Herança de Avalon

16 Ponto de Singularidade


A chuva caía fina e insistente sobre o cemitério de Cotswolds, como se o céu também chorasse a perda de Lady Catherine. O ar estava pesado, carregado do cheiro de terra molhada, rosas brancas encharcadas e incenso que ainda pairava do funeral. Cada gota que tocava o chão produzia um som suave, quase reverente, mas para Charlotte era como marteladas no peito.

Ela estava parada à beira da cova, o vestido preto colando nas pernas por causa da umidade. Seus olhos não desgrudavam do caixão de madeira escura e brilhante que descia lentamente para o buraco aberto na terra. Cada centímetro que a madeira afundava parecia preencher um vazio dentro dela — um buraco negro que crescia, devorando luz, ar e qualquer resquício de esperança.

No fundo do coração, ela não pensava em despedidas. Pensava em vingança.

Imagens cruéis passavam pela sua mente como flashes: as mãos apertando o pescoço de Siobhan até ver os olhos dela se apagarem; fogo dourado consumindo a mansão dos Le Fay; o sangue de Morrigan manchando o chão como o da avó havia manchado o jardim. A raiva era tão visceral que queimava na garganta, no peito, nas veias. Era um fogo vivo, faminto, que ameaçava consumi-la por inteiro.

Julian tocou seu ombro com delicadeza, tirando-a do transe sombrio. O toque era quente, mas não conseguia aquecer o gelo que se instalara dentro dela.

Charlotte suspirou, pegou uma rosa branca do buquê e jogou-a sobre o caixão. A flor caiu com um som suave, quase reverente, sobre a madeira vernizada. Ela observou a rosa deslizar lentamente até parar ao lado da placa dourada com o nome da avó.

Então ela se virou e saiu do cemitério, acompanhada do marido e dos pais. Cada passo era uma luta contra o impulso de voltar correndo e se jogar sobre a cova. Em sua mente, uma certeza fria se instalava: ser Siobhan já era castigo suficiente. Estar na família Le Fay era uma maldição que ninguém merecia carregar. Eles eram tóxicos. Destruíam tudo que tocavam. Apesar da rivalidade antiga, em todos os anos de inimizade, nunca haviam derramado sangue um do outro de forma direta. Mas agora… agora eles haviam comprado uma guerra que haviam perdido séculos atrás.

A recepção na mansão Vancroft em Kensington parecia um velório disfarçado de elegância. As pessoas chegavam aos poucos, oferecendo condolências e abraços apertados. As flores e as lembranças enviadas pelas famílias eram lindas — lírios brancos, rosas pálidas, cartões com palavras de lamento pela “grande Lady Catherine”. O cheiro doce das flores misturava-se ao aroma de chá e bolos servidos na sala, mas para Charlotte era tudo sufocante. Seu sangue pulsava quente, querendo vingança, não consolo.

— Sua avó foi um pilar para nós — disse uma senhora idosa, beijando o rosto de Charlotte com lábios frios e úmidos. — Será lembrada por todos com carinho e amor.

— Foi uma fatalidade terrível — completou outra mulher, apertando sua mão com força excessiva. — Mas fico feliz que você esteja bem.

Charlotte sorriu mecanicamente, mas por dentro pensava apenas no sacrifício da avó. Ela realmente merecia viver mais do que eu? Eu, que trouxe essa guerra para a porta dela? Eu, que causei tudo isso?

— Querida, está tudo bem? — perguntou o pai, aproximando-se quando notou a filha se afundando em lamento.

Charlotte sentiu as lágrimas romperem a barreira que tentava manter.

— Era para ser eu — sussurrou ela, a voz embargada, quebrada. — Ela não merecia isso, papai.

O pai a puxou para um abraço apertado, beijando o topo de sua cabeça. Seu cheiro familiar de colônia e charuto a envolveu, mas não conseguiu acalmar o turbilhão dentro dela.

