Herança de Avalon

7 Ação e Reação


A chuva batia forte contra o vidro da cobertura, um tamborilar violento que parecia querer invadir o quarto. Mordred dormia — ou tentava dormir —, o corpo grande se remexendo entre os lençóis escuros como se estivesse travando uma luta silenciosa contra algo invisível. Seus músculos se contraíam, os dedos se fechavam no ar, a testa franzida em agonia profunda. Ele não estava apenas sonhando.

Estava vivendo o pesadelo.

No sonho, o vento uivava sobre o penhasco do norte, carregando cheiro de sal, musgo molhado e sangue fresco. Ele estava de pé, vestindo o smoking negro do casamento, ao lado de Siobhan, que sorria com uma serenidade fria. Os clãs festejavam atrás deles — gritos, tambores e risadas ecoando como um ritual antigo.

Mas Mordred só via Charlotte.

Ela estava parada no meio da multidão, mais branca que o normal, quase translúcida, como se a luz tivesse sido sugada de dentro dela. Vestia o mesmo vestido que ele vira no salão — o vestido quando Julian havia colocado a aliança em seu dedo. Só que agora o tecido estava rasgado no peito, um buraco aberto e irregular onde deveria estar o coração. Sangue escuro escorria devagar, manchando o branco puro, pingando sobre as pedras úmidas do penhasco.

— Charlotte! — gritou ele, a voz rouca, desesperada.

Ele correu. O chão tremia sob seus pés. Ela estendeu a mão pálida para ele, os olhos azuis cheios de uma tristeza infinita e resignada. Seus dedos quase se tocaram… quase.

Atrás dela, o penhasco se abria como uma boca faminta. Charlotte cambaleou.

— Não! — Mordred esticou o braço, os músculos queimando. — Charlotte, por favor!

Ela caiu.

O vento levou seu grito enquanto o corpo dela despencava no abismo negro. Mordred sentiu o peito se rasgar junto com ela. Então veio o choro — um choro suave, quase infantil, vindo de algo embrulhado em panos ensopados de sangue aos seus pés. Ele se ajoelhou, as mãos tremendo violentamente, e puxou o tecido.

Era um bebê. Pele pálida, olhos verdes como os dele… mas o peito também estava aberto. Vazio. Sangrando.

Mordred acordou com um arquejo violento, como se tivesse sido arrastado de volta à superfície de um lago gelado.

O quarto girava. O peito subia e descia rápido, suor escorrendo pelo pescoço e colando os cabelos escuros na nuca. Ele passou a mão pelo rosto, bufando em pura angústia, o coração martelando contra as costelas como se quisesse escapar. O lençol estava embolado ao redor da cintura, úmido e frio. O gosto metálico de sangue ainda estava na boca, embora soubesse que era só o sonho.

Pior que ter esses pesadelos era nunca entender o que eles queriam dizer.

Ele se apoiou em um cotovelo, o outro braço passando pelo cabelo úmido, puxando os fios com força até doer. A imagem de Charlotte — pálida, sangrando, caindo — queimava atrás das pálpebras. Ele via a expressão dela no estacionamento na noite anterior, o cansaço nos olhos azuis, a mágoa que ele mesmo havia plantado ali. E agora isso. Um buraco no peito. Um bebê sem coração.

— Merda… — murmurou ele, a voz rouca e quebrada.

Ele se sentou na beira da cama, cotovelos nos joelhos, cabeça baixa. A chuva continuava batendo lá fora, implacável. Ele sabia que o casamento de Charlotte estava próximo — sentia no ar, como uma tempestade se aproximando. Tinha que vê-la mais uma vez. Antes que ela fosse completamente de outro. Antes que o anel no dedo dela se tornasse uma sentença definitiva.

Seu celular acendeu sobre a mesinha de cabeceira. Mensagens da mãe. Ele já sabia o conteúdo antes mesmo de ler.

Morrigan: Hoje é o dia, Mordred. Siobhan está pronta. Não me faça lembrar quem você realmente é.

