Heaven and Hell
17 Ser ou não ser estúpida?
Notas iniciais
A voz de Castiel, lhe dizendo que iria morrer, ainda ecoava na cabeça de Mia quando ela abriu os olhos e fitou o teto do quarto de hotel onde estava.
A caçadora havia dirigido o dia inteiro e parado naquela espelunca no final da tarde. A vontade de se afastar da realidade e ficar sozinha a guiaram até ali. No fundo, Mia não sabia como lidar com o que havia descoberto e simplesmente fugiu. Para pensar, mas também para chorar.
Horas depois de chegar ao hotel, ela acabou pegando no sono e, naquele momento, ao olhar para uma janela que havia em um dos lados do quarto, ela percebeu que já havia anoitecido.
Devagar, Mia sentou na cama, passou as mãos pelo rosto e depois pegou o celular sobre o criado-mudo. Ela havia desligado o aparelho quando ainda estava na estrada, pois ele não parava de tocar. Castiel, Sam e Dean haviam lhe ligado várias vezes, mas ela não teve coragem de atendê-los. Não sabia o que dizer, não queria falar com ninguém, só queria ficar sozinha.
Mia sabia que mais cedo ou mais tarde, teria que voltar para o bunker ou, pelo menos, dar alguma satisfação para aquelas pessoas.
No entanto, Mia ainda não estava pronta para falar. Precisava de mais algum tempo. Decidiu então que iria voltar para o bunker, e usaria as horas de viagem até lá para refletir e se recompor. Quando chegasse no bunker, ela poderia explicar e se desculpar por ter agido daquele jeito inconsequente, mas por enquanto, continuaria incomunicável.
Pensando nisso, a garota levantou da cama e guardou o celular na bolsa, que estava pendurada em uma cadeira no canto do recinto, e que ela mantinha dentro do Mustang para alguma emergência. Nela havia documentos falsos, cartões de crédito fraudados, algum dinheiro e itens de higiene pessoal.
Levando a bolsa consigo, Mia foi até o banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo.
Depois disso, se olhou no espelho por algum tempo e algo lhe chamou a atenção.
Mia segurou a gargantilha que trazia no pescoço e ficou observando o pingente que dizia "Miastiel Forever."
— Forever. — murmurou ela, achando aquela palavra completamente sem sentido, depois do que havia descoberto sobre Castiel.
Em seguida, o anel que usava no anelar direito também chamou a sua atenção e ela soltou a gargantilha. Ficou girando o anel no dedo enquanto saía do banheiro. Quando percebeu, já estava na recepção do hotel.
Então ela encerrou a conta, caminhou até o Mustang no estacionamento, entrou e, instantes depois, deu partida.
Enquanto seguia por uma estrada completamente deserta, uma espécie de filme passava pela cabeça de Mia. Ela se lembrou de todos os momentos que viveu com Castiel. Desde os românticos, aos engraçados, e até mesmo de algumas brigas.
A caçadora pensava em tudo isso, quando avistou uma entrada para uma estrada de terra, e algo ao longe fez com que ela diminuísse a velocidade do carro.
Sem pensar direito no que estava fazendo, Mia entrou naquele acesso e seguiu pela estrada, fazendo com que um rastro de poeira se erguesse por onde o Mustang passava. Alguns metros adiante, ela diminuiu a velocidade até finalmente parar o veículo.
Mia desligou o motor, mas permaneceu no carro, se perguntando o que estava planejando com aquilo, embora ela soubesse muito bem que ideia tinha surgido em sua mente.
— Não seja estúpida. — pediu para si mesma enquanto observava o próprio reflexo no retrovisor. Após uma longa pausa pensando, ela voltou atrás: — Seja estúpida. É isso. Seja estúpida, Mia Clarke. É isso o que você faz de melhor, não é? Pois então, seja estúpida.
Decidida, a caçadora tirou o cinto de segurança, abriu a porta, desceu do carro e bateu a porta com certa força. Olhou em volta e ficou um pouco intimidada com o cenário. O lugar era escuro, silencioso, deserto e havia uma atmosfera sombria, como de um filme de terror.
A madrugada estava fria, e Mia abraçou o próprio corpo para se aquecer e apressou o passo. Até que finalmente ela parou e olhou em volta mais uma vez. E se viu bem no meio de uma encruzilhada.
