Hell on us
50 Algo para temer
Notas iniciais
POV Ayla
[…]
Já era de madrugada e o silêncio estava dominando todo o interior do veículo, a única coisa que conseguia se ouvir era o som da respiração de todos que estavam dormindo ali dentro. Isso incluindo a minha também, porém eu não estava dormindo, na verdade desde do que houve na estrada, eu não conseguia simplesmente fechar os olhos e relaxar.
Não quando algo muito ruim parecia estar prestes a acontecer.
Me arrumei no saco de dormir ficando de barriga para cima olhando para o teto claro do trailer em que estávamos, meus ouvidos estavam atentos a todos os sons que me rodeava, esse instinto simplesmente despertou em mim quando ouvi um tipo incomum de ruído vir do lado de fora.
Por um segundo eu me preocupei que talvez pudesse ter sido algum errante que havia passado por perto, mas assim que lembrei que Rick estava ali fora de vigia fiquei bem mais tranquila, afinal, ele daria conta de um errante.
Continuei olhando para o teto por um bom tempo até que decidi voltar a tentar dormir, já não havia tido uma noite boa de sono no dia anterior e não queria que isso se repetisse mais uma vez. Me arrumei dentro daquele saco de dormir virando para o lado oposto em que David estava, fiquei praticamente de frente para a parede do veículo e então fechei meus olhos relaxando meu corpo para talvez conseguir pegar no sono mais rápido.
Não era muito difícil conseguir dormir ali dentro, como só havia eu acordada foi até que rápido sentir o sono vir, porém, quando eu estava prestes a conseguir isso a porta do trailer foi aberta com violência, a mesma bateu e isso despertou todos os demais.
Não tive tempo de contar quantos eram, mas um número alto de homens adentraram no interior da van, usando da mesma violência para nos tirar dali de dentro. Não pude nem mesmo pegar a arma que havia deixado ao lado do meu saco de dormir, fui arrastada pelos braços por um deles e levada para fora a força.
Tentei me soltar dele usando meus pés para conseguir chutá-lo e tudo o que consegui foi levar um tapa incrivelmente forte no rosto, o que me fez parar de reagir no mesmo segundo.
Quando fui finalmente colocada no chão pude ver o que estava acontecendo e vi que estávamos cercados por vários homens… Claramente eram salvadores, pela forma como todos usavam o mesmo tipo de vestimentas e trajavam armas. Olhar para todos aqueles homens a nos cercam fez-me sentir estranha, diminuída. Haviam muitos ali e, como estávamos em menor número, aquela sensação de estar diminuindo apenas fez parecer com que fôssemos não mais do que formigas prestes a serem pisoteadas.
— Uma coisa é vigiar aqueles errantes de merda — Ouvi alguém comentar, seu tom me parecia muito familiar. — Eles são burros e não sabem ficar parados, diferentes dos humanos, não é mesmo rapazes?
O homem que estava falando começou a andar na minha frente, exibindo um sorriso largo em seu rosto. O reconheci assim que meus olhos recaíram sobre ele, era o mesmo filho da puta que atirou em mim naquele mercado semanas atrás. Contudo, havia alguma coisa diferente nele, parte do seu rosto estava queimado deixando assim sua aparência bem mais intimidadora que antes.
Outro homem apareceu também, esse me lembrava muito o estilo de Daryl; jaqueta de couro, olhar carrancudo e uma crossbow muito semelhante com a que ele usava também. Outro detalhe era que metade do seu rosto também estava queimado; assim como o do outro. Seja lá o que houve com eles, ambos receberam um castigo doloroso.
— Os coloquem em fila e de joelhos! — A ordem veio do segundo homem que tinha seu rosto queimado, fui novamente empurrada para frente vendo os outros também serem e assim nos colocaram um do lado do outro e logo fui forçada a me ajoelhar.
Olhei para os lados e vi que ao meu lado esquerdo estava Abraham, logo depois Daryl, Maggie, Rick, Carl e David. Aquela fila fez com que meu coração começasse a bater um pouco mais rápido. Os dois homens que tinham seus rostos queimados ficaram na nossa frente nos olhando com um meio sorriso no rosto, um deles — o que tinha nos atacado semanas atrás — caminhou até um pequeno furgão e abriu a traseira do veículo.
