Herança de Avalon

19 Cinzas e Promessas Queimadas


Charlotte desceu do táxi com as pernas trêmulas, o vento frio das Terras Altas da Escócia batendo em seu rosto como uma bofetada gelada. O ar era puro, cortante, carregado do cheiro de pinheiros, terra úmida e musgo antigo. O castelo de Craig Dun se erguia à frente, imponente e sombrio, suas torres de pedra cinzenta cortando o céu nublado como dedos ossudos. O sol poente tingia as montanhas ao fundo de tons avermelhados, quase sangrentos, como se a própria natureza pressentisse o que estava por vir.

Ela pagou o taxista com dedos dormentes, o casaco longo mal escondendo a barriga já proeminente no sexto mês. O bebê se mexeu forte, um chute que a fez prender a respiração — como se a criança também sentisse a gravidade daquele lugar.

Foi então que ela o viu.

Mordred descia de outro carro alguns metros adiante, o casaco escuro balançando com o vento. Seus olhos verdes a encontraram imediatamente, como se tivessem sido atraídos por uma força invisível. O ar entre eles pareceu crepitar. Charlotte praguejou baixinho, o coração disparando tão forte que sentia cada batida na garganta, no peito, na barriga.

Ele abriu um sorriso sarcástico, quase doloroso, enquanto se aproximava.

— Então você também foi convocada — disse ele, a voz rouca, carregada de algo que ia além da simples surpresa.

Charlotte o ignorou, virando o rosto e puxando a mala com mais força do que o necessário. O vento soprava os cabelos loiros sobre seu rosto, mas não conseguia esconder o rubor que subia pelo pescoço.

— Charlotte, espera.

A voz dele era baixa, urgente. Ela parou, o corpo inteiro enrijecendo. Mordred se aproximou por trás, tão perto que ela sentia o calor dele contrastando com o frio das Highlands. Sem pedir permissão, ele pegou a mala da mão dela, os dedos roçando os seus por um segundo longo demais. O toque queimou.

— Por mais que digam que eu deva te odiar… — murmurou ele, a voz rouca contra o vento — …jamais deixaria uma mulher grávida carregar a própria mala.

Charlotte sentiu o ar fugir dos pulmões. O bebê se mexeu novamente, forte, como se reconhecesse a voz do pai. Ela cruzou os braços sobre a barriga, tentando escondê-la, como se ele pudesse, de alguma forma, ver através do tecido e saber a verdade.

Eles caminharam lado a lado até a entrada do castelo, o silêncio entre eles carregado de tudo que não podiam dizer. O cascalho rangia sob os sapatos. O vento uivava baixo, carregando o cheiro de pinheiros e terra molhada. Mordred carregava a mala dela com facilidade, mas seus olhos não paravam de voltar para a barriga dela.

Quando chegaram à porta principal, ele parou e deixou a mala no chão.

— Quando a barriga de Siobhan estiver assim… — disse ele, a voz baixa, quase um sussurro — …o seu filho já vai estar um bebezão.

Charlotte sentiu o mundo girar. Ela o encarou, o peito apertando com tanta força que doía respirar.

— Ela… está grávida? — perguntou, a voz falhando.

Mordred assentiu, passando a mão pelo cabelo molhado pela garoa.

— Sim. Ainda estou assustado… mas ansioso para ser pai.

Charlotte sorriu. Um sorriso sem graça, quebrado, que não chegava aos olhos. As lágrimas queimavam por trás das pálpebras, mas ela as segurou com todas as forças.

— Parabéns — murmurou ela, a voz rouca. — Espero que seja muito feliz.

Mordred a olhou por mais um segundo, como se quisesse dizer algo mais, como se algo dentro dele lutasse para romper a névoa que Siobhan havia lançado. Mas ele apenas assentiu e se afastou, desaparecendo pelo corredor de pedra do castelo.

Charlotte ficou parada ali, sozinha, o vento frio batendo em seu rosto. Assim que ele sumiu de vista, as lágrimas vieram quentes e silenciosas. Ela levou a mão à barriga, sentindo o bebê se mexer novamente, como se tentasse confortá-la. O luto pela avó, a raiva de Siobhan, o desejo proibido por Mordred — tudo se misturava em uma dor tão visceral que ela precisou se apoiar na parede de pedra fria para não cair.

Ela respirou fundo, secou o rosto com as costas da mão e endireitou os ombros.

Não podia desmoronar agora.

Não ali.

Não quando o Conselho das Linhagens Antigas a esperava.

