A dor veio primeiro — selvagem, devoradora, como se mãos invisíveis rasgassem sua alma em tiras.

Mordred Vane Le Fay estava ajoelhado no centro do círculo rúnico gravado no chão de pedra fria da mansão ancestral em Cumbria. O ar era úmido e pesado, cheirando a musgo antigo e fumaça de velas negras. As runas em sua pele queimavam com fogo verde-escuro, enquanto a magia de sua mãe tentava arrancar cada vestígio do verão italiano.

Morrigan Le Fay pairava sobre ele como uma sombra viva. Alta e esguia, com pele pálida quase translúcida sob a luz fraca, cabelos negros longos e lisos que caíam como uma cortina de ébano até a cintura. Seus olhos — de um verde tão intenso que beirava o veneno — observavam o filho com uma mistura de orgulho e desprezo. Os lábios vermelhos curvavam-se em um sorriso lento, sedutor e perigoso, belo, hipnótico e capaz de esconder a lâmina mais afiada. Ela usava um vestido negro justo, com mangas longas que pareciam engolir a luz, e um colar de prata com uma pedra de ônix que pulsava como um coração sombrio.

— Deixe sair — murmurou ela, a voz aveludada e baixa, quase um carinho. — Todo o veneno dourado que aquela garota Vancroft derramou em você. Merlim não terá mais espaço aqui.

Mordred cerrou os dentes, o suor escorrendo pelo peito nu. Mas ele se agarrou a uma única imagem: Charlotte no convés da balsa, olhos azuis suplicantes, prometendo encontrá-lo na lua cheia. Se perdesse isso, perderia tudo.

A dor aumentou. A mente dele cedeu.

“ Seis meses atrás, na mesma sala, Morrigan havia falado com a mesma calma perigosa.

— Há uma falha — dissera ela, caminhando ao redor do círculo como uma pantera. — A herdeira de Merlim será enviada para a Itália. Sozinha. Vulnerável. Use isso, Mordred. Aproxime-se. Ganhe a confiança dela. Descubra onde escondem o próximo Selo de Camelot… ou o segredo que alimenta a magia deles. Quebre-os por dentro.

Ele aceitara não por ódio, mas por exaustão. As visões o atormentavam havia anos. A mãe prometera que a missão silenciaria os sussurros. Que ele finalmente seria digno do sangue de Morgana.

Na Toscana, no início do verão, ele a observara de longe primeiro.

Charlotte caminhava pelo mercado da aldeia, o vestido leve de linho branco dançando contra as pernas bronzeadas. Ela parou para ajudar uma idosa com as compras, rindo com uma gentileza tão genuína que desarmou algo dentro dele. O sol dourava seus cabelos loiros e, por um instante, ela pareceu feita de luz — o oposto exato de tudo que ele era.

Objetivo, repetia para si mesmo. Apenas um objetivo.

O primeiro encontro aconteceu por acaso — ou pelo menos foi o que ele fingiu. Ela derrubou uma cesta de frutas. Ele se abaixou para ajudar. Quando os olhos azuis dela encontraram os dele, o roteiro que a mãe havia ensinado evaporou.

— Você brilha demais para ser um desastre — disse ele, sem conseguir se conter.

E ali, a infiltração começou a morrer.

Semanas depois, depois de descobrirem quem realmente eram — os nomes Vancroft e Le Fay caindo entre eles como uma sentença —, eles se encontraram em um bar pequeno e escondido nas colinas da Toscana. A luz era baixa, velas tremulavam nas mesas de madeira rústica, e o ar cheirava a vinho tinto e azeite de oliva.

Charlotte estava encostada no balcão, o vestido leve agora substituído por uma blusa solta e shorts jeans, os cabelos ainda bagunçados pelo vento. Mordred se aproximou, o coração batendo forte apesar de tudo.

— Então… Vane Le Fay — disse ela, a voz baixa, quase desafiadora. — O inimigo de infância que eu nunca soube que tinha.

Ele sorriu, mas o sorriso era torto, carregado de culpa.

— E você é a mesquinha Charlotte Aurelius Vancroft. A garota que eu não deveria nem olhar.

