Herança de Avalon
17 Lei da Afinidade (O Peso das Consequências)
A sala de reuniões no 40º andar da torre Le Fay em City of London cheirava a café caro, couro novo e mentiras corporativas. Mordred estava sentado na cabeceira da mesa de mogno, mas sua presença ali era apenas uma casca. Por trás de seus olhos verdes, o universo estava em colapso. As vozes dos executivos chegavam a ele como ruído estático, um zumbido distante que sua mente se recusava a decodificar.
— O que você acha da expansão para o mercado asiático, Sr. Le Fay? — Um jovem analista questionou, a voz transbordando uma ambição que Mordred achava quase ofensiva.
Mordred piscou, a imagem da neurologista no St. Thomas sobrepondo-se aos gráficos de barras na tela de projeção. O cheiro de antisséptico do hospital ainda parecia impregnado em seus pulmões, lutando contra o aroma do café. Ele sentia o peso da barriga de Charlotte sob a palma da mão fantasmagórica, uma memória que seu cérebro jurava não possuir, mas que suas células gritavam como verdade.
— Claro. Me passe todos os detalhes por e-mail — Mordred disse, a voz gélida e impaciente. — Estão dispensados.
Conforme a sala esvaziava, a pressão em seu peito diminuía. Quando a última porta se fechou, ele se levantou com movimentos mecânicos. Serviu uma dose generosa de um puro malte escocês; o líquido âmbar queimou sua garganta, mas não conseguiu dissipar a névoa fria que habitava sua cabeça.
A porta abriu-se novamente, Cian entrou no escritório. Pai e filho se encararam, dois homens carregando segredos que mal conseguiam nomear.
— Pai. — Mordred levantou o copo, um brinde silencioso e amargo. — Veio me supervisionar ou apenas garantir que eu não desapareça entre as planilhas?
— Não acho que precise disso, filho — Cian respondeu, sentando-se com um suspiro pesado. Ele observava as olheiras profundas de Mordred. — Mas vim saber... como está sua cabeça?
— Como se eu vivesse dentro de uma tempestade de areia — Mordred confessou, pousando o copo sobre a mesa com um estalo seco. — Mas aquela médica... a Vancroft. Ela não sai de mim, pai. É como se minhas memórias estivessem fazendo um esforço sobrenatural para quebrar uma barreira. O rosto dela é a única coisa que brilha nessa escuridão.
— E como você se sente com isso? — O olhar de Cian era penetrante, carregado de uma melancolia que Mordred não entendia.
— Confuso. Eu deveria odiá-los. Eles atacaram minha esposa, eles mataram a matriarca... mas, quando olho para a Dra. Charlotte, eu sinto que o perigo sou eu. Eu sinto que preciso protegê-la de mim mesmo. — Ele virou o restante do uísque. — Mas Siobhan diz ter uma surpresa. Talvez a volta para casa coloque as coisas nos eixos.
Cian engoliu o grito que morava em sua garganta. Ele via a alma de Mordred sangrando através da mentira. Queria dizer: “Ela é sua. O filho é seu. Sua mãe é o monstro”. Mas, toda vez que a verdade subia, a tranca mágica de Morrigan em sua garganta apertava, sufocando-o. Ele apenas assentiu, sentindo o peso da própria covardia.
Enquanto isso, na cobertura em Mayfair, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico dos saltos de Siobhan contra o mármore. Ela segurava um pedaço de plástico — um resultado positivo que parecia uma arma em suas mãos.
Sua mente voltou para duas semanas atrás.
O escritório de Julian Ashcroft em Westminster. O cheiro de papel antigo e o perfume amadeirado dele.— Você terá que conviver com isso, Julian — ela havia dito, a voz como seda enrolada em arame farpado. — Charlotte e Mordred geraram uma vida. Eles criaram um vínculo que nem a morte pode apagar.
Julian a encarara com olhos cheios de um ressentimento humano e pútrido.
— O que você quer, Siobhan?
Ela caminhara até ele, pressionando o corpo contra o dele, sentindo a tensão nos músculos do marido de Charlotte.
— Vingança — ela sussurrara no ouvido dele. — Eu quero dar a Mordred o que ele acha que só ela pode dar. Eu quero o sangue Le Fay em meu ventre para apagar o erro que ela cometeu.