Mais homens foram até lá e não demorou para que trouxessem para a fila Glenn e Heath, ambos estavam levemente feridos, nada que pudesse ser muito preocupante; ou nada que chegasse aos pés do que parecia estar prestes a acontecer ali. Os dois também forma levados para a fila e tiveram que ficar de joelhos também; exatamente como nós já estávamos. Glenn estava ao meu lado e Heath ao seu.
Olhei para toda aquela quantidade de homens que estavam ali nos cercando e cheguei a conclusão de que os Salvadores era ainda maior do que eu pensava ou do que nos fizeram acreditar. Se eles quiserem, poderiam nos matar em poucos segundos sem nenhum problema. Não tinha como conseguirmos revidar qualquer ataque que eles fizessem, nosso grupo naquele momento era muito pequeno se comparado com aquele. Mesmo com o acréscimo recente.
— Ih neném… — Uma voz alta e carregada de deboche chamou a minha atenção, ergui meu rosto para a direção onde aquela voz havia vindo e então vi metade daquele grupo abrir espaço para outro homem, este estava caminhando até a fila que havia sido formada por nós. — Já começam a fazer xixi nas calças?
O homem que havia começado a falar finalmente se revelou; usando uma jaqueta de couro escura e carregando em seu ombro um taco de baseball com arame farpado enrolado nele ele começou a caminhar na nossa direção de forma calma e lenta até ficar bem na nossa frente. Sua aparência não era assim tão intimidadora, porém a forma como ele nos olhava como se fôssemos apenas ovelhas prontas para o abate conseguiu me deixar bastante nervosa.
— Ah garoto… Acho que estamos perto disso. Logo logo todos aqui vão estar se mijando.
Ele nos olhou por um longo tempo mostrando um largo sorriso debochado para todos nós, a forma como ele se portava e até mesmo como ele falava era incrivelmente preocupante. Como se ele não se importasse ou sequer temesse o que iria acontecer. Mas era a arma que ele carregava repousada em seus ombros que realmente me preocupava, o arame farpado envolto do bastão fazia com que ele parecesse mais intimidante.
— Então, qual desses putos é o líder? — Ele perguntou nos olhando outra vez, procurando pelo nosso líder, Rick.
— É esse aqui! — O homem loiro que havia nos atacado apontou na direção em que Rick estava. — O nome dele é Rick.
O homem então começou a caminhar outra vez, seguindo agora em direção a fila aonde Rick estava. Ao chegar perto o suficiente dele, o outro se agachou, ficando mais ou menos na mesma altura que o pai de Carl.
— Olá, Rick, não é? Acho que não fomos apresentados corretamente — O homem começou a falar. — Eu sou Negan.
Ouvir aquele nome causou em mim um tremor notável, foi então que lembrei de tudo o que David me contou sobre o salvadores e seu líder insano e doentio. Aquele homem, parado na frente de Rick e a encará-lo como se fosse matá-lo a qualquer momento era o diabo em pessoa.
— Eu tenho que dizer uma coisa: eu não gostei nem um pouco de saber que você e seu grupinho de merda mataram uma porrada dos meus homens. — Ele fez uma pausa sorrindo mais, apesar de sua fala ser uma reclamação óbvia. — E quando eu mandei meu pessoal matar o seu pessoal por ter matado meu pessoal, você matou mais do meu pessoal. Isso não foi nem um pouco legal. Não foi legal pra caralho!
Pude ver o momento exato em que David — ao lado de Carl — respirou fundo e engoliu seco, seus olhos se abaixaram para o chão, ele temia olhar para aquele e provavelmente temia que aquele homem o olhasse também.
— Você não tem a porra da ideia de que isso não foi legal, você vai ter um puta arrependimento de ter me enfrentado. Vai mesmo… — Negan então se levantou num movimento rápido e começou a caminhar de um lado para o outro olhando para todos nós com curiosa atenção. — Veja bem Rick, não importa o quanto você tente foder com a nova ordem mundial, você não pode fazer isso. E essa nova ordem é a seguinte — É bem simples e se você for a porra dum retardado…que você pode muito bem ser, vai conseguir entender.
Houve um momento de silêncio, Negan se voltou para Rick olhando-o novamente e se inclinou um pouco para frente usando a mão livre para se apoiar no joelho.
— Preparado? Aqui vai… preste muita atenção: — Ele tirou a arma de seu ombro e girou o taco de baseball o direcionando para Rick. — Me dê as suas coisas ou eu mato você! Você trabalha pra mim agora, tudo o que você encontrar pertence a mim, esse é o seu trabalho agora.
Ninguém disse sequer uma única palavra. Havia alguma coisa para ser dita naquele momento? Algo que pudesse resolver aquela situação?
