Heaven and Hell
44 Sempre
Notas iniciais

Dean e Natalie continuavam diante da porta do quarto do pânico, enquanto Claire estava do outro lado do corredor, de frente para o casal, com as mãos nos bolsos da calça, olhando para um ponto qualquer do chão com um olhar distante e vazio, pensando na madrugada em que Metatron a apunhalou pelas costas e que agora era o seu pai e o seu marido que estavam diante do anjo, correndo o mesmo risco que ela correu naquela ocasião.
Enquanto isso, Chloe andava de um lado para o outro entre os três, visivelmente preocupada com Kevin e também com todos que estavam dentro do quarto do pânico com Metatron.
— Vocês não acham que isso está demorando demais? — perguntou a hacker de repente, começando a roer as unhas.
Dean e Natalie se entreolharam e, embora os dois também estivessem preocupados, eles acharam melhor não demonstrarem aquilo. Ao invés disso, o caçador tentou tranquilizar a namorada do profeta, dizendo:
— O Kevin já deve ter começado o ritual. Daqui a pouco, tudo estará resolvido e, finalmente, nós vamos poder chutar o traseiro do Metatron para a prisão no meio das nuvens e pronto! Era uma vez um Transformer!
Dean queria acreditar que as coisas seriam simples assim, mas sabia que aquela missão envolvia muitos riscos e também estava aflito com a demora.
Obviamente, aquelas palavras não acalmaram Chloe, nem fizeram Claire parar de pensar nos riscos que aquela missão envolvia.
XXX
Dentro do quarto do pânico, Sam segurava a Tábua dos Anjos entre Kevin e Metatron. O profeta despejava as palavras do ritual com raiva e determinação, ignorando a forte enxaqueca que se alastrava por seu cérebro a cada instante.
Metatron, conforme todos haviam previsto, tentou se desvencilhar das correntes com sigilos enoquianos que o mantinham preso. Em dado momento, as correntes cederam um pouco e ele conseguiu se levantar da cadeira, deixando todos apreensivos e os anjos que faziam a sua guarda em alerta.
Em seguida, ele tentou se aproximar de Kevin, mas foi impedido por uma espécie de campo de força proveniente de outros símbolos, que tinham sido desenhados no teto por Bobby, Claire e Sam há duas semanas.
Mesmo assim, Metatron ainda conseguiu causar alguns estragos no quarto do pânico. Objetos e armas começaram a cair dos armários, uma espécie de vento percorreu todo o lugar e as luzes se acenderam com força total, para que depois as lâmpadas fossem estilhaçadas pelo poder do anjo.
Todos se protegeram como puderam e deram cobertura a Kevin, empunhando armas e espadas contra anjos na direção de Metatron, embora soubessem que enquanto o poder que ele absorveu da Tábua dos Anjos não fosse restituído, dificilmente eles conseguiriam ferí-lo de alguma forma.
Todos notaram quando um fio de sangue começou a escorrer pelo nariz do profeta e ele deteve as próximas palavras do ritual, sentindo que o quarto do pânico estava girando a sua volta. Em seguida, a sua visão ficou embaçada, a enxaqueca piorou ainda mais e um forte enjoo o acometeu.
Bobby segurou em seu braço antes que o profeta despencasse no chão e a gargalhada de Metatron o trouxe de volta à realidade, fazendo Kevin respirar fundo. Então ele olhou para o papel em suas mãos, tentando enxergar o que estava escrito, enquanto Metatron continuava rindo e causando estragos no lugar.
Sam e Castiel disseram palavras de incentivo a Kevin, o lembrando da importância de terminar o ritual, de reunir forças e de que faltava muito pouco para que tudo aquilo acabasse. Mas, foi quando Metatron citou o nome de Chloe, dizendo que talvez fosse melhor chamá-la de uma vez para assumir o posto do atual profeta, que Kevin se recompôs completamente.
Então, finalmente a sua visão voltou ao normal e ele prosseguiu com o ritual. Mas a enxaqueca persistiu. Se intensificou. Ele parou em alguns momentos para respirar e retomar a concentração. Sua garganta estava ficando seca e, em alguns momentos, ele mal ouviu o som da própria voz. Mesmo assim, Kevin continuou. Apesar de todas as dificuldades, ele persistiu. Porque não se tratava apenas de deter Metatron, mas também de poupar Chloe de carregar o fardo de ser uma profetisa.
