Heaven and Hell
32 Como escolher um vestido de noiva
Notas iniciais
Mia caminhava lentamente pela loja de vestidos de noiva e olhava para cada modelo que havia naquele percurso, alguns pendurados em cabides e outros distribuídos em manequins. Às vezes, ela parava, olhava bem para determinado vestido que tinha se destacado no meio dos outros e depois arriscava tocá-lo, um tanto sem jeito e com certa estranheza, quase com medo de que a peça ganhasse vida e a mordesse.
Casar vestida de noiva, com tudo o que se tem direito, podia ser o sonho da maioria das mulheres, mas Mia não conseguia se imaginar usando uma coisa daquelas. Pior, se imaginar dentro de um daqueles vestidos lhe causava uma sensação de sufocamento e tontura.
Em dado momento, a caçadora respirou fundo e passou as mãos suadas pela calça jeans que vestia. Ela sabia que precisava deixar o nervosismo e os seus medos de lado, já que só assim conseguiria se identificar com um daqueles vestidos.
Além disso, Mia sabia que devia isso a Castiel. O anjo tinha sido muito fofo e romântico a levando até ali, tinha deixado bem claro que continuava empolgado com a ideia de se casar e que nada, nada mesmo, tinha mudado entre eles.
No entanto, outra coisa estava atormentando Mia e a impedindo de relaxar o suficiente para se permitir viver aquele momento e fazer aquela importante escolha. Ela não conseguia parar de pensar em Sophia e nas coisas pouco gentis que ela lhe disse. E não conseguia parar de pensar que naquele exato momento, ela e Castiel estavam conversando sozinhos, em algum lugar perto dali.
Não que Mia achasse que Castiel iria traí-la, muito menos com Sophia, mas ela tinha medo das coisas que a Miss Simpatia poderia dizer para ele. Estava bem claro que Sophia não tinha ido com a cara dela e que desaprovava o seu relacionamento com Castiel. Então e se Sophia o enchesse com o seu veneno e o convencesse de que tudo isso era loucura? De que o amor entre ele e Mia era errado? De que prosseguir com isso e se casar com ela era, no mínimo, impróprio?
Mia respirou fundo mais uma vez e sacudiu a cabeça negativamente tentando afastar aqueles pensamentos que, definitivamente, não estavam a ajudando nem um pouco a relaxar. Em seguida, passou as mãos por um dos vestidos, o examinando minuciosamente, franziu o cenho e resmungou:
— Meu Deus... Pra quê tanto pano?
— Algumas mulheres gostam. — disse uma vendedora, que havia se aproximado instantes antes, e que encontrava-se parada atrás da cliente.
Depois de se recuperar de um leve sobressalto, Mia olhou na direção dela e questionou incrédula:
— De parecer um bolo?
Um tanto sem graça, a mulher corrigiu:
— De babados e um pouco de volume.
Mia riu e reforçou:
— Como eu disse, um bolo.
— Então, você está procurando por uma coisa mais discreta? — supôs a vendedora, tentando entender as preferências da cliente.
Mia deu de ombros e respondeu:
— Honestamente, eu não sei o que estou procurando, mas com certeza não é um bolo. Mesmo porque o bolo eu vou escolher depois, com a ajuda das madrinhas.
A vendedora encarou a cliente tentando não rir de um perceptível senso de humor que ela parecia possuir e em seguida decidiu recomeçar:
— Por que você não me fala um pouco sobre o noivo? A personalidade do noivo diz muito sobre o tipo de vestido que a noiva procura.
Ao ouvir aquilo, Mia suspirou profundamente, ficou com um olhar distante, pensou por alguns instantes e disse sem perceber:
— Ah... Ele é um anjo.
A vendedora franziu o cenho e indagou confusa:
— Como é?
Rapidamente a caçadora voltou a si e corrigiu:
— Eu quis dizer que ele é um anjo de pessoa. Fofo, romântico, tem um coração muito puro. É um tanto ingênuo, às vezes. E lento e atrapalhado em outras, mas é... Incrivelmente bom. Em todos os sentidos que você possa imaginar.
Ao perceber que a cliente estava com aquele olhar distante de novo, fitando um ponto qualquer da loja, a vendedora sorriu e perguntou gentilmente:
— Qual é o seu nome, querida?