— Sei que pode ser difícil de engolir, mas pode ter certeza que você vai engolir. — Ele fez uma nova pausa, ainda estava olhando para o pai de Carl, fazendo questão de mostrar que suas palavras não eram um simples pedido e sim uma ordem. Um aviso, talvez. — Você comanda um grupo, constrói algo, acha que está seguro… sei como é, mas você não está seguro. Nem mesmo está perto de estar, na verdade você está fodido e vai ficar mais fodido se não me der o que eu quero e o que eu quero é metade das suas merdas.
Negan abriu os braços.
— Esse é o seu mundo agora Rick e quanto mais você lutar contra, pior será. — Outra pausa. — Então, se alguém bater na porra da sua porta, você nos deixa entrar, nós somos o dono dessa porra! E se tentar nos impedir, a gente vai derrubá-la.
Ele voltou a caminhar, dessa vez demorou alguns instantes para voltar a falar. Negan parecia mais interessado em olhar para cada um de nós ali ajoelhados na sua frente. Completamente à mercê do que iria vir a seguir.
— Eu realmente não quero ter que fazer isso, quero que saibam desde agora que eu não quero matar nenhum de vocês. Eu quero que trabalhem para mim e vocês não podem fazer isso se forem as porras de uns mortos não é?
Ele parou na nossa frente encarando-nos, cada um em seu tempo.
— Mas vocês mataram vários dos meus homens, na verdade uma caralhada fodida deles, bem mais do que eu posso aceitar. E por causa disso, ah... Vocês terão que pagar, caralho. — Ao dizer tais palavras ele fixou seus olhos assustadores em nossos rostos.
Dando uma ênfase maior ao que fora dito. Era certo de que ao matarmos seus homens isso seria cobrado, Rick e todos nós já tínhamos isso em mente, apenas não estávamos prontos para esse momento.
— Então agora, eu vou dar uma puta porrada bem fodida na cabeça de um de vocês com o meu bastão aqui! — Negan ergueu o taco que carregava a exibindo para todos nós, como se o mesmo fosse um tipo de troféu ou algo do tipo; algo que deveríamos temer. — Essa, é a Lucille e ela é demais!
Ele nos olhou com animação, aquele homem era um tremendo de um doente e isso ficava mais claro conforme ele falava e também como agia.
— Agora eu só preciso escolher qual de vocês terá essa honra!
Minha mente pareceu entrar em um tipo diferente de alerta, apesar de recusar a olhar para aquele homem insano, meus olhos não conseguiam simplesmente focar em nada mais. A presença de Negan era algo impossível de ser ignorada, a forma como ele se portava e gesticulava deixava claro o quão doente e perturbado ele era.
E, após mostrar sua arma, cujo nome era Lucille, eu tive certeza de que ele era ainda pior do que imaginei.
De forma automática, eu olhei na direção de David. Apesar de estarmos na mesma situação, encará-lo pareceu me deixar um tanto menos aflita, apesar de conseguir sentir o medo correr por todo meu corpo. Ele também me olhou e murmurou um "vai ficar tudo bem". Estremeci, apesar de querer muito acreditar em suas palavras, era impossível tê-las como uma verdade.
Negan estava na nossa frente, movendo Lucille em nossa direção, pronto para escolher alguém para matar. Como ficaria tudo bem quando um de nós seria morto?
Tive minha atenção voltada para Negan outra vez quando ele começou a assobiar, era uma canção lenta e assustadora. Pareceu preencher toda a clareira aonde estávamos, ecoando em minha cabeça como um som perturbador. Ele caminhava na nossa frente, como já havia feito antes, encarava cada um com muita calma, nos analisando com cuidado e sem pressa. Apenas prolongando aquela tortura.
— Eu simplesmente não consigo decidir quem eu vou matar caralho! — Ele abriu os braços ainda sorrindo, porém um pouco decepcionado. — Quer dizer, olha só o que temos aqui, um grupo e tanto! Duas crianças que claramente serão psicopatas, mulheres... Uau, muito gostosas para serem mortas e nem vou falar sobre os homens assassinos que carrega...
Fiz uma careta com sua fala, para ele poderia soar como um elogio, mas tudo o que senti com suas palavras foi um nojo crescente em meu interior.
— É impossível decidir!
Houve um momento em que ele ficou em silêncio, seus olhos brilhavam em uma expectativa grande, algo que beirava ao assustador.
