Heróis Não Morrem Assim
3 Capítulo 2: A Promessa Silenciosa
NOVE ANOS DEPOIS
O portão colossal da Academia Beriam de Formação Heroica se abria lentamente, como se estivesse despertando de um sono antigo. Filas de adolescentes avançavam pelo pátio principal, cada um carregando seu sonho, seu medo... e sua individualidade única.
Bartiriam, agora com dezesseis anos, respirou fundo. O ar ali dentro parecia diferente, quase elétrico.
Era o primeiro grande passo da vida dele.
O salão principal era enorme, com banners dourados tremulando nas paredes e um telão central aguardando o início da palestra. Vários jovens se reuniam em grupos improvisados, conversando, rindo, tentando esconder o nervosismo.
Bartiriam, tímido mas atento, ficou perto de uma coluna e observou tudo... até alguém parar ao lado dele.
— Primeira vez aqui também?
Era um garoto magro, cabelo roxo espetado. Seus olhos tinham um brilho inquieto, como se estivessem sempre analisando tudo.
— É. Tô tentando não parecer perdido — respondeu Bartiriam.
O garoto riu.
— Então estamos empatados. Sou Kael Drunford.
Kael tinha um jeito falante, meio debochado, mas não parecia má pessoa. Antes que Bartiriam respondesse, uma garota se aproximou. Ela tinha a pele levemente azulada e o cabelo branco caindo sobre os ombros, além de um sorriso calmo e elegante.
— Oi, vocês também são da turma nova? — A garota sorriu. — Lyria Sevarin.
A voz dela era tão suave que parecia deslizar no ar.
Logo depois, um outro adolescente apareceu. Ele era grande, musculoso, e parecia que já tinha idade para estar dando aula e não prestando exame.
— Grom. — Ele acenou curto. — ...Posso ficar com vocês?
Apesar do tamanho intimidador, ele falava com certa timidez.
Um a um, eles foram se juntando, formando aquele tipo de amizade improvisada que nasce quando todo mundo está no mesmo barco. E ali estava Bartiriam, pela primeira vez sentindo que talvez — só talvez — ele realmente tivesse chance.
O SISTEMA DE PODERES
Enquanto esperavam, a academia transmitia no telão algumas explicações sobre as regras básicas de segurança, incluindo algo que todos ali já sabiam, mas que sempre valia repetir: toda individualidade tem um ponto de ativação fisiológico único, e o uso excessivo pode causar danos reais.
Cada pessoa reagia de um modo completamente diferente.
• Poderes mentais: ativados pelo brilho interno do cérebro — invisível aos outros, mas sentido como um calor na nuca.
• Poderes físicos de matéria, como fogo ou gelo: exigiam conversão orgânica. No caso do fogo, por exemplo, o sangue saía pelas mãos e se transformava instantaneamente em chamas, o que tornava o uso prolongado perigoso.
• Poderes cinéticos, como supervelocidade: dependiam diretamente da energia corporal, exigindo alimentação constante, hidratação e um condicionamento impecável.
• E assim por diante — cada individualidade tinha um custo.
Aquela era a lei invisível do mundo dos heróis: poder nunca vinha de graça.
Kael cruzou os braços e comentou:
— Eu queria um poder simples, tipo cuspir bolinhas de sabão explosivas. Deve gastar pouca energia... e ainda combina com meu estilo.
Lyria riu baixinho.
— Você fala demais. Acho que esse é seu verdadeiro poder.
Grom, sério como sempre, murmurou:
— Meu poder... bom... eu só espero que não quebre nada aqui dentro.
Bartiriam ouviu tudo em silêncio. O coração batia forte. O ponto de ativação dele... bom, esse era um segredo que ele ainda não tinha coragem de revelar.
O telão acendeu repentinamente, e uma voz ecoou pelo auditório:
— Candidatos, a palestra de abertura começará em instantes. Preparem-se.
A PALESTRA QUE MUDOU O DESTINO
Faltando 5 segundos para começar, o público silenciou quase instantaneamente.
O palco se iluminou.
Entrou um homem alto, uniforme impecável azul-escuro, capa longa, a insígnia do governo presa ao peito. Era o Diretor Arkan Lurem, um ex-herói aposentado, conhecido por sua postura reta e por nunca sorrir.
Ele deu um passo à frente, cruzou as mãos nas costas e encarou todos de cima a baixo.
— Bem-vindos à Academia Beriam, futuros heróis... ou futuros civis arrependidos.
Sua voz ecoou seca, firme, como uma lâmina atravessando o ar.
— Para estarem aqui, significa que vocês nasceram com dons. Mas... não confundam dons com destino.
Vários candidatos engoliram seco.
— Poderes são ferramentas. Heróis são escolhas. — Arkan continuou. — Este país, e o mundo, já teve sua era dourada. Uma época em que ser herói significava salvar vidas, e não perseguir câmeras. Mas vocês... — ele estreitou o olhar — vocês cresceram ouvindo histórias distorcidas. Cresceram vendo ídolos... e não heróis.
Um silêncio pesado caiu no auditório.
— Aqui dentro, vocês vão aprender a diferença. Alguns de vocês serão quebrados. Outros... corrompidos. Poucos sobreviverão com propósito intacto.
Bartiriam sentiu um arrepio subir pela nuca.