— Ela quis assim — murmurou ele, a voz rouca de emoção. — Uma coisa que temos que lembrar da sua avó é que tudo que ela fazia, era porque queria. Ninguém a obrigava a nada. — Ele apertou o abraço, como se pudesse proteger a filha do mundo inteiro. — Tenho certeza que ela sabe o quanto você é valiosa. Ela te amava mais que tudo, querida.

— Eu sei, papai… e eu a amava — respondeu Charlotte, as lágrimas escorrendo quentes pelo rosto, misturando-se à chuva que ainda umedecia sua pele.

O salão principal estava iluminado por lustres de cristal que lançavam luz dourada sobre as mesas cobertas de linho branco, mas o ar pesava como chumbo. As pessoas conversavam em voz baixa, oferecendo condolências educadas, mas os Vancroft pareciam catatônicos — rostos pálidos, olhares distantes, como se ainda estivessem no cemitério vendo o caixão da matriarca descer para a terra úmida.

Charlotte estava parada perto da janela, o vestido preto colando na pele por causa da umidade que entrava pela porta aberta. Seus olhos não paravam de percorrer o salão, procurando sombras onde não deveria haver nenhuma. A magia dentro dela pulsava como um segundo coração — quente, inquieta, pronta para explodir. Desde a morte da avó, ela sentia a energia dourada de Merlim mais viva, mais selvagem, como se o sacrifício de Lady Catherine tivesse despertado algo antigo e feroz em seu sangue.

Julian estava ao seu lado, a mão tocando levemente sua cintura em um gesto de apoio que ela mal sentia. Ele tentava ser o marido perfeito, mas Charlotte via a tensão em seus ombros, o jeito como ele olhava para a porta como se esperasse que os Le Fay aparecessem a qualquer momento.

— Você está tremendo — murmurou ele, a voz baixa e preocupada.

— Estou bem — mentiu ela, embora sentisse o ódio queimando nas veias como fogo líquido. — Só… cansada.

Mas não era cansaço. Era raiva. Era luto. Era a imagem da avó usando todas as forças para proteger ela e o bebê, sacrificando-se para que Charlotte pudesse viver. E agora, a família Le Fay — aquela linhagem tóxica, destruidora — havia cruzado uma linha que nunca haviam ousado cruzar antes.

— Quando quiser ir, estou pronto — disse ele suavemente. — Você está exausta.

— Claro, só vou me despedir dos meus pais. – Ela disse com um sorriso que mal mexia seus lábios.

Charlotte foi buscar a bolsa no hall de entrada. Foi então que sentiu.

Um calafrio violento percorreu sua espinha. O vento, que entrava pela porta aberta, soprou de forma mais organizada, quase intencional. Um perfume doce e mórbido — como flores murchas misturadas a incenso negro — invadiu o ar, fazendo seu estômago revirar.

Ela ergueu o olhar.

Morrigan Le Fay estava parada na porta, ao lado de Cian. Os olhos verdes da mulher brilhavam com uma satisfação fria e venenosa.

Charlotte sentiu o sangue gelar nas veias — não de medo, mas de um poder quase incontido que pulsava dentro dela como lava. Seus olhos ameaçaram dourar, a magia subindo como fogo selvagem pela garganta. O pai, assim que os avistou, aproximou-se rapidamente da filha, segurando seu braço com firmeza.

— Querida, é isso que eles querem — sussurrou ele, a voz baixa e urgente, quase uma súplica. — Seremos diplomáticos. Suba e se controle, Charlotte.

Mas Charlotte não conseguia se controlar.

Seus olhos douraram por um instante, a magia de Merlim subindo como lava quente pela garganta. O ar ao redor dela crepitou, as velas nos candelabros tremendo como se sentissem o poder que pulsava dela. Ela via Morrigan sorrir — aquele sorriso satisfeito, triunfante, como se a morte da avó fosse apenas o primeiro movimento de um jogo que ela já havia vencido.

