Heaven and Hell
49 Ela sabe
Notas iniciais
Mia olhava fixamente para o celular que vibrava em sua mão e se perguntava se devia atender ou não a chamada do Rei do Inferno. Por fim, achando que seria perigoso ignorá-lo, ela aceitou a ligação, colocou o aparelho contra a orelha e disse com certa raiva:
— Crowley.
— Finalmente. — comemorou o demônio de uma forma seca. — Posso saber por que você demorou tanto para me atender, Sweetie?
Sentindo a raiva crescer dentro de si, e achando que não seria um problema ele saber aquilo, Mia respondeu rispidamente:
— Talvez porque você esteja atrapalhando a minha lua de mel.
— Oh, não! Eu não acredito que vocês dois realmente fizeram isso. — desaprovou Crowley, deixando Mia ainda mais irritada. — É realmente uma pena porque... Lembra que uma vez eu disse que você iria partir o coração do Castiel? — como a caçadora não se manifestou, ele decidiu esclarecer de uma vez: — Pois é, este dia chegou, Sweetie. Acredite, teria sido melhor não ter se casado.
Mia respirou fundo, tentando manter a calma. Em vão. Então, enquanto andava de um lado para o outro, ela deixou claro:
— Escuta aqui, Crowley, eu não sei o que você está planejando com esta conversa, mas eu não vou abandonar o Cas. Eu não vou abandonar ninguém, entendeu?
— Sim, você vai. — afirmou o demônio, fazendo-a estremecer. — E sabe por quê? Porque, por enquanto, você ainda tem pessoas e um anjo a abandonar, Mia. Mas, se continuar se negando a cumprir a sua parte no nosso acordo, eu vou ir atrás de cada um deles e logo você não terá mais ninguém para deixar para trás. A propósito, eu espero que você tenha se despedido do Squirrel, porque, como você demorou para me atender, eu me vi obrigado a mandar um dos meus soldados atrás dele e matá-lo. A morte dele foi apenas um aviso que eu espero que você entenda.
— Você matou o Dean?! — questionou Mia apavorada, mas em seguida lembrou-se do chamado do caçador que Castiel tinha ido atender.
Aquilo não fazia sentido. Dean estava vivo. No entanto, ao se lembrar de que Castiel disse que alguma coisa grave tinha acontecido, Mia se convenceu de que Dean estava ferido. Talvez, gravemente. De qualquer forma, ele estava em perigo.
— Eu sei, é uma pena. — refletiu Crowley com dissimulação. — Mas, você vai se sentir melhor se eu disser que ele era apenas o primeiro de uma enorme lista de pessoas que eu estou disposto a eliminar por sua causa?
Sentindo uma onda de desespero crescer dentro de si, Mia fez um esforço para manter o controle e decidiu jogar com as armas que tinha:
— Crowley, eu não sei o que você está pensando e eu prefiro acreditar que você não matou o Dean. Seria em vão porque o Kevin não traduziu a parte que falta da Tábua dos Anjos. Ele está tendo dificuldades com ela... Ele quase morreu e não está em condições de se dedicar a isso no momento. Portanto, eu não posso cumprir a minha parte no acordo porque simplesmente não sei...
— Você está mentindo! — interrompeu Crowley abruptamente. — Eu sei que você sabe de alguma coisa, Mia. Eu sinto isso porque nós dois temos uma ligação. A questão é: quantas pessoas você está disposta a perder até admitir isso? — após uma breve pausa, o Rei do Inferno completou: — Sabe, eu vou deixar o Cas por último, para que você não diga que eu não te dei escolha.
Com um aperto no coração, Mia sentou na cama e deixou que as primeiras lágrimas de desespero escorressem por seu rosto. Ela sabia que Crowley estava falando sério, sabia que era inútil negar que ela não tinha atualizações sobre a Tábua dos Anjos, sabia que com o exército que Crowley possuía, seus amigos e Castiel não seriam páreo para ele. Sabia que não queria arriscar, que não queria um confronto entre anjos e demônios no qual Castiel poderia se ferir... Ou coisa pior.
Mia sabia que tinha arriscado a vida de Dean. Indiretamente, mas tinha. Por sorte, ele ainda estava vivo, mas ela sabia que mais pessoas estavam em perigo. Sabia que não poderia viver carregando a culpa por suas mortes. Sabia que até então estava vivendo um sonho lindo, mas que a dura realidade havia lhe chamado naquele momento. Sabia que não tinha escolha a não ser atender aquele chamado.
— O que você quer? — perguntou ela por fim, com a voz embargada.