Ele jogou o celular de lado com raiva. O aparelho bateu contra a parede e caiu no chão.

Mordred passou as mãos pelo rosto, respirando fundo. Apesar de se sentir totalmente impotente diante da mãe, Siobhan não tinha culpa. Há anos sabiam que esse momento chegaria. Mesmo no século XXI, as famílias seguiam de forma criteriosa os laços por conveniência e poder. Foi exatamente isso que o fez amar Charlotte tanto — ela, assim como ele, não queria isso. Queria sair desse mundo antigo, ignorar a existência de qualquer menção a essa rivalidade tosca e sangrenta.

Mas no final, ambos estavam indo em direção a tudo que diziam ser contra.

Ele se levantou, o corpo dolorido, e caminhou até a janela. A chuva caía com mais força agora, batendo contra o vidro como aplausos zombeteiros. Mordred encostou a testa no vidro frio, o vapor da respiração embaçando a superfície.

— Eu não quero isso — sussurrou para a noite. — Não quero casar com ela. Não quero perder você.

As palavras se perderam no barulho da chuva.



Em Kensington, o céu não perdoava. A chuva caía constante e fria, transformando as ruas em espelhos escuros e borrados. Dentro da sala de café da manhã da mansão Vancroft, o ar estava quente e perfumado com chá Earl Grey e torradas com manteiga, mas Charlotte sentia tudo menos fome.

Ela estava sentada à mesa, os olhos perdidos na janela onde a chuva escorria como lágrimas silenciosas. Sua mãe e sua avó conversavam sobre algo — flores, datas, arranjos, vozes suaves e práticas —, mas as palavras chegavam a ela como ruído distante. O anel de noivado pesava em seu dedo como uma âncora. Cada vez que olhava para ele, sentia o peito apertar.

Ela olhou para o relógio de pêndulo antigo da família, o tique-taque ritmado ecoando como um lembrete cruel do tempo que escapava. Forçou um sorriso pequeno e se levantou.

— O que vocês decidirem sobre isso está ótimo para mim — disse ela, a voz neutra, quase automática. Achava que discutiam sobre flores ou qualquer outro detalhe do casamento.

— Preciso ir. Espero que seja um plantão tranquilo.

Lady Catherine ergueu uma sobrancelha elegante.

— Acho o cúmulo você ainda trabalhar, querida. Deveria se dedicar totalmente ao casamento.

Charlotte parou na porta, o casaco já meio vestido.

— E eu acho o cúmulo acharem que vou ficar em casa sendo apenas a mulher de Julian.

Ela se inclinou, beijou a bochecha da mãe e depois a da avó, o toque rápido e distraído. Saiu respirando fundo, tentando acalmar os batimentos cardíacos que martelavam no peito. Toda vez que ficava ansiosa com essa história de casamento, algo dentro dela se agitava — a magia que ainda não dominava ameaçava escapar, fazendo objetos tremerem ou luzes piscarem sem motivo. Ela odiava isso. Odiava não ter controle.

No hospital, Charlotte era outra pessoa.

Ali, ela era centrada, focada, o tipo de médica para quem todos corriam quando as coisas davam errado. Ela queria ser conhecida assim — não como herdeira de uma família aristocrata, não como noiva relutante, mas como alguém disposta a dar a vida para salvar o paciente à sua frente.

Naquela tarde, ela estava no meio de uma cirurgia longa e delicada: um tumor que comprometia todo o tecido occipital do cérebro, descendo ameaçadoramente para a medula. O silêncio da sala cirúrgica era confortável, quase sagrado. Apenas o bip dos monitores, o som baixo dos instrumentos e sua própria respiração controlada. Suas mãos se moviam com precisão cirúrgica, removendo o tumor centímetro por centímetro, enquanto o mundo lá fora desaparecia.