— Eles mataram minha avó — murmurou Charlotte, a voz baixa, mas carregada de veneno. — E agora estão aqui, fingindo luto.

O pai apertou seu braço com mais força.

— Charlotte, por favor. Há pessoas demais aqui. Suba.

Ela engoliu seco, sentindo o ódio queimar na garganta. Seus olhos voltaram ao azul profundo com esforço sobre-humano. Antes de subir as escadas, ela sustentou o olhar de Morrigan por mais um segundo.

Morrigan sorriu ainda mais largo.

Charlotte subiu as escadas com passos firmes, o coração martelando no peito. Entrou em seu antigo quarto, fechou a porta e encostou-se nela, deslizando até o chão. As lágrimas vieram quentes e silenciosas. Ela abraçou os joelhos, sentindo o peso da gravidade mais forte do que nunca.

Mas no meio da dor, algo novo nascia.

A magia de Merlim, antes contida e treinada, agora pulsava com uma ferocidade que ela nunca havia sentido. Era como se a morte da avó tivesse quebrado uma barreira dentro dela. Os feitiços que praticava no jardim agora pareciam pequenos. Ela sentia o poder antigo correndo em suas veias — não apenas defesa, mas algo mais primal, mais destrutivo.

Ela se levantou, caminhou até a janela e olhou para o jardim escuro lá embaixo. A chuva caía, mas ela via além dela. Via sombras se movendo onde não deveria haver nada. Via a ameaça que se aproximava.

— Eles querem guerra — sussurrou ela para a noite, a voz trêmula de raiva e luto. — Então eu vou dar guerra a eles.

A magia dourada brilhou em seus olhos por um instante, iluminando o quarto como um relâmpago silencioso.

Ela andava de um lado para o outro como um animal enjaulado. Balançava as mãos ao lado do corpo, tentando espantar a raiva que ameaçava explodir. Queria descer e arrancar o coração de Morrigan. Queria apertar a garganta dela com força suficiente para ver a vida sumir daqueles olhos venenosos. Queria destruir tudo que os Le Fay amavam, até não sobrar nada além de cinzas.

Respirou fundo, lembrando das palavras da avó nas aulas que tiveram:

“— Querida, controle-se. Equilíbrio, Charlotte. Se permitir que suas emoções a dominem, sua magia será limitada.”

Seus olhos retornaram lentamente ao azul profundo. O coração se acalmou. O ar entrou com mais facilidade nos pulmões.

Charlotte não era mais apenas a herdeira de Merlim, era a mãe de uma criança que carregava dois sangues antigos e ela faria o que fosse necessário para proteger o que restava de sua família.

Mesmo que isso significasse queimar tudo que os Le Fay haviam construído.

Respirou fundo, lembrando das palavras da avó nas aulas que tiveram:

“— Querida, controle-se. Equilíbrio, Charlotte. Se permitir que suas emoções a dominem, sua magia será limitada.”

Quando ela retornou à sala, aproximando-se de Julian, viu o casal Le Fay se aproximando. Eles pararam diante dela.

— Lamentamos a perda da família — disse Cian, a voz grave e, estranhamente, sincera.

— Claro, lamentamos mesmo — completou Morrigan, o tom falsamente doce.

Charlotte sustentou o olhar dela por um segundo que pareceu eterno. Então se aproximou de Morrigan e recebeu o beijo de cortesia no rosto. Perto o suficiente para que apenas ela ouvisse, sussurrou entre os dentes:

— Vou lamentar também quando eu destruir você. Principalmente tirando tudo que você mais ama.

As duas se encararam. O ar entre elas crepitava com magia contida — dourada de um lado, negra do outro.

Charlotte então se virou para Julian.

— Se me dão licença.

Ela saiu, subindo as escadas com passos firmes.