Kevin amava a hacker mais do que tudo, seria eternamente grato por tê-la em sua vida e reconhecia os sacrifícios diários que ela fazia para poder ficar com ele. Mas, mentir para a família, faltar na faculdade e ajudá-lo a traduzir um artefato milenar era o máximo de envolvimento e riscos que Kevin aceitava que Chloe assumisse. Ela se tornar uma profetisa estava, definitivamente, fora de cogitação. E para isso, ele precisava reunir o resto de forças que possuía dentro de si e terminar aquele ritual. E, principalmente, ele tinha que sobreviver àquilo.
Pensando em tudo isso, Kevin continuou o rito. As últimas palavras saíram engasgadas e misturadas com o sangue que ele expulsava em um acesso de tosse desconcertante e doloroso. Mas elas foram ditas. E o efeito foi imediato. Tanto em Kevin, quanto em Metatron.
O papel que o profeta segurava deslizou por seus dedos incapazes de segurá-lo por mais tempo e caiu próximo aos seus pés. Então, seus olhos se fecharam lentamente e ele pendeu para o lado, entregando-se ao torpor que acometia todo o seu corpo.
Antes que Kevin caísse, já desacordado, Bobby o segurou e, com cuidado, o deitou no chão perto de si, ao mesmo tempo em que tentava reanimá-lo. Sem sucesso.
Metatron, por sua vez, despencou na cadeira como se tivesse sido atingido por uma força invisível e, sem que ele tivesse controle sobre o seu próprio receptáculo, a sua cabeça pendeu para trás abruptamente e a sua boca abriu-se largamente.
Logo, uma forte luz esbranquiçada, semelhante às graças dos anjos, começou a sair por ela à toda velocidade. O intenso facho de luz, calor e poder percorreu a distância entre Metatron e Sam e atingiu, em cheio, a Tábua dos Anjos, que o caçador segurava. O Winchester precisou segurá-la com mais força, já que o artefato tremia muito em suas mãos.
Mas, por fim, todo o poder expelido por Metatron terminou de ser absorvido pela Tábua dos Anjos, que se iluminou de uma forma intensa por alguns instantes e, em seguida, apagou-se subitamente.
Todos se entreolharam com uma mistura de adrenalina e alívio, enquanto Metatron parecia visivelmente exaurido. Pelo visto, aquele procedimento havia o enfraquecido consideravelmente, mesmo que fosse de uma forma temporária.
Então, enquanto Metatron tentava se recompor e manter os olhos abertos, Castiel aproximou-se lentamente e parou a menos de um metro dos sigilos enoquianos desenhados no chão e no teto em volta do prisioneiro. Mais precisamente, Castiel parou a poucos centímetros da linha de óleo santo no chão.
Depois de encarar o prisioneiro com um olhar duro, ele fez um movimento sútil com a mão e, imediatamente, chamas se ergueram ao redor daquele círculo, aprisionando Metatron em uma armadilha de anjos, já que agora, aquilo definitivamente funcionava com ele.
A sensação de ver Metatron preso daquele jeito podia ser resumida em uma palavra: justiça. Mas não completa, já que o anjo ainda seria levado para o Céu, onde uma cela muito especial, na prisão, o aguardava e seria a sua única companhia pelo resto dos tempos. E assim a justiça seria completa.
No entanto, Castiel sabia que antes disso, ele tinha que cuidar de outras coisas. Mais precisamente de Kevin.
Lembrando-se disso, ele se afastou da armadilha e aproximou-se de Mia, Bobby e Sam que tentavam a todo custo reanimar o profeta desacordado no chão.
Mia encostou a cabeça no peito do amigo e sentiu uma ponta de alívio ao conseguir ouvir o batimento fraco do seu coração. Em seguida, ela se afastou e fitou Castiel com um olhar suplicante e cheio de lágrimas.
Ele, por sua vez, assentiu com um meneio de cabeça e abaixou-se entre ela, Sam e Bobby. Em seguida, tocou o dedo indicador na testa de Kevin, mas franziu o cenho quando percebeu que o seu poder de cura era inútil diante do dano causado pelo ritual.
