Herança de Avalon

20 Memorias Queimadas


O Grande Salão do Conselho parecia vivo, respirando com uma magia ancestral tão densa que o ar vibrava como uma corda esticada prestes a romper. As tochas flutuantes de fogo azul-prateado lançavam sombras longas e inquietas nas paredes de pedra milenar, onde runas antigas pulsavam como veias de luz. O cheiro de incenso sagrado, musgo úmido e ozônio (como antes de uma tempestade) preenchia o ambiente, misturando-se ao leve aroma metálico de sangue e poder.

Charlotte estava sentada ao lado de Mordred, o coração martelando tão forte que cada batida ecoava em seus ouvidos. Seu vestido branco de pureza parecia frágil demais contra o peso do destino que pairava sobre eles. A barriga arredondada no sexto mês pressionava contra o tecido, um lembrete constante da vida que carregava — e do segredo que ameaçava destruí-los.

Mordred, confuso e tenso, foi guiado até uma cadeira de madeira negra no centro do círculo. Correntes de luz prateada surgiram do nada, enrolando-se em seus pulsos e tornozelos, prendendo-o gentilmente, mas firmemente.

— O que é isso? — perguntou ele, a voz rouca, os olhos verdes percorrendo o salão com pânico crescente.

Thorne, o velho dragão, ergueu a mão enrugada. Sua voz ressoou como o ronco de uma montanha:

— Vai doer, jovem Le Fay. A magia negra que foi plantada em sua mente é profunda. Para restaurar o que foi roubado, precisamos queimar o que foi imposto. Prepare-se.

Bruxas e magos de robes antigos formaram um círculo ao redor dele. Suas mãos se ergueram, murmurando feitiços em idiomas esquecidos. A magia negra de Siobhan começou a ser arrancada — fios escuros e viscosos saíam da cabeça de Mordred como fumaça oleosa, dissolvendo-se no ar com cheiro de enxofre e carne queimada.

Mordred gritou.

O som era visceral, animal, rasgando o salão como uma lâmina. Seu corpo arqueou contra as correntes de luz, os músculos tensionados ao limite, suor escorrendo pelo rosto e pescoço. As runas em sua pele queimavam, brilhando em vermelho vivo. Cada memória arrancada era como uma faca girando dentro dele — flashes de Capri, do mar azul, do riso de Charlotte, do toque dela, do amor proibido que havia sido apagado.

Charlotte assistia, paralisada. Lágrimas quentes escorriam pelo seu rosto. Seu peito doía como se o coração estivesse sendo arrancado junto com as memórias dele.

— Parem! — gritou ela, levantando-se, a voz embargada de dor. — Por favor, parem! Vocês estão matando ele!

Elowen, a fada do bosque, segurou seu braço com delicadeza, mas firmeza. Seus olhos luminosos estavam cheios de compaixão.

— É necessário, filha de Merlim. A dor é o preço da verdade. Deixe-o lembrar.

Mordred gritou mais uma vez, o corpo convulsionando. Então, de repente, o silêncio caiu.

Ele caiu de joelhos no centro do círculo, as correntes de luz desaparecendo. Seu peito subia e descia em respirações irregulares, suor escorrendo pelo rosto pálido. Ele parecia quebrado, exausto, mas vivo.

Charlotte não pensou. Correu até ele, ajoelhando-se à sua frente no chão frio de pedra. Seus olhos se encontraram.

Mordred ergueu a mão trêmula e tocou o rosto dela, os dedos ásperos roçando a pele úmida de lágrimas. Seus olhos verdes, agora claros, cheios de reconhecimento, percorreram cada detalhe do rosto dela — os lábios, os olhos azuis, a curva da barriga.

— Eu lembro… — sussurrou ele, a voz rouca, quebrada. — Eu lembro de tudo.

O toque era elétrico. O desejo proibido explodiu entre eles como uma onda. Charlotte sentiu o corpo inteiro tremer — saudade, raiva, amor, culpa, tudo misturado em uma dor tão visceral que doía respirar. Mordred olhou para a barriga dela, os olhos arregalados, como se finalmente entendesse.

