Hell -PDE
1 Capítulo 1
A igreja era enorme, os vidros nas janelas eram uma verdadeira obra de arte. A imagem de Jesus me encarava enquanto eu andava entre os bancos de madeira que já estavam velhos e gastos. Avistei o confessionário e andei até ele, me ajoelhei ao lado, o Padre estava ali, havia também um crucifixo que parecia ser bem velho.
–Qual seja o seu problema, Deus irá lhe mostrar o caminho para a luz. –O padre dizia enquanto eu me ajeitava.
–Essa é a questão Padre, em todos esses anos eu nunca vi uma luz. Apenas escuridão e morte. –Falei levantando a cabeça.
–Você deve estar procurando a luz no lugar errado. Deus não nos dá trevas, Deus perdoa os pecados e lhe cura com a benção divina. –Ele pegou o crucifixo.
–A verdade Padre, é que todos vão para o inferno. –Levantei-me e abri a portinha do confessionário. –Inclusive o senhor. –Sorri. Eu conseguia ver meu reflexo em seus olhos azuis que demonstravam o medo ao ver minhas presas.
–Você é o demônio! –Ele gritou colocando o crucifixo em meu rosto.
–Não Padre, eu sou pior que ele. –Arranquei o crucifixo da mão dele e o joguei para longe. Coloquei meu rosto perto do seu ouvido e sussurrei. — Muito pior.
Abri minha boca e encostei minhas presas em seu pescoço, eu conseguia ouvir as batidas aceleradas do seu coração, eu conseguia sentir o sangue passando por baixo de sua pele macia. Afundei minhas presas em seu pescoço e bebi cada gota de sangue do seu corpo, eu estava faminta.
Deixei seu corpo ali mesmo, o confessionário estava todo sujo de sangue, havia sangue nas paredes e no chão. Olhei para os meus sapatos, havia caído gotas de sangue neles, me abaixei e os limpei. Fechei a “cabine”, limpei minha boca e sai, o barulho dos meus saltos ecoavam por toda a igreja vazia.
Entrei no carro e fechei a porta, passei meu batom vermelho e ajeitei os cabelos com a mão. Olhei meu reflexo no espelho do carro, minha pele estava mais jovem e bonita, meus olhos estavam mais verdes e meu cabelo estava mais brilhante. Esses eram alguns dos benefícios de beber o sangue das outras pessoas, também ficávamos mais fortes e mais rápidos. Nossa visão era melhorada e nossa audição também. Liguei o rádio e dei partida no carro e segui em direção á casa de Nicole.
Nicole era minha melhor amiga, ela estava começando a praticar magia, ou seja, ela ainda era uma bruxa iniciante, mas eu sinto que ela tem bastante potencial e que um dia será muito boa nisso.
–Mila! –Ela veio até mim com os braços abertos. –Que saudades.
–Saudades de você também. –A abracei. –Como andam as coisas por aqui? –Me sentei no sofá.
–Do mesmo jeito de sempre, mas consegui fazer um feitiço novo! Quer ver? –Ela falou sorridente enquanto acendia uma vela.
–Claro! –Sorri e fui até ela.
–Cuidado. – Ela colocou as duas mãos sobre a vela e fechou os olhos, enquanto executava o feitiço. — Ex Spiritum Intalaculum, In Terrum Incendium, Fes Matos Salvis Adisdidum! – A chama da vela ficou mais intensa e as outras velas que haviam ali também acenderam.
–Nossa! –Dei um passo para trás. –Você melhorou muito, Nic. –Sorri e voltei para o sofá. Ficamos mais algumas horas conversando, fazia mais de uma semana que eu não falava com ela pessoalmente. Fomos interrompidas pelo toque do meu celular, olhei para a tela e ela Alex, olhei para a Nic e ela apenas fez um “sim” com a cabeça, me levantei e sai da casa com o celular no ouvido.
–Mila? –A voz dele estava totalmente estranha. Pude perceber uma musica de bar tocando no fundo.
–O que foi? –Falei descendo a escada de madeira que havia na área da casa da Nicole.
–Vem pro bar do Leo, agora. –Ele desligou o telefone antes que eu conseguisse responder. Coloquei o celular no bolso e entrei no carro. “O que ele quer agora?” falei baixinho e segui em direção ao bar. Ao chegar lá me deparo com o Alex jogado no balcão, ele cheirava a álcool.