O sexo que se seguiu sobre a mesa de carvalho de Julian não teve amor; foi um ritual de ódio e posse. Cada toque era um golpe contra Charlotte; cada gemido era uma declaração de guerra. Julian a usara como um escape para sua masculinidade ferida, e Siobhan o usara como um recipiente para sua ambição.
Agora, andando de um lado para o outro, Siobhan olhava para o teste de gravidez com um sorriso que não alcançava seus olhos. Ela sentia o útero pesado, não com a luz que via em Charlotte, mas com uma necessidade visceral de poder. Ela daria um herdeiro a Mordred. Não importava que a semente fosse de um Ashcroft humano; com a magia de Morrigan, ela transformaria aquela criança em um Le Fay puro.
Ela ouviu o som do elevador. Mordred estava em casa.
Siobhan guardou o teste no bolso, alisou a roupa e assumiu a máscara de esposa devota. A desordem estava completa. A afinidade natural de Mordred e Charlotte agora teria que enfrentar a mentira suprema: um filho que não era dele, mas que carregaria seu nome.
Agora, na sala de estar, Siobhan viu Cian e Mordred entrarem. Morrigan já estava lá, elegante em um vestido de seda champagne, segurando uma taça de cristal.
— Antes do jantar — Siobhan anunciou, sua voz fluindo com uma harmonia perfeita que mascarava a dissonância por baixo — eu quero compartilhar uma notícia. A linhagem Le Fay acaba de garantir seu futuro. Eu estou grávida.
O impacto foi imediato. Morrigan, que sempre buscou a supremacia da família através da influência e do sangue, sentiu uma onda de triunfo genuíno. Ela se levantou, os olhos brilhando com a promessa de que os Le Fay finalmente teriam o herdeiro que consolidaria sua força no século 21.
— Um herdeiro... — Morrigan sorriu, abraçando a nora. — Finalmente, a peça que faltava para o nosso domínio estar completo.
Mordred sentiu o mundo girar. Pai. A palavra atingiu seu coração com uma força visceral que quase o fez perder o fôlego. Ele abraçou Siobhan, sentindo uma onda de euforia e um novo propósito. Talvez aquela criança fosse a âncora que ele precisava para parar de derivar em direção a Charlotte.
— Isso muda tudo — Mordred murmurou, beijando o topo da cabeça de Siobhan. — Nós vamos construir algo indestrutível.
Cian, porém, permanecia um passo atrás. Ele olhava para a cena — o luxo, a celebração, o sorriso de Siobhan — e sentia uma frieza que não vinha do ar-condicionado. Seus sentidos mágicos, treinados na observação de energias, detectavam uma falha na harmonia daquele momento. O que Siobhan carregava não ressoava com a vibração de Mordred.
Havia uma mancha naquela notícia, uma verdade que, se revelada, transformaria aquela cobertura de vidro em um labirinto de estilhaços. A guerra agora pulsava em dois corações, em dois berços, e a afinidade que Mordred sentia por Charlotte era o único fio de verdade em um mundo de ambições meticulosamente planejadas.
O sono de Mordred não era um descanso; era uma travessia.
Na penumbra da suíte master, o corpo dele estava estático, mas sua mente havia fugido para as colinas douradas da Toscana. Ali, o ar não tinha o gosto de metal e ambição de Londres; tinha o perfume de uvas maduras, terra aquecida e o cheiro inebriante da pele de Charlotte. Eles estavam em um terraço, cercados por garrafas de vinho cujos rótulos ele não conseguia ler, mas cujos sabores eram promessas de eternidade.
No sonho, Charlotte usava apenas um lençol de linho branco que deslizava como água. Mordred sentia o peso real e visceral de seu próprio desejo enquanto deslizava o polegar pela curva das costas nuas dela. A pele dela sob seus dedos era seda e fogo. Ela virou o rosto, o perfil banhado pela luz âmbar do entardecer italiano, e sorriu — um sorriso que não era para a "Dra. Vancroft", mas apenas para ele. Era um sorriso que dizia que o mundo lá fora não passava de uma ilusão.
O toque dele em suas costas era o ponto de ancoragem de sua existência.
— Mordred... — ela sussurrou, e o som do nome dele na voz dela causou uma vibração que sacudiu as fundações do seu peito.
Ele acordou com um solavanco.