Após horas, ela saiu exausta, tirou as luvas e o gorro, pegou um café forte e subiu até o telhado do hospital para tomar ar. O vento frio batia em seu rosto, carregando cheiro de chuva e asfalto molhado. Ela se apoiou na grade, olhando as pessoas lá embaixo andando apressadas pelas ruas, o estacionamento, os carros brilhando com a chuva recente. Engoliu o café quente, sentindo o líquido forte aquecer sua garganta dolorida.

Então algo chamou sua atenção.

No jardim abaixo, parado sob a chuva fina, estava Mordred.

Ele vestia smoking preto completo, a gravata frouxa, os cabelos escuros molhados colados à testa. Mesmo de longe, ela sentiu o impacto — como um soco no estômago. O smoking só podia significar uma coisa: o casamento dele estava próximo. Talvez hoje.

Charlotte engoliu seco. Desceu as escadas correndo, o coração batendo descompassado, ignorando o cansaço que ainda pesava em seus ossos.

Quando chegou ao jardim, ele a viu. Seus olhos verdes se iluminaram com alívio puro, quase doloroso. Ele suspirou, como se tivesse prendido a respiração por horas.

Parando diante dele, Charlotte sentiu o ar ficar rarefeito. A chuva fina caía sobre os dois, molhando seus cabelos e roupas.

— O que você está fazendo aqui? Vestido assim? — questionou ela, a voz baixa, quase trêmula.

Mordred engoliu seco, aproximando-se. O espaço entre eles desapareceu. O ar ficou impossível de respirar — quente, carregado, elétrico.

— Precisava te ver — disse ele, a voz rouca, cheia de lamento e pesar. — Tenho que ser rápido. Aqui é o único lugar que sei que consigo te encontrar.

Ele estendeu a mão e pegou a dela, levando-a até seu peito. Charlotte sentiu o coração dele batendo forte sob o tecido úmido do smoking.

— Eu preciso que saiba que, apesar de tudo, eu jamais vou me esquecer da forma como você me fez sentir. Como foi leve. Como você tornou minhas noites melhores, com sonhos e não pesadelos. Eu vou me casar hoje.

Eles se encararam. A chuva escorria pelo rosto dele, misturando-se à água que caía dos olhos dela.

— Mas saiba que cada parte do meu coração é sua — continuou ele, a voz falhando. — O que tivemos foi real demais para mim. Só que às vezes as coisas são como são. Só queria que tivéssemos mais tempo. Mas se tivesse a oportunidade… eu te amaria em mil vidas a mais.

— Mordred… — sussurrou ela, respirando o ar quente da respiração dele.

Antes que pudesse pensar, ele a beijou.

O beijo foi intenso, desesperado, faminto. Charlotte correspondeu com a mesma urgência, as mãos subindo para o rosto dele, os dedos se enfiando nos cabelos molhados. Seu coração parecia querer sair pela boca. O beijo se aprofundou, tornando-se quase violento de tanta necessidade reprimida.

Ele a arrastou para o estacionamento coberto, onde os médicos deixavam os carros. Entraram no carro dela. O vidro foi se embaçando rapidamente com a respiração quente dos dois. Charlotte estava sentada sobre ele, as pernas ao redor de sua cintura. Ela deveria parar. Sabia que deveria. Mas cada botão desabotoado, cada beijo sentido pelo seu corpo, cada toque desesperado só a fazia querer mais. Mais dele. Mesmo que fosse a última vez.

No ápice do prazer, quando o mundo pareceu explodir em luz e fogo, os olhos de Charlotte ficaram ouro líquido, brilhando com a magia pura de Merlim. Ela caiu sobre o peito definido e nu de Mordred, respirando pesadamente, o corpo tremendo contra o dele.

Ele a segurou com força, os braços ao redor dela como se nunca mais quisesse soltá-la.

Por alguns segundos, só existiam os dois — corações batendo descompassados, respirações entrecortadas, o vidro completamente embaçado isolando-os do mundo.

Mas a realidade sempre voltava.