— O que está acontecendo? — indagou Sam aflito, fazendo a sua típica cara de cachorrinho abandonado.
Se Mia não estivesse tão preocupada com Kevin, certamente ela teria reparado e feito algum comentário sobre aquilo, mas não havia clima para piadas naquele momento.
Antes que Castiel respondesse, a voz de Metatron, que tinha se recuperado um pouco, soou pelo quarto do pânico:
— Certas coisas os anjos podem fazer, certas coisas nós, simplesmente, não podemos. Então, sinto em informá-los, campeões, mas como dizem por aí, a vida deste infeliz está nas mãos de... Deus.
Mia voltou a olhar para Castiel, como se quisesse confirmar o que Metatron havia dito. Lágrimas escorreram por seu rosto quando Castiel assentiu com um meneio de cabeça e olhou com pesar para Kevin.
— Não! Não... — repetiu Mia, relutando em acreditar naquilo. — Faça alguma coisa, anjo... Você tem que fazer alguma coisa! Por favor! — implorou, agarrando as lapelas do sobretudo com força e o sacudindo de forma desesperada.
— Eu sinto muito. — lamentou o anjo, sofrendo por não poder ajudar. — Nós vamos pensar em uma forma, mas... Por enquanto, só o que nós podemos fazer é tirar o Kevin daqui e deixá-lo mais confortável.
Desolada, Mia soltou Castiel no mesmo instante em que Dean puxou a tranca da porta. O caçador havia ouvido as últimas palavras do ritual e não aguentou esperar até que alguém lhe desse o sinal, indicando que Metatron estava sob controle.
Então Dean simplesmente entrou, seguido por Natalie, Claire e Chloe. Logo os quatro perceberam que, apesar de Metatron ter sido neutralizado, Kevin havia sofrido com as consequências daquela missão.
Quando a hacker aproximou-se e desmoronou diante da imagem dele desacordado e pálido, Mia levantou do chão e se afastou um pouco daquela cena. Em seguida, ela cruzou os braços contra o peito e colocou uma das mãos sobre a boca, tentando conter a vontade de chorar novamente. Aquilo era tão injusto.
Assim como Mia tinha feito antes, Chloe olhou para Castiel, esperando que ele curasse Kevin, mas o anjo apenas uniu as sobrancelhas, a fitando com pesar, e balançou a cabeça negativamente, como alguém que diz que, infelizmente, aquilo não está ao seu alcance.
Enquanto Hannah inteirava Dean, Natalie e Claire sobre o que havia acontecido, Metatron observava a filha de Bobby à distância. Logo, Claire parou de olhar para Hannah e encontrou o olhar do prisioneiro. Metatron a encarava com uma expressão indecifrável e um leve sorriso no rosto.
Percebendo aquilo, Sam aproximou-se e guiou Claire para fora do quarto do pânico, sem perguntar se ela concordava com aquilo ou não. Sam só queria afastá-la dali o mais rápido possível, porque vê-la no mesmo ambiente que Metatron o fazia se lembrar do que o anjo havia feito e, consequentemente, de que ele quase perdeu Claire para sempre.
Enquanto isso, Chloe acomodou a cabeça de Kevin em seu colo e se entregou de vez ao pranto, enquanto acariciava os cabelos do profeta com seus dedos trêmulos.
Mia não aguentou mais e saiu do quarto do pânico aos soluços. Passou por Claire e Sam, mas foi como se não os tivesse visto. Apenas um pensamento passava pela cabeça da garota naquele momento: não importava o quanto eles lutassem e que achassem que tinham derrotado Metatron, de um jeito ou de outro, ele continuava ganhando, o mal continuava ganhando e Metatron continuava rindo na cara de todos eles.
XXX
Mia não saberia explicar como conseguiu chegar do lado de fora da casa de Bobby tão rápido, já que as suas pernas mal lhe obedeciam, mas lá estava ela, caminhando por entre os carros do ferro velho, sem rumo certo e sentindo o seu coração cada vez mais apertado.
De repente, ela deteve o passo ao ver sete pessoas próximas da entrada do ferro velho. Logo Mia deduziu que não eram pessoas, mas sim os anjos que Claire havia mencionado mais cedo, quando lhe contou que Castiel tinha tido a ajuda de alguns deles para deter Metatron e trazê-lo até ali.