O silêncio da cobertura em Mayfair caiu sobre ele como uma lousa fria. O contraste era violento. Ao seu lado, Siobhan dormia profundamente, a respiração rítmica e calculada até durante o sono. O lençol de seda cinza que o cobria parecia áspero, artificial. Mordred sentou-se na beira da cama, os pés tocando o tapete de lã gelado, e enterrou as mãos no cabelo, puxando os fios com uma força que buscava uma dor física para distraí-lo da agonia mental.
Pela parede de vidro do quarto, Londres se estendia como um circuito integrado de luzes brancas e estéreis sob um céu sem estrelas. O anúncio da gravidez de Siobhan deveria ser a luz no fim de seu túnel, mas ali, no escuro, parecia apenas mais uma parede de vidro o isolando da verdade.
Ele fechou os olhos, tentando recuperar o ar, mas o oxigênio trouxe uma memória intrusa, mais recente e muito mais letal que a Toscana.
Não era um sonho. Era um estalo de realidade que a magia de sua esposa não conseguira enterrar fundo o suficiente.
O estacionamento do hospital. Londres, meses atrás. Horas antes de seu casamento com Siobhan.
Ele sentiu o cheiro do estofado de couro do carro de Charlotte. O espaço era apertado, claustrofóbico e absurdamente elétrico. O som da chuva batendo no teto do veículo era o metrônomo de uma urgência desesperada. Ele se lembrou da sensação das mãos dela em seu pescoço, puxando-o para um beijo que tinha gosto de despedida e rebelião. O ato de amor dentro daquele carro não tinha sido apenas sexo; fora uma tentativa de fundir duas almas antes que o mundo as arrancasse uma da outra. A pele dela estava quente, o suor misturando-se à urgência de quem sabe que o tempo está acabando.
A memória era tão nítida que Mordred sentiu o gosto do gloss dela em seus lábios.
Ele se levantou abruptamente, o coração martelando contra as costelas como um animal enjaulado. O ar da suíte parecia ter acabado. Sem olhar para trás, ele saiu do quarto, os passos silenciosos e desnorteados pelo corredor de mármore iluminado por luzes de presença embutidas.
Ele andava pela sala de estar vasta e vazia, sentindo-se um intruso em sua própria vida. Cada peça de arte nas paredes, cada contrato assinado em sua mesa de mogno, parecia uma mentira acumulada. Ele era um homem que estava prestes a ter um filho com uma mulher que seu corpo rejeitava silenciosamente, enquanto sua alma gritava por uma mulher que ele fora ensinado a chamar de inimiga.
Mordred parou diante da janela da sala, olhando para o vazio da madrugada. A inércia térmica de Charlotte era implacável. Siobhan podia ter apagado os nomes, as datas e os lugares, mas ela não contava com o fato de que o coração tem sua própria memória celular. E a dele estava em chamas, queimando através do gelo da traição que ele ainda não conseguia nomear.
O silêncio da cobertura em Mayfair era cortado apenas pelo som dos passos desnorteados de Mordred sobre o mármore. Ele parou diante da imensa parede de vidro, o peito subindo e descendo em espasmos. Londres lá fora parecia uma maquete de luzes frias, desprovida de alma.
— O sono é um território perigoso quando a mente está em guerra, não é? — A voz de Cian surgiu baixa, vinda da penumbra da biblioteca.
Mordred se virou, os olhos injetados, o cabelo revolto. O pai estava ali, segurando um copo de cristal vazio, observando o filho com uma melancolia que parecia pesar toneladas.
— Eu já não entendo o que é real e o que não é, pai — desabafou Mordred, a voz rouca, quase um queixume. — Eu acordo com o cheiro dela nos meus pulmões. Eu fecho os olhos e sinto a pele dela. Como posso ter memórias tão físicas de alguém que a minha lógica diz ser uma estranha?
Cian deu um passo à frente. A tranca mágica em sua garganta, imposta por Morrigan, ardeu como brasa, impedindo-o de gritar a verdade. Suas cordas vocais pareciam feitas de arame farpado. Ele queria dizer: "Ela é sua esposa de alma, e o filho que ela carrega é o seu primogênito". Mas a única coisa que conseguiu expelir foi uma sugestão desesperada.
— Confrontre-a, Mordred — disse Cian, a voz falhando. — Vá até ela mais uma vez. Peça a verdade que os seus sonhos já conhecem.