E quando voltou, trouxe consigo o peso esmagador de dois casamentos que nenhum dos dois queria



Mordred dirigiu de volta para o local do casamento como se o carro fosse uma prisão em movimento. A chuva ainda caía forte, batendo contra o para-brisa como acusações silenciosas. Seu corpo ainda carregava o calor de Charlotte — o cheiro dela na pele, o gosto dela na boca, o eco do prazer misturado à dor no peito.

Quando parou o carro em frente à antiga mansão dos Le Fay no norte de Londres, o coração batia tão forte que parecia querer romper as costelas. Ele desceu, o smoking amassado e úmido, o cabelo bagunçado, o cheiro de Charlotte ainda grudado nele como uma marca invisível.

Antes que pudesse subir os degraus da entrada principal, Morrigan apareceu como uma sombra viva. O vestido negro longo contrastava com a pele pálida, os olhos verdes brilhando com fúria contida.

— Onde você estava? — perguntou ela, a voz baixa, mas afiada como uma lâmina.

Mordred parou. Não respondeu. Apenas olhou para a mãe em silêncio, a mandíbula travada.

Morrigan se aproximou devagar, os saltos clicando contra a pedra molhada. Parou bem diante dele, inclinou a cabeça e inspirou profundamente, como um animal farejando a presa.

— Você estava com ela — sibilou, os olhos se estreitando. — Consigo sentir o cheiro dela em você. Esse perfume doce e patético de Merlim. Você fede a ela, Mordred.

Ele continuou em silêncio, o peito subindo e descendo com força.

Morrigan ergueu a mão e deu um tapa forte no rosto dele. O som ecoou na entrada da mansão, cortante como um chicote. A cabeça de Mordred virou para o lado com o impacto, a bochecha queimando.

— Como ousa? — rosnou ela, a voz tremendo de raiva. — Hoje é o dia do seu casamento! E você sai correndo para se enfiar entre as pernas daquela Vancroft como um cachorro no cio?

Mordred tocou a bochecha ardente, um sorriso irônico e amargo curvando seus lábios.

— Ótimo — disse ele, a voz baixa e carregada de sarcasmo. — Pelo menos alguém aqui está sendo honesto sobre o que realmente sou.

Morrigan deu um passo à frente, o rosto próximo ao dele, os olhos brilhando com fúria narcisista.

— Escute bem, meu filho. Você vai entrar naquela cerimônia agora. Vai sorrir. Vai olhar para Siobhan como se ela fosse a única mulher do mundo. Vai fazer dela a mulher mais feliz deste maldito planeta. Porque se você não fizer isso… — ela segurou o queixo dele com força, as unhas cravando na pele — …eu mesma vou garantir que Charlotte pague por cada segundo que você passou com ela. E você sabe que eu cumpro minhas promessas.

Mordred sustentou o olhar da mãe por longos segundos. O silêncio entre eles era denso, carregado de anos de manipulação, medo e sangue.

Por fim, ele respondeu, a voz rouca e resignada:

— Eu sei o que tenho que fazer.

Morrigan soltou o queixo dele com um empurrão leve, satisfeita. Ajeitou a gravata dele com dedos frios e precisos, como se estivesse arrumando uma marionete.

— Então vá. E não me envergonhe.

Mordred subiu os degraus devagar, cada passo parecendo mais pesado que o anterior. Quando entrou no salão principal, o ar estava carregado de expectativa. Velas antigas queimavam, runas brilhavam fracamente nas paredes, e os convidados — uma mistura de clãs druidas e aliados — observavam em silêncio.

Ele tomou seu lugar no altar.

O coração batia devagar, pesado, como se já estivesse morto.

A música começou. As portas se abriram.

Siobhan entrou, deslumbrante em um vestido vermelho-escuro que parecia feito de sangue e sombra. Seus olhos encontraram os dele com uma mistura de triunfo e desejo.

Mordred sustentou o olhar dela.

Mas em sua mente, só via Charlotte — pálida, sangrando, caindo do penhasco.

E enquanto Siobhan caminhava em sua direção, sorrindo como se tivesse vencido, Mordred sentiu o último pedaço de si mesmo se quebrar.