Uma mulher linda apareceu ao seu lado. Pele clara como luar, cabelos longos cor de outono entrelaçados com folhas e pequenas flores silvestres. Seus olhos eram de um verde profundo, quase luminoso, e as orelhas ligeiramente pontudas revelavam sua natureza. Uma fada do bosque.

— Bem-vinda, Charlotte Aurelius Vancroft — disse ela, a voz como mel e vento entre as árvores. — Sou Elowen, guardiã das florestas antigas. O Conselho a esperava.

Charlotte sentiu um arrepio percorrer a espinha. A fada sorriu gentilmente, estendendo a mão para tocar sua barriga com uma delicadeza quase sagrada.

— E a filha que carrega… ela será tão poderosa quanto você. Talvez mais. A luz de Merlim e o sangue dos druidas unidos. Uma nova era nasce dentro de você.

Charlotte ficou paralisada. Seus olhos se encheram de lágrimas quentes.

— Filha…? — sussurrou ela, a voz falhando. — Eu… eu não sabia o sexo ainda.

Elowen sorriu, os olhos brilhando com uma sabedoria antiga.

— Agora você sabe.

Charlotte passou a mão sobre a barriga, sentindo o bebê se mexer como se respondesse à revelação. Uma filha. Uma menina que carregava dois sangues opostos. O peso da emoção quase a derrubou — medo, amor feroz, esperança e desespero se misturando em seu peito.

Elowen guiou-a gentilmente pelo pátio até o grande salão que servia as refeições. O ambiente era deslumbrante: teto alto com vigas de madeira escura, lareiras enormes crepitando com fogo azul e dourado, mesas longas cobertas de tecidos bordados com símbolos ancestrais. O ar cheirava a pão fresco, carne assada, ervas mágicas e vinho temperado.

Mordred estava lá, conversando com um senhor extremamente velho, de barba longa e branca, olhos como carvão em brasa. O homem parecia ter séculos de idade, a pele enrugada como casca de árvore antiga.

Elowen inclinou-se para Charlotte e sussurrou:

— Aquele é o Grande Guardião, o velho dragão Thorne. O último de sua espécie. Merlim o ajudou a sobreviver há séculos. Não o enfureça… você veria literalmente fogo saindo pelas ventas dele.

Charlotte engoliu em seco, fazendo as contas mentalmente. Mais de quinhentos anos. O salão parecia pulsar com magia — criaturas de todas as espécies mágicas estavam presentes: fadas, elfos das montanhas, bruxas antigas, até um ou dois centauros nas sombras.

— Não precisa se preocupar com o Conselho amanhã — continuou Elowen, a voz suave como folhas ao vento. — Eles revelarão o que precisa ser revelado… e curarão o que precisa ser curado. Seu bebê é um presente mágico aqui. Duas linhagens em uma. Algo que eles jamais imaginaram ver de novo.

Charlotte sentiu o peito apertar. Seus olhos encontraram Mordred do outro lado do salão. Ele a observava, o olhar intenso, confuso, carregado de algo que ia além da simples curiosidade.

— Mordred não sabe do bebê — murmurou ela, a voz quase inaudível. — Ele nem se lembra de mim direito.

Elowen sorriu, um sorriso enigmático e gentil.

— Então deixe tudo acontecer, filha de Merlim. O destino tem seus próprios caminhos.

A fada se afastou, deixando Charlotte sozinha à mesa. Ela se sentou, o coração batendo forte, sentindo o olhar de Mordred queimando em sua nuca como uma marca quente. O bebê se mexeu novamente, como se reconhecesse a presença do pai.

Charlotte fechou os olhos por um instante, sentindo o peso de tudo — o luto, o desejo proibido, o medo do amanhã.

E, no meio de toda aquela magia antiga e grandiosa, ela se sentiu mais humana do que nunca.

Charlotte não conseguia dormir.

O quarto que lhe haviam destinado no castelo era antigo e grandioso, com paredes de pedra cobertas por tapeçarias desbotadas que contavam batalhas esquecidas. A lareira crepitava baixo, lançando sombras longas e dançantes no teto de madeira escura. O ar cheirava a lenha queimada, lavanda seca e um leve toque de magia ancestral — algo terroso, antigo, quase vivo. Mas nada disso trazia paz.

Seu sangue pulsava quente nas veias, como se a magia de Merlim tivesse acordado completamente com a convocação. O bebê se mexia sem parar, chutes fortes e insistentes que faziam sua barriga tensionar e relaxar. Cada movimento era uma lembrança física de que não estava sozinha — e de que o segredo que carregava era cada vez mais perigoso.