Porém, o que mais chamou a atenção de Mia foi um daqueles rostos em específico. Assim que ela reconheceu Sophia, o seu sangue gelou nas veias e o ar em volta ficou mais pesado.
Surpreendentemente, Sophia desviou do olhar de Mia no mesmo instante. Não como alguém que tinha nojo dela, que a odiava e não fazia questão de esconder isso. Não como alguém que não compreendia, e fazia questão de continuar não compreendendo, como Castiel pôde se apaixonar e se envolver com uma humana, mas sim o olhar de alguém que está com medo.
Era isso. Sophia estava com medo de Mia. Mais precisamente, medo do que ela significava para Castiel e medo do que ele faria se aquela humana fosse destratada novamente por ela.
Desesperadamente, Sophia buscava a aprovação de Castiel, tentando salvar a própria pele, já que depois de tudo o que ela havia feito, o anjo tinha motivos de sobra para acabar com a sua vida.
No entanto, por algum motivo, Castiel não tinha feito isso, nem dado qualquer sinal de que o faria posteriormente. Ele realmente havia dado uma segunda chance a Sophia, mesmo ela própria achando que talvez não merecesse aquilo, tendo em vista tudo o que aconteceu.
E tudo isso deixava Sophia ainda mais apavorada porque ela não podia, simplesmente não podia, desapontar Castiel de jeito algum. E se isso significava que ela teria que respeitar Mia, então ela travaria uma luta interna consigo mesma, mas, definitivamente, faria isso.
Em dado momento, Mia ouviu passos atrás de si e, embora não soubesse quem era, ela perguntou entredentes:
— O que aquela bruaca está fazendo aqui?
Hannah parou ao lado da garota, seguiu o seu olhar e respondeu:
— Digamos que o Castiel foi generoso com ela. — e diante do olhar surpreso e inconformado de Mia, ela completou: — Não o odeie por isso. É assim que o Castiel é. Sempre tentando fazer a coisa certa, sempre capaz de perdoar as nossas falhas. — após uma breve pausa, observando a expressão de Mia se suavizar, Hannah prosseguiu: — Por outro lado, o Castiel não é bobo e sabe muito bem que não pode confiar na Sophia. Mantê-la por perto é apenas uma forma de controlá-la e de assegurar que ela não te importunará nunca mais.
Mia não disse uma palavra, apenas ficou pensando nas coisas ditas por Hannah e percebeu que ela tinha razão. Aquele era Castiel. E Mia não iria brigar com ele por causa disso, por ser quem ele era, por sempre tentar fazer o que achava certo, mesmo que parecesse injusto aos olhos dela e das outras pessoas que conviviam com ele.
Então Mia decidiu deixar aquele assunto de lado e voltou a pensar no que tinha acontecido com Kevin. A tristeza a consumiu imediatamente.
Percebendo a aflição no semblante da garota, Hannah colocou a mão sobre o ombro dela, a fazendo olhar em sua direção, e disse de uma forma serena:
— Não se preocupe, o seu amigo vai ficar bem. Ele vai sobreviver.
— Como você pode saber disso? — questionou Mia intrigada.
Hannah afastou a mão do ombro dela e respondeu:
— Porque ele quer viver. Ele está lutando por isso e por aquela garota. E esse desejo é meio caminho andado para uma possível cura.
Mia estreitou o olhar na direção da anjo e questionou ainda mais intrigada:
— Por que você está sendo tão gentil comigo?
Hannah franziu o cenho e rebateu:
— Por que eu não seria?
Mia soltou um suspiro, riu sem humor e sugeriu:
— Pergunte à Sophia e a todos os anjos que não vão com a minha cara.
— Esqueça a Sophia, Mia. — aconselhou Hannah. — E sobre os outros anjos, aos poucos, eles vão te aceitar. Eles podem não entender como um anjo pôde se apaixonar, e convenhamos, não dá para julgá-los por isso. Eu mesma não entendo esse tipo de emoção. Mas, depois do que o Castiel fez e diante de tudo que ele ainda fará no Céu, os anjos não vão querer desapontá-lo. Eles vão respeitá-lo e, consequentemente, irão te respeitar também.