Do outro lado da linha, Crowley sorriu com satisfação e respondeu:
— O que eu disse que ia querer, quando te encontrei naquela loja de vestidos de noiva, lembra? Que você venha até mim, me conte tudo o que sabe e se renda.
Mia fechou os olhos com força, deixando que mais lágrimas saíssem por eles. Sentindo o seu coração ainda mais apertado, ela indagou:
— Onde?
Crowley sorriu mais uma vez e orientou:
— No lugar onde nós nos vimos pela primeira vez. Ah! Venha rápido e não tente me enganar. Neste exato momento, eu estou enviando o meu exército para encontrar alguns dos seus amigos e, enquanto você não chegar aqui e se render, eles continuam em perigo.
— O quê?! — desesperou-se Mia.
— O tempo está passando. Se apresse. — finalizou Crowley, antes de desligar.
Sentindo-se encurralada, desesperada e com muito ódio, Mia jogou o celular contra a parede com força. Em seguida, passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos, tentando se recompor. Algum tempo depois, engoliu em seco e levantou da cama.
XXX
Depois que chegou no local do acidente de Dean e Natalie, Castiel tocou a testa do caçador com o dedo indicador, curando os seus ferimentos. Em seguida, abaixou-se diante da loira e também tocou a sua testa.
Como em um passe de mágica, todos os ferimentos que a caçadora tinha pelo corpo desapareceram, bem como o grave corte que ela tinha no pescoço. Logo depois, Natalie abriu os olhos e puxou o ar com força, deixando Dean profundamente aliviado por ela ter voltado da morte.
Sem conseguir dizer uma palavra, ele simplesmente a abraçou. O mais forte que pôde. Natalie, por sua vez, olhou por sobre o ombro do marido e encarou Castiel com um semblante de interrogação. Mas o anjo não explicou o que havia acontecido porque, na verdade, também estava tentando entender.
Por fim, o Winchester procurou pelo rosto de Natalie, pressionou seus lábios nos dela com força, depois lhe deu um beijo carinhoso na testa, a abraçou mais uma vez e disse:
— Você voltou. — e após respirar com profundo alívio, ele continuou: — Cas, eu não sei como agradecer...
— Não precisa. — dispensou o anjo. — Eu estou feliz por ter podido ajudar.
— O que diabos aconteceu, afinal? — quis saber Natalie, que só se lembrava de estar com Dean no Impala e ouvir uma buzina ao longe.
Depois de olhar na direção do caminhão a alguns metros, ele respondeu sentindo um ódio profundo:
— Um demônio imundo bateu no meu carro. E pela cor da fumaça que ele expeliu, eu aposto que era um dos soldados do Crowley.
— O quê?! — surpreendeu-se a caçadora. — Por que o Crowley faria uma coisa dessas? Eu quero dizer... Nós não somos best friends forever, mas por que ele fez isso agora? E assim?
— Eu não sei. — admitiu Dean, enquanto Castiel ficava pensativo. — Mas por um momento, eu perdi você, Natalie, e eu juro que isso não vai ficar assim.
A loira ia argumentar, dizendo para ele não se preocupar com aquilo naquele momento e que o mais importante é que ela havia voltado. No entanto, ao olhar para Castiel mais uma vez, ela notou algo em seu semblante e ficou intrigada.
Logo o anjo levantou do chão, o casal se desvencilhou um pouco e o seguiu com o olhar. Castiel estava se lembrando de quando contou para Mia que ele estava escondendo algo dela. E se lembrou de como ela reagiu bem quando ele disse aquilo. Definitivamente, aquela não era uma reação típica de Mia Clarke. Havia alguma coisa errada. E Castiel só precisou de mais alguns instantes para entender o que era.
— Cas, o que foi? — estranhou Dean.
Após um breve silêncio, o anjo fitou o casal e respondeu:
— A Mia sabe. E se ela sabe, o Crowley sentiu isso.
Dean e Natalie se entreolharam apreensivos e logo entenderam o que Castiel quis dizer com aquilo. De alguma forma, Mia havia descoberto sobre a tradução da Tábua dos Anjos, e agora o Rei do Inferno sentia que ela sabia algo sobre aquilo.
— Ele está tentando atingí-la. — deduziu Natalie, pensando sobre o acidente. — O Crowley já disse inúmeras vezes que precisa da Mia inteira, mas está disposto a machucar qualquer um de nós para que ela se renda.
— Machucar?! — repetiu Dean indignado. — Ele queria me matar, Natalie! Isso sim! E, infelizmente, o desgraçado não conseguiu.