— Amanhã começam os testes práticos. Hoje, vocês só precisam entender uma coisa...
O telão acendeu atrás dele, mostrando antigas fotos da primeira geração de heróis — e, entre elas, cenas de catástrofes, vítimas, destruição.
— Ser herói não é glamour. É sacrifício. E se vocês vieram atrás de fama... — a voz dele engrossou — vão falhar. E falhar dentro destas paredes... custa caro.
A plateia inteira ficou tensa.
Arkan fez uma pausa longa, respirou fundo e então sua expressão fechada suavizou apenas o suficiente para não parecer uma estátua.
— Mas não sintam medo. — A voz dele mudou, agora mais profunda, mais calorosa. — Esta escola é diferente de todas. Nós não estamos aqui para usar vocês. Não estamos aqui para transformá-los em armas descartáveis.
O telão atrás dele exibiu imagens de equipes de resgate, crianças sendo salvas, cidades reconstruídas.
— Estamos aqui para guiá-los. Para protegê-los. Para torná-los fortes o bastante para protegerem a si mesmos... e o mundo.
Ele deu um passo à frente, olhando cada fileira com firmeza.
— O que vocês carregam dentro de si não é um fardo. É uma chama. E nossa missão é impedir que ela se apague.
Muitos candidatos endireitaram a postura, como se algo acendesse dentro deles.
— Vocês vão treinar duro. Vão aprender a controlar seus dons. Vão cair e levantar dezenas de vezes. Mas no fim... — ele ergueu a mão fechada — cada um de vocês pode se tornar a esperança que este país acredita que vocês são.
Os telões mostraram agora o brasão dourado brilhando.
— Aqui, vocês não estão sozinhos. Aqui, sua força será construída, sua coragem será descoberta, e seu valor será provado.
Sua voz ficou mais suave, quase paternal.
— Não tenham medo do que está por vir. Tenham orgulho do que vocês estão prestes a se tornar.
Vários adolescentes respiraram fundo, inspirados.
E por alguns instantes, todos ali — até Bartiriam — sentiram que estavam entrando em algo grande, algo verdadeiro.
O PESO INVISÍVEL
Finalmente estou entrando para algo maior. Eu sonhei com isso desde criança. Mãe... pai... espero que vocês estejam vendo. O filho de vocês está prestes a se tornar um herói de verdade, igual a vocês.
A palestra tinha acabado, mas o auditório continuava cheio de murmúrios, risadas, conversas animadas.
Só Bartiriam estava imóvel.
Enquanto Kael, Lyria e Grom discutiam animados sobre os horários dos testes físicos, Bartiriam ficou ali... olhando para o palco vazio.
Parecia que o brilho motivador da palestra ainda ecoava nas paredes, mas dentro dele... algo apertou.
Aquela fala sobre "carregar o peso do mundo" sempre o atingia diferente dos outros.
Porque ele já tinha carregado esse peso.
E porque ele sabia o preço de ser um herói de verdade.
Seus olhos começaram a arder.
Ele lembrou da mãe gritando. Do pai tentando brincar com ele para acalmá-lo mesmo tremendo de raiva por dentro. Daquela casa cheia de repórteres gritando "ASSASSINO!" como se fossem malditos heróis de justiça.
E lembrou da noite em que o mundo desabou.
A casa silenciosa demais. A porta entreaberta. O cheiro metálico no ar.
Bartiriam, ainda criança, sendo impedido pelos vizinhos de correr até o quarto dos pais. Ele gritando, esperneando, tentando chamar por eles.
Aquele grito ainda ecoava dentro do peito dele. Um grito que nunca saiu completamente.
E a pergunta que rasgou a alma dele desde então:
"Ser herói mata?"
Não só mata o corpo. Mata a reputação. Mata a esperança. Mata a alma de quem dá tudo pelo bem... e recebe ódio em troca.
Ele enxugou discretamente uma lágrima antes que os outros percebessem.
Bartiriam cresceu com aquele buraco. Um buraco que não sangra por fora... mas corrói por dentro.
Ainda assim... ele estava ali.
Porque, mesmo com toda a dor, algo dentro dele ainda dizia:
"Eu preciso provar que ser herói vale a pena."
Não para fama. Não para aplauso. Mas para que ninguém mais passasse pelo que ele passou.
Talvez seus pais tivessem sido destruídos pela mentira... Mas ele seria a prova viva da verdade que eles defenderam.
— Ei, Bartiriam! — Kael acenou com um sorriso bobo. — Terra chamando! Você tá bem?
Ele respirou fundo, disfarçou a dor com um sorriso leve.
— Tô sim... só pensando.
Lyria cruzou os braços e sorriu de lado.
— Pensando no quê? No seu discurso heroico quando passar nos testes?
— Haha... quem me dera — ele respondeu.
Grom bateu no ombro dele, gentil mas firme como sempre.
— Relaxa. O difícil nem começou ainda.
Bartiriam forçou um riso.
Eles não tinham ideia.
Nenhum deles sabia o que significava ser herói de verdade. Nenhum deles sabia do que ele vinha fugindo... ou para onde ele estava correndo.
Mas ele ia continuar.
Com medo.
Com dor.
Com cicatrizes invisíveis queimando por dentro.
Porque era assim que verdadeiros heróis nasciam.
E Bartiriam estava pronto para dar o primeiro passo.
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