Heaven and Hell
36 Cachorros latem e o passado bate à porta
Notas iniciais
Dean beijou Natalie mais uma vez antes de se afastar lentamente do seu corpo e se acomodar do seu lado da cama com uma expressão extasiada e feliz.
Um lençol cobria os corpos de ambos e suas respirações ofegantes denunciavam o que tinha acontecido momentos antes. Na verdade, o que tinha acontecido praticamente durante toda aquela manhã.
Depois de passar as mãos pelos cabelos e se recompor um pouco, a loira olhou para o marido de soslaio e disse:
— Isso foi... Uma recaída e tanto.
Dean a fitou de volta e insinuou:
— Você sabe que não foi só uma recaída, não sabe?
Natalie arqueou uma sobrancelha e fez uma cara de quem não estava entendendo aonde Dean queria chegar, embora ela soubesse muito bem o que ele quis dizer com aquilo. No fundo, ela precisava ouvir com todas as letras.
Depois de respirar fundo e revirar os olhos, Dean resolveu admitir de uma vez:
— Digamos que... Eu quero fazer as pazes.
Sentindo o seu coração, já descompassado, acelerar ainda mais, Natalie sorriu satisfeita e, sem conseguir se conter e para não perder o hábito, provocou o marido:
— Claro que você quer fazer as pazes. Você não vive sem mim.
Depois de lançar um sorriso sarcástico na direção dela, Dean retrucou:
— Falou a garota que está tentando me seduzir desde que voltou.
Natalie riu como se tivesse ouvido algo muito absurdo e em seguida negou:
— Eu não estava tentando te seduzir, seu convencido.
— Ah não? — duvidou o Winchester.
— Claro que não. — assegurou a loira. — Seduzir você seria como ensinar um cachorro a latir. Ou seja, eu não preciso fazer isso, as coisas simplesmente são como elas são. Em outras palavras, você já é louco por mim. Naturalmente. Sem que eu faça qualquer esforço para isso.
Dean ficou sério, fechou a cara, se moveu na cama, dando as costas para Natalie, e resmungou:
— Quer saber? Mudei de ideia. Eu não quero mais fazer as pazes.
Após um longo momento de silêncio, a voz da loira foi novamente ouvida:
— Não?
— Não. — respondeu o caçador prontamente, embora aquilo não fosse verdade e ele só estivesse tentando preservar o seu orgulho.
— É uma pena porque... Eu quero fazer as pazes. — confessou Natalie, tentando consertar o que havia dito antes e que havia dito apenas para provocá-lo também.
Dean sentiu uma vontade enorme de virar-se na direção de Natalie e beijá-la com paixão, mas, em nome do seu orgulho, se manteve firme e questionou fingindo indiferença:
— Sério? E por quê?
O Winchester sentiu Natalie se mexer na cama, se aproximando um pouco dele e, depois de mais um momento de silêncio, ela suspirou e respondeu:
— Porque eu também sou louca por você, seu idiota. Eu também não vivo sem você. E lutar contra isso seria como... Dizer para um cachorro que ele não pode mais latir.
Um sorriso surgiu no rosto de Dean e logo não havia mais qualquer resquício da expressão séria que ele sustentava momentos antes.
Então, num movimento rápido, ele virou-se na direção da esposa e flexionou um dos braços, para servir como apoio para a cabeça. Em seguida, ficou olhando para Natalie em silêncio, com uma expressão apaixonada, imediatamente correspondida por ela.
— E sim, mesmo sabendo que eu não precisava me empenhar muito, eu estava tentando te seduzir. — admitiu a loira e após uma breve pausa, indagou: — E então? Funcionou?
— É uma pergunta retórica? — questionou Dean, indicando o lençol que cobria os seus corpos nus e suados.
Natalie mordeu o lábio inferior ao se lembrar de tudo o que eles fizeram naquela cama. Em seguida, suspirou sem perceber e deixou que certas palavras escapassem por seus lábios:
— Eu te amo, Sr. Awesome.
Dean a encarou por alguns instantes, em seguida se aproximou um pouco, segurou o rosto de Natalie com uma das mãos e retribuiu:
— Eu também te amo, minha Baby insuportável e convencida.
Seus lábios se uniram em um beijo suave e carinhoso. E instantes depois, quando seus rostos se afastaram lentamente, Dean sentiu uma grande necessidade de esclarecer certas coisas que tinham ficado mal resolvidas entre ele e Natalie. Ela, por sua vez, sentia aquela mesma necessidade a consumir por dentro.
Então os dois ficaram se olhando um tanto aflitos, sem saber ao certo o que dizer, mas sabendo que precisavam dizer algo em algum momento.