— O quê? — indagou a loira, sem gostar do jeito que ele falou aquelas coisas. — Do que você está falando, Sr. Awesome? Por acaso, você queria ter morrido no meu lugar?
— Teria sido mais justo, já que você não deveria estar no meu carro e, portanto, não deveria ter... Você sabe. — respondeu Dean, sem conseguir dizer com todas as letras que Natalie tinha morrido no seu lugar.
Ela ia perguntar por que ele estava falando daquele jeito, mas ainda estava assimilando o fato de que tinha morrido e voltado, tentando não se deixar abalar por aquela experiência traumática.
Por fim, o casal olhou para Castiel de novo, que estava visivelmente aflito. Então Dean decidiu liberá-lo:
— Cas, pode ir. Nós vamos ficar bem.
O anjo assentiu e desapareceu em seguida. Então Dean e Natalie se entreolharam, e antes que a caçadora retomasse o assunto, ele a abraçou forte mais uma vez.
— Eu sinto muito. — lamentou o Winchester, consumido pela culpa que sentia. — Eu sinto muito mesmo que isso tenha acontecido com você, Natalie...
— Está tudo bem, Sr. Awesome. Eu voltei. É só o que importa. — disse ela, tentando tranquiliza-lo, embora por dentro ainda estivesse tremendo.
Dean não respondeu. Ficou apenas observando os primeiros raios de sol surgirem no horizonte, enquanto tomava uma decisão.
XXX
Quando Castiel voltou para o quarto do hotel, encontrou Mia vestida e pronta para abrir a porta. No entanto, quando ouviu o barulho das asas do anjo e sentiu um leve vento arrepiar a sua nuca, ela se virou em sua direção devagar. Os dois se olharam por um bom tempo e Castiel percebeu que Mia tinha chorado. Entendeu imediatamente o que tinha acontecido em sua ausência. Crowley devia ter ligado e cobrado a dívida que Mia tinha com ele. E ela tinha cedido.
— O que você está fazendo? — indagou ele por fim, mesmo já sabendo qual era a resposta.
Sem saber o que dizer, Mia apenas lamentou:
— Eu sinto muito. — mas percebendo que aquilo não era suficiente, ela acrescentou: — Eu preciso ir.
— Eu não posso deixar. — retorquiu Castiel resoluto.
— A escolha não é sua. — retrucou a garota.
— Mia, eu sei o que o Crowley está fazendo. — recomeçou o anjo, dando um passo à frente.
— Sabe? Então você sabe muito bem que eu não tenho escolha. — articulou ela.
— As coisas não precisam ser assim. Eu trouxe a Natalie de volta e curei o Dean, está tudo bem. — relatou Castiel.
— A Natalie morreu? — surpreendeu-se Mia, sentindo uma dor profunda por ouvir aquilo. Já não bastava a Claire ter morrido por sua culpa? Agora a Natalie também?
— E eu a trouxe de volta. — reforçou o anjo. — Está tudo bem. Eu posso proteger todos nós.
— Não... Não pode. — discordou ela, passando as mãos pelos cabelos um tanto nervosa. — Não o tempo todo. Não para sempre. Não se o Crowley vier atrás de você também.
— Eu não tenho medo dele. — esclareceu Castiel com raiva.
Mia pensou um pouco e admitiu:
— Mas eu tenho. Eu tenho medo do que ele pode fazer, Cas. As pessoas que pode... Matar por minha causa. O que ele pode fazer até que eu me renda. O que ele pode fazer com você. E eu simplesmente não posso deixar isso acontecer. Eu não posso viver com isso.
— Nós podemos lutar, Mia. Contra ele. — assegurou Castiel.
A caçadora respirou fundo e olhou para o chão por um instante, antes de voltar a encarar o anjo e contrapor:
— Nós não temos armas para lutar contra o Crowley agora. Os anjos, sem as asas, não podem lutar contra aquele exército. E mesmo que pudessem, o Crowley não vai desistir de mim. Ele não vai parar nunca até que eu me entregue.
— Então você vai simplesmente facilitar as coisas para ele? — questionou Castiel insatisfeito e magoado.
— Se for para proteger as pessoas que eu amo, sim. — respondeu Mia.
Castiel deu mais um passo à frente, parando diante dela. Em seguida, segurou o seu rosto com uma das mãos e prosseguiu:
— Você vai abrir mão de nós? Simplesmente vai sair por essa porta, se entregar e eu devo aceitar isso?
