Um mês havia se passado desde a última vez que Charlotte tocara Mordred. Um mês desde que ele havia se casado. Um mês desde que ele desaparecera completamente de sua vida.

O tempo, cruel como sempre, não havia curado nada — apenas endurecido as arestas da ferida.

Charlotte se olhava no espelho de corpo inteiro da boutique exclusiva, o vestido de noiva em branco perolado abraçando seu corpo como uma segunda pele fria. O véu delicado caía sobre seu rosto, suavizando as olheiras que nem a maquiagem conseguia esconder por completo. Sua mãe estava ao lado, os olhos marejados de emoção genuína.

— Uma verdadeira princesa — sussurrou a mãe, a voz embargada. — Julian vai se apaixonar ainda mais quando te vir assim.

Charlotte revirou os olhos por trás do véu, um gesto pequeno e cansado.

— Só quero que isso acabe logo — murmurou ela, a voz baixa, quase inaudível.

Ela já havia se acostumado com aquela sensação constante de vazio no peito. Agora esse era seu novo normal: uma espécie de dormência emocional que a protegia de sentir demais. O vestido era lindo. Perfeito. Tudo estava perfeito.

— Está perfeito — disse ela para a estilista, forçando um sorriso educado. — Pode me ajudar a tirar, por favor?

Depois que a mãe a deixou em casa, Charlotte pegou seu próprio carro e dirigiu até a mansão da avó. A chuva fina de Londres batia no para-brisa, e ela dirigia em silêncio, os dedos apertando o volante com mais força do que o necessário.

Lady Catherine a esperava na entrada, com seu sorriso maternal e acolhedor. Assim que Charlotte desceu do carro, as duas se abraçaram. O cheiro familiar de baunilha e flor de laranjeira envolveu Charlotte como um cobertor quente.

— Como foi a prova do vestido? — perguntou a avó, beijando ternamente sua bochecha.

— Digamos que tem mais para onde correr — respondeu Charlotte, tentando manter o bom humor enquanto entravam direto para a biblioteca.

A avó fechou a porta pesada com um clique suave. Charlotte olhou ao redor, sentindo o cheiro antigo de couro, papel velho e cera de vela.

— O que iremos fazer hoje?

— Você está indo muito bem com os feitiços falados — disse Lady Catherine, sentando-se diante dela. — Mas precisamos trabalhar o controle da sua telecinesia e, principalmente, das suas emoções. Especialmente agora, com o casamento se aproximando. Suas emoções ainda controlam você, querida. Precisamos mudar isso.

Charlotte sentou-se, soltando um suspiro cansado.

— Vovó, eu não sou tão centrada quanto você.

A avó inclinou a cabeça, o olhar sábio e paciente.

— Quando você está operando, como consegue focar?

— Eu estudei para aquilo. Tive prática. Eu sei o que estou fazendo.

— Aqui é a mesma coisa — respondeu Lady Catherine com calma. — Você está estudando e praticando. Vai conseguir. E vai levar isso para a vida. Você terá que fazer algo levitar porque quer, não porque está com raiva ou com medo.

Charlotte concordou, embora sentisse um nó na garganta. A avó colocou um pequeno peso de papel de cristal sobre a mesa, bem à sua frente.

— Só focar, né? — murmurou Charlotte, encarando o objeto.

A avó assentiu.

Charlotte fixou o olhar no peso de papel. Tentou sentir a energia dentro de si, tentou lembrar das palavras antigas, tentou… tudo. O objeto tremeu levemente, mas não se moveu.

Frustração começou a subir.

Lady Catherine observou-a por um momento, depois falou com voz suave, porém firme:

— Charlotte, escute com atenção. A magia não é apenas força ou intenção. Ela é transmutação. Você pode usar a emoção para obter resultados rápidos… mas as consequências seriam catastróficas. Foi exatamente assim que Morgana se voltou para o mal. Vingança. Raiva. Dor profunda. Ela transformou tudo isso em poder, e o poder a consumiu até não sobrar nada além de sombras.

A avó se inclinou para frente, os olhos cinzentos brilhando com uma sabedoria antiga e dolorosa.

— Você tem que domar isso, minha menina. Ser centrada. Saber quando usar a magia, para que usar e, principalmente, com quem usar. O que nos diferencia dos Le Fay não é a magia em si. A magia é a mesma. O que nos diferencia são as formas como a usamos. Eles a usam como arma. Nós a usamos como equilíbrio. Como proteção. Como luz.

Charlotte sentiu as palavras da avó penetrarem fundo. Seus olhos ardiam. A imagem de Mordred no estacionamento, o beijo desesperado no carro, o prazer misturado à culpa — tudo voltou com força.