Depois de respirarem fundo e revirarem os olhos, os dois disseram ao mesmo tempo:
— Desculpe.
Dean e Natalie se olharam com surpresa e sem acreditar que tinham dito aquela palavra ao mesmo tempo. Os dois tinham brigado tanto por causa disso, por que não queriam engolir o orgulho, e agora aquela palavra, aquela simples palavra carregada de um grande significado, tinha simplesmente saído de suas bocas com uma naturalidade absurda. Quase inacreditável.
Ao perceber que Natalie iria se pronunciar, Dean antecipou-se:
— Eu não devia ter ido atrás de você, Naty. Mas eu fiquei louco quando vi aquela mensagem e quando percebi que você tinha me manipulado para sair às escondidas.
— Eu devia ter me explicado melhor, Sr. Awesome. Você merecia uma satisfação. Eu sei. — admitiu Natalie, visivelmente arrependida. — Olha, me desculpe, ok? Eu não quis que você se sentisse usado, manipulado, nem nada do tipo. Mas é que... Quando eu me deparei com aquele caso e, principalmente, com o meu passado, eu fiquei transtornada. Isso mexeu demais comigo. Eu não queria falar à respeito, não queria que você me visse frágil e, principalmente, eu não queria que você sentisse pena de mim.
— Eu não senti pena de você. — afirmou Dean, a fitando com carinho. — Na verdade, saber que você passou por tudo aquilo só me fez te amar ainda mais, Natalie Jones. Porque você venceu. Você foi mais forte do que tudo aquilo e venceu. Eu estou orgulhoso de você por causa disso. Orgulhoso da pessoa que você se tornou.
Natalie suspirou satisfeita ao ouvir aquilo, mas tentando manter o foco, prosseguiu:
— Eu não culpo você ou o seu pai pelas coisas que eu passei naquele orfanato. Eu sei que vocês me salvaram e que fizeram o melhor que podiam, mas... Eu me senti tão sozinha naquele lugar. Eu quis tanto te ver de novo...
— E eu quis tanto voltar. — confessou Dean, antes de aproximar o rosto e beijar a esposa mais uma vez.
Natalie entrelaçou os braços no pescoço do marido e aprofundou o beijo de uma forma envolvente e lasciva. No entanto, quando deu-se conta de que tinha mais coisas a dizer, ela interrompeu o beijo e recomeçou de uma forma um tanto afoita:
— Nem você nem este casamento me sufocam. Eu não quis dizer aquilo. Simplesmente saiu porque...
— Você precisava de espaço, privacidade e eu não respeitei isso. — completou Dean.
— Exato. — confirmou Natalie, sentindo um alívio profundo por Dean ter entendido.
— E me desculpe, mas mesmo sabendo de tudo isso, eu fiquei em Minnesota até o final do caso. Mais precisamente no orfanato. — confidenciou ele, e em seguida ficou observando a expressão de Natalie, temendo alguma reação explosiva.
No entanto, o que ela disse, instantes depois, foi:
— Eu desconfiei que você faria algo assim. Mas por quê?
Surpreso diante da calma da esposa, Dean estreitou o olhar na direção dela e respondeu:
— Porque... De certa forma, aquele caso também era pessoal para mim. E, principalmente, porque eu tinha medo que você se machucasse. — ao notar uma nuance de tristeza na expressão de Natalie, Dean prosseguiu: — Eu sei, é ridículo. Você é uma excelente caçadora e eu não devia ser tão protetor, mas é que... Às vezes, quando eu olho para você, eu ainda vejo aquela garotinha embaixo da cama. Eu ainda acho que tenho que te salvar, entende?
Natalie deu um leve sorriso, acariciou o rosto de Dean, demonstrando que tinha entendido a forma como ele se sentia e que não estava com raiva por causa disso. Em seguida, ela decidiu mudar um pouco o rumo da conversa:
— Você acha que se o seu pai tivesse voltado e, quem sabe me adotado, nós dois iríamos ser apenas... Irmãos?
Dean fez um biquinho com os lábios enquanto pensava à respeito e depois respondeu sem qualquer pudor:
— A princípio, acho que sim, mas depois, quando você crescesse um pouquinho e eu reparasse nessas suas pernas pela primeira vez... Com certeza eu ia querer algo a mais.
A loira riu e virou-se com um movimento rápido e preciso, posicionando sobre Dean. Lhe deu um beijo, arrancando o seu fôlego e fazendo o desejo se reacender no corpo do caçador, que a envolveu entre seus braços e virou-se sobre ela instantes depois.