— Eu não deveria... Siobhan está grávida, nós estamos... — Mordred tentou racionalizar, mas a imagem de Charlotte no carro, o calor proibido daquela despedida, era uma maré alta que engolia qualquer dique de moralidade.
— Vá — insistiu o pai, os olhos suplicantes. — Por favor.
No dia seguinte, o Hospital St. Thomas parecia mais claustrofóbico do que nunca. Mordred não precisou de direções; seus pés o guiaram como se houvesse um fio de ouro amarrado ao seu peito. Ele a viu de longe, no final de um corredor iluminado por luzes brancas e impessoais.
Charlotte estava de perfil, conversando com um colega médico. O jaleco branco não conseguia mais esconder a curvatura acentuada de seu ventre. Ao vê-la, a memória do carro em Londres explodiu na mente de Mordred com a nitidez de um raio: o som da chuva no teto, o embaçamento dos vidros, o toque febril de Charlotte. Era real. Tão real quanto o oxigênio.
Charlotte virou o rosto e o viu. O prontuário em suas mãos tremeu. O mundo ao redor deles desapareceu; os bipes das máquinas e o burburinho do hospital tornaram-se um silêncio absoluto.
— Vá embora, Mordred — ela disse assim que ele se aproximou, a voz trêmula, os olhos azuis inundados de um pavor que ele agora reconhecia como amor ferido.
— Eu vou. Mas antes, eu preciso perguntar uma única coisa — Mordred deu um passo, invadindo o espaço pessoal dela. O cheiro de Charlotte — cítrico, floral e quente — atingiu-o como um nocaute. — O carro, Charlotte. No estacionamento, no dia do meu casamento. Como eu posso me lembrar do gosto do seu beijo e do calor da sua pele naquele banco traseiro se nós nunca fomos nada?
Charlotte engoliu em seco, o rosto empalidecendo. Sem dizer uma palavra, ela o agarrou pelo pulso e o arrastou para dentro de sua sala particular, trancando a porta com um estalo seco que ecoou como um disparo.
— Você não tem o direito de vir aqui desenterrar isso! — ela explodiu, as lágrimas finalmente vencendo a barreira. — Você tem uma vida, uma esposa!
— Que vida?! — ele rugiu, aproximando-se tanto que ela pôde sentir a eletricidade estática de sua magia. — Eu vivo uma mentira! Eu sinto você em cada pensamento! Por que você não sai da minha cabeça? Por que parece que eu estou morrendo de sede e você é a única fonte de água no mundo?
Ele a encurralou contra a mesa, as mãos espalmadas na madeira de cada lado do corpo dela. A tensão era insuportável, um arco voltaico prestes a romper. Mordred inclinou o rosto, os lábios a milímetros dos dela, o desejo suplantando a razão, o instinto de posse voltando com fúria.
Charlotte fechou os olhos por um segundo, cedendo ao calor, mas então a imagem da avó morta e da traição dos Le Fay brilhou em sua mente. O poder de Merlim em seu sangue reagiu ao trauma.
Uma onda de choque dourada e violenta explodiu de seu corpo.
Mordred foi arremessado para trás, atravessando a sala e batendo contra a estante de livros com um estrondo. Papéis voaram como pássaros feridos. Ele caiu sentado, atordoado, o ar arrancado de seus pulmões.
Charlotte levou as mãos à boca, ofegante, o ouro desaparecendo de seus olhos para dar lugar à culpa.
— Desculpe... meu Deus, Mordred, me desculpe. Mas você tem que ir. Nós não podemos fazer isso... de novo.
Mordred ergueu o olhar lentamente, o sangue latejando na têmpora onde ele havia batido. Suas pupilas dilataram.
— De novo? — ele repetiu, a palavra soando como uma chave girando em uma fechadura antiga. — Você disse "de novo", Charlotte.
Ele se levantou devagar, ignorando a dor física, enquanto a névoa em sua mente se dissipava para revelar um abismo. A reflexão estava completa. Ele viu o pânico no rosto dela e a verdade que ela tentava proteger.
— O que eles fizeram comigo? — ele perguntou, a voz baixa e perigosa. — O que a minha família está escondendo de mim, Charlotte?
O silêncio dela foi a resposta mais devastadora que ele já recebera. Mordred não precisava mais que ninguém contasse. Ele sentia no peito que sua vida era um cenário de papelão, e que o fogo estava apenas começando a queimar a primeira camada.
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