Eles conversaram por horas. Sobre o absurdo daquilo tudo. Sobre como as famílias deles pareciam presas em uma guerra que ninguém mais lembrava por que havia começado. O vinho ajudou. A atração ajudou mais.

Naquela mesma noite, eles não conseguiram se desgrudar.

O quarto da villa era simples, com janelas abertas para a noite quente da Toscana. Lençóis brancos embolados, corpos suados, respirações entrecortadas. Depois da primeira vez, eles tentaram parar. Tentaram se vestir. Tentaram ser racionais.

Não conseguiram.

Charlotte riu baixinho enquanto se deitava sobre o peito dele novamente, os dedos traçando as runas fracas que apareciam na pele dele sob a luz da lua.

— Nós somos rebeldes, sabia? — murmurou ela, os olhos brilhando com uma mistura de medo e deleite. — Duas linhagens antigas nos odiando e aqui estamos nós… fazendo exatamente o que não deveríamos.

Mordred a puxou mais para perto, as mãos grandes deslizando pelas costas dela com uma reverência que ele nunca havia sentido por ninguém. Ele amava a gentileza dela — a forma como ela tocava o mundo como se quisesse curá-lo. Amava o jeito como ela ria da própria família, com um sarcasmo leve e afetuoso, como se as tradições douradas fossem apenas uma piada que ela ainda não havia decidido levar a sério.

— Você ri deles como se fossem personagens de uma peça ruim — sussurrou ele contra os cabelos dela, a voz rouca. — E eu… eu me perco nisso. Em você.

Ele se perdeu de verdade.

Cada beijo, cada toque, cada suspiro dela o afastava um pouco mais da missão. O druida frio que a mãe havia treinado desaparecia. No lugar, surgia um homem que queria apenas isso: o calor dela, a risada dela, a forma como ela o olhava como se ele não fosse herdeiro de sombras, mas simplesmente Mordred.”

De volta ao presente, na sala gelada de Cumbria, o ritual terminou com um último puxão violento.

Mordred caiu para a frente, as mãos espalmadas na pedra fria, o peito e os braços sangrando onde as runas haviam se aberto. Sua respiração era irregular, o corpo tremendo de exaustão e dor.

Morrigan retirou a mão, o sorriso sombrio ainda nos lábios vermelhos.

— Conseguiu o que queríamos? — perguntou ela, a voz suave como seda sobre uma lâmina. — Alguma fraqueza? Algum segredo da herdeira?

Mordred ergueu o rosto devagar. Seus olhos verdes estavam turvos, mas firmes.

Ele mentiu.

— Ainda não. Ela é mais protegida do que imaginávamos. Preciso de mais tempo.

Morrigan estreitou os olhos, mas assentiu, satisfeita por enquanto.

Quando ela saiu, deixando a sala em silêncio, Mordred olhou pela janela estreita. A lua começava a subir sobre as montanhas escuras de Cumbria, pálida e impiedosa.

A tatuagem em suas costas queimou novamente — um aviso doloroso.

Greenwich. Primeira lua cheia. Meia-noite.

Ele sabia que, se fosse até lá, levaria a destruição direto para Charlotte.

Mas o homem que havia se perdido nela no verão italiano não queria mais obedecer ao sangue de Morgana.

Ele só queria vê-la novamente.

O Hospital St. Thomas era um mundo de luzes brancas e sons mecânicos. Do lado de fora, o Tâmisa corria cinzento e lento, o Parlamento erguendo-se como uma sentinela impassível. Dentro, Charlotte Aurelius Vancroft passava os dias entre jalecos brancos, gráficos de ressonância e o bip incessante dos monitores. Ela era neurologista residente, e era boa — quase boa demais. Seus diagnósticos eram rápidos, precisos, quase intuitivos. O que ninguém sabia é que, em alguns casos, não era apenas a medicina falando.

Naquela manhã, ela havia passado quase uma hora com uma paciente de 34 anos que sofria de enxaquecas que nenhuma tomografia explicava. Enquanto o monitor mostrava ondas cerebrais normais, Charlotte deixou sua magia roçar de leve a mente da mulher — um toque dourado, sutil, quase invisível. Sentiu o eco de algo antigo, um sussurro que não pertencia a este século. Diagnosticou estresse vascular, prescreveu medicação e sorriu com a calma profissional que todos esperavam dela.