Suas mãos acariciavam o corpo de Natalie sob o lençol, mas, ao lembrar-se de mais uma coisa que precisava dizer, ele interrompeu o beijo e disse um tanto envergonhado:
— Ah! Sobre o lance da boneca... Foi mal.
— Aquilo foi cruel. — frisou Natalie. — Mas tudo bem. Eu já me livrei dela mesmo. — acrescentou tranquilamente e em seguida puxou o rosto de Dean para junto do seu.
No entanto, ele se afastou um pouco e perguntou fingindo que tinha ficado ofendido:
— Você jogou o meu presente fora? Que ingrata...
— Cala a boca. — ordenou a loira aos risos antes de unir seus lábios aos de Dean.
Finalmente, os dois tinham dito tudo o que estava entalado em suas gargantas. E sem mais nenhuma palavra a ser dita, eles recomeçaram a brincadeira...
XXX
Depois que deixaram o IML de Fort Benton para trás, Sam e Claire passaram o resto da manhã percorrendo a vizinhança onde Taylor Morgan, seu namorado, sua melhor amiga e o namorado dela moravam antes daquela tragédia sobrenatural tirar as suas vidas.
Infelizmente, Sam e Claire não fizeram muitos progressos durante os interrogatórios, já que as casas daquele bairro ficavam bem distantes umas das outras, e as poucas pessoas com quem conseguiram conversar lhes disseram que não tinham visto nem ouvido nada de suspeito na noite em que tudo aconteceu.
Além disso, quando os adolescentes foram brutalmente assassinados, boa parte dos vizinhos, a maioria médicos, estavam em um congresso em Chicago. Portanto, boa parte das pessoas com quem Sam e Claire conversaram naquela manhã eram, na verdade, empregados, que já haviam deixado os seus postos ou simplesmente ido dormir no horário em que a tragédia aconteceu. Realmente, eles não tinham nada a revelar que pudesse ajudar o casal a localizar o demônio responsável por tudo aquilo.
Mais cedo, no IML, Sam e Claire tinham descoberto, através do legista que os recebeu, que os pais dos quatro adolescentes estavam em um hotel da região, isolados pela polícia e completamente incomunicáveis.
Os pais das vítimas tinham prestado depoimento no dia anterior e naquele momento passavam por atendimento psicológico no hotel, já que estavam mais para pais traumatizados do que para suspeitos de fato.
Sam e Claire decidiram que apenas em último caso iriam atrás daquelas pessoas, já que duvidavam de que eles teriam algo relevante a acrescentar sobre o caso.
Mas, como havia uma chance — remota, mas havia — de que um deles tivesse sido possuído e cometido os crimes, se o casal não conseguisse identificar o demônio até o final do dia, então os dois iriam atrás dos pais dos adolescentes e tirariam aquela dúvida.
Depois de interrogarem mais uma empregada de um dos vizinhos, e dizerem "Christus" no meio de uma frase qualquer, mas que mesmo assim chamou um pouco a atenção da mulher, Sam e Claire observaram os olhos dela e se convenceram de que não se tratava de um demônio.
Imediatamente, desconversaram, agradeceram a atenção dela e entregaram dois cartões com os seus nomes falsos e contatos, para o caso da empregada se lembrar de algum detalhe importante.
O casal tinha feito este procedimento com todas as pessoas com quem conversaram, mas nenhuma delas deu indícios de possessão demoníaca ou relatou algo relevante para aquela investigação.
Enquanto a empregada voltava para dentro da casa e fechava a porta, Sam e Claire desceram os degraus da varanda e caminharam pela calçada com expressões intrigadas.
— Então ninguém viu nada? Nem ouviu nada? — questionou a caçadora um tanto incrédula. — A Mia ia gostar deste caso.
Sam demorou alguns instantes para entender o trocadilho, mas quando o entendeu, arqueou as sobrancelhas e emendou:
— O Cas também.
Os dois continuaram caminhando, e não perceberam que estavam sendo observados a certa distância pelo homem que havia os seguido no começo daquela manhã.
— Talvez eles tenham visto ou ouvido algo, mas ficaram assustados. Ou com medo de que nós não acreditássemos se eles contassem. — supôs Claire, virando aquele quarteirão e avistando o seu carro estacionado no meio-fio do próximo.
— Não. — discordou Sam. — Nós deixamos bem claro que iríamos acreditar em qualquer coisa que eles dissessem, por mais absurdo que pudesse parecer. Eles realmente não fazem ideia do que matou esses adolescentes.