— Mia. — apresentou-se, apertando a mão da outra.
— Mia, meu nome é Amelia e, para mim, está bem claro que você está inquestionavelmente apaixonada por esse... Anjo. O que, obviamente, explica a sua presença aqui hoje. — disse a vendedora de uma forma muito atenciosa. — Mas, eu também percebo que por algum motivo, você está muito insegura em relação à escolha do vestido. Então por que você não toma um chá comigo e nós conversamos sobre as suas preferências com mais calma?
— Chá? — repetiu a garota sem conseguir disfarçar uma cara de nojo. — Sem ofensa, mas chá eu não quero não. Agora se você tiver café aí, eu aceito um litro. — ao notar certo assombro na expressão de Amelia, Mia consertou rapidamente: — Digo, uma xícara! Uma xícara para começar. Seria ótimo.
— Tudo bem, neste caso, me siga. — orientou a vendedora.
As duas foram até um canto da loja, onde havia um balcão com uma máquina de café, outra de chá, além de um filtro com água natural e gelada, e alguns bancos.
Depois de se sentar em um deles e de tomar o primeiro gole do café recém servido por Amelia, Mia sentiu-se mais relaxada. Decidiu tomar mais um pouco e logo estava na segunda xícara.
Enquanto tomava o café, Mia observava as outras vendedoras do lugar. Só havia ela de cliente naquele momento e, por isso, elas estavam concentradas na arrumação e trocavam alguns vestidos dos manequins. Uma música em som ambiente tocava e Mia conseguiu identificá-la. Era Brave da Sara Bareilles.
Ótimo, uma música que falava sobre coragem. Tudo o que Mia precisava ter naquele momento. Coragem para enfrentar a insegurança que sentia, o medo que sentia, a ansiedade que sentia.
Sem perceber, Mia começou a balançar os pés de um lado para o outro e a mexer os ombros sutilmente ao som da melodia, enquanto tomava a terceira xícara de café.
Depois de observar aquela cena durante alguns instantes, Amelia resolveu recomeçar o seu trabalho de vendedora:
— Então... Mia, por que você não me diz o que espera de um vestido de noiva? Pode pensar bem ou dizer a primeira coisa que lhe vier à cabeça.
Depois de colocar a xícara vazia sobre o balcão, e pensar um pouco, Mia explicou num ritmo um tanto acelerado:
— Bem, como eu disse antes, eu não quero parecer um bolo ambulante. É, eu acho que um modelo mais simples seria o ideal. Simples e chique, não simples e mixuruca. Existe uma diferença, então não me venha com modelos meia boca, ok? Bem, eu quero algo que não prenda os meus movimentos, que faça eu me sentir livre, leve e solta. Mas que ao mesmo tempo, fique perfeito no meu corpo, que realce o meu corpo, que se molde a ele, que me deixe linda e sexy. Sem vulgaridade, é claro. Ah! E principalmente, que seja bem fácil de tirar porque eu não quero perder tempo na lua de mel.
Quando Mia terminou de falar, a vendedora percorreu o rosto dela com os olhos rapidamente, visivelmente zonza com tantas informações. Mas, por fim, ela se recompôs e disse:
— Bem, eu vou te mostrar alguns modelos e você me diz se estamos no caminho certo ou não, ok?
— Fechado! — assentiu Mia, dando um leve soco no ombro da vendedora, que se desequilibrou um pouco no banco onde estava sentada. — Mas antes eu... Queria mais um café. — pediu um pouco envergonhada.
— Claro. — disse Amelia, começando a achar aquela cliente muito peculiar.
Depois que Mia terminou a quarta xícara de café, a vendedora finalmente começou a lhe mostrar alguns vestidos. Mia experimentou cada um dos trinta modelos que Amelia lhe trouxe. Destes, ela gostou de cinco. Mas não o suficiente para afirmar com todas as letras que tinha encontrado o vestido de noiva ideal para si.
Foi somente quando Mia experimentou o trigésimo primeiro modelo e se olhou atentamente em um enorme espelho no fundo da loja, que ela sentiu que sua busca tinha chegado ao fim.