— E se eu não conseguir? — perguntou ela, a voz quase um sussurro. — E se a raiva for tudo que me resta?

Lady Catherine segurou sua mão com firmeza.

— Então você vai continuar tentando. Dia após dia. Até que a raiva se transforme em algo mais forte. Até que você consiga mover esse peso de papel não porque está furiosa… mas porque você escolheu mover.

Charlotte olhou novamente para o pequeno objeto de cristal.

Respirou fundo.

E tentou mais uma vez.

O peso de papel tremeu… mas não se moveu.

Charlotte passou o dia inteiro na biblioteca da avó.

As horas se estenderam como um rio lento e profundo. A luz que entrava pelas janelas altas mudou de dourada para âmbar, depois para o cinza suave do entardecer londrino. Velas foram acesas e apagadas. Palavras antigas foram repetidas até a garganta doer. O pequeno peso de papel de cristal tremeu várias vezes, mas ainda se recusava a se mover de verdade.

A cada tentativa frustrada, Lady Catherine estava lá — paciente, firme, guiando com a voz calma e as mãos experientes. Ela não pressionava. Apenas observava, corrigia a postura de Charlotte, lembrava-a de respirar, de sentir o fluxo da energia em vez de forçá-la.

No fim da tarde, Charlotte olhou para o relógio de pêndulo antigo. Eram quase sete horas.

— Vovó, preciso ir — disse ela, levantando-se com um suspiro cansado. — Tenho jantar com Julian.

Lady Catherine assentiu, um sorriso compreensivo nos lábios.

— Vá, querida. E lembre-se do que conversamos hoje. A magia não é pressa. É equilíbrio.

Charlotte sorriu de volta, embora o sorriso fosse pequeno e um pouco cansado.

— Eu vou conseguir, vovó. Só preciso de tempo… e talvez de terapia para lidar com tanta coisa ao mesmo tempo.

A avó riu baixinho, um som quente e genuíno que encheu a biblioteca.

— Terapia e magia combinam melhor do que você imagina. Vá com calma. E não se esqueça de respirar.

Charlotte beijou a bochecha da avó, abraçou-a com força por um segundo a mais do que o habitual, e saiu.

O jantar foi intimista, como Julian sempre preferia.

Eles escolheram um restaurante discreto em Mayfair, um daqueles lugares com luz baixa, velas tremulando em castiçais de prata e paredes revestidas de madeira escura. O ambiente era acolhedor e luxuoso ao mesmo tempo — taças de cristal, toalhas de linho branco, o som suave de um piano ao fundo. Charlotte usava um vestido preto simples, mas elegante, com um decote discreto nas costas e mangas longas que escondiam o cansaço dos braços depois de um dia inteiro de prática mágica.

Julian estava carinhoso. Mais do que o normal.

Ele puxou a cadeira para ela, serviu o vinho, tocou sua mão sobre a mesa várias vezes. Seus olhos castanhos a olhavam com uma ternura paciente, como se soubesse que ela ainda estava lutando contra algo invisível.

— Você está linda hoje — disse ele suavemente, entrelaçando os dedos nos dela. — Mesmo cansada, você ainda consegue iluminar qualquer lugar.

Charlotte sorriu. Um sorriso real, embora pequeno. Ela se permitiu sentir o carinho dele. Julian havia errado — gravemente —, mas ela também havia errado. Havia se entregado a Mordred sabendo que era proibido. Havia mentido para si mesma por meses. Talvez os dois estivessem quebrados de formas diferentes.

— Obrigada — respondeu ela, apertando levemente a mão dele. — Você também está bonito.

O jantar fluiu com conversas leves sobre o trabalho dele no Parlamento, sobre a lua de mel que ele queria planejar, sobre o futuro que ele imaginava para os dois. Charlotte ouvia, respondia, e por algumas horas permitiu-se respirar sem o peso constante da culpa e da saudade.

Depois do jantar, eles foram para o apartamento deles em Belgravia — o amplo loft que seria a casa dos dois após o casamento. As luzes da cidade entravam pelas janelas altas, pintando as paredes de tons dourados e cinzentos.

Charlotte evitava os toques de Julian desde que havia aceitado o noivado. Mas aquela noite… aquela noite ela precisava de toque humano. De calor. De algo que a fizesse sentir menos sozinha.

Quando ele a puxou gentilmente para si no meio da sala, ela não recuou. Deixou que ele a beijasse devagar, com carinho e paciência. Deixou que as mãos dele deslizassem pelas suas costas, abrindo o zíper do vestido preto com reverência. Deixou que ele a carregasse até o quarto, que a deitasse na cama grande e macia.