Mia fechou os olhos e murmurou baixinho:
— Não seja estúpida. Não seja estúpida. — e sem conseguir se convencer a agir de uma forma sensata, ela abriu os olhos e afirmou: — Ok, seja estúpida.
Então Mia respirou fundo e começou hesitante:
— Eu sei... — após uma breve pausa, sentindo-se ridícula por estar falando sozinha, ela pensou um pouco e prosseguiu: — Olha, eu sei que este não é o procedimento padrão para se fazer um pacto, mas na verdade, não é um pacto que eu estou procurando. Muito menos qualquer demônio de encruzilhada. O que eu quero, ou melhor, o que eu preciso é conversar. Apenas conversar, ok? E, infelizmente, tem que ser com você... Crowley. — Mia esperou um pouco, mas como o Rei do Inferno não apareceu, ela continuou: — Me corrija se eu estiver errada, mas algo me diz que eu e você... Temos algum tipo de conexão. Além do sangue. Ou talvez justamente por causa dele. Eu tenho certeza que, de alguma forma, você pode me ouvir, Crowley. Então por que você não aparece de uma vez e me mostra que eu estou certa?
Mia girou o corpo lentamente, olhando tudo em volta mais uma vez, e depois parou no centro da encruzilhada. Ficou algum tempo, esperando. E esperando. E esperando mais um pouco. No entanto, nem Crowley nem qualquer demônio apareceram por lá. O que deixou Mia profundamente frustrada.
Então ela pressionou os lábios com força, começou a se afastar e xingou baixinho:
— Son of a bitch.
Instantes depois, a caçadora estava de volta ao carro. E logo em seguida, o Mustang voltou para a estrada.
Mia dirigiu por uns dez minutos, até avistar uma lanchonete no meio do nada. Como não havia se alimentado durante o dia, ela resolveu parar no estabelecimento.
Momentos depois, Mia se acomodou em uma das mesas, perto de uma janela. Mas, ao folhear o cardápio, ela acabou optando apenas por um café expresso mesmo.
Então ela fez o pedido para uma garçonete que se aproximou. A funcionária voltou minutos depois e colocou a xícara sobre a mesa. Em seguida, ela se afastou. Então Mia colocou um pouco de açúcar no café e deu o primeiro gole, enquanto observava a lanchonete quase vazia.
Havia apenas umas cinco pessoas, em mesas bem distantes umas das outras. Todas muito concentradas em suas refeições ou, assim como ela, apenas tomando um café, para espantarem o sono e voltarem para a estrada logo depois.
De repente, Mia voltou a se lembrar da última conversa com Castiel. Com isso, uma tristeza profunda se abateu sobre a garota. Então ela afastou a xícara, apoiou os cotovelos sobre a mesa, fechou os olhos e cobriu o rosto com as mãos, tentando não pensar no que o anjo havia lhe contado mais cedo e no efeito doloroso que aquilo lhe causava.
— Você está certa. — afirmou uma voz familiar, que fez Mia se recompor imediatamente e olhar para a cadeira do outro lado da mesa. — Eu posso te ouvir. — confirmou Crowley, enquanto Mia o encarava, surpresa por ele ter aparecido ali e não na encruzilhada há alguns minutos.
Mia olhou para as outras pessoas na lanchonete, mas elas continuavam distraídas. Certamente não tinham visto o demônio se materializar daquela forma diante dela.
Ao se lembrar de uma arma, que trazia presa em um coldre escondido sob a blusa, e que continha balas com pequenas Chaves de Salomão desenhadas, Mia pegou a tal arma e a apontou por baixo da mesa, na direção de Crowley, de uma forma que ninguém pudesse ver.
Apesar de ter invocado o demônio, a fim de conversar sobre a graça de Castiel, Mia se convenceu de que não seria má ideia causar algum estrago em Crowley, mantê-lo preso no próprio corpo, quem sabe levá-lo de volta para o bunker e prendê-lo na masmorra, de onde ele nunca deveria ter saído.
Mia não estava raciocinando direito. Se estivesse, ela saberia muito bem que não podia atirar nele no meio de uma lanchonete.
Sem se intimidar, o Rei do Inferno olhou para baixo da mesa, depois voltou a fitar a caçadora e orientou tranquilamente:
— Guarde esta arma, Mia. Ninguém quer que você se machuque.