Era uma sensação indescritível e as outras vendedoras, que tinham acompanhado todo o processo e auxiliado Amelia e a cliente em alguns momentos, perceberam a satisfação e a felicidade nos olhos da garota que não conseguia parar de olhar para o seu próprio reflexo. Inevitavelmente, Mia sorriu.
Ela só despertou daquela espécie de transe, quando um assobio ecoou pela loja e fez todas as vendedoras olharem para trás, na direção do homem que tinha entrado ali sem que ninguém percebesse.
Toda a felicidade que Mia sentia até aquele momento se esvaiu subitamente ao reconhecer aquela maldita figura pelo reflexo do espelho. À medida que o intruso dava mais alguns passos à frente, Mia sentiu como se até então estivesse vivendo um sonho e de repente ele estivesse se convertendo em um terrível pesadelo.
Mal conseguia acreditar no que os seus olhos estavam presenciando. Seu coração gelou e cada músculo do seu corpo ficou terrivelmente tenso quando o intruso parou um pouco atrás dela. Mia engoliu em seco e o seu semblante, que momentos antes expressava uma alegria genuína por ter conseguido encontrar o vestido perfeito, agora denunciava a surpresa aterrorizante que tinha paralisado todo o seu corpo.
Sempre elegante, Crowley colocou as mãos nos bolsos da calça, afastando um pouco o terno perfeitamente alinhado que trajava, observou Mia minuciosamente, da cabeça aos pés, depois olhou para o reflexo dela no espelho e fingiu comoção ao dizer:
— Você está linda, sweetie.
Mia continuou imóvel e tensa.
Sem entender o que estava acontecendo ali, Amelia interveio:
— Desculpe, mas quem é o senhor?
Crowley sorriu para Mia ao dizer de um jeito cínico:
— Quem mais eu seria? — e depois de uma breve pausa, respondeu: — O pai da noiva.
Ao ouvir aquilo, a caçadora sentiu o seu estômago embrulhar e uma chama de ódio ardeu em seu peito. Mia fechou as mãos com força, mas antes que Amelia e as outras vendedoras percebessem o estado de nervos em que a garota se encontrava, Crowley sorriu para todas elas e pediu:
— Será que vocês podem nos dar um minuto? Eu preciso conversar com a minha filha em particular.
O ódio intensificou-se dentro de Mia e, assim que as vendedoras assentiram e se afastaram, ela estreitou o olhar na direção do Rei do Inferno, colocou o dedo indicador em riste e avisou entredentes:
— Nunca mais ouse me chamar deste jeito ou eu juro que...
— Jura que vai fazer o quê? — questionou Crowley, a interrompendo. — Que vai me matar? Tentar me matar, na verdade, porque eu duvido que você conseguiria. Por favor, Mia, me poupe deste discurso. Nós já passamos da fase de querer matar o outro.
— Eu não teria tanta certeza. — discordou a garota de um jeito ameaçador.
Crowley arqueou as sobrancelhas e retrucou:
— Pois eu já superei isso. Como eu te disse certa vez, para mim você vale muito mais viva do que morta.
Depois de encarar o demônio e pensar sobre o que ele havia dito, Mia questionou intrigada:
— Por quê? O que você tanto quer comigo, Crowley?
— No momento certo, você saberá. — respondeu o Rei do Inferno de forma evasiva, o que deixou Mia profundamente irritada. — Além disso, você está em dívida comigo, lembra? Então, mesmo que eu quisesse te matar, eu não faria isso agora.
Mia respirou fundo, tentando controlar a tensão que sentia, depois deixou suas mãos repousarem no vestido e perguntou:
— Se você não veio para me matar nem para contar o que diabos quer comigo, então o que você veio fazer aqui?
— Apenas conversar. — assegurou Crowley e quando a garota olhou na direção das vendedoras e da entrada da loja com certo receio, ele completou: — Eu sei o que você está pensando, Mia. Que se o Castiel entrar aqui e me ver, as coisas podem se complicar bastante. E aquelas moças ali vão estar bem no meio do fogo cruzado. Mas não se preocupe, sweetie. O seu noivo está bem distraído, conversando com uma mulher muito bonita lá fora. Eu te garanto que ele não me viu entrar. O papo parecia estar bem interessante. Com certeza, aqueles dois tem muitas coisas em comum, você não acha?