— Tive uma ideia genial! — Negan anunciou sorrindo, respirei profundamente quando o vi caminhar para Rick e parar na sua frente.
Meu coração já se encontrava acelerado demais, suas batidas machucavam meu peito e tinha desconfiança de que suas batidas eram ouvidas por quem estivesse ao meu lado.
— Uni — Ele apontou para Rick e seguiu em diante. — Duni — Apontou para Carl. — Duni tê…— Seguiu em David e rapidamente para Michonne. — Salamê minguê…
A arma de nome Lucille foi apontada para Maggie, seguida por Daryl. Não havia exatamente uma ordem ali.
— Um sorvete colorê…O escolhido foi…— Enquanto ele cantava, Negan apontava seu taco de baseball para nossas cabeças mirando-a em cada um de nós.
Na segunda vez, aquela porcaria de taco passou por mim passou a poucos centímetros de distância do meu rosto e isso foi o suficiente para fazer com que eu ficasse mais nervosa, esperando pela morte certa. Meu coração continuava seguindo o mesmo ritmo acelerado e descontrolado de antes, aquele frio na barriga que eu sentia parecia ter crescido dentro de mim.
— Você. — Ele parou onde eu e Abraham estavam. Senti algo me dominar, um medo incomum que me deixou pesada e aflita.
— Minha mãe me disse… — Quando vi Negan seguir adiante, não soube ao certo como reagir, quer dizer, eu deveria me sentir aliviada por não ter sido escolhida como sua vitima? Deveria me preocupar com quem seria o escolhido?
— Para escolher o melhor de vocês… — Vi seu bastão passar por mais cabeças, David, Carl, Michonne, Daryl, Abragam, Glenn, Heath, a minha — outra vez — Rick, Maggie, ele pareceu já ter escolhido sua vitima. — E o escolhido foi…
Quando Negan finalmente parou de cantar o uni dune tê eu percebi que ele estava praticamente na minha frente e me senti exatamente como antes, apavorada por ter sido escolhida. Contudo, depois de alguns segundos, eu me dei conta de ele não estava apontando Lucillepara mim, ela sequer estava mirada em mim. Estava na pessoa ao meu lado.
Em Glenn.
— Você.
Glenn foi arrastado no segundo seguinte e levado para fora da fila, colocado na nossa frente ficando cara a cara com Negan. Maggie reagiu ao ver o que estava acontecendo, ela tentou se levantar do chão, mas alguns homens se adiantaram e a seguraram também. Impedindo que ela conseguisse fazer qualquer coisa para impedir que aquilo acontecesse.
Ela gritava já tomada pelo desespero e até mesmo Daryl e Abraham tentaram fazer alguma coisa a respeito daquilo, porém não havia como eles tentar fazer alguma coisa; o grupo de Negan era bem maior que o nosso naquele momento e mesmo que tentássemos atacar… Seríamos mortos em segundos.
— Glenn!
Eu não estava olhando, mas sabia muito bem que havia sido Maggie quem estava gritando e isso começou a me causar um medo; no fim das contas ela estava mesmo certa em se preocupar com um ataque dos salvadores contra nós e como ela mesma havia dito que acabaríamos pagando o preço um dia, esse dia havia chegado e seria Glenn quem iria pagar esse preço.
— Não, por favor! Não!
— Você não pode fazer isso! — Aquela foi a primeira vez que Rick se manifestou, olhei para sua direção e ele já estava de pé pronto para ir em direção a Negan quando todos os outros homens que estavam ali nos cercando deram ao mesmo tempo um único passo para frente.
— Escuta aqui, todos vocês têm uma carralhada de homens te cercando nessa porra aqui! — Negan se virou para Rick se mostrando já estar sem paciência com tudo aquilo. — Se não quiser que eu acabe com a raça de todo mundo aqui é melhor sentar a porra desse seu rabo no chão! E isso vale pra vocês também, qualquer um que se mover vai levar porrada na cabeça!
Surpreendentemente Rick fez o que Negan havia ordenado e voltou para seu lugar, eu não simplesmente não conseguia acreditar que ele iria mesmo deixar que Glenn fosse morto por aquele homem doente e louco. Aquilo não estava nem um pouco certo, aquilo não era justo e Rick sequer tentara impedir.
— E se mais alguém se mexer ou tentar alguma coisa podem arrancar o outro olho do guri e dar pra menina comer. — Negan caminhou até onde Glenn estava e ergueu Lucille um pouco deixando-a longe do chão. — Podem respirar, podem piscar, podem chorar... Porra, vocês todos irão fazer isso!