Ignorando o pedido, a caçadora engatilhou a arma e estreitou o olhar na direção do demônio, sentindo um ódio profundo. Crowley podia ter sido crucial em alguns momentos, como quando trouxe Claire de volta da morte, mas ele ainda era o demônio que matou os pais de Mia e que a contaminou com o seu sangue maldito.
Mais uma vez, o demônio não se intimidou diante da arma e recomeçou:
— Tem uma coisa que você precisa saber, sweetie. Se acontecer qualquer coisa comigo, o meu exército, que está bem próximo daqui, matará essas pessoas sem hesitar e de uma forma bem cruel. — Crowley olhou para os clientes e para a garçonete por alguns instantes. — E depois, eles vão para a cidade mais próxima e farão um bom estrago por lá também. Talvez saia até no jornal: Cidade devastada por fumaça vermelha misteriosa. — acrescentou, voltando a fitar a caçadora. — É isso o que você quer, Mia? Sangue de pessoas inocentes nas suas mãos? Carregar a culpa pela morte dessas pessoas, assim como você se culpa pela morte dos seus pais? Ou do pobre Ric?
Mia engoliu em seco, desviou do olhar do demônio e aos poucos abaixou a arma. Por fim, a travou e a prendeu de novo no coldre embaixo da roupa. Então voltou a olhar para o Rei do Inferno, que arqueou as sobrancelhas e debochou:
— Boa menina.
Em seguida, e com muita naturalidade, ele pegou o café que Mia havia dispensado e o bebeu sem pressa.
Depois disso, Crowley observou a xícara vazia por algum tempo e exclamou:
— Delicioso! — e após colocar a xícara sobre a mesa, ele encarou Mia atentamente e intimou: — E então? Sobre o que você queria conversar mesmo?
Após uma longa pausa, a caçadora se convenceu de que não era uma boa ideia prosseguir com aquilo. Pensando desta forma, ela dispensou:
— Não importa. Isso é um erro. Eu não devia ter te chamado.
— Neste caso, eu vou indo. — anunciou Crowley, dando indícios de que iria desaparecer tão rápido quanto apareceu ali.
— Espera! — pediu Mia mudando de ideia mais uma vez.
Crowley a observou por alguns instantes antes de se endireitar no assento e recomeçar:
— Me deixe adivinhar. Você me chamou porque quer fazer aquelas perguntas? Sobre os seus poderes, certo?
Mia deu um meio sorriso, demonstrando certa satisfação por Crowley ter se enganado e respondeu firmemente:
— Errado.
O Rei do Inferno estreitou o olhar na direção da caçadora e insinuou:
— Eu entendo por que.
Mia franziu o cenho e questionou:
— Como assim você entende por que?
Desta vez, foi Crowley que sorriu com certa satisfação antes de explicar:
— Admita, Mia, você está gostando disso. Da força, do poder dentro de você. Quer saber? Eu não te julgo por isso. Pela primeira vez, em toda a sua patética vida, o meu sangue tem te trazido mais benefícios do que problemas. É bom se sentir mais forte e poderosa, não é? Eu aposto que você está adorando e que, por isso, prefere não tocar no assunto. Porque você tem medo do que pode descobrir sobre si mesma, sobre esses poderes e...
Incomodada com aquele assunto, principalmente porque Crowley tinha razão em alguns pontos, Mia o interrompeu:
— Eu não te chamei para falar sobre mim.
— Então por que diabos você me chamou? — indagou o demônio perdendo um pouco da paciência.
Depois de um bom tempo relutando em dizer aquilo, Mia respirou fundo, engoliu o orgulho e finalmente conseguiu responder:
— Eu te chamei porque... Eu preciso da sua ajuda.
— Que fofa. E o que eu posso fazer por você, minha doce criança? — indagou o Rei do Inferno com um leve sorriso de deboche.
— Eu estou falando sério, Crowley. O que custa me ouvir? Eu só quero te pedir uma coisa. — insistiu a caçadora, sendo firme.
— Outra coisa, você quer dizer. — corrigiu o demônio. — Eu sinto muito, Mia, mas eu acho que você se confundiu. Eu sou um demônio, não o gênio da lâmpada. Muito menos o Papai Noel. Você pediu que eu trouxesse a Sra. Moose de volta, eu abri uma exceção. Só isso.