Incomodada com aquele assunto, Mia não respondeu a pergunta de Crowley. Ao invés disso, ela recomeçou:
— O que você quer conversar comigo?
Depois de dar alguns passos e se acomodar em um sofá que ficava perto do espelho, o Rei do Inferno anunciou de um jeito sério e intimidador:
— Primeiro eu quero uma explicação. — e após torturar Mia com um longo momento de silêncio, ele se inclinou um pouco para frente e prosseguiu: — Você me disse, com todas as letras, que depois que entregasse a graça para o Castiel, a relação de vocês estaria encerrada. Sem possibilidade de reconciliação. Imagine a minha surpresa quando entrei aqui e te vi vestida deste jeito. Então, o que aconteceu?
— Não que isso seja da sua conta, mas o Cas entendeu os meus motivos e me perdoou. Portanto, nós estamos bem e continuamos juntos. — explicou ela.
— Você está enganada, Mia. Isso é da minha conta sim. — retrucou Crowley. — O seu rompimento com o anjinho lá fora era uma condição para eu te entregar a graça dele, como de fato eu fiz. Eu não mencionei isso durante a nossa negociação porque você foi bem taxativa e convincente naquela noite. Você me garantiu que a sua história com ele acabaria no exato instante em que você devolvesse a graça para ele.
— Eu me enganei. Mas por que o fim do meu relacionamento com ele é tão importante para você? — questionou Mia.
— Porque se você continuar com o Castiel, isso vai atrapalhar os meus planos diretamente. — expôs o demônio de uma forma que deixou a garota ainda mais intrigada.
— Eu não vou terminar com ele. — avisou ela, fazendo questão de deixar isso bem claro para o Rei do Inferno.
— De um jeito ou de outro, você vai partir o coração do Castiel, Mia. Eu só queria que fosse do jeito mais fácil porque odeio ver os casais sofrendo.— provocou Crowley e a caçadora o encarou com ódio. Depois de se levantar do sofá e parar diante dela, ele completou: —Ou talvez, o próprio Castiel parta o seu coração antes, considerando que ele parece ter arranjado uma amiga à altura.
Sentindo uma chama de ciúme arder em seu peito, Mia fez um esforço enorme para não demonstrar o que estava sentindo e questionou secamente:
— Você já terminou?
— Ainda não. — respondeu ele tranquilamente. — Na verdade, Mia, eu vim aqui para te cobrar a primeira parte da dívida.
— Como assim a primeira parte? — estranhou ela. — Eu só estou te devendo um favor. Apenas um, Crowley. Não tente me enrolar.
— Eu trouxe a Sra. Moose de volta e te entreguei a graça do Castiel. Dois favores, portanto, você me deve dois favores também. — explicou ele.
— Não era esse o combinado. O acordo envolvia só a Claire. — retrucou a garota, sentindo um nervosismo e uma revolta crescentes dentro de si.
— Qual é, Mia? Você achou mesmo que eu ia te entregar a graça do Castiel assim? Sem pedir algo em troca? — questionou Crowley e depois de observar a expressão dela por alguns instantes, disse com deboche: — Que bonitinha, você achou. Bem, se serve de consolo, eu achei que você e o Castiel iriam romper, mas isso não aconteceu. Então nós dois nos enganamos, Mia. Eu acho que chamam isso de ruído de comunicação. Acontece.
— Seu desgraçado... — xingou Mia num tom de voz que não chamou a atenção das vendedoras.
Ignorando aquilo, Crowley explicou:
— Eu não tenho o dia inteiro, Mia, portanto, serei breve. Você vai pagar a primeira parte do nosso acordo, com informações sobre a Tábua dos Anjos. Sendo mais claro, eu quero saber tudo, exatamente tudo, que o Kevin descobriu até agora e tudo que ele ainda vai descobrir.
Revoltada com aquilo, Mia retrucou:
— Eu não vou ser a sua espiã, Crowley.
O Rei do Inferno a fitou de um jeito intimidador e disse com naturalidade:
— Tudo bem, neste caso, eu irei procurar a Sra. Moose agora mesmo. Sabe... Talvez eu a mate na frente do Moose, já que pelo o que eu ouvi falar, eles estão juntos, na estrada. Mas não se preocupe, eu digo que você mandou lembranças antes de cortar a garganta dela na frente dele.