Thorne ergueu a voz novamente, grave e implacável:

— Sentem-se. Agora.

Eles se levantaram, tremendo, e voltaram às cadeiras. Mordred ainda olhava para Charlotte como se ela fosse a única coisa real no mundo.

Thorne estendeu a mão. Uma névoa dourada surgiu acima da Mesa Redonda, formando uma visão mágica.

— O filho de Charlotte… é de Mordred.

A imagem se solidificou: uma menina pequena, de cabelos loiros e olhos verdes, brilhando com uma luz dourada pura. Ela era poderosa — demais. A visão mostrou-a crescendo, sua magia tão forte que rachava o próprio tecido da realidade.

— Essa criança é perigosa — disse Thorne, a voz ecoando. — Poderosa demais para ser contida. O equilíbrio pode ser destruído. Talvez o melhor seja…

Uma das bruxas mais antigas interrompeu, erguendo a mão:

— Não. Olhem além.

A visão mudou. A menina, agora mais velha, restaurava Avalon. Ruínas antigas se erguiam novamente, luz dourada e verde se entrelaçando, paz voltando ao mundo mágico. A criança era a ponte entre as duas linhagens.

Todos os olhos se voltaram para Charlotte e Mordred.

Mordred não conseguia olhar. Seus olhos estavam fixos na mesa, paralisados, o rosto pálido, as mãos tremendo sobre o colo. Ele parecia prestes a quebrar.

Charlotte, ao lado dele, sentia o coração se partir em mil pedaços. O amor proibido, o desejo que nunca morrera, a dor de tudo que haviam perdido — tudo pulsava entre eles como uma ferida aberta.

O Conselho esperava a decisão.

E o futuro de todos eles — e da criança que carregava dois sangues opostos — pendia por um fio.

O silêncio no Grande Salão era absoluto, quebrado apenas pelo crepitar das tochas flutuantes e pelo vento uivando lá fora, contra as antigas paredes de pedra.

Charlotte sentiu o sangue ferver. O bebê se mexeu com força dentro dela, como se também sentisse a ameaça pairando no ar. Ela se levantou devagar, as mãos tremendo, mas a voz saiu firme, cortante como uma lâmina de luz:

— Vocês me chamaram aqui para matar minha filha?

O salão inteiro prendeu a respiração. Charlotte deu um passo à frente, o vestido branco de pureza brilhando sob a luz das tochas, o tecido fluindo como água viva ao redor de sua barriga arredondada. Seus olhos azuis queimavam com uma fúria dourada que começava a transbordar.

— Tentem — continuou ela, a voz baixa, mas carregada de poder. — Independente de quem seja o pai, ela é minha filha. E eu vou protegê-la com tudo que sou. Com tudo que resta de mim.

Mordred, que até então olhava para a mesa, paralisado, ergueu o olhar lentamente. Seus olhos verdes encontraram os dela. O ar entre eles crepitou, carregado de desejo proibido, dor, saudade e algo mais profundo — algo que a magia negra de Siobhan não conseguira apagar por completo. Ele a encarou como se a visse pela primeira vez em meses, o peito subindo e descendo com força.

Thorne, o velho dragão, inclinou a cabeça, os olhos de carvão em brasa fixos nela.

— Se a menina ameaçar o equilíbrio da magia… sim. Ela precisará ser destruída.

As palavras caíram como um golpe.

Charlotte sentiu a magia explodir dentro dela. Seus olhos se tornaram ouro líquido, brilhando com uma luz pura e feroz. Seus cabelos loiros esvoaçaram como se um vento invisível os erguesse, o poder de Merlim pulsando ao seu redor em ondas douradas visíveis. O ar ao seu redor crepitou, as tochas flamejaram mais alto, as runas nas paredes pulsaram em resposta.

— Tente — disse ela entre os dentes, a voz ecoando com uma autoridade ancestral que fez vários membros do Conselho se encolher. — Venha tentar tirar minha filha de mim.

Thorne a encarou por um longo instante. Então, um riso grave e rouco escapou de sua garganta — um som como pedras rangendo, profundo e inesperado.

