Heaven and Hell
26 Premonição
Notas iniciais
Havia amanhecido há cerca de uma hora e Claire começou a despertar aos poucos. Ela havia dormindo pouco naquela noite porque demorou a pegar no sono. A lembrança do que aconteceu na Biblioteca do Congresso, há alguns dias, ainda rondava a sua mente e a impedia de ter tranquilas noites de sono. Mesmo assim, Claire se sentia mais disposta do que nos outros dias, pois pelo menos não tinha tido nenhum pesadelo naquela noite.
Depois de ter despertado completamente e aberto os olhos devagar, ela se espreguiçou entre os lençóis e, como costumava fazer todas as manhãs, se moveu na direção de Sam e se aconchegou em seu peito. Fechou os olhos novamente.
Então Claire ficou assim, completamente quieta, até que algo começou a incomodá-la e ela abriu os olhos de novo. Levou uma das mãos à barriga, e o seu coração deu um salto quando ela viu os dedos tingidos de sangue.
Assustada, Claire sentou na cama, afastou o lençol, e entrou em pânico quando viu que a blusinha do seu pijama estava encharcada do sangue que jorrava do ferimento profundo em seu abdômen.
A dor era excruciante. Atordoada, a caçadora levou uma das mãos às costas e gritou ao perceber que havia outro ferimento profundo naquela região. Na verdade, era o mesmo ferimento. Causado por algo que tinha a atravessado.
Imediatamente, um flash da noite em que Metatron a almejou com uma espada de anjos veio em sua mente e a caçadora gritou novamente.
— Claire! Acorda!
A voz de Sam fez Claire abrir os olhos imediatamente e sentar-se na cama, com a respiração ofegante, suada e visivelmente abalada. Em seguida, ela afastou o lençol e passou as mãos sobre a blusinha do pijama. Respirou aliviada ao perceber que não estava ferida. Aquilo tinha sido apenas mais um pesadelo.
Sam fitava a esposa preocupado, angustiado e confuso. E depois que ela se recompôs e passou as mãos pelos cabelos, ele resolveu perguntar:
— Claire, o que está acontecendo?
— Foi só um pesadelo. — respondeu a morena.
— Não, não foi só um pesadelo. Foi outro pesadelo. — corrigiu Sam firmemente. — Você acha que eu não percebo? — questionou ao notar que ela o encarava um tanto surpresa. — Eu sei que não é a primeira vez que isso acontece, Claire. Eu durmo ao seu lado, eu te conheço, eu vejo o quanto você fica inquieta enquanto dorme ou tenta dormir.
— Sam... Eu estou bem. — disse a caçadora tentando tranquilizá-lo.
— Não, você não está bem. — discordou o Winchester prontamente. — E nós dois sabemos muito bem o motivo. O que aconteceu naquela noite está acabando com você.
Claire pensou um pouco, passou as mãos pelos cabelos mais uma vez e decidiu admitir:
— Tudo bem, você está certo. Mas então o que eu devo fazer?
Sam ficou em silêncio, pensando em alguma solução para o trauma que consumia a esposa a cada dia e, por fim, sugeriu:
— Eu posso falar com o Cas. Ele pode ajudar.
— Como? Apagando a minha memória? — questionou a morena em um tom que deixava bem claro que ela não concordava com aquilo.
— Se for necessário. — insinuou o caçador.
— Não. — discordou ela sem pestanejar.
— Claire... — começou a dizer ele.
— Memórias boas e ruins fazem parte das nossas vidas, Sam. — argumentou ela o interrompendo. — Alegrias, conquistas, sofrimento e dor determinam quem nós somos de verdade. Eu não quero esquecer quem eu sou, eu quero aprender a lidar com o que aconteceu e crescer com isso, amadurecer.
— E como você pretende fazer isso se nem consegue ter uma noite tranquila de sono? — questionou ele exaltando-se um pouco.
— Me diga você. — desafiou Claire. — Você já passou por isso. O Dean também. Então o que vocês fizeram para superar? Para conseguirem seguir em frente depois que voltaram da morte?
Sam desviou do olhar de Claire e ficou em silêncio novamente. Só depois de algum tempo assim, ele voltou a encará-la e respondeu:
— Nós caçamos. Mais do que o normal. Nos concentramos no trabalho acima de qualquer coisa. Mas você não está em condições de caçar, Claire.
— Estou sim. — afirmou a morena.