Mia sentiu um calafrio percorrer todo o seu corpo e o ar ficou pesado em seus pulmões. Quando Crowley sorriu e ia se virar para deixar a loja, e provavelmente cumprir a ameaça que tinha feito, ela o chamou aflita:
— Espera!
— Sim? — disse o Rei do Inferno, voltando a encará-la.
Um turbilhão de pensamentos e sentimentos tomavam conta de Mia naquele momento, a impedindo de dizer qualquer coisa. Por um lado, ela sabia que aquilo ia acontecer e que para proteger Claire, ela teria que cumprir com a sua parte no acordo com Crowley.
Mas, por outro lado, aquela situação era desesperadora e muito complicada. Em outras palavras, Crowley estava pedindo que ela traísse a confiança, não só de Kevin, mas de todos no bunker.
Mia sentia-se péssima por isso, mas ao mesmo tempo, sabia que não tinha escolha. Mentir para Crowley não parecia uma opção inteligente, já que se ele descobrisse, as consequências poderiam ser desastrosas. E o jeito como ele falava sobre Sam e Claire, deixando claro que sabia exatamente onde encontrá-los, o jeito que ele tinha aparecido ali, deixando claro que tinha a rastreado de alguma forma, deixou Mia com muito medo do que poderia acontecer, caso ela se recusasse a cumprir a sua parte.
Por todos esses motivos, mas ainda assim com muito custo, ela se ouviu respondendo um tanto hesitante:
— O Kevin e a Chloe descobriram que existe uma forma de obrigar o Metatron a restituir o poder que ele absorveu da Tábua dos Anjos. Envolve um ritual em enoquiano e, claro, em atrair o Metatron para uma armadilha. Mas, não se preocupe, eu e o Cas já estamos elaborando um plano para isso.
— Vocês estão elaborando um plano? — repetiu Crowley com certa incredulidade. — Engraçado porque vendo daqui, parece que vocês estão mais preocupados em planejar um casamento.
— O meu casamento não vai atrapalhar esta missão. — assegurou Mia.
— Eu espero que não. Vejo você por aí, Mia. — assentiu Crowley, a fitando de um jeito intimidador novamente, antes de se virar e deixar a loja.
Assim que o Rei do Inferno passou pela porta, Mia sentiu que um peso tinha saído dos seus ombros e respirou fundo, sentindo o ar mais leve.
Logo Amelia aproximou-se e, querendo sair dali o mais rápido possível e voltar para o bunker, Mia disse:
— Eu vou ficar com este vestido.
— Ótima escolha. — parabenizou a vendedora.
Algum tempo depois, Mia saiu da loja carregando uma enorme caixa com o vestido de noiva dentro. Então, ela olhou em volta, procurando por Castiel, mas não o encontrou.
Mia caminhou pela calçada, olhando para os lados de vez em quando, até que virou a esquina. Andou mais alguns metros e finalmente avistou o anjo. Não só ele. Castiel e Sophia estavam sentados em um banco que ficava em frente a uma loja de conveniências.
Mia se aproximou hesitante e parou a certa distância dos dois. Parecia que Castiel tinha terminado de falar e agora ouvia Sophia retrucar enfaticamente. Mia deu mais um passo e ouviu ela dizer:
— Você me entendeu muito bem, Castiel. Se você quer a minha ajuda e dos outros anjos, você precisa escolher um lado. O Metatron pode ter muitos defeitos, mas pelo menos ele escolheu um lado. Bem ou mal, ele quer nos liderar. Se nós vamos tirá-lo do poder, então vamos precisar de um novo líder. E para isso você tem que deixar aquela garota e aqueles malditos Winchester para trás e se juntar aos seus irmãos. Você precisa escolher se quer ser um anjo de verdade ou continuar sendo o bichinho de estimação deles e daquela garota.
— Eles são meus amigos e a mulher que eu amo, Sophia. Eu já disse para você respeitá-los. E eu sou um anjo, assim como você, e não um bichinho de estimação de alguém. Você está passando dos limites e eu não vou tolerar mais isso. — redarguiu Castiel firmemente.
Sophia ia contra argumentar, quando notou a presença de Mia e levantou-se do banco atônita. Castiel fez o mesmo em seguida e os dois olharam para ela, que permaneceu imóvel e muda.