— Finalmente — disse ele, os olhos brilhando com algo parecido com orgulho. — Uma pessoa da linhagem de Merlim com o mesmo fogo do meu antigo amigo. O velho tolo ficaria satisfeito.

Elowen, a fada do bosque, tocou o braço de Charlotte com delicadeza, sua mão fresca como orvalho.

— Calma, filha de Merlim — sussurrou ela, a voz como vento entre folhas. — A raiva é uma arma, mas o equilíbrio é sua armadura. Respire.

Charlotte respirou fundo, o ouro em seus olhos recuando lentamente para o azul profundo. Ela se sentou novamente, o corpo ainda tremendo de adrenalina e fúria protetora.

Todos os olhares se voltaram para Mordred.

Um centauro imponente, com pelagem negra e olhos dourados, bateu o casco no chão de pedra e questionou com voz grave:

— E o que faremos com Siobhan, que usou magia negra para apagar memórias e manipular o herdeiro?

Mordred ergueu a cabeça, a voz rouca, mas firme:

— Siobhan está grávida. Ela carrega meu filho. Não permitirei que a toquem.

O salão mergulhou em um novo silêncio carregado.

Charlotte sentiu o peito apertar dolorosamente. Seus olhos encontraram os de Mordred mais uma vez — confusos, atormentados, cheios de um amor que lutava para voltar à superfície.

O Conselho observava.

E a decisão que definiria o futuro de duas linhagens — e de duas crianças inocentes — ainda pairava no ar, pesada como uma espada suspensa.


O Conselho permaneceu em silêncio respeitoso enquanto Thorne erguia a mão enrugada. Uma luz dourada suave surgiu acima da Mesa Redonda, formando a imagem etérea de Lady Catherine — jovem e radiante, com os cabelos grisalhos soltos ao vento, os olhos cinzentos cheios de sabedoria e fogo. A visão flutuava como um fantasma vivo, sorrindo com aquela graça serena que Charlotte tanto amava.

— Lady Catherine Aurelius Vancroft — proclamou Thorne, a voz grave ecoando como um sino ancestral. — Guardiã da Luz de Merlim, protetora do equilíbrio. Hoje honramos seu sacrifício. Que sua luz continue guiando os que ficam.

O salão inteiro inclinou a cabeça. Uma chuva suave de partículas douradas caiu do teto, como estrelas chorando, tocando os ombros de todos os presentes. Charlotte sentiu as lágrimas escorrerem quentes pelo rosto. O bebê se mexeu dentro dela, como se também sentisse a presença da bisavó. A dor era visceral, um buraco aberto no peito que nada conseguia preencher.

Quando a visão se dissolveu, o Conselho deu a reunião por encerrada. Os membros começaram a se levantar, conversas baixas enchendo o ar.

Mordred se levantou primeiro. Seus olhos verdes encontraram os de Charlotte imediatamente, cheios de uma urgência que ele não conseguia mais esconder.

— Charlotte… — murmurou ele, aproximando-se. — Precisamos conversar. Por favor.

Ela suspirou, o peito apertado, mas assentiu.

— Tudo bem. Vou ouvir você.

Eles entraram juntos na grande biblioteca do castelo como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir.

O espaço era magnífico e íntimo ao mesmo tempo: prateleiras altas de madeira escura subiam até o teto abobadado, volumes antigos flutuando suavemente no ar como se respirassem. A luz dourada da lareira crepitante pintava tudo com tons quentes e sombras longas, dançando sobre os tapetes macios e as poltronas de veludo antigo. O cheiro de couro velho, pergaminho e tinta encantada misturava-se ao aroma sutil de lenha queimada, criando uma atmosfera que parecia suspensa no tempo — um refúgio secreto onde o proibido podia, por alguns instantes, se tornar real.

Mordred fechou a porta atrás deles com um clique suave. O silêncio caiu, denso, carregado, vivo.

Ele a encarou, um sorriso pequeno e doloroso curvando seus lábios.

— Então ela é minha? — perguntou ele, a voz rouca, quase reverente, olhando para a barriga dela.

