Precisava de ar. Precisava fugir.

No jardim dos fundos, o ar gelado e úmido a envolveu como um manto. O cheiro de terra molhada e rosas antigas era um alívio depois do salão abafado. Ela tirou o celular da bolsa, os dedos tremendo sobre a tela. Queria escrever para Mordred. Queria sentir o calor dele. O sabor dele.

Seus olhos se fecharam.

O vento mudou. Ficou mais preciso. Mais forte.

Seu coração disparou — bum, bum, bum — frenético.

Quando abriu os olhos, eles estavam líquidos, dourados como ouro derretido. Ela viu Mordred. Ele entrava na mansão da família ao norte, em Lake District, as grandes portas de carvalho se abrindo com um rangido antigo. Sentiu o cheiro dele — sal, sol e algo selvagem. Ele olhou para trás, como se pudesse vê-la através dos quilômetros.

Então a mãe dele o puxou para um abraço sufocante.

A visão se dissolveu.

A mão da mãe de Charlotte segurou seu braço com força, trazendo-a de volta ao corpo.

— O que você está fazendo, Charlotte? — A voz era baixa, afiada como lâmina.

Os olhos dela voltaram ao azul normal. Charlotte olhou para as próprias mãos, envergonhada.

— Desculpe… perdi o controle.

— Estamos há anos protegendo nossa magia para que ninguém saiba. Usá-la aqui, com um salão cheio de pessoas que não fazem ideia do que mantemos vivo neste país, é imprudente e perigoso.

Charlotte baixou a cabeça.

— Estou cansada da viagem… voltar tem sido demais.

— Então se despeça da sua avó e vá para casa. Cansaço nunca será desculpa para nos expor.

Ela obedeceu. Despediu-se da avó com um beijo na bochecha, entrou no carro que a esperava e deixou as luzes de Cotswolds para trás. Enquanto o Bentley cortava a estrada molhada em direção a Kensington, ela afundou no banco de couro, apertando o celular entre as mãos até os nós dos dedos doerem.

Que tipo de influência Mordred exerce sobre mim? pensou. Eu nunca fui imprudente. Eu era a herdeira perfeita.

Ao norte de Londres, a quase quinhentos quilômetros de distância, na mansão ancestral dos Le Fay em Cumbria, Mordred tirava a camisa úmida de viagem. A sala era escura, iluminada apenas por velas negras dispostas em um círculo rúnico que brilhava fracamente no chão de pedra antiga.

Morrigan Le Fay — sua mãe — sorriu para ele, um sorriso sombrio e satisfeito.

— Então vamos começar…

Mordred ajoelhou-se no centro do círculo. O ar estava carregado de magia antiga, pesada como chumbo. Quando a mão de Morrigan pousou sobre sua cabeça, as runas em sua pele incendiaram.

Ele gritou.

A dor explodiu dentro dele como fogo vivo, rasgando cada nervo, cada lembrança. Imagens de Charlotte, do mar de Capri, do toque dela — tudo queimava. Ele sentiu as correntes ancestrais se fechando ao redor de seu peito, o chamado de Morgana e dos druidas exigindo obediência.

Em algum lugar distante, ele ainda conseguia ouvir o eco da risada dela.

Mas o grito que saiu de sua garganta foi de pura agonia.