— Não é fácil para mim também, Cas. — confessou Mia, sentindo um medo enorme de fraquejar. — Mas, no fundo, nós dois sabíamos que isso ia acontecer. Foi por isso que você não me contou sobre a tradução da Tábua dos Anjos. Para adiar esse momento. Mas... Infelizmente, ele chegou. E eu não posso mais fugir. Seria em vão e mais pessoas se machucariam por minha causa.
Inconformado, Castiel insistiu:
— Mia, eu não posso deixar você se sacrificar assim, eu não posso perder você assim. Não me peça para assistir isso, por favor. Fique e vamos enfrentar esse problema juntos.
— Eu não posso. — relutou Mia, tentando conter a vontade de chorar. E antes que Castiel retrucasse, ela tocou o rosto dele com carinho e agradeceu: — Mas, obrigada. Obrigada por ter feito parte da minha vida e por ter me feito tão feliz. Eu quero que você saiba que não importa o que aconteça, Cas, não importa o que o Crowley faça comigo, eu sempre vou te amar, ok? Sempre. E é por isso que eu preciso ir. Por favor, não me impeça. Eu não quero te machucar como fiz com o Haziel, mas eu farei, se você tentar me impedir.
— Mia... — começou a dizer o anjo com um olhar triste e desolado.
Mas a garota o interrompeu, beijando os seus lábios suavemente. Castiel segurou o rosto dela e correspondeu. O clima de despedida estava acabando com ele, e Castiel não podia aceitar aquilo, não podia se despedir de Mia, não podia deixar que ela prosseguisse com aquele plano de redenção.
No entanto, ele sabia que ela tinha certa razão. Entendia o lado dela e sabia que aquilo era um beco sem saída. Mesmo assim, Castiel não podia aceitar, não podia deixar, Crowley não podia vencê-los daquele jeito. Não ia.
Mia afastou o rosto e uma lágrima escorreu por ele. Antes de se virar para a porta, ela se despediu:
— Adeus, anjo.
Inconformado e disposto a fazer qualquer coisa para que Mia desistisse daquilo, Castiel segurou em seu braço e a virou em sua direção. No entanto, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, a caçadora tocou o seu rosto com a palma da mão e lamentou:
— Me desculpe.
Em seguida, Castiel sentiu uma dor profunda se espalhar por todo o seu receptáculo e por sua graça. Perdeu todas as forças à medida que a dor se alastrava rapidamente. Não conseguiu reagir, nem gritar. Antes que conseguisse entender o que Mia havia feito, ele caiu no chão. Desacordado.
Depois de olhar para aquela cena e se sentir extremamente culpada e envergonhada por ter usado os seus poderes contra o anjo que amava, Mia enxugou o rosto e deixou o quarto sem olhar para trás.
Quando chegou no estacionamento e entrou no Mustang, ela apoiou a cabeça no volante e finalmente se entregou às lágrimas. Algum tempo depois, e se lembrando das ameaças de Crowley, ela se recompôs e decidiu que tentaria ser forte.
Então Mia colocou a chave na ignição e ligou o carro. Deu partida enquanto se lembrava do local que o Rei do Inferno havia mencionado. O lugar onde eles se viram pela primeira vez.
Mia sabia muito bem onde o tal lugar ficava. Em Lawrence. Era um bar onde ela e Castiel se beijaram pela primeira vez. Do lado de fora, ao som de Eternal Flame, antes de Crowley aparecer e estragar tudo. Como ele sempre estragava¹.
Havia certo humor negro na escolha daquele lugar. Mia estava voltando para onde tudo havia começado. Foi naquela cidade que ela matou dez Cães do Inferno. Foi lá que ela venceu uma batalha contra Crowley, e agora estava voltando para lá simplesmente para perder a guerra. Simplesmente para se render.
Sabendo que não tinha escolha, Mia acelerou. Lawrence não ficava longe dali, apenas algumas horas de viagem que ela podia encurtar se dirigisse mais rápido.
Algum tempo depois...
O que Mia não podia imaginar é que Crowley havia lhe ligado novamente. Ele queria saber onde ela já estava e brincar um pouco com o desespero da garota. No entanto, como Mia tinha quebrado o celular, ao jogá-lo contra a parede, o Rei do Inferno não conseguiu contato.
Enfurecido e achando que Mia estava tentando fugir ou ganhar tempo, ele decidiu colocar em prática uma ameaça que havia feito horas antes. E só suspenderia aquele ataque, quando Mia entrasse naquele maldito bar, se ajoelhasse perante ele e se rendesse de uma vez.
