Herói ou Vilão?

5 Herói - Capítulo 4


— Você está com uma cara merda, ainda bem que vim sem a sua mãe. – Meu pai diz assim que abro a porta do carro prata.

— Não é só a cara. – Solto uma risada cansada e coloco o cinto de segurança. – Nós nem fizemos tudo. Vou ter que voltar algumas vezes durante os próximos dias. Eles querem fazer atualizações do meu poder de cura.

— Alguma novidade?

— Na verdade sim, mas não sei dizer se é boa ou ruim ainda. O outro portador do meteorito deu sinal de vida.

Observo a expressão do meu pai se modificar rapidamente para uma mistura de confusão e preocupação. Ele sai do estacionamento da Academia e passa pelo grande portão, nós dois acenamos para o porteiro e o segurança que ficam de vigia na entrada do instituto e recebemos a mesma saudação da parte deles.

— O que, mais especificamente, você quer dizer com “sinal de vida”? – Perguntou, por sim, após virar a esquina.

— O computador monstruoso do Oliver captou sinais completamente diferentes do meu na área de testes da Academia. Mas quando eu me transformei, não vi nenhum sinal de outra sombra portadora. Achamos que ele passou só para avisar de sua existência. Na verdade, acredito que o Grã-mestre te ligou porque está com medo de eu sair por ai procurando por ele se eu ficar sozinho.

— Nem é como se você lhe desse motivo para temer, não é? – Ironiza, revirando os olhos.

Ignoro completamente sua tentativa de me repreender por causa das minhas colaborações com a sociedade.

— Bem, levando em conta que eu não tenho um GPS de anormais, eu meio que nem tenho como procurar o cara.

— Isso significa que você vai ficar quietinho em casa durante toda a noite? – Ele ergue uma sobrancelha. Mostro-lhe um sorriso amarelo e ele bufa. – Você não é um super-herói dos quadrinhos, Alec.

Não, porque, diferente dos quadrinhos, eu sou de verdade. O meu garoto de dez anos interno comemora animadamente com esse fato. Quando eu era criança, eu sonhava com vários superpoderes incríveis, como super velocidade, invisibilidade, super força, poder de voo e muitos outros que eu via nos meus gibis, nos quais os heróis salvavam o mundo de bandidos quase tão poderosos quanto eles próprios.

Na vida real, não há vilões com poderes extraordinários e um plano de dominação mundial.

Mas no mundo, o crime também nunca descansa. Pessoas ruins estão por todas as partes, abusando do caráter das pessoas de bom coração.

— É o mínimo que posso fazer, pai. Esse poder não pode ser à toa, que sentido faria? É como aqueles velhos bilionários que não têm mais o que fazer com tanto dinheiro e gastam com criancinhas carentes.

— Você não é um velho bilionário, Alec. Nem é como se o poder fosse inesgotável, você pode morrer qualquer hora dessas!

— Então não terá sido uma morte em vão.

— Você é impossível. – Ele resmunga e eu lhe cutuco com o cotovelo.

— Agradeça à genética, cara. – Provoco-lhe.

— Só tente ser egoísta o suficiente para não matar sua mãe de preocupação, ok? Nenhum pai deveria presenciar o enterro do próprio filho.

— Credo, falando assim parece até que eu já morri. – Resmungo, enquanto passo as faixas tentando não ficar estressado com a lerdeza do rádio. – Tudo bem, não vou fazer nada por hoje, satisfeito?

— Você não tem nem ideia.

Sinto vontade de cruzar os braços e afundar no banco como fazia quando tinha quatorze anos, mas me contenho porque sei que nesses últimos anos os nervos dele ficaram à prova. Agora eles estão mais acostumados, sentem menos medo, entretanto, no inicio, eu evitava até mesmo de me transformar na frente da minha mãe.

Felizmente, meu pai começa um assunto qualquer sobre esportes e o clima tenso se dissipa. Não demora muito para que ele estacione em frente à casa branca de dois andares onde eles moram desde que nasci. O jardim da frente sempre foi muito bem cuidado, mas agora está ainda mais bonito, já que meu pai tem se dedicado bastante a ele desde que deixou o emprego.

Minha mãe é advogada e meu pai é contador. Agora que estão mais velhos resolveram diminuir um pouco o ritmo, David – meu pai – deixou o emprego de vez e Elena – minha mãe – diminui a carga de trabalho, porque ela gosta demais do que faz para simplesmente parar de uma hora para outra.