Meu coração já estava batendo em disparada e assim que Negan ergueu ainda mais aquele maldito taco de baseball eu senti como se ele fosse sair do meu peito naquele mesmo momento e quando o vi dar o primeiro golpe na cabeça de Glenn todos começaram a gritar ao mesmo tempo. Meus olhos se arregalaram instantaneamente diante daquela cena horrenda e macabra, eu não conseguia acreditar no que estava vendo; por mais que fosse mesmo real eu não queria aceitar que realmente estivesse acontecendo bem diante dos meus olhos.
Glenn caiu no chão, só com o primeiro golpe que Negan havia lhe dado em sua cabeça no chão já era possível ver muito sangue jorrar dele.
— Eita porra! Essa você levou igual profissa!
Como se tudo aquilo não pudesse ficar ainda pior do que já estava, Glenn surpreendentemente começou a tentar se levantar; ele ainda estava vivo mesmo depois de levar aquele golpe?
Ele então começou a gaguejar, tentava desesperadamente falar alguma coisa enquanto se esforçava para se reerguer do chão.
— Cê tá aí colega? Não dá pra saber, parece que tá tentando falar, mas levou uma pancada dos diabos. — Ele começou a rir. — Rachei tanto a sua cabeça que a merda do seu olho pulou pra fora. Nojento pra caramba!
Aquele homem era definitivamente um louco.
— Mag… — Glenn engasgou. — Maggie!
Antes mesmo que alguém pudesse dizer alguma coisa Negan deferiu o segundo golpe na cabeça de Glenn fazendo assim que com ele caísse novamente no chão, levei minhas duas mãos para cobrir minha boca tentando segurar o grito de horror que estava prestes a soltar. Mesmo que todos estivessem gritando e já assustados com aquela cena, ele, porém não parou, continuou batendo diversas vezes em Glenn cada vez com mais violência e mais força até deixa-lo completamente desfigurado.
Ele então parou de bater em Glenn, se agachou perto de seu corpo e ficou analisando a própria monstruosidade que havia acabado de fazer, se erguendo outra vez ele sacudiu o bastão tirando os restos do rosto de Glenn que haviam ficado grudados nele. Eu evitei olhar para aquela cena tão terrível e grotesca, era difícil conseguir pensar em alguma outra coisa que não fosse o som daquele bastão batendo na cabeça de Glenn; aquele som mesmo que já tivesse parado se repetia na minha mente de forma constante.
— Puta que pariu! Isso foi... Lucille é uma sanguinária! — Negan exclamou, com o mesmo tom animado.
Os restos de Glenn estavam no chão, uma visão horrenda e que jamais seria esquecida. Eu conseguia ouvir o choro de Maggie, entrando em minha mente e se misturando com o som das várias pancadas que Glenn recebeu daquele lunático.
— Eu... Eu vou matar você. — foi algo imediato. Todos olharam para uma única direção após ouvir a ameaça.
Rick.
— Depois do que acabou de ver... Depois de ver seu amigo ser morto, você ainda não entendeu porra nenhuma?! — Negan quase gritou. Andando de uma só vez em direção ao pai de Carl.
Ele mostrou o bastão para ele, repleto de sangue e com alguns restos do que sobrou de Glenn grudado em seu arame. Rick apenas piscou, não o olhava, mas parecia firme em suas palavras.
— Eu vou matar você. — Ele disse novamente, devagar erguendo o rosto para finalmente encarar aquele louco nos olhos.
Pisco sem conseguir acreditar. Se Glenn não tivesse acabado de ter sido morto, se nossa situação não estivesse naquela merda, talvez eu estivesse feliz por ouvir Rick ameaçar matá-lo, mas o jogo não estava favorável para nós. Para nenhum de nós.
— Filho da puta, lá vamos nós de novo. — Negan arrumou Lucille em sua mão, apontando-a para Carl.
— NÃO! Por favor, chega! — pediu Heath em desespero.
— Vamos fazer isso por eliminação até que o Rick finalmente entenda como as coisas funcionam agora — Negan decidiu, Lucille ainda estava direcionada para Carl, próxima demais de seu rosto.
Tive apenas chance de piscar antes que o pior voltasse a acontecer, Lucille mudou de direção e agora estava apontada para o rosto de David. Dessa vez, ninguém o arrastou para frente, ninguém se aproximou para levá-lo para frente. Todos os homens de Negan continuaram parados, imóveis em seus lugares, assistindo todo aquele show de horrores continuar.