O que Mia estava sentindo naquele momento era algo que não sabia explicar direito, mas doía. Parecia que todos estavam contra o relacionamento dela com Castiel. E o pior, por mais que fosse difícil admitir, todos tinham sua parcela de razão.
— Como eu não notei a presença dela antes? — questionou Sophia intrigada. — Faz tempo que você está aí?
Finalmente Mia conseguiu dizer alguma coisa:
— Tempo suficiente para confirmar o que eu já tinha notado. Você não gosta de mim, não é?
— Nem eu, nem nenhum anjo gosta. — esclareceu Sophia.
— Eu gosto. — afirmou Castiel de um jeito inocente.
— Você não conta. Ela te enfeitiçou. — retrucou a anjo.
— Sophia, já chega! — ordenou ele firmemente.
— Você não consegue ver o que está acontecendo, Castiel? — desafiou ela, ignorando aquela ordem. — Nós mal sentimos que essa garota estava ali. Tem alguma coisa errada com ela, alguma coisa que bloqueia os nossos poderes. Ela é uma aberração, Castiel. Se você queria se relacionar com uma humana imunda, pelo menos devia ter procurado alguém que não estivesse contaminada por sangue de demônio. Ela é uma aberração, Castiel! Uma aberração!
Dor. Foi isso o que Mia sentiu naquele momento. Dor no seu sentido mais puro e devastador. Como uma apunhalada. Mergulhada em dor. Tomada pela dor. Era assim que ela se sentia.
Por isso, Mia praticamente não viu quando Castiel segurou Sophia pelos ombros e mal ouviu quando ele gritou com a anjo, exigindo que ela se calasse, que respeitasse Mia, que o respeitasse também, que ela estava errada. Completamente errada.
Quando se deu conta, Mia já estava se afastando daquela cena. O mais rápido que pôde, embora fosse difícil porque suas pernas não lhe obedeciam direito.
Castiel soltou Sophia que se recompôs e encerrou dizendo:
— Se mudar de ideia, você sabe onde me encontrar.
Em seguida, ela atravessou a rua e Castiel seguiu na direção oposta. Procurou por Mia e logo a alcançou.
— Mia! — chamou o anjo, já que ela continuou andando apressadamente. — Mia, espera! Mia!
Por fim, Castiel a segurou pelo braço e a virou em sua direção. Sentiu uma dor profunda ao notar que os olhos da garota estavam visivelmente mais úmidos e um tanto vermelhos. Ela engoliu em seco, tentando controlar a vontade de chorar ali mesmo e o anjo lamentou:
— Eu sinto muito.
Mia pressionou os lábios com força, antes de se recompor, reunir forças e dizer:
— Eu quero voltar para o bunker. — ao perceber que Castiel ia retrucar, provavelmente para dizer que os dois precisavam conversar sobre o que tinha acontecido, ela insistiu: — Tipo... Agora. Por favor.
Depois de observá-la por alguns instantes, Castiel assentiu com um meneio de cabeça e indicou o beco ao lado da loja de vestidos de noiva. Os dois foram até lá e segundos depois estavam de volta a sala principal do bunker.
Mia deixou a caixa com o vestido em cima da mesa e rapidamente caminhou na direção da escada. Castiel a seguiu, e só parou quando a garota se deteve no primeiro degrau, voltou-se para ele e pediu com a voz embargada:
— Eu quero ficar sozinha.
— Mia... — começou a dizer ele inconformado.
— Por favor. — pediu ela, o interrompendo.
Castiel a fitou com certo pesar. Odiava vê-la sofrer, odiava ter a sensação de que ele era o culpado, odiava Sophia pelas coisas que ela havia dito, odiava tudo aquilo.
Numa tentativa de animar Mia de alguma forma e de se sentir melhor também, ele sugeriu:
— Você não quer tirar a minha roupa?
Mesmo com vontade de chorar, Mia conseguiu rir um pouco daquela proposta. Em seguida, tocou o rosto de Castiel com carinho e dispensou com cuidado:
— Hoje não, anjo.
Em seguida, Mia se virou e voltou a subir a escada. Castiel a acompanhou com um olhar pesaroso.
Fale com o autor