— Se você se machucar de novo, ao invés de melhorar, a situação pode se agravar. — expôs o caçador.
— Eu não vou me machucar, nem morrer. Não desta vez. — assegurou ela.
— Você não tem como ter certeza disso. — contrapôs ele perdendo um pouco da paciência.
— Nem você pode ter certeza do contrário. — rebateu Claire e em seguida perguntou um tanto indignada: — Quando você vai parar de ser tão protetor e paranoico?
— No mesmo dia em que você parar de se achar tão autossuficiente e invencível. Você morreu, Claire. Não acha que está na hora de ser um pouco mais humilde? — disse Sam se exaltando mais um pouco. Mas ao notar certa mágoa na expressão da esposa, ele se acalmou e tentou consertar: — Desculpe, eu não quis dizer isso.
— Tarde demais, você já disse. — retrucou a caçadora antes de se levantar rapidamente da cama.
— Claire... Espera. — chamou Sam, mas ela não respondeu.
Ao invés disso, Claire saiu do quarto e bateu a porta atrás de si.
— Ótimo. — resmungou ele sozinho fitando o teto.
XXX
Minutos depois e enquanto Claire tomava um banho, Sam desceu até a sala principal, ainda de pijama, e encontrou Mia. A garota estava sentada de costas para ele, mexendo no notebook e olhando para um pequeno pedaço de papel sobre a mesa.
— Bom dia. — cumprimentou o Winchester antes de dar a volta na mesa, puxar uma cadeira, se sentar e passar as mãos pelo rosto.
— Bom dia. — respondeu Mia e ao notar que Sam parecia aborrecido, ela sondou: — Está tudo bem? Você está com uma cara. Não a sua cara natural de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança, mas a cara de alguém que quer passar por cima do cachorrinho... Com o caminhão de mudança.
Sam revirou os olhos e, disposto a ir para outro lugar do bunker, começou a se levantar da cadeira. Mas voltou a se sentar quando Mia ergueu as mãos em sinal de rendição e disse:
— Ei, ei! Tudo bem. Não está mais aqui quem falou. — e depois de uma pausa o observando, ela acrescentou gentilmente: — Não se preocupe, vocês vão ficar bem.
Sam franziu o cenho e, deduzindo que Mia falava dele e de Claire, questionou intrigado:
— Como você sabe que nós brigamos?
— Ah! Então eu acertei? — quis confirmar ela, que, na verdade, tinha apenas chutado que o problema era aquele.
— Não foi uma briga de verdade, foi só... — Sam começou a explicar, mas sem querer falar sobre aquele assunto e notando certo silêncio no bunker, ele mudou de assunto: — Cadê todo mundo?
Disposta a não insistir no assunto que Sam queria evitar, Mia respondeu:
— A Chloe e o Kevin estão na biblioteca, trabalhando na tradução da Tábua dos Anjos, e namorando entre uma palavra e outra, é claro. Então, se você estiver pensando em ir até lá, bata na porta antes. O Bobby está mexendo em uns arquivos dos Homens das Letras e o Cas... — Mia parou de falar, suspirou e completou com certa tristeza: — Bem, ele bateu asas e voou. Há dois dias, caso você não tenha percebido.
— Como assim? Para onde ele foi? — quis entender Sam, que por estar muito preocupado com Claire realmente não tinha notado a ausência do anjo.
— Para vários lugares. — respondeu a garota de forma evasiva, mas ao perceber que Sam esperava uma explicação melhor, ela relatou: — O Cas está tentando encontrar alguns anjos. Antigos companheiros de guarnição, que confiavam nele, velhos amigos que talvez acreditem que ele não sabia dos planos do Metatron para expulsá-los do Céu. Anjos que podem ajudá-lo a convencer os outros anjos disso. Ele vai precisar de todo o apoio possível para destruir aquele Transformer desgraçado, quando chegar a hora.
Sam assimilou o que Mia havia relatado e a observou durante algum tempo antes de dizer:
— Deixa eu adivinhar. Apesar de saber que isso é importante para o Cas e, de certa forma, para nós também, você não queria que ele... Saísse voando por aí, certo?