Assim que me dei conta do que iria acontecer, tentei me levantar para impedir que aquilo acontecesse. Era loucura reagir? Com toda certeza, mas eu não podia perdê-lo, não de verdade. Consegui colocar-me de pé, mas antes mesmo que eu pudesse ter qualquer reação um de seus capangas me empurrou para trás e praticamente me jogou no chão novamente.
— Não! Ele não! — Eu comecei a entrar em completo desespero, ele não podia fazer aquilo. — Por favor… Não! POR FAVOR!
Negan me olhou com falso lamento, o brilho em seus olhos mostrava o completo oposto. Ele não lamentava nem um pouco pelo que iria fazer, na verdade parecia gostar daquilo.
— Sinto muito criança, mas não coloque a culpa em mim e sim no seu líderzinho de merda — disse ele calmamente. — Rick quem pediu por isso.
Negan nem mesmo pensou, sequer piscou. Levantou seu taco com arame e o abaixou com força, acertando o primeiro golpe na cabeça de David com tanta força que algo pareceu quebrar. Ao mesmo tempo eu tentei me colocar de pé mais uma vez e Abraham se adiantou em me segurar, seus braços me rodearam com força impedindo que eu conseguisse sequer me mover.
O golpe derrubou também David de encontro ao chão, gritei quando o segundo veio no segundo depois e o show de horror voltou a acontecer. Senti que tudo ao meu redor estava desmoronando lentamente, eu gritava, chorava em súplica para que ele parasse o que estava fazendo, mas Negan não dava atenção para minhas palavras.
Cada golpe, cada respingo de sangue era um golpe acertado em mim também. Minhas mãos estavam na minha cabeça e sem perceber o que eu estava fazendo senti meu cabelo sendo puxado por mim mesma; aquilo estava doendo, mas não tanto quanto ver David sendo morto de uma forma brutal como aquela.
Meu coração estava quase saindo por minha boca, eu podia senti-lo na minha garganta e por um pequeno momento eu pensei que isso iria mesmo acabar acontecendo, meu estômago estava se revirando mais uma vez de puro desespero e agonia. Aquela mesma cena pareceu durar por horas e quando ele finalmente parou, Abraham ainda não havia me soltado; provavelmente estava com medo de que eu tentasse fazer alguma loucura.
Mas o que eu iria fazer? David já estava morto, Glenn já estava morto e não havia absolutamente nada que poderia ser feito para reverter aquilo. E como Negan mesmo havia dito: estávamos completamente cercados ali, não havia absolutamente nada que poderíamos fazer contra aquilo e se fizéssemos seriamos mortos também.
Eu olhei para o corpo caído de David ao lado de Carl sem conseguir acreditar que tudo aquilo havia mesmo acontecido, eu queria que tudo aquilo fosse apenas mais um terrível sonho que eu estava tendo. Fechei meus olhos gritando mentalmente para que eu acordasse, mas, eu não estava sonhando.
— E Lucille está finalmente satisfeita… — Sua voz pareceu me causar um sentimento entranho, eu precisei fechar meus olhos e abaixar minha cabeça para não precisar olhar nem mais por um segundo para aquele monstro doente e maníaco. — Eu não queria ter chegado a esse ponto, mas porra... Vocês precisavam serem castigados.
Eu continuei com meus olhos fechados enquanto ele continuava falando, exatamente como havia feito desde que havia se apresentado para nós, só que eu não prestei atenção nele e mesmo que fosse obrigada, eu não queria prestar atenção em mais nada do que ele dizia.
— Espero que agora o recado tenha sido entendido — Negan continuou. — Caso contrário, eu farei questão de quebrar a cabeça do seu filho caolho aqui.
Só de ouvir sua voz eu sentia algo dentro de mim, algo do qual eu nunca havia sentido antes; ódio? Raiva? Tristeza? Eu não conseguia explicar exatamente o que era, mas aquilo de certa forma estava fazendo com que eu sentisse uma forte dor no peito.
Abri meus olhos novamente olhando para aquela cena, eu não sabia ao certo como descrever tudo aquilo, nenhuma palavra poderia e nem mesmo conseguiria descrever com precisão aquela monstruosidade que eu havia acabado de presenciar.
Tive o primeiro vislumbre do óbvio: Negan e seus salvadores não era nada parecido com os outros grupos que enfrentamos antes.
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