–Eai Mila, quanto tempo. –Leonardo me olhou e sorriu. –Fazia tempo que você não passava por aqui.
–O que ele está fazendo aqui? –Apontei para Alex que estava com um copo de cerveja na mão.
–Você sabe como ele fica na lua cheia. –Leonardo se virou e saiu.
Isso, era lua cheia, como pude esquecer. Essa noite seria a pior noite do mês, Alex era um lobisomem, isso quer dizer que ele se transformava na lua cheia. Eu já passei por isso, minha ultima vez foi há dois meses, antes de eu me transformar em hibrido, ou seja, eu hoje sou metade vampira e metade lobisomem. Eu não me transformo mais na lua cheia, mas ele sim.
–Mila? Você já chegou. –Ele se levantou do banco e veio até mim.
–Nem pense nisso. –Falei desviando do beijo dele. –Você está fedendo, vamos pra casa. –O peguei pelo braço.
–Você sabe que dia é hoje não é? É lua cheia. –Ele falou enquanto eu colocava o sinto e segurança nele.
–Você não devia estar bêbado, vai ser mais difícil suportar. –Olhei pra o céu, estava quase escurecendo. –Temos que ir logo para casa.
–Sempre é difícil suportar. –Ele virou a cabeça para a janela.
–Eu sei como você se sente eu também sofria com isso, se lembra? –Olhei para ele e parei o carro, já havíamos chegado á casa dele. Ela era pequena e era perto do bar, então chegamos rápido.
–Não entendo porque você ainda não me transformou em hibrido também. –Ele me olhou e abriu a porta do carro.
–Pode não dar certo, você sabe que eu quase morri. Se não fosse a Haeska eu não estaria viva agora. –Falei saindo do carro. Ele não falou nada, apenas abriu a porta da casa e entrou, eu entrei logo atrás dele.
–Pode esperar ai, eu já volto. –Ele pegou uma toalha e entrou para o banho.
Já havia se passado 1h hora e nada dele sair do banho, eu estava preocupada, olhei para o céu e a lua estava quase em seu ponto, estava quase na hora de tudo começar. Decidi entrar no banheiro para ver o que havia acontecido.
–Alex? –Abri a porta e olhei em volta, ele não estava lá. Ele devia ter fugido, a lua já estava no ponto, ele iria começar a transformação, eu precisava encontra-lo antes que alguma coisa acontecesse. Olhei em volta tentando encontrar alguma coisa com o cheiro dele, encontrei uma camisa jogada em cima da pia.
Sai da casa para tentar encontra-lo, lembrei que havia uma “floresta” logo atrás da casa dele, corri para lá e encontrei um pedaço da calça dele presa na raiz de uma árvore. Tentei escutar algum som, algum barulho que me ajudasse, foi quando escutei um grito, corri o mais rápido que consegui para chegar até o grito. Encontrei Alex jogado no chão, ele se contorcia, eu conseguia ouvir seus ossos de quebrarem, seus gritos eram insuportáveis, olhei para a lua, a transformação estava começando.
Cheguei mais perto, seus olhos estavam amarelos, ele me encarava como se fosse me atacar a qualquer momento. Eu precisava fazer alguma coisa, eu precisava ajuda-lo.
Olhei para a lua, respirei fundo e senti meu sangue começar a ferver, meu corpo doía e meus olhos ficaram negros como a noite. Eu precisava me transformar para ajuda-lo, senti meu corpo estremecer, não doía tanto quanto quando se é um lobisomem puro, mas ainda era uma dor insuportável.
De repente meus gritos e os dele se transformaram em uivos de lobos, me virei e o observei, a face dele não era mais de uma pessoa e sim de um lobo. Seus olhos amarelos me encaravam.
Andei em sua direção e me abaixei lentamente.
–Desculpa. – O joguei contra a parede, fazendo com que ele ficasse desacordado por alguns minutos, assim eu conseguiria prende-lo para que não conseguisse fugir.
Era perigoso lobisomens andarem por ai em noite de lua cheia, os caçadores estavam a solta e eles não poupavam a vida de ninguém.
Prendi seus pés e suas mãos em correntes, aquela noite foi a pior da minha vida, seus gritos ecoavam pela sala em que ele estava preso, ele tentava se soltar das correntes, mas só sentia mais dor, eu tinha que assistir aquilo tudo sem poder fazer nada. Era difícil, mas era assim que tinha que ser.
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