Sentindo que precisava dizer algo relevante para que Crowley a ouvisse com mais interesse e ela não perdesse aquela oportunidade de ajudar Castiel, Mia lembrou:
— Você disse que queria o Metatron fora do jogo.
— E o que isso tem a ver com essa conversa? — quis entender ele.
— Foi por isso que eu te chamei. Eu preciso de ajuda para destruir aquele desgraçado. — respondeu Mia, no fundo adiando o momento em que teria que ser mais clara.
— Eu já ajudei. Demais, aliás. Eu te entreguei aquele peso para papel, lembra? — disse o demônio, referindo-se à Tábua dos Anjos.
— Não é o suficiente. — retrucou a caçadora.
Crowley ficou em silêncio por um bom tempo, um tanto intrigado e pensando se deveria ou não dar ouvidos à Mia. Por fim, apoiou as costas na cadeira, bateu os dedos sobre a mesa, olhou em volta por alguns instantes, depois voltou a fitar a garota e assentiu:
— Tudo bem. Do que você precisa?
Mia respirou fundo, contendo o nervosismo. Sabia que precisava usar bons argumentos para convencer Crowley e estava com medo de falhar nisso. Mesmo assim, ela se manteve firme e começou a explicar de fato:
— O Cas descobriu onde o Metatron escondeu a graça dele. Ela está no Inferno. Mas... Em virtude de algumas coisas, ele não pode pegá-la de volta.
— No Inferno? — surpreendeu-se Crowley. — Pelo visto a Abaddon fez um péssimo trabalho mesmo. Deixar um anjo entrar no Inferno e esconder a graça de outro anjo? Ainda bem que aquela vadia morreu. Mas me diga uma coisa, com "em virtude de algumas coisas" você quer dizer que o seu amado anjinho está numa situação difícil? Do tipo... Definhando? Morrendo? — como a caçadora não respondeu, ele olhou para o anel que ela usava na mão direita e prosseguiu com as provocações: — Que triste... Ficar viúva antes de se casar. Como que você se sente sabendo que isso vai acontecer, Mia?
A garota pensou em mandar o demônio ir para o inferno. Mas mandar um demônio para o inferno lhe pareceu algo elementar e, portanto, dispensável. Além disso, ela não queria que Crowley fosse embora. Precisava convencê-lo a ajudá-la, mesmo que tivesse que se humilhar para isso.
Então Mia ignorou a provocação sobre o casamento e voltou a encarar Crowley, que disse:
— Desculpe, mas eu continuo sem entender. Do que exatamente você precisa, sweetie?
Mia decidiu ser o mais direta possível e respondeu:
— Eu preciso que... Você vá até o Inferno, pegue a graça do Cas e a entregue para mim.
Após assimilar aquela resposta, Crowley questionou:
— E por que eu faria algo assim? Por que eu ajudaria um anjo que pode usar esta ajuda para me destruir?
— Até onde eu sei, você está bem resguardado pelo seu exército. — argumentou a garota.
— Isso é verdade. — concordou o Rei do Inferno. — Mesmo que você ou o seu anjinho se empenhassem em me destruir, não teriam qualquer chance. Mas isso não é argumento suficiente para devolver a graça do Castiel.
Mia respirou fundo, começando a se cansar daquela conversa. Mas logo ela se recompôs e resolveu ser mais persuasiva e extremamente sincera:
— Olha, o Cas quer acabar com o Metatron tanto quanto você. E no fundo, nós dois sabemos que ele é o único que pode fazer isso. Esta não é uma luta entre você e o Metatron, Crowley. Ou minha, nem mesmo dos Winchester. Nós podemos pensar e agir como se fosse, mas a verdade é que esta é uma luta do Cas. É pessoal. Ele foi enganado, traído pelo Metatron, perseguido por outros anjos por causa do que o Metatron fez. Eu tenho certeza que o Cas vai fazer de tudo para colocar aquele son of a bitch no lugar dele. Mas para isso, ele precisa voltar a ser o velho Cas. Eu sei que você não gosta dele, eu sei que você não gosta de ninguém, nem de si mesmo, mas uma coisa eu tenho certeza que você sabe: O Cas é o melhor soldado que o Céu já teve. Ele ajudou a impedir o Apocalipse. Ele pode fazer isso agora. Ele é a peça chave disso tudo. Sempre foi. Ele é o único que pode e que vai destruir o Metatron. Você sabe disso!