Mia observou Hannah por algum tempo e a única opinião que conseguiu formar a respeito dela foi esta: Hannah era mesmo um anjo.
Pensando nisso, Mia sorriu levemente e agradeceu:
— Obrigada.
— De nada. — assentiu a outra.
Mia engoliu em seco, visivelmente desconcertada. Hannah percebeu isso, ficou confusa e franziu o cenho. Então Mia se recompôs e determinou:
— Escuta aqui, anjinha, se nós duas vamos ser... Eu não sei... Best Friends Forever? Tem uma regra que você precisa respeitar acima de qualquer coisa: nunca diga a palavra... Que você acabou de dizer.
— Qual delas? Eu disse duas. — lembrou ela.
— A última. — esclareceu Mia.
— Nada? — deixou escapar Hannah, e ao perceber isso, acrescentou rapidamente: — Desculpe! Mas... Por quê?
Antes que Mia respondesse, ou tentasse, Castiel se materializou diante delas e desconversou:
— É uma longa história que nem eu nem a Mia sabemos ao certo como começou.
Hannah olhou ora para ele, ora para a garota, que mantinham os olhares fixos um no outro. E, por fim, ela disse:
— Eu vou deixá-los sozinhos. Algo me diz que vocês tem muito o que conversar.
Assim que Hannah voltou para dentro da casa, Castiel se aproximou de uma carcaça de um carro e apoiou-se no capô enferrujado. Mia fez o mesmo e então perguntou:
— Como o Kevin está?
Castiel demorou tanto para responder que Mia se arrependeu de ter feito aquela pergunta. Não tinha certeza se queria saber a resposta.
Mas, por fim, o anjo respondeu evasivamente:
— Estável. — e após um momento em silêncio, se torturando com outro assunto, ele recomeçou: — Mia...
— Eu sei. — disse ela, o interrompendo. — Você precisa voltar para o Céu, levar o Metatron, se assegurar de que ele ficará preso para sempre, essas coisas.
Após mais um momento de silêncio, sem saber exatamente como dizer aquilo, Castiel simplesmente abriu a boca e deixou as palavras saírem por si só:
— Não se trata apenas do Metatron. O Bobby me contou sobre a tradução da segunda parte da Tábua dos Anjos, Mia. E é meu dever contar o que o Kevin e a Chloe descobriram para todos os anjos. É meu dever também guiar todos os anjos até o Céu, e também fazer com que as almas humanas possam ter o seu pedaço de paraíso novamente. Em outras palavras... Eu preciso arrumar a bagunça que o Metatron deixou, restabelecer a ordem no Céu, essas coisas.
Mia sentiu o seu coração ficar apertado. Castiel mal tinha voltado e já estava partindo de novo. No entanto, no fundo, Mia sabia que isso iria acontecer, afinal, com o declínio de Metatron, os anjos precisavam de um novo líder. De um líder de verdade, como ela mesma tinha mencionado quando recuperou a graça de Castiel.
Na ocasião, Mia disse que ele precisava aceitar a graça, independente do acordo que ela tinha feito com Crowley, porque só assim Castiel poderia derrotar Metatron, limpar a sua reputação e consertar as coisas no Céu.
Mia diria qualquer coisa para salvar a vida de Castiel que, na época, estava por um fio. Mas só agora ela percebia o que tudo aquilo significava de verdade.
Mia teria que dividir Castiel com os anjos, com o Céu, com o mundo. E o pior, ela não poderia lutar contra isso, ficar com raiva, discordar, ser egoísta. As coisas seriam assim, as coisas simplesmente eram assim, e ela teria que se acostumar com isso. Se acostumar em ficar em segundo plano na vida de Castiel.
Apesar de uma tristeza profunda que sentia por causa daquela situação, de repente Mia se viu segurando na lapela do sobretudo de Castiel e o puxando para junto de si. E então, ela o abraçou forte.
Imediatamente, o anjo a abraçou de volta, com mais força. Apoiou o queixo na cabeça de Mia quando ela enterrou o rosto em seu peito. Tinha certeza que ela estava se segurando para não chorar. Em vão.
— Eu odeio despedidas. — disse Mia, fungando.
— Não é uma despedida. É apenas... Um até logo. — corrigiu o anjo.