Morrigan sorriu lentamente, os olhos brilhando de satisfação.

Ela queria isso. Queria mais do que um motivo tolo para matar Charlotte. Queria uma reação.

E agora, ela tinha a guerra que tanto desejava.

Os dias seguintes à morte da avó passaram como fumaça — lentos, densos, sufocantes.

Charlotte sentia a magia crescer dentro dela como uma chama que se recusava a ser apagada. Cada respiração parecia carregar mais poder. Cada pensamento sobre proteção ao filho que carregava no ventre fazia o ar ao seu redor crepitar com energia dourada. A avó havia partido, mas deixara algo vivo: uma herança de luz que agora pulsava mais forte, mais selvagem, como se o sacrifício tivesse despertado o verdadeiro potencial de Merlim em seu sangue.

Todos sabiam da gravidez agora.

A notícia se espalhara como fogo em palha seca entre as famílias. Os Vancroft tentavam manter a discrição, mas os olhares, os sussurros e as condolências misturadas a parabéns forçados tornavam impossível esconder. Charlotte carregava a barriga com uma mistura de orgulho feroz e terror silencioso. O bebê se mexia mais a cada dia — pequenos movimentos que a faziam parar no meio de uma frase, a mão instintivamente indo para a barriga, sentindo a vida que lutava para existir no meio de tanta morte.

Na casa em Belgravia, o casamento com Julian era uma fachada bem construída.

Em público, ele era o marido perfeito: carinhoso, atencioso, sempre com a mão na cintura dela ou um beijo na têmpora quando havia testemunhas. Mas dentro de casa, o silêncio era ensurdecedor. Eles mal se falavam. As conversas eram curtas, educadas, vazias. Julian dormia no quarto de hóspedes na maioria das noites. Charlotte sabia que ele tinha uma amante — uma mulher discreta do círculo parlamentar. Ela não se importava. Na verdade, era um alívio. Mantinha-o ocupado e longe dela. O toque dele, quando acontecia, era mecânico, sem fogo, sem paixão. Ela aceitava porque era mais fácil do que enfrentar a verdade: o único homem que ainda fazia seu corpo e sua alma queimarem era o mesmo que havia sido apagado dela pela magia negra.

O Hospital St. Thomas era um labirinto de luzes fluorescentes frias e cheiro de antisséptico, um contraste brutal com as sombras carregadas de incenso de Kensington. Charlotte apertava o prontuário contra o peito, o jaleco branco servindo como uma armadura que escondia sua fragilidade e a barriga que já começava a alterar seu centro de gravidade. Como neurologista, ela entendia o cérebro humano como uma máquina de lógica; mas como herdeira de Merlim, ela sabia que a alma era um campo de batalha irracional.

Ela parou no corredor de acesso à ala de neurologia, o som de seus bips sendo abafado pelo zumbido constante do ar-condicionado. Então, o mundo parou.

Mordred estava parado junto ao balcão de carvalho, as mãos nos bolsos da jaqueta escura. Ele parecia um anacronismo naquele ambiente estéril — uma tempestade de energia bruta cercada por paredes brancas. Quando ele ergueu os olhos, Charlotte sentiu o impacto em suas costelas, um choque elétrico que percorreu sua espinha e fez a magia em seu sangue ronronar, traidora.

— Mordred? — A voz dela saiu em um sussurro, desprovida da autoridade médica. — Eu não... não me lembro de termos uma consulta agendada.

— Não temos — ele respondeu. A voz dele era rouca, carregada de uma fadiga que ia além do corpo. Ele deu um passo à frente, e o espaço entre eles pareceu se comprimir, distorcendo o tempo. — Eu tenho tido flashes, Dra Vancroft. Faíscas que incendeiam minha mente quando tento dormir.

Charlotte apertou os dedos no prontuário até os nós ficarem brancos.

— Flashes são comuns em estados de estresse pós-traumático, você sabe disso.