Crowley pensou um pouco, mas ainda não convencido de que aquilo era uma boa ideia, desconversou:
— Que tocante. Será que você pode repetir tudo o que disse, Mia? Eu quero anotar.
— Crowley, por favor... — implorou a garota, não se importando mais que o demônio percebesse que ela estava quase chorando.
Após uma breve pausa, o Rei do Inferno supôs:
— Você só está me pedindo isso porque não quer perder o seu anjinho. Isto sim é pessoal, você não acha?
Mia suspirou um tanto irritada e olhou tudo em volta. Depois voltou-se para Crowley, se inclinou um pouco em sua direção e foi mais taxativa:
— Você não entende? Se você me ajudar, se você devolver a graça do Cas, eu e ele... Acabamos. Ele nunca vai me perdoar por ter te procurado e pedido ajuda. E eu estou consciente disso, consciente de que eu vou perdê-lo. Mas... Eu prefiro viver sem o homem que eu amo, do que tirar do mundo o único anjo que pode salvar todos nós do megalomaníaco do Metatron.
— E isso é comovente. — reconheceu Crowley com certo sarcasmo. — Mas você está se esquecendo de uma coisa muito importante. — depois de erguer as mãos chamando a atenção para si mesmo, ele esclareceu: — Eu sou um demônio, Mia. Eu não tenho sentimentos. Pelo menos, não os bons sentimentos. Me desculpe, mas eu não posso tomar uma decisão baseado em discurso sentimental como esse.
Mia bateu os punhos na mesa e explicou entredentes:
— Eu não estou te pedindo para tomar uma decisão sentimental, Crowley. Eu estou te pedindo para tomar uma decisão racional. Se você realmente quer tirar o Metatron do jogo, o Cas é o caminho. Ele e a Tábua dos Anjos, as duas coisas juntas, não uma só.
Após um longo silêncio, durante o qual a caçadora esperou que o demônio dissesse alguma coisa, a garçonete, que havia atendido Mia antes, se aproximou da mesa, olhou para o homem com a cliente e disse um tanto confusa:
— Desculpe, eu não vi o senhor chegando. Deseja alguma coisa?
Crowley ia abrir a boca para perguntar se por acaso aquela espelunca tinha um uísque decente, mas Mia se antecipou:
— Não! — e fitando o Rei do Inferno, completou duramente: — Ele não vai ficar muito tempo. Na verdade, nós já estamos terminando esta conversa, não é? — depois que a garçonete se afastou um pouco intrigada com o clima tenso naquela mesa, Mia cobrou uma definição: — E então? Você vai ajudar ou não?
Depois de torturar Mia com mais um longo momento de silêncio, ponderar tudo o que ela tinha dito e reconhecer que no fundo ela tinha razão e que Castiel podia ser útil mesmo na luta contra o Metatron, Crowley indagou:
— Você tem as coordenadas? — como ela pareceu não entender, ele foi mais claro: — O Inferno é um lugar grande. Se o Metatron escondeu a graça do seu anjinho lá, eu preciso saber exatamente onde. Do contrário, eu vou ter que procurar e isso pode demorar um pouco.
Por um lado, Mia estava aliviada por ter conseguido o que queria. Crowley tinha entendido os seus argumentos e ia ajudar. Mas por outro lado, Mia não tinha ideia de que coordenadas eram aquelas.
Então ela se lembrou que saiu tão atordoada do bunker que nem deixou que Castiel explicasse toda a história.
Por fim, ela apoiou as costas na cadeira e balbuciou:
— Não.
— Neste caso, eu vou começar a procurar. — avisou o demônio desaparecendo em seguida.
Mia olhou para os clientes atônita, mas por sorte, eles continuavam distraídos. A garçonete estava de costas, limpando um balcão e quando ela se virou, Crowley já estava de volta à mesa.
Então ele retirou um pequeno saquinho, em tecido marrom, do bolso do terno, e o colocou sobre a mesa.