Mia cruzou os braços, encostou as costas na cadeira e pensou um pouco antes de responder:
— A princípio, eu fiquei com medo por ele, achei arriscado já que, depois de tudo o que aconteceu, ele deve ter mais inimigos do que amigos. Eu até quis acertar a minha garrafa térmica na cabeça dele só de raiva, mas depois eu pensei melhor e... Bem, o Cas recuperou a graça dele, as asas, ele é um soldado, sempre foi. Então, eu tenho que tentar entender e aceitar que ele tem que fazer isso. Não só por nós, mas por ele e, principalmente, pelos outros anjos também. Ele se sente responsável pelo o que o Metatron fez e não vai sossegar enquanto não consertar as coisas. — após um instante em silêncio, Mia completou: — Além disso, eu tenho amor pela minha garrafa térmica e, com certeza, ele teria quebrado a coitadinha com aquela cabeça dura. Então, foi melhor assim.
Sam riu levemente e depois mudou de assunto mais uma vez:
— Mas e o casamento? Como andam os preparativos?
Mia ficou um tanto sem graça, passou uma das mãos pela nuca e demorou um pouco para responder:
— Na verdade, desde que voltou a ser o velho Cas, ele não tocou mais neste assunto.
Notando certa decepção no tom de voz da garota, Sam tentou tranquilizá-la:
— Ele não esqueceu, Mia. Mas foi como você disse, o Cas não vai sossegar enquanto não resolver esta questão do Metatron. É nisso que ele está focado agora. Talvez vocês tenham que adiar o casamento por enquanto, mas eu tenho certeza de que assim que tudo se resolver...
— Eu sei. — interrompeu Mia e Sam prestou atenção no que ela disse a seguir: — E por um lado, eu até acho bom. Dada a minha dificuldade para escolher um pano qualquer para vestir no grande dia, ter mais tempo para decidir é interessante.
— Com "um pano qualquer" você quer dizer "vestido de noiva"? — indagou Sam arqueando as sobrancelhas e segurando o riso.
— É, isso aí. — assentiu ela tranquilamente.
Depois de encará-la por mais alguns instantes, tentando imaginar que vestido Mia escolheria, Sam notou um papel sobre a mesa, onde via-se alguns números anotados, e perguntou:
— O que é isso?
Mia pegou o papel e explicou:
— Ah... Eu sonhei com uns números esta noite. E claro que eu vou juntar com mais números e apostar na loteria, mas, a princípio, estes aqui são apenas coordenadas mesmo. — enquanto olhava um mapa na tela do notebook, ela continuou: — Elas indicam uma cidade no interior de Montana. Então eu fiz uma pequena pesquisa e descobri que, nas últimas semanas, houve tempestades elétricas na região, falhas em plantações e... Adivinha? Gado mutilado.
— Demônios. — deduziu Sam. — Você está pensando em ir checar?
Mia mordeu os lábios enquanto pensava a respeito e depois disse:
— Eu não costumo dispensar uma caçada, você sabe disso, mas eu confesso que fiquei com um pé atrás em relação a este caso. Eu sei que estou em dívida com o Crowley e, que mais cedo ou mais tarde, ele vai vir atrás de mim para cobrar, mas... Por enquanto, eu quero distância de demônios. De qualquer um deles. Então... Se não for pedir muito, será que você poderia... Ir no meu lugar?
Antes que Sam respondesse, Claire, que tinha terminado o banho, vestido roupas confortáveis e ouvido aquela parte da conversa enquanto descia a escada, entrou na sala e se habilitou:
— Eu vou com você.
— Claire... — começou a dizer o caçador em protesto.
No entanto, ela o interrompeu dizendo com determinação:
— Sam, nós podemos resolver este caso juntos e numa boa ou continuar aquela discussão que não vai nos levar a lugar algum. Então, o que você prefere?
O Winchester ficou em silêncio observando a esposa, enquanto Mia olhava ora para um, ora para outro, um pouco arrependida por ter falado sobre aquele caso com Sam. Ela não queria causar nenhum atrito entre ele e Claire, embora nem entendesse ao certo por que eles tinham discutido.
Por fim, Sam se convenceu de que Claire não iria desistir da ideia de ir com ele naquela caçada. No fundo, ele entendia que aquilo faria ela se sentir melhor e poderia mesmo ajudá-la em relação ao trauma do qual vinha sofrendo.
Além disso, por mais que Sam se preocupasse com Claire, ele tinha prometido que iria respeitá-la como a ótima caçadora que ela era. O que aconteceu na Biblioteca do Congresso não poderia fazer com que ele voltasse a sufocá-la com tanta proteção.
Pensando em tudo isso, ele assentiu:
— Tudo bem.
— Ótimo. Eu vou me despedir do meu pai. — anunciou ela.
Enquanto se levantava da cadeira, Sam avisou:
— E eu vou tomar um banho e arrumar as coisas para a viagem. Nós podemos tomar o café da manhã na estrada.
Claire assentiu com um meneio de cabeça e deixou a sala. Então Mia olhou para Sam e aconselhou:
— Ei... Eu não sei exatamente o motivo da discussão, mas seja lá o que for, não deixe que isso vire uma crise, ok?
— Eu vou tentar. — comprometeu-se Sam, que no fundo, não queria discutir com Claire.
Em seguida, ele saiu da sala.
XXX
Claire encontrou Bobby em outra sala do bunker, próxima a biblioteca. O caçador estava sentado de frente para uma mesa repleta de papéis antigos, que ele examinava atentamente. De vez em quando, ele pegava a faca da Ruby, ao lado de uma pilha de papéis, e a comparava com algo escrito em um dos arquivos dos Homens das Letras.
— Eu vou precisar disso. — avisou Claire fitando a faca enquanto se aproximava. E quando Bobby ergueu o olhar em sua direção, ela explicou: — Eu estou indo caçar com o Sam. Aparentemente é um demônio. Talvez mais de um.
Bobby franziu o cenho surpreso e preocupado ao mesmo tempo antes de questionar:
— Você vai caçar depois de tudo o que aconteceu?
Claire suspirou, parou de frente para a mesa, cruzou os braços contra o peito e rebateu:
— Eu devo parar de caçar só por causa do que aconteceu?
— Parar, não. Mas talvez... Dar um tempo. — sugeriu Bobby.
— Você deu um tempo quando voltou da morte? O Sam ou o Dean deram este tempo quando voltaram também? — questionou Claire e ao perceber que o pai ficou sem argumentos, ela prosseguiu: — Claro que não. Então por qual motivo eu tenho que seguir este conselho?
Bobby suspirou vencido, estendeu a faca na direção da filha, e quando ela a pegou, ele assentiu:
— Tudo bem, se você quer assim, vai em frente. Mas eu vou te dar outro conselho e este eu quero que você siga, Claire. Por favor. — após uma breve pausa, Bobby pediu: — Tome cuidado. Ninguém quer ver aquilo acontecer de novo.
Claire encarou o pai durante alguns instantes e, depois de baixar a guarda, ela respondeu:
— Eu vou ficar bem. — e depois de passar os olhos sobre a papelada espalhada pela mesa, a caçadora mudou de assunto: — Você descobriu alguma coisa interessante sobre esta faca?
— Na verdade, sim. — respondeu Bobby e depois de indicar a cadeira na sua frente, na qual Claire se sentou em seguida, ele virou um dos manuscritos na direção da filha e explicou: — Na década de cinquenta, um dos membros da sociedade dos Homens das Letras, chamado Thomas Lewis, prendeu um demônio na masmorra. Ele estava tentando descobrir uma forma de fazer uma arma capaz de matar demônios, mais precisamente, uma faca capaz disso. Usando métodos nada ortodoxos, ele conseguiu a informação que precisava.
Claire arqueou as sobrancelhas e perguntou visivelmente interessada:
— Você quer dizer que existe uma fórmula para fazer mais facas como esta?
— É mais um feitiço do que uma fórmula, considerando que o tal demônio tinha sido uma bruxa na sua existência humana. — explicou Bobby e depois de um momento em silêncio, completou: — Eu ainda não encontrei o feitiço no meio de todos esses papéis, mas o nome do tal demônio aparece várias vezes no que eu li até agora. Era uma mulher. Ruby.
Surpresa, Claire perguntou:
— Você quer dizer que a Ruby, aquela Ruby, foi presa e torturada por um Homem das Letras?
— Tudo indica que sim. — respondeu Bobby.
— Mas eu pensei que os Homens das Letras não sujassem as mãos. Que eles deixassem este tipo de trabalho com os caçadores. — expôs Claire.
— Nem todos pensavam deste jeito. Inclusive, tinha alguns membros da sociedade que até preferiam observar o trabalho dos caçadores bem de perto, trabalhando em campo com eles, para aprenderem mais sobre o sobrenatural e catalogarem as informações em arquivos como este. — explicou Bobby indicando a papelada sobre a mesa.
Claire avaliou o que tinha ouvido e em seguida questionou:
— E o que aconteceu com a Ruby depois disso?
— Escapou de alguma forma, antes que Thomas Lewis pudesse testar nela mesma a faca que tinha feito. — respondeu Bobby. — Por algum motivo, ele acabou abandonando o projeto semanas depois e começou a estudar feitiços que permitiam viagens no tempo. Vai entender...
— Mas como a Ruby escapou? — questionou Claire.
Bobby hesitou um pouco antes de responder:
— Thomas Lewis tinha uma teoria, mas nunca conseguiu comprová-la. Ele acreditava que ela teve a ajuda de alguém da própria sociedade dos Homens das Letras para escapar daquela armadilha. Aparentemente, a Ruby seduziu e manipulou um deles.
Claire riu sem humor e refletiu:
— Eu ia perguntar como alguém se deixa seduzir e manipular por um demônio, mas... Considerando o que a Ruby fez com o Sam, eu acho que não é necessário.
Ao notar certa amargura naquelas palavras, Bobby perguntou:
— Por acaso, você não está magoada com o Sam por causa disso, está?
— Não. — respondeu a morena prontamente e em seguida, explicou melhor: — Eu sei que a Ruby o enganou e que ele se arrepende até hoje por ter confiado nela. Eu não o julgo por isso, mesmo porque todos nós cometemos erros, não é? É com outra coisa que eu estou chateada. Com algo que o Sam disse há alguns minutos, no quarto.
— Você quer falar sobre isso? — perguntou o caçador.
— Na verdade... Não. — esquivou-se Claire e depois de uma breve pausa, mudou de assunto: — Mas eu adoraria conversar sobre aquele dia em que você tomou um porre e foi parar no ferro velho com a Jody. O que aconteceu? Você demorou para voltar e não comentou nada a respeito.
Claire notou que o pai ficou um tanto constrangido e se arrependeu por ter sido tão direta. No entanto, a curiosidade era maior e ela continuou o encarando, enquanto esperava por uma explicação. Claire tinha certeza de que o pai sentia alguma coisa por Jody, algo além de uma forte amizade. E o seu sexto sentido lhe dizia que tinha acontecido alguma coisa enquanto os dois ficaram sozinhos no ferro velho, há alguns dias.
No entanto, Bobby preferiu desconversar:
— Eu não me sinto à vontade para conversar certas coisas com você, mas o que eu posso dizer é que eu e a Jody somos apenas amigos. Então, não se atreva a bancar o cupido. Mesmo porque eu já tenho que aturar a Mia nesta função.
Claire arqueou as sobrancelhas um tanto desconfiada e esboçou um leve sorriso. Mas ela preferiu não insistir e, depois de algum tempo em silêncio, assentiu:
— Tudo bem. — e enquanto manuseava a faca da Ruby, ela retomou o outro assunto: — Espera... Você disse que Thomas Lewis torturou a Ruby e que estava disposto a matá-la usando uma faca como esta, certo? Então, e se ela entregou um feitiço falso para ele? E por enquanto que ele testava o feitiço, ela ganhou tempo e conseguiu fugir?
Bobby ficou em silêncio, pensando sobre aquela possibilidade, e depois de chegar a uma conclusão, verbalizou:
— E se ela entregou o feitiço verdadeiro para o Homem das Letras que a ajudou a fugir? E se eles fizeram algum tipo de troca? A Ruby gostava de negociar, devia estar desesperada para fugir e se ela tinha certeza de que o tal membro da sociedade não tentaria nada contra ela, talvez tenha proposto algo assim.
— E então ele ficou com os créditos do trabalho que Thomas Lewis iniciou. — deduziu Claire.
— E isso significa que eu posso estar procurando no lugar errado. — refletiu Bobby, apoiando as costas no encosto da cadeira, suspirando um tanto frustrado e olhando na direção de um armário que havia na sala, e que continha outras pesquisas da sociedade dos Homens das Letras. — Bem, talvez isso leve mais tempo do que eu imaginei, mas se existe uma forma de fazer mais facas como esta...
— Vale a pena procurar. — completou Claire. — Boa pesquisa, pai. — desejou antes de sorrir levemente e começar a se afastar.
— Boa caçada, filha. — retribuiu Bobby. — E não se esqueça, — disse e Claire parou na porta para ouví-lo — Tome cuidado.
— Pode deixar. — assentiu ela antes de deixar aquela sala.
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