Mia se lembrou de outra ocasião em que Castiel lhe disse aquilo. Mais precisamente, há duas semanas, quando ele foi para o Céu com muita coragem e um plano maluco para derrotar Metatron.
— Outro até logo? — questionou Mia quase sem perceber.
— Outro. — assentiu ele, e a garota entendeu que aquela situação se repetiria inúmeras e inúmeras vezes. — Você vai me esperar, não vai? — indagou o anjo.
Mia respirou fundo, fungou novamente, contendo a vontade de chorar mais. Então se desvencilhou de Castiel e o fitou nos olhos enquanto pensava sobre aquela pergunta.
Na verdade, ela não tinha muito o que pensar. Que outra escolha ela tinha, afinal? Dividir Castiel com o Céu era melhor do que viver sem ele. Viver sem ele era impossível. Então, se as coisas simplesmente eram como eram, Mia sabia exatamente o que responder:
— Sempre.
Castiel sorriu levemente, sentindo um alívio profundo, e acariciou o rosto de Mia por alguns instantes, antes de fechar os olhos, inclinar o rosto e selar seus lábios com um beijo carinhoso.
Quando ele afastou o rosto, Mia o fitou com carinho e confidenciou:
— Eu estou tão orgulhosa de você, anjo.
— E eu estou orgulhoso de nós, Mia. — retribuiu Castiel, antes de beijá-la mais uma vez, por um tempo irrelevante e de uma forma mais intensa, que a deixou com as pernas bambas e o coração acelerado.
Mas, em dado momento, Mia sentiu o anjo se afastando devagar. Era inevitável.
— Eu te amo. — declarou Castiel, depois de acariciar a bochecha dela com o polegar.
Então Mia abriu os olhos a tempo de vê-lo se afastando mais e mais e caminhando em direção à casa.
— Eu também. — murmurou ela, e o anjo olhou para trás, indicando que tinha ouvido.
Mia ficou parada ali e, dois minutos depois, Castiel saiu com Metatron acorrentado e escoltado por Hannah e pelos outros dois anjos que tinham acompanhado o ritual.
Logo, os outros anjos, que tinham ficado esperando do lado de fora, se aproximaram deles. Sam e Dean, saíram da casa também e olharam para Mia no meio do ferro velho. E então os três viram Castiel desaparecer, levando os anjos com ele para o Céu.
O barulho do bater de asas do anjo ainda ecoava nos ouvidos de Mia, quando ela se virou e começou a procurar o Mustang.
Sim, ela tinha dito que iria esperar por Castiel, mas como ele não ia voltar tão cedo e como Mia sentia uma grande necessidade de se distanciar de tudo aquilo por algum tempo, ela entrou no carro e deu partida. Mesmo preocupados, Sam e Dean não tentaram impedí-la.
XXX
Mia já dirigia há cerca de uma hora e continuava seguindo sem rumo por uma interestadual pouco movimentada, quando sentiu o seu celular vibrando no bolso da jaqueta. Então, sem parar de dirigir, ela pegou o aparelho e viu o número na tela: 666.
— Só pode ser brincadeira... — resmungou ela, revirando os olhos, pois sabia muito bem quem estava por trás daquele número. — Crowley! — atendeu por fim, com uma voz forçada. — À que devo a honra de falar com vossa majestade?
— Mia, quanto tempo! É tão bom falar com você e perceber como está de bom humor. — replicou o demônio com sarcasmo. — Você está dirigindo, sweetie? — indagou ao ouvir o barulho do motor ao longe.
— Não é da sua conta! — redarguiu a garota de uma forma ríspida.
— Claro que é. Eu preciso de você inteira. — argumentou Crowley, e antes que Mia perguntasse, em vão, o que aquilo significava, o demônio sugeriu: — Então por que você não diminui a velocidade aos poucos e para no acostamento para nós conversarmos com mais calma? Dirigir falando ao celular é muito perigoso e algo me diz que você não quer sofrer outro acidente e ir parar em um hotel mal assombrado de novo. Ou quer?
Mia respirou fundo e apertou o celular com força entre os dedos, tentando controlar a raiva que sentia. Mas, sabendo que não tinha escolha, ela simplesmente obedeceu ao Rei do Inferno. Parou o carro no acostamento e então indagou entredentes:
— O que diabos você quer, Crowley?
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