Quando saio do carro, sem querer batendo a porta com uma pouco mais de força que gostaria, imediatamente começo a sentir uma sensação estranha de observação. Encaro a minha mão, a pedra já não está mais quente tem algum tempo, mas a poeira voltou.

Meu pai está de costa para mim e eu reflito por dois segundos sobre ter prometido não fazer nada, odeio mais que tudo quebrar minhas promessas, palavras valem muito para mim. Giro no lugar, procurando alguma coisa diferente. Não vejo nada.

Decido realmente não fazer nada, porque se ele quisesse se comunicar comigo não teria fugido tão rápido da Academia.

O que me amedronta é o fato de ele estar me observando, saber quem eu sou e quem são as pessoas a minha volta. Coisa boa não deve ser.

— Alec! Querido, como você está? – Minha mãe abre a porta animadamente e vem ao meu encontro de braços abertos. – Você está péssimo, — Diz como se não fosse a sexta pessoa no dia a me dizer isso. – espero que não estejam abusando demais de você. Vamos entrar, fiz sua torta favorita para sobremesa.

— Sempre muito convincente a senhora. – Brinco e ela me dá um sorriso enorme, como se não me visse há anos. Essa é uma característica linda da minha mãe, ela sempre ama demais as pessoas. Suas mãos passam pelo meu braço e ela me guia para dentro.

Por um momento me esqueço completamente de tudo, somos apenas uma família normal novamente.

☺☹

Acordo no meio da noite com uma sensação ruim, como se alguém estivesse me vigiando durante o sono. É uma sensação opressora e amedrontadora.

No mesmo instante que abro os olhos consigo ver o último vestígio de um corpo humano. Não penso duas vezes antes de virar uma sombra também, mas meus reflexos ainda estão meio lentos dos teste e do sono, então ele desaparece sem que eu nem consiga deduzir por qual fresta ele passou.

De volta ao meu normal, me sento na cama e respiro fundo. Passo a mão inúmeras vezes pelo rosto, como se isso fosse me trazer alguma ideia do que fazer. Encaro a mão direita, mas ela está normal.

Será que eu ainda estou sonhando? Ou melhor, tendo um pesadelo?

A bola de basquete que despenca da prateleira em cima da cama direto para minha cabeça resolve a dúvida. Estou acordado. Muito mais do que gostaria, na verdade. Esfrego a parte onde a bola bateu com uma reclamação ao léu.

O relógio digital na forma de um foguete pregado em uma das paredes mostra que são três da manhã.

Tenho vontade de rir com a ironia do horário. Três da madrugada, a hora do mal.

O universo gosta mesmo de brincar com minha cara. Tenho certeza que sou a piada ruim do Stand-up dele, daquelas que todo mundo dá uma meia risada para o clima não ficar merda, o que deixa o clima mais merda ainda.

Apoio a cabeça nos joelhos e fico observando o meu quarto antigo, totalmente alheio ao escuro. As paredes ainda são num verde-claro suave e ainda tem bonecos, carrinhos e outros brinquedos espalhados pelas prateleira de forma organizada, acumulando uma poeira que luta insistentemente com o espanador felpudo da minha mãe. Cartazes de filmes e bandas que curtia ainda estão colados à parede.

De repente os olhares dos personagens e artistas nos cartazes parecem me seguir, me julgar e isso parece demais. Insuportável. Sinto como se o quarto estivesse se fechando a minha volta. Então, num surto momentâneo, visto a blusa que larguei em cima da escrivaninha antes de ir dormir, pego o meu violão preto e saio do quarto.

A casa está silenciosa. Antigamente havia um relógio grande na parede principal. Ele fazia tique-taque e badalava levemente à cada hora, não incomodava ninguém.

Mas passou a incomodar.

O tique-taque passou a tiquetaquear mais devagar para mim, como nas cenas de tensão dos filmes. O tique se estendia lentamente até o taque, e entravam num ciclo vicio infinito.

Tique...

Taque...

Tique...

Taque...

E ai eu surtei.

Era três da tarde, bem no momento da badala. Eu levantei da bancada que dividia a sala da cozinha num pulo, minha mãe não percebeu, de costas pra mim, fazendo um bolo para tia Clara que viria mais tarde.

