Heaven and Hell
21 Amizade, Amor e Revolta
Notas iniciais
Jody e Bobby tinham chegado na antiga casa do caçador há cerca de uma hora, e naquele momento estavam sentados no chão da empoeirada sala, com as costas apoiadas em uma das paredes, cada um segurando um copo com sua respectiva dose de uísque. A garrafa, já na metade, estava no chão, entre os dois. Depois de tomar um gole e observar Bobby bebendo também, a xerife falou:
— Eu disse para o Sam que ia cuidar de você, que ia te trazer para cá porque você estava bebendo demais naquele bar. Mas agora, olha para a gente. Você continua bebendo. E o pior, eu também.
Depois de saborear mais um gole da bebida, Bobby argumentou:
— Este uísque ficou guardado este tempo todo, você sabe... Enquanto eu estava morto. Mas agora eu voltei e não estou a fim de desperdiçá-lo. Ainda mais quando eu tenho a oportunidade de dividi-lo com alguém especial.
Ao ouvir as últimas palavras do caçador, Mills quase se engasgou com a bebida e fitou Bobby durante alguns instantes. Em seguida, ela pegou a garrafa no chão, encheu o copo dele e orientou:
— Bebe mais um pouco. Você fica interessante quando está bêbado.
Só então Bobby percebeu que tinha falado demais. Mas como ele havia bebido além da conta, não conseguiu pensar em nada que pudesse dizer para contornar a situação. E no fundo, ele não queria contornar, porque não tinha dito nenhuma mentira. Jody era alguém muito especial para ele. Ponto final.
Pensando desta forma, ele bebeu mais um pouco. Jody terminou a sua dose e ficou girando o copo nas mãos por alguns segundos antes de contar:
— Eu vou voltar para Sioux Falls. Eu tirei alguns dias de licença, mas tenho que voltar ao trabalho na segunda-feira.
— Eu vou sentir a sua falta. — admitiu Bobby quase sem perceber.
Jody o olhou de canto, piscou para ele e orientou:
— Continue bebendo, cowboy.
Os dois riram relaxados e em seguida a xerife propôs:
— Você podia vir comigo.
Ouvir aquela sugestão, deixou Bobby um tanto constrangido e surpreso. Com isso, ele se engasgou e Jody teve que bater um pouco em suas costas para que ele se recuperasse. Quando percebeu que ele estava bem, ela esclareceu:
— Como amigo e caçador. — e após uma breve pausa, acrescentou: — Tem acontecido muitas coisas por lá ultimamente. Vampiros, metamorfos, lobisomens... Eu faço o que está ao meu alcance, mas eu não me considero uma caçadora de verdade. Eu estou bem longe disso e, às vezes, preciso da ajuda de alguém mais experiente. Além disso, você disse que desde que... Voltou, tem se sentido meio perdido. Quando eu me sinto assim, eu mergulho no trabalho. Eu acho que você devia fazer o mesmo.
— Da última vez que eu mergulhei no trabalho, a Claire morreu. — lembrou o caçador com certa amargura. Mas, percebendo que sem querer tinha sido um tanto ríspido, ele olhou para a xerife e pediu: — Desculpe.
— Não, tudo bem, você está certo. — tranquilizou Jody. — Mas todas as profissões envolvem riscos, Bobby. Eu perco colegas de trabalho com frequência. Mas o trabalho continua lá e alguém precisa fazê-lo. Alguém precisa continuar. Eu preciso. Você também. Que não seja em Sioux Falls, mas eu acho que você devia...
— Eu vou pensar. — disse o caçador a interrompendo e fazendo com que ela olhasse para ele. — Eu prometo que vou pensar. Eu gostei da proposta, é uma ótima proposta, aliás, e você tem toda a razão, eu preciso continuar, seguir em frente e encontrar o meu lugar neste mundo de novo. Mas antes eu tenho que fazer uma coisa. Justiça. Eu preciso ajudar aqueles idjits a resolverem a situação do Metatron de uma vez por todas.
Percebendo certo ódio na expressão do caçador, provavelmente porque ele nunca conseguiria esquecer o que aquele anjo fez à sua filha, Mills aconselhou:
— Tudo bem, só não confunda justiça com vingança.
Bobby tomou o último gole do uísque e retrucou:
— Caçadores não sabem a diferença entre uma e outra.
A xerife pensou um pouco sobre aquilo, soltou um suspiro profundo e momentos depois serviu mais uísque para ela e Bobby.
XXX
Mia e Castiel estavam no quarto, deitados na cama. Ele com um lençol que o cobria da cintura para baixo, e deixava o seu peito e abdômen nus à mostra. Ela com a cabeça apoiada no ombro do anjo, vestindo o sobretudo dele e acariciando um dos braços de Castiel com as pontas dos dedos.
Mia havia voltado para o quarto momentos antes, depois de ter feito um lanche na cozinha, já que havia gastado muita energia naquela manhã e em boa parte da tarde e, por isso, tinha ficado faminta.
Depois de toda a turbulência dos últimos dias, os dois finalmente tinham tempo para namorar um pouco. Muito, na verdade.
No entanto, naquele momento, Castiel estava apenas assimilando o que Mia havia lhe contado quando voltou para o quarto. Que ela havia conseguido remover a camada falsa da Tábua dos Anjos e que agora, finalmente, Kevin e Chloe poderiam começar a tradução do artefato.
— Posso te perguntar uma coisa? — indagou Mia, tirando o anjo daqueles pensamentos.
— Já perguntou. — debochou ele.
Mia beliscou o braço de Castiel, que não esboçou qualquer reação que indicasse incômodo com