Claire assentiu com um meneio de cabeça, depois virou-se e parou diante do marido. Então ela recomeçou:
— Eu não sei você, mas eu sinto que estou andando em círculos neste caso. O que nós vamos fazer agora?
Sam pensava em uma resposta para aquela pergunta quando avistou algo por sobre o ombro da esposa. Automaticamente, ela virou-se e seguiu o olhar dele. Logo avistou a casa de Taylor Morgan, a uns três quarteirões.
Como as mortes tinham acontecido há dois dias, o trabalho dos peritos já havia sido encerrado e o lugar estava deserto, sem qualquer sinal de policiamento. A única coisa que indicava que as pessoas não deviam se aproximar da área era uma faixa amarela que cercava todo o imóvel.
Claire voltou-se para Sam e indagou:
— Você quer invadir?
— Talvez a pista que nós precisamos esteja lá dentro. — insinuou Sam antes de voltar a caminhar resoluto na direção da casa.
— Talvez. — assentiu Claire, o seguindo.
Momentos depois, os dois pararam diante da casa e se entreolharam. Em seguida, Sam ergueu a faixa de isolamento e Claire abaixou-se um pouco para passar por ela. O caçador veio logo atrás e, então os dois subiram os degraus em direção à varanda.
De repente, uma voz os chamou em alto e bom tom:
— Ei! Vocês! Parados aí!
Sam e Claire viraram-se para olhar para a calçada e viram um homem negro, o mesmo que havia os seguido por toda a manhã, se aproximando a passos largos e com uma expressão um tanto intransigente, para dizer o mínimo.
Apesar da surpresa e de ter sentido algo estranho e familiar ao fitar aquele rosto, Sam manteve o disfarce e decidiu agir com naturalidade. Sendo assim, ele perguntou:
— Algum problema?
— Me digam vocês. — desafiou o sujeito, parando do outro lado da faixa e encarando os dois com uma desconfiança palpável. — Aliás, para começar, quem são vocês?
Sam retirou a identificação falsa do bolso do terno, mostrou rapidamente para o homem e apresentou-se:
— Agente federal Mulder. — e indicando Claire ao seu lado, que também mostrava uma identificação falsa, explicou: — E esta é a minha parceira, a agente Scully.
— E você quem é? — perguntou a caçadora, enquanto guardava o documento no bolso do casaco.
— Richard Henriksen, delegado responsável por esta investigação na qual, aparentemente, vocês dois parecem ter se intrometido. — apresentou-se o sujeito, também mostrando a sua identificação e sem perder a oportunidade de deixar claro que os agentes não eram bem vindos ali.
O Winchester não conseguiu responder à altura. Aliás, não conseguiu dizer nem uma palavra. Estava chocado demais com o nome que tinha ouvido. Mais precisamente com o sobrenome.
Foi impossível não se lembrar do Agente do FBI Victor Henriksen, morto há anos por Lilith. Na ocasião, Victor finalmente tinha conseguido prender Sam e Dean, após meses de investigação e algumas tentativas frustradas.
Mas a alegria por ter capturado os irmãos Winchester durou pouco, já que logo Victor percebeu que eles não eram os verdadeiros vilões da história e que para vencer os demônios, que possuíram policiais e moradores da cidade onde Sam e Dean tinham sido presos, ele teria que lutar junto com os dois.
Infelizmente, a amizade e certo respeito que surgiu entre o agente e os caçadores no decorrer daquele incidente também tinham durado pouco. No fim daquele dia, Lilith apareceu na delegacia e matou não só Victor, mas a secretária Nancy e outros policiais também. Horas antes, Victor Henriksen havia dado carta branca para que Sam e Dean fugissem.
Sam percebia que a semelhança entre Victor e Richard ia muito além do sobrenome. O delegado era bem parecido com o falecido agente fisicamente. Com certeza, os dois deviam ter algum parentesco.
Estranhando a forma um tanto assustada com que o agente federal o encarava, Richard Henriksen questionou:
— Algum problema? Parece até que você viu um fantasma.
Também estranhando o comportamento de Sam, mas ciente de que aquilo, com certeza, tinha uma explicação plausível, Claire decidiu tomar a palavra:
— Eu sinto muito que o FBI não tenha avisado ao senhor que também está envolvido na investigação dos assassinatos dos quatro adolescentes. Na verdade, nós também fomos pegos de surpresa. Eu e o meu parceiro fomos designados para o caso em cima da hora. Tivemos que vir para Fort Benton às pressas e, infelizmente, ainda não tivemos tempo de passar na delegacia e nos apresentar formalmente.
— Mas tiveram tempo de ir ao IML e também de importunar os vizinhos, certo? — rebateu Richard um tanto ríspido.