Deduzindo do que se tratava, Mia falou aos sussurros para não chamar a atenção das outras pessoas ali:
— Você disse que ia demorar.
— Eu menti. — admitiu Crowley. — Eu conheço o Inferno como a palma da minha mão, Mia.
Depois de ouvir isso e hesitando um pouco, a garota pegou o saquinho, mas o soltou imediatamente, fez uma careta de dor e encolheu a mão contra o peito, enquanto amaldiçoava Crowley mentalmente.
— Desculpe, eu esqueci de avisar que estava quente. — disse ele com tranquilidade. — Inferno, sabe? O aquecimento global chegou por lá primeiro.
Depois de se recuperar da dor, Mia pegou um lenço no bolso da jaqueta e envolveu os dedos no tecido. Então, com cuidado, ela abriu o saquinho e viu que ele guardava uma espécie de frasco, muito pequeno, e uma luz extremamente brilhante podia ser vista através do vidro. A luz se movimentava sutilmente, como se tivesse vida.
Com o mesmo cuidado, Mia fechou o saquinho e o enrolou com o lenço. Depois ela fitou Crowley e perguntou desconfiada:
— Como eu vou saber se essa é mesmo a graça do Cas? E que você não fez alguma coisa com ela?
— Você tem a minha palavra. — assegurou o Rei do Inferno.
Embora ele fosse um demônio, naquele momento, Mia soube que podia acreditar naquilo.
Querendo encerrar aquele encontro o mais rápido possível e levar a graça para o seu verdadeiro dono, Mia colocou o embrulho no bolso interno da jaqueta, tirou algum dinheiro do bolso da calça, colocou sobre a mesa, como pagamento pelo café e, enquanto se levantava, encerrou:
— Bem, não foi um prazer rever você, mas obrigada pela sua ajuda.
Mia parou quando Crowley segurou a sua mão contra a mesa e esclareceu:
— Não vá ainda, sweetie. Você ainda não ouviu as minhas condições.
Mia sentiu um arrepio percorrer o seu corpo ao ouvir aquilo, mas sem escolha, acabou engolindo em seco, voltando a sentar na cadeira e assentindo:
— Eu estou ouvindo.
O Rei do Inferno soltou a mão de Mia e anunciou:
— Bem, na verdade, eu só tenho uma condição. Mas é uma condição extremamente importante e eu só vou explicar uma vez. — após uma breve pausa, Crowley estreitou o olhar de forma intimidadora e avisou: — Se o seu anjinho tentar qualquer coisa contra mim, eu acabo com ele. Como você disse, o Cas é um bom soldado. Mas não se engane, Mia, ele não é páreo para mim, muito menos para o meu exército de demônios. Aliás, nenhum de vocês é. Então não abuse da minha generosidade. Eu fui claro?
— Como água. — respondeu Mia, o encarando severamente, sem se intimidar.
— Que bom. — disse Crowley abandonando a expressão intimidadora. — Agora eu vou embora. Não se preocupe, eu vou sair pela porta da frente desta vez. E depois você pode ir. — após se levantar, e enquanto se afastava da mesa, o demônio encerrou dizendo: — Lembranças à Sra. Moose.
Instantes depois, Mia ouviu a porta do estabelecimento ser aberta, e logo depois fechada. Então ela olhou para trás, mas não viu Crowley pela porta de vidro. Ele havia desaparecido no ar. Mais uma vez, sem que ninguém visse.
Logo depois, a caçadora também deixou a lanchonete. Enquanto caminhava até o carro, ela olhou tudo em volta, se sentindo um pouco tensa. Ainda não acreditava que tinha conseguido convencer Crowley e, no fundo, estava com medo de que alguma coisa desse errado. Que o Rei do Inferno mudasse de ideia, aparecesse e pegasse a graça de volta. Ou então que outro demônio ou mesmo algum anjo aparecesse e frustrasse todo o trabalho que ela teve até ali.
No entanto, nenhuma ameaça surgiu no caminho da caçadora enquanto ela dirigia de volta ao bunker.
Quando o veículo finalmente parou em frente à edificação, já com o dia amanhecendo, o que passou a preocupar Mia foi pensar em como Castiel iria reagir quando soubesse o que ela havia feito.
Enfrentando o medo que sentia, ela desceu do carro e caminhou até a entrada do bunker.
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