Ela se levantou, vestindo um roupão de flanela macia sobre a camisola, o tecido cinza-claro envolvendo seu corpo como um abraço insuficiente. O chão de pedra fria queimava a sola dos pés descalços enquanto ela saía do quarto e caminhava pelos corredores iluminados apenas por tochas mágicas que flamejavam com fogo azul-prateado.

O castelo era vivo. As paredes pareciam respirar. Portas antigas rangiam sozinhas, sussurrando segredos em idiomas esquecidos. Charlotte desceu uma escada em espiral, guiada por um instinto que não sabia explicar, até encontrar a cozinha principal.

O ambiente era vasto, com bancadas de pedra escura polida, panelas de cobre penduradas e um fogo baixo queimando em uma enorme lareira. Alguns elfos domésticos trabalhavam em silêncio — criaturas graciosas de pele clara e olhos grandes, com orelhas pontudas e movimentos fluidos como folhas ao vento. Eles a receberam com sorrisos gentis e acenos silenciosos, sem perguntas. Um deles, uma elfa de cabelos prateados, colocou um pedaço de bolo de mel e nozes na bancada diante dela.

Charlotte sentou-se na bancada de pedra fria, as pernas balançando levemente. O bolo era quente, doce, reconfortante. Ela deu uma garfada, sentindo o sabor explodir na boca — mel, canela, um toque de magia que acalmava a alma. Por um momento, quase conseguiu respirar.

Então sentiu ele.

O ar mudou. Ficou mais denso, mais quente.

Mordred estava parado na porta da cozinha, o olhar fixo nela. Ele vestia apenas uma camisa branca aberta no peito e calças escuras, o cabelo bagunçado como se também não conseguisse dormir. Seus olhos verdes percorreram o roupão, a barriga evidente, o rosto dela — e algo dentro dele pareceu se partir.

Charlotte colocou o garfo no prato com um clique que ecoou alto demais. Os elfos, percebendo a tensão, saíram silenciosamente, deixando os dois sozinhos.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou ele, a voz rouca, baixa, carregada de algo que ia além da simples curiosidade.

Charlotte engoliu em seco, sentindo o coração bater descompassado.

— Não consegui dormir — respondeu ela, a voz tremendo levemente. — E você?

Mordred deu um passo à frente, os olhos descendo novamente para a barriga dela antes de voltar ao rosto. Havia confusão, desejo proibido e uma dor profunda ali.

— Eu sonhei com você de novo — confessou ele, aproximando-se. — Na Itália. Na balsa. O vento nos cabelos… o mar… você rindo contra o meu peito. Eu não te conheço. Pelo menos… eu acho que não te conheço. Mas o sonho era tão real. Tão dolorosamente real.

Eles se encararam. O ar entre eles crepitava, elétrico, cheio de tudo que não podiam dizer. Charlotte sentiu o bebê se mexer com força, como se respondesse à presença do pai. Sua mão foi instintivamente para a barriga, protegendo-a.

Mordred notou o gesto. Seus olhos escureceram.

— Por que você atacou Siobhan? — perguntou ele, a voz rouca.

Charlotte franziu o cenho.

— Do que você está falando?

— Ela chegou em casa toda machucada há quase um mês. Disse que você a agrediu… e que, para sobreviver, matou sua avó.

Charlotte sentiu o mundo girar. As lágrimas subiram quentes e rápidas, queimando seus olhos. Ela as enxugou com raiva, encarando-o.

— Quem atacou quem foi Siobhan — disse ela, a voz trêmula de dor e fúria. — Foi ela quem matou minha avó. Foi ela quem trouxe a morte para a minha casa.

Mordred balançou a cabeça, incrédulo.

— Isso é impossível. Siobhan é uma boa pessoa. Ela nunca…

— Se isso faz você dormir bem à noite, acreditar nela… ótimo — cortou Charlotte, a voz quebrada. — Mas com Siobhan, você deveria dormir com um olho aberto. Para não perder, além das memórias, a própria identidade.

Ela se virou para sair. Mordred segurou seu braço, o toque quente, elétrico, enviando faíscas pelo corpo dela.

— Me solte — disse ela, a voz baixa, perigosa. — Se não quiser se machucar.

Mordred não soltou. Seus olhos desceram novamente para a barriga dela, demorando-se ali, como se algo dentro dele lutasse para lembrar.