— Você vai ficar bem — disse, apertando a mão da paciente. Mas por dentro, Charlotte se sentia exausta. Fingir ser apenas humana era um trabalho de tempo integral. O jaleco branco pesava como uma armadura que ela mesma havia escolhido, mas que agora a sufocava. A magia de Merlim corria em suas veias como ouro líquido, pura e antiga, e ela a mantinha trancada a sete chaves. Usá-la abertamente significava expor a família. Usá-la demais significava perder o controle.

Entre uma consulta e outra, no corredor frio iluminado por lâmpadas fluorescentes, ela parou diante da janela. O celular tremia em sua mão. Abriu a conversa com Mordred pela décima quinta vez. Nada. Nem uma palavra desde Nápoles. O silêncio dele era como uma faca girando devagar no peito.

Foi só um verão?, pensou ela, o coração apertando. Ou Londres já o apagou como apaga tudo que é perigoso demais?

O pingente de ouro escondido sob o jaleco vibrou de repente, quente contra a pele. Um lembrete cruel de que a conexão ainda existia — viva, perigosa e impossível de ignorar.

Às treze horas, ela entrou no restaurante de luxo em Westminster. O salão cheirava a dinheiro antigo: mármore claro, lustres de cristal, taças de vinho que custavam mais que um mês de salário de residente. Julian Ashcroft já a esperava, impecável em seu terno sob medida cinza-escuro.

Ele se levantou, sorriso largo e confiante.

— Charlotte. Finalmente. — Puxou a cadeira para ela com aquela cortesia ensaiada que sempre a irritava. — Você está radiante. Capri fez bem a você.

Ela sentou-se, o corpo rígido. O garçom serviu o vinho. Julian começou a falar sobre as reformas no Parlamento, sobre sua futura cadeira, sobre “nós dois” como se o tempo não tivesse passado.

Charlotte respirou fundo. Não podia adiar mais.

— Julian… nós terminamos. — A voz saiu baixa, mas firme. — Antes do verão. Eu fui clara.

Ele piscou, ainda sorrindo, como se ela tivesse contado uma piada.

— Foi uma pausa, Charlotte. Sua avó disse que você precisava de espaço. Eu entendi. Agora você voltou. Estamos aqui. — Ele esticou a mão sobre a mesa, tocando a dela. — Lady Catherine comentou que você parecia diferente depois da viagem. Mais… distante. Mas eu sei que é só cansaço. Vamos voltar ao que éramos. O noivado nunca acabou de verdade. Nossas famílias já planejam o anúncio para o próximo mês.

Charlotte retirou a mão como se tivesse sido queimada.

— Eu não quero voltar. — As palavras saíram mais duras do que pretendia. — Eu não amo você, Julian. Não do jeito que você merece. E eu não vou fingir só porque é conveniente para todo mundo.

O sorriso dele vacilou. Por um segundo, algo frio passou por seus olhos.

— Conveniente? — repetiu ele, inclinando-se para frente. A voz baixou, mas o tom ficou afiado. — Charlotte, você é a herdeira Vancroft. Eu sou o Ashcroft. Nossas famílias construíram este país juntas. Um casamento entre nós não é conveniência. É dever. É o que se espera de você. — Ele riu sem humor. — Ou você prefere continuar brincando de rebelde depois de um verão na Itália? Sua avó me contou sobre o “bronzeado”. Todo mundo comentou.

Charlotte sentiu a magia borbulhar sob a pele — dourada, quente, exigindo ser libertada. Seus dedos apertaram a borda da mesa até os nós ficarem brancos. O pingente queimava contra o peito.

— Não é brincadeira, Julian. Eu terminei. E não vou mudar de ideia.

Ele se recostou, o maxilar travado, mas a voz continuou calma, insistente, quase paternal.

— Você está confusa. É normal depois de uma viagem. Mas pense no futuro. Sem mim, você vai carregar sozinha o peso de ser quem é. Eu posso te proteger disso. Eu posso te dar uma vida normal. Sem segredos. Sem… complicações. — Ele baixou a voz ainda mais. — Sua avó me pediu para ser paciente. E eu serei. Mas não vou fingir que não estamos noivos. Porque nós estamos.