Sam sentiu o seu sangue ferver nas veias ao ouvir o jeito que o delegado dirigiu àquelas palavras para Claire. Felizmente, a caçadora não pareceu se abater com aquilo. Ao contrário, aquilo lhe deu ainda mais segurança para manter o disfarce e argumentar com um ar superior:
— Importunar? Eu não sei se esta é a palavra adequada, senhor. Não, com certeza não é. Eu e o meu parceiro fomos sim ao IML e interrogamos possíveis testemunhas porque queremos descobrir quem cometeu estes crimes e prender o responsável o quanto antes, assim como o senhor. É isso o que o senhor quer, não é?
Irritado com a soberba daquela agente, o delegado respirou fundo, retirou um lenço do bolso do terno e enxugou a testa. Em seguida, ele recomeçou veementemente:
— Escutem aqui, eu não ligo se vocês são do FBI, esta é a minha jurisdição e este é o meu caso. Se o FBI decidiu se intrometer, e se vocês realmente vieram até Fort Benton para ajudar nas investigações, então eu exijo que façam isso seguindo o protocolo. E não interrogando possíveis testemunhas sem autorização ou invadindo a cena de um crime. — e indicando a faixa de isolamento que o separava dos agentes, ele completou: — Por falar nisso, será que vocês poderiam passar para este lado? Por favor.
Apesar de ter pedido "por favor", Richard Henrikson não disse nada daquilo de uma forma educada. Via-se claramente que ele não tinha gostado da intromissão do FBI, ainda mais naquelas circunstâncias, desrespeitando o protocolo.
Depois de acatar o pedido e passar pela faixa junto com Sam, ainda calado, Claire lembrou-se de algo e sugeriu:
— Delegado, se o senhor preferir, eu posso ligar para o nosso superior. Eu asseguro que este mal entendido será esclarecido rapidamente.
— Eu não quero falar com o seu superior. — retrucou Richard. — Mas eu sugiro que você ligue e que você mesma peça para que ele envie o formulário adequado, com a determinação formal da investigação por parte do FBI, devidamente protocolada por ele. Até lá, eu sugiro que você e o seu parceiro fiquem longe do IML, das testemunhas e, principalmente, desta casa. Eu fui claro?
Claire controlou a vontade de mandar Richard Henriksen para o inferno e respirou fundo, tentando se acalmar e manter a postura profissional.
Infelizmente, nem sempre o disfarce de agente federal era suficiente para abrir todas as portas para uma investigação como aquela. Muitas vezes, policiais que seguiam à risca os protocolos atrapalhavam, e muito, o trabalho dos caçadores com toda aquela burocracia. No entanto, insistir para que Richard falasse com Bobby ao telefone, ou melhor com "o superior dos agentes em questão" não parecia ser uma boa ideia. Richard Henriksen estava mesmo irredutível.
Por isso, e também por estar preocupada com o silêncio de Sam, Claire decidiu assentir:
— Claro como água, senhor.
Em seguida, ela deu as costas para o delegado e Sam a seguiu depois de dar uma última olhada para o rosto daquele homem.
Richard estava certo, o Winchester havia visto um fantasma. Um fantasma do seu passado. Alguém diretamente ligado a Victor Henriksen. Alguém que podia lhe causar problemas com a polícia novamente.
O caçador começou a se perguntar se em algum momento Victor conversou com Richard sobre a sua busca implacável para capturar Sam e Dean Winchester. Será que eles conversavam sobre este tipo de coisa ou isso era algo estritamente confidencial? Será que Richard viu alguma foto de Sam e Dean em algum momento? Será que tinha acreditado mesmo que os dois estavam "mortos"?
Enquanto se aproximava do seu carro, Claire perguntou num tom baixo de voz:
— Sam, o que está acontecendo?
Ao invés de responder a pergunta, o caçador apenas abriu a porta do veículo para a esposa e avisou:
— Eu explico quando nós chegarmos no hotel.
— Hotel? — repetiu Claire surpresa. — Não, nós temos que esperar aquele energúmeno do delegado ir embora e voltarmos para aquela casa. Você está certo. Talvez tenha alguma pista por lá.
— Claire, você não está entendendo. Nós temos que sair daqui agora mesmo. — insistiu Sam, e em seguida olhou discretamente para trás e avistou Richard, ainda parado na frente da casa de Taylor Morgan e olhando fixamente para eles.
Mesmo sem entender por que Sam estava agindo daquele jeito, Claire assentiu com um meneio de cabeça e entrou no carro. Sam entrou em seguida e logo os dois se afastaram dali.
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