Charlotte sentiu o coração se partir. Ela cruzou os braços sobre o ventre, protegendo-o instintivamente.

— Não — respondeu ela, a voz baixa, mas firme. — Quem vai registrar será Julian. Você tem Siobhan. Independente de tudo… nós acabamos quando ambos nos casamos. O que tivemos foi lindo, Mordred. Foi algo de verão. Algo que nunca deveríamos ter vivido.

As palavras doeram ao sair, como lâminas rasgando sua própria garganta. Seus olhos ardiam com lágrimas não derramadas. Ela sentia o bebê se mexer, como se protestasse contra a mentira que ela tentava contar a si mesma.

Mordred deu um passo à frente, o olhar escurecendo.

— Não — disse ele, a voz falhando. — Não foi só verão. Foi…

— Você estava bem quando tinha esquecido de mim — interrompeu ela, a voz tremendo. — Pode continuar vivendo assim. É mais fácil para todos.

Mordred segurou o braço dela, o toque quente, desesperado.

— Charlotte…

— Por favor — sussurrou ela, tentando se afastar.

Ele a encarou por um segundo que pareceu eterno. Seus olhos verdes, agora claros e cheios de memórias recuperadas, percorreram o rosto dela, a curva da barriga, o tremor em seus lábios. Então, sem dizer uma palavra, ele a puxou para si.

O beijo foi intenso, saudoso, faminto — como se ele estivesse tentando recuperar meses de ausência em um único toque. Charlotte correspondeu com a mesma urgência, as mãos subindo para o rosto dele, os dedos se enfiando nos cabelos escuros. O desejo proibido explodiu entre eles, quente e incontrolável.

Mordred a guiou até um sofá antigo de veludo verde-escuro que ficava perto da lareira. Com uma delicadeza quase reverente, ele a deitou ali, como se ela fosse algo sagrado e frágil ao mesmo tempo. Seus movimentos eram cuidadosos por causa da barriga, mas carregados de uma necessidade desesperada. Ele se ajoelhou ao lado do sofá, as mãos deslizando pelos braços dela, pelos ombros, descendo devagar pela curva da barriga, como se quisesse memorizar cada centímetro.

— Você… — murmurou ele contra a pele do pescoço dela, a voz rouca, quebrada. — Eu lembro de tudo agora. E dói tanto não ter podido te proteger.

Charlotte fechou os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem. Ela se perdeu nele. No calor das mãos grandes deslizando por sua pele, no peso do corpo dele sobre o dela com cuidado, no jeito como ele a tocava como se temesse que ela desaparecesse. O fogo da lareira iluminava os corpos entrelaçados, criando sombras íntimas e douradas. Cada beijo, cada toque, era ao mesmo tempo cura e ferida — um amor proibido que doía tanto quanto salvava.

Quando o prazer os alcançou, foi como uma onda lenta e devastadora. A barriga de Charlotte ficou rígida por um instante, o bebê se mexendo forte entre eles, como se testemunhasse o momento. Mordred enterrou o rosto no pescoço dela, respirando seu perfume como se quisesse guardá-lo para sempre, os braços ao redor dela com uma possessividade delicada e desesperada. Ele se deleitava nela — no calor, na entrega, na forma como ela tremia sob ele, como se o mundo inteiro tivesse desaparecido e só restassem eles dois.

Depois, ficaram em silêncio, abraçados no sofá antigo. A respiração de Mordred era quente contra o pescoço dela. Charlotte sentia o peito dele subir e descer contra o seu, o coração dele batendo forte, quase no mesmo ritmo que o dela.

Ele encostou a testa na dela, os olhos fechados, como se doesse olhar para ela.

— Eu lembro de tudo agora — sussurrou ele. — E não sei como vou viver sabendo o que perdi.

Charlotte fechou os olhos, sentindo o coração se partir mais uma vez.

Fora da biblioteca, o castelo esperava. O Conselho esperava. O futuro — com todas as suas sombras e luzes — esperava.

E nenhum dos dois sabia quanto tempo mais conseguiriam fingir que podiam viver separados.