Charlotte sentiu o ar ficar pesado. O restaurante inteiro pareceu se fechar ao redor dela. Ela queria gritar. Queria correr. Queria o mar de Capri, o peito de Mordred contra suas costas e a liberdade que durou apenas três meses.

Ao sair do restaurante, o vento úmido de Londres a acertou como um tapa. A chuva fina caía de novo, transformando as calçadas em espelhos escuros. Charlotte caminhava rápido, o jaleco ainda sobre os ombros, o pingente queimando como brasa.

De repente, o vento mudou. Tornou-se preciso. Forte. Quase vivo.

O pingente vibrou contra seu peito com tanta força que Charlotte parou bruscamente no meio da calçada molhada. O ouro antigo queimava como brasa viva contra a pele, enviando ondas de calor que subiam pela garganta e faziam seu estômago revirar. Ela ofegou, uma mão instintiva pressionando o tecido do jaleco bem acima do coração, como se pudesse calar a magia que insistia em se manifestar.

Seus olhos ameaçaram dourar por um segundo — aquele brilho traiçoeiro que ela tanto temia. Charlotte piscou com força, forçando o azul de volta, enquanto o mundo ao redor parecia girar mais devagar. A chuva fina caía em seu rosto, misturando-se ao suor frio que brotava na nuca.

Ela enfiou a mão no bolso e apertou o celular até os dedos doerem. Nenhuma resposta. Nem uma mensagem. Nem uma palavra.

O silêncio de Mordred era pior que qualquer grito.

Pela primeira vez desde que voltara a Londres, Charlotte sentiu um medo verdadeiro e paralisante. Não era medo da fúria da família, dos rituais ou das consequências políticas. Era medo de si mesma — do que ela seria capaz de destruir por um amor que, segundo todas as leis antigas e sangrentas, nunca deveria ter existido.

E se não tiver existido de verdade? O pensamento a atingiu como um soco no peito. E se tudo não passasse de um verão roubado, de um capricho quente de Capri que ele já havia esquecido? E se ela estivesse prestes a jogar fora toda a sua vida — a confiança da família, o futuro já traçado — por um homem que agora a ignorava como se ela fosse apenas mais uma lembrança passageira?

Charlotte ergueu o braço e entrou no primeiro táxi que parou, o couro do banco gelado contra suas pernas ainda quentes da corrida. O motorista perguntou o destino, mas ela mal conseguiu responder. Sua mente girava em círculos dolorosos.

Preciso falar com ele. Preciso de uma direção. Somos adultos. Isso não pode ficar preso em eras passadas como se fôssemos marionetes das nossas famílias.

Seus dedos tremiam tanto que quase derrubou o celular ao discar o número dele. Cada toque ecoava como um martelo dentro do peito. Um. Dois. Três. O coração dela batia descompassado, tão forte que parecia querer sair pela garganta. A dúvida queimava mais que o pingente: E se ele não atender? E se atender e disser que foi só isso?

Então a linha clicou.

— Charlotte…

A voz dele chegou fraca, rouca, distante — como se viesse de outro mundo. Mas bastou aquele som para o coração dela explodir em um ritmo incontrolável, selvagem, quase doloroso. O alívio veio misturado a uma dor aguda, como se alguém tivesse rasgado algo dentro dela e costurado de qualquer jeito.

Ela fechou os olhos, encostando a testa no vidro frio da janela do táxi, enquanto Londres passava borrada do lado de fora.

— Mordred… — A voz dela saiu embargada, quase um sussurro quebrado. — Por que você não respondeu? Eu… eu preciso saber se tudo aquilo foi real. Porque aqui, agora, parece que estou enlouquecendo sozinha.

O silêncio do outro lado da linha era sufocante. E Charlotte, presa entre o táxi que a levava de volta à casa da avó e o abismo que se abria dentro dela, sentiu pela primeira vez o peso real do que estava arriscando: tudo. Pela primeira vez, ela duvidava se valia a pena.