— Deve ser por isso que estamos aqui — murmurou ele. — Para o Conselho decidir quem está mentindo.

Charlotte riu, um som amargo e doloroso.

— Eu só desejo que a verdade se revele para você, Mordred. Mesmo que doa.

Eles se encararam. O ar entre eles estava carregado, quente, proibido. O desejo antigo ainda queimava — o desejo de tocar, de lembrar, de se perder um no outro. Mordred soltou o braço dela devagar, os dedos roçando a pele como se doesse soltá-la.

Ele saiu da cozinha sem dizer mais nada.

Charlotte ficou sozinha, o peito subindo e descendo com força, as lágrimas escorrendo silenciosas pelo rosto.

Eles entraram juntos no Grande Salão do Conselho como se o destino os tivesse acorrentado um ao outro mais uma vez.

O salão era colossal, esculpido na própria rocha viva das Terras Altas. O teto abobadado desaparecia nas sombras, sustentado por colunas antigas cobertas de runas que brilhavam com uma luz prateada pulsante, como veias de estrelas. Tochas flutuantes de fogo azul-prateado lançavam uma iluminação etérea, criando sombras longas e dramáticas que dançavam nas paredes. O ar era denso, carregado de magia antiga — um cheiro de pedra úmida, incenso sagrado, pinho queimado e algo mais profundo, quase elétrico, como o momento antes de um raio cair.

No centro, dominando tudo, estava a Mesa Redonda — uma peça monumental de madeira negra entalhada com símbolos de todas as linhagens mágicas, brilhando com veios dourados que pareciam pulsar como sangue vivo.

Charlotte vestia um vestido branco de pureza, simples e ao mesmo tempo majestoso, com mangas longas que caíam como cascata de seda até os punhos, o tecido fluindo sobre sua barriga arredondada como neve fresca. O decote discreto revelava a pele do colo, e o tecido leve contrastava com a gravidade de seu estado. Seus cabelos loiros estavam soltos, caindo em ondas suaves sobre os ombros, e o pingente de ouro de Merlim brilhava suavemente contra o peito.

Ao seu lado, Mordred parecia uma sombra viva. Vestia um terno escuro de corte impecável, a camisa branca aberta no colarinho, revelando parte do peito marcado por runas fracas que ainda latejavam. Seus cabelos escuros estavam bagunçados pelo vento das Highlands, e os olhos verdes — intensos, atormentados — varriam o salão com confusão crescente.

Eles se sentaram nas duas cadeiras vazias, lado a lado. O contato dos braços roçando era elétrico, proibido, doloroso.

Todos os olhos se voltaram para eles.

No extremo oposto da mesa, o velho dragão Thorne ergueu-se lentamente. Sua forma era humana, mas carregava o peso de séculos — pele enrugada como casca de árvore milenar, barba branca longa até o peito, olhos como carvão em brasa vivo. Quando ele falou, sua voz era grave, ressonante, como o ronco de uma montanha despertando:

— Bem-vindos, herdeiros de Merlim e de Morgana.

A voz dele vibrou dentro deles, tremendo nos ossos, no sangue, na alma. Charlotte sentiu o bebê se mexer com força, como se também reconhecesse o poder ancestral. Mordred apertou o braço da cadeira, os nós dos dedos brancos.

Thorne continuou, os olhos flamejantes percorrendo todos os presentes:

— A lua cheia de Beltane está sobre nós. O véu está fino. E o Conselho se reúne não para julgar o passado… mas para decidir o futuro.

Ele fez uma pausa, o olhar fixando-se diretamente em Charlotte e Mordred.

— Porque o equilíbrio foi quebrado. Duas linhagens antigas, unidas por sangue que não deveria ter se misturado. Uma criança que carrega tanto a luz quanto a sombra.

Mordred franziu o cenho, claramente confuso. Ele se inclinou ligeiramente para Charlotte, a voz baixa e rouca:

— Do que ele está falando? Misturar linhagens? Que criança?

Charlotte não respondeu. Seu coração batia descompassado, o medo subindo pela garganta como bile. Ela sentiu o bebê se mexer novamente, forte, como se quisesse ser ouvido. Seus dedos apertaram a borda da mesa, os nós brancos.

Thorne ergueu a mão, e o ar pareceu se solidificar.

— Que comece a reunião.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

E, no centro da Mesa Redonda, o destino de todos eles — e da criança que Charlotte carregava — estava prestes a ser decidido.