— Não são apenas faíscas — ele a interrompeu, a intensidade de seu olhar verde prendendo-a no lugar. — São sonhos. Na Itália. O sol é quente demais, o vinho tem gosto de promessas e você... você está lá. Em todos eles. Como eu posso sonhar com você de forma tão visceral, se todos me dizem que nunca nos conhecemos antes daqui?

Charlotte engoliu a seco, o gosto amargo da mentira queimando sua língua.

— Memórias podem ser enganosas, Mordred. O cérebro cria padrões para preencher vazios. Você pode estar confuso.

— É o que todos dizem — ele deu mais um passo, agora perto o suficiente para que ela sentisse o calor dele, o cheiro de chuva e couro que a magia negra de Morrigan não conseguira apagar. — Minha mãe, minha esposa... todos dizem que estou confuso, quebrado. Mas esse sonho é a única coisa viva que senti em meses. É a única coisa que não parece uma peça de teatro mal ensaiada.

O silêncio que se seguiu foi denso, carregado com a pressão de um oceano. Charlotte sentiu um movimento brusco em seu ventre — um chute forte, um lembrete vivo do pecado e da esperança. Instintivamente, ela levou a mão à barriga, protegendo o que era deles e de ninguém mais.

Os olhos de Mordred baixaram para o gesto dela, fixando-se no volume sob o jaleco. A expressão dele mudou de confusão para uma dor aguda, quase física.

— Você está grávida — ele murmurou, a palavra soando como uma sentença. — Parabéns.

Charlotte suspirou, o ar escapando de seus pulmões em um ruído quebrado. Por dentro, ela gritava. Como eu posso odiar a sua mãe com cada fibra do meu ser? Como eu posso desejar a morte de Siobhan com tamanha fúria e, ainda assim, amar você a ponto de desintegrar? Era uma dor visceral, o tipo de sofrimento como um osso quebrado que nunca cicatriza direito.

— Eu preciso ir — disse ela, a voz endurecida pela necessidade de sobrevivência. — Tenho outros pacientes, outras coisas a fazer.

Ela tentou passar por ele, uma manobra de fuga desesperada. Mas antes que pudesse se distanciar, a mão de Mordred fechou-se em seu braço. O toque não foi violento, mas foi absoluto. A pele dele contra a dela era como o encontro de duas correntes elétricas; o ar ao redor deles crepitou, as luzes fluorescentes do corredor piscando por um milésimo de segundo.

Eles se encararam, os rostos a centímetros de distância. Charlotte conseguia ver as pequenas cicatrizes das runas no pescoço dele, pulsando sob a pele.

— Por que parece que eu a conheci em outra vida? — ele sussurrou, a voz vibrando diretamente nos nervos dela.

— Eu não tenho tempo para teorias metafísicas, Sr Le Fay — ela rebateu, embora suas pernas estivessem prestes a ceder.

— Então me diga por que — ele inclinou-se ainda mais, o hálito quente contra o rosto dela — por que cada parte do meu corpo parece conhecer o seu? Por que minhas células parecem se lembrar do seu toque? Por que tudo em mim quer beijar você agora, mesmo que meu cérebro diga que você é uma estranha?

Era a magia antiga colidindo com a dor proibida. Charlotte sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela o afastou, usando toda a força que restava em seu corpo e em sua alma.

— Você precisa ir embora, Mordred. Agora — ela disse, a voz cortante como um bisturi. — Vá para casa. Vá para sua esposa. Esqueça os sonhos.

Ela se virou e caminhou em direção à ala de emergência, sem olhar para trás. Mas enquanto se afastava, cada passo era uma agonia, como se estivesse arrastando correntes presas ao coração dele. Atrás dela, Mordred ficou parado no corredor estéril, o epicentro de uma tempestade que ninguém mais podia ver, sentindo o amor que não deveria existir queimar como uma ferida aberta no meio do peito.