Parei em frente ao relógio e o observei terminar sua terceira e última badalada. Então, empurrei o relógio com uma mão. Foi um empurrão leve, quase anêmico, mas eu já estava mais forte. O relógio despencou num baque alto. Minha soltou um grito de susto, mas eu estava paralisado, olhando para o relógio com muito mais alívio do que deveria.

— Desculpe. – Murmurei. Minha veio até mim e me abraçou, dizendo que estava tudo bem. Mas eu sabia que ela gostava do grande relógio, então o levei para o conserto e trouxe de volta. De qualquer forma, ela acabou levando-o para a casa de tia Clara. Não sei se tentando ajudar, ou apenas evitar que eu o quebre novamente.

De qualquer forma, andar pela casa e não ouvir aquele tique-taque insuportável já é um alívio enorme.

Atravesso as portas francesas que dão no quintal atrás da casa. Aqui é ainda mais bem cuidado que a frente da casa. Desde que saí, eles fizeram reformas e agora tem uma área com churrasqueira e uma hidromassagem.

Uma consequência boa daquela noite estranha onde tudo mudou, é que meus pais ficaram de frente com a possibilidade de perder o filho de 19 anos e isso os fez acordar um pouco para o fato de que: não importa a sua idade, a morte sempre pode se tornar real.

Agora consigo ver claramente as mudanças dessa experiência, eles estão aproveitando bem mais a própria vida e se preocupando menos com os problemas. Eles até fizeram uma viagem de trailer de duas semanas sem destino especifico, pouco tempo atrás.

Sento-me na beirada da hidromassagem. Não a ligo com medo de que faça algum barulho de que acorde meus pais. Merda, eu sequer sinto a mudança de temperatura, que diferença faria?

Dedilho o violão de forma suave, lembrando uma canção de dormir. Essa ação, apesar de simples, me requer muita atenção, então é ótimo, porque assim não preciso ir para os dois lados perigosos da minha mente. O celular... e ela.

Quero muito pegar o meu celular e visualizar os problemas da noite. Oliver criou um aplicativo que capta os sinais de emergência enviados pela polícia. Qualquer pedido de ajuda que chega para eles é imediatamente enviado para o meu celular.

Não é exatamente legal judicialmente. Mas ninguém está sabendo, além de nós dois, e eu estou ajudando a polícia a salvar vidas.

Como prometi que não faria nada essa noite, estou me segurando para não olhar, porque sei que se eu olhar não vou ser capaz de recusar.

Volto a me concentrar no violão porque não quero entrar nos pensamentos mais difíceis de controlar.

Droga, como alguém que eu conheci em menos de vinte e quatro horas pode estar tão na minha cabeça?

Sinto-me um idiota porque a cada piscada consigo enxergar os olhos dela, os cachos, o rosto... É quase como se ela estivesse na minha frente. Eu nem sou bom com memórias visuais, normalmente demoro um pouco para decorar rostos. Mas não o dela, este parece claro até demais.

— Ela mal falou com você, seu idiota. – Murmuro sozinho, balançando os pés na água. O violão já completamente esquecido.

Durante todo o dia ela focou nos testes, em ser profissional, foram poucos os deslizes dela, como o momento em que quase tocou a pedra quente. Eu não arranquei quase nada dela, sei só o que todos sabem: Seu nome é Cora, bisneta do Grã-mestre, tem vinte e quatro anos – como eu – e é inteligente de uma forma que eu nunca fui. Isso tudo além de ser incrivelmente linda.

Eu sou uma pessoa curiosa, muito curiosa. Quero dizer, eu não seria o que sou agora se simplesmente não tivesse tocado na pedra. Portanto, acho que o interesse tão repentino é simplesmente pela curiosidade e logo irei deixar esses pensamentos loucos de lado.

Assim espero, pelo menos.

Meu celular apita, com uma notificação diferente vindo de um aplicativo que sei muito bem qual é. Não me aguento e levo a mão ao bolso e leio a mensagem que chega. Alguém está em perigo e precisa de ajuda urgente. Observo o endereço na mensagem, é longe da delegacia e mesmo essa hora da madrugada os policiais vão demorar muito para chegar lá.

Encaro a casa dos meus pais. Sei que prometi que não faria nada, mas uma vida vale uma promessa cumprida? Eu acredito que não. Além disso, eles não vão nem ficar sabendo, vou ir e voltar tão rápido que eles não vão nem perceber minha saída.

Uma vida não vale uma promessa.

Menos de um piscar de olhos, já desapareci do quintal de meus pais.