Julian foi carinhoso. Atento. Beijou cada pedaço de pele como se quisesse curar algo que nem sabia que estava quebrado. Charlotte fechou os olhos e se permitiu sentir. O calor do corpo dele contra o dela. O ritmo lento e constante. A sensação de ser desejada sem pressão, sem segredos.

No ápice do momento, quando os corpos se moveram juntos em uma dança silenciosa e íntima, Charlotte sentiu algo parecido com paz. Não era o fogo selvagem que sentia com Mordred. Era algo mais quieto. Mais seguro. Talvez… suficiente.

Quando terminaram, ela ficou deitada sobre o peito dele, ouvindo o coração dele bater devagar. Julian acariciava suas costas com dedos leves.

— Eu te amo, Charlotte — sussurrou ele no escuro.

Ela não respondeu com palavras. Apenas beijou o peito dele e fechou os olhos.

Talvez pudesse ter uma vida com ele. Uma vida estável. Uma vida sem o caos que Mordred representava.

Talvez.

Na manhã seguinte, eles foram tomar café da manhã em uma cafeteria charmosa perto de Belgravia. O lugar era acolhedor, com mesas de madeira clara, plantas penduradas e o cheiro reconfortante de pão fresco e café recém-passado. A luz suave da manhã entrava pelas janelas grandes, pintando tudo com tons dourados e quentes.

Julian estava especialmente carinhoso. Segurava sua mão sobre a mesa, roubava beijos leves nos dedos dela, sorria como se o mundo fosse só deles dois. Charlotte se permitia sorrir de volta. Deixava que ele acariciasse sua bochecha, que entrelaçasse os dedos nos dela. Por alguns minutos, ela conseguiu respirar sem o peso constante no peito.

Então veio o arrepio.

Um frio repentino percorreu sua espinha, como se alguém tivesse derramado gelo em sua nuca.

Ela ergueu os olhos.

Mordred e Siobhan entraram na cafeteria. Ele vestia um casaco escuro, ela um casaco bege elegante. Os dois caminhavam de braços dados, como qualquer casal normal. Mas quando os olhos de Mordred encontraram os dela, o ar pareceu se solidificar.

Os quatro se encararam ao mesmo tempo.

O sorriso morreu no rosto de Charlotte como uma vela apagada pelo vento. O coração dela deu um salto doloroso. Julian percebeu a mudança imediatamente e apertou sua mão com mais força, protetor.

Mordred e Siobhan não saíram. Em vez disso, caminharam devagar pelo salão e se sentaram a uma mesa mais ao fundo, quase diretamente na linha de visão de Charlotte. Siobhan sentou-se de frente para ela, Mordred de lado — perto o suficiente para que ela sentisse o peso do olhar dele em sua nuca.

Julian inclinou-se ligeiramente, a voz baixa e acolhedora, sem qualquer tom de ciúme ou acusação.

— Quer que a gente saia daqui? — perguntou ele suavemente, o polegar acariciando o dorso da mão dela. — Podemos ir para outro lugar. Ou voltar para casa. O que você quiser.

Charlotte engoliu em seco. Seus olhos ainda estavam presos nos de Mordred por um breve segundo — verdes, intensos, cheios de algo que parecia dor, raiva e uma saudade que ele não conseguia esconder. Siobhan observava a cena com uma expressão fria, quase triunfante, mas Julian não olhou para eles. Seus olhos estavam apenas nela.

— Não — respondeu Charlotte, a voz baixa, mas firme. — Está tudo bem.

Ela forçou um sorriso e virou o rosto para Julian, deixando que ele continuasse acariciando sua mão. Ele se inclinou e beijou sua têmpora com ternura, murmurando algo sobre o croissant que ela gostava. Charlotte sorriu de volta, tentando se ancorar no carinho dele.

Mas sentia na nuca o olhar de Mordred como uma mão quente e pesada.

Ele está casado com Siobhan, pensou ela, repetindo como um mantra. Eu posso me permitir ser feliz com Julian. Finalmente.

Ela apertou a mão de Julian com mais força, permitindo que ele entrelaçasse os dedos nos dela. Sorriu quando ele lhe ofereceu um pedaço de pão com manteiga. Riu baixinho de uma piada boba que ele contou.

Por fora, parecia uma manhã normal de um casal apaixonado.

Por dentro, Londres parecia pequena demais. Sufocante. Como se as ruas, os prédios e o destino tivessem se unido para forçá-los a se encontrar onde quer que fossem.

E enquanto Julian continuava sendo carinhoso, gentil e presente, Charlotte sentia o olhar de Mordred queimando em sua nuca — um lembrete silencioso e doloroso de que, por mais que tentasse, algumas chamas não se apagavam com facilidade.