XXX
Em uma estrada em Missouri, Sam dirigia o carro de Claire, com ela no banco do passageiro. A caçadora, que até então cochilava um pouco, depois de ter dirigido por horas, despertou subitamente quando o marido freou o carro de uma forma abrupta.
Imediatamente, Claire se endireitou no banco e olhou o mar de carros que se estendia logo à frente. Todos parados.
— O que houve? — perguntou a caçadora.
— Eles pararam de repente. Parece que aconteceu alguma coisa mais adiante. Talvez um acidente. — explicou Sam.
Logo, os motoristas começaram a buzinar impacientemente e Sam respirou fundo, também irritado.
Quando gritos começaram a ser ouvidos ao longe, ele e Claire ficaram em alerta, se entreolharam, se livraram dos cintos de segurança e abriram as portas. Outras pessoas imitaram aquela atitude e saíram de seus carros também. Todos esticaram o pescoço para verem a enorme fumaça vermelha que rasgava o horizonte e se aproximava em alta velocidade.
Claire e Sam se entreolharam novamente antes de caminharem apressados até o porta-malas, o abrirem e pegarem água benta, duas facas capazes de matar demônios, além de duas armas devidamente carregadas com balas específicas também. Isso porque Bobby havia derretido algumas facas que criou com o feitiço da demônio Ruby e feito um pouco de munição. Naquele momento, Claire e Sam o agradeceram mentalmente por ter feito tudo aquilo e rezavam para que elas realmente funcionassem.
Gritos foram ouvidos e os dois olharam na direção da nuvem densa e vermelha que se dividia em fumaças menores. As pessoas começaram a abandonar os seus carros e a correrem, sem entenderem o que estava acontecendo, mas movidas pelo instinto de sobrevivência.
No entanto, elas não foram muito longe, já que logo aquelas fumaças vermelhas as alcançaram, mergulharam em suas bocas e possuíram seus corpos. Alguns demônios passaram em cima do carro de Claire e possuíram os motoristas dos veículos que estavam atrás do casal.
A apreensão tomou conta dos caçadores e depois de checar a sua arma, Sam ponderou:
— Eu sei que nós estávamos indo caçar apenas um demônio, mas já que mais deles resolveram aparecer para a festa, então... O que você me diz?
— Matar o máximo deles, com as armas que nós temos. — respondeu Claire, lembrando-se de uma conversa entre ela e o marido, dias antes.
Sam pensou sobre aquilo por alguns instantes e percebeu o grande risco envolvido. Ele estava disposto a lutar e até a morrer naquele dia e naquela estrada, mas não podia deixar Claire se ferir. Isso, nunca. Então ele acabou olhando para cima e rezando:
— Cas, se você não estiver muito ocupado, agora seria um ótimo momento para aparecer.
Em seguida, Sam e Claire olharam tudo em volta, esperando que o anjo aparecesse. Mas isso não aconteceu. Isso porque Castiel ainda não tinha acordado desde que foi nocauteado por Mia.
Sentindo um desespero crescer dentro de si ao ver que os demônios já tinham possuído todas as pessoas que estavam na estrada e que estas se aproximavam rapidamente de onde ele e Claire estavam, Sam fitou a esposa e ordenou:
— Entra no carro. Eu vou tentar ganhar algum tempo, distraí-los, e então você poderá fugir.
— Não! — discordou a morena prontamente, e depois de mirar e atirar em um demônio que se aproximava e que caiu morto no asfalto ao ser almejado, ela assimilou o fato de que aquelas balas realmente funcionavam, segurou uma das mãos de Sam e esclareceu: — Eu disse que nunca mais iria te deixar para trás². E eu não vou. Eu vou ficar e lutar, Sam. Com você. Então o que você me diz? Até o fim?
Um instante se passou, mas parecia que tinha sido uma eternidade. Sam encarava Claire com uma mistura de raiva, por ela ser tão teimosa, e admiração, por ela ser tão teimosa. Teimosa e corajosa. E ainda por cima, linda e o amava incondicionalmente.
Por tudo isso, o caçador respirou fundo, aproximou-se e a beijou por mais um instante que pareceu eterno, antes de afastar o rosto e assentir:
— Até o fim, Claire.
E então os demônios chegaram. Por todos os lados e raivosos. Dispostos a capturem as suas vítimas e só então matar os dois. De uma forma lenta e dolorosa, como o Rei do Inferno havia ordenado.
Sam e Claire reagiram como puderam. Com as armas, com as facas, jogando água benta sobre eles, com coragem e força. Não tinham ideia de quanto tempo aguentariam, mas não estavam dispostos a desistirem tão cedo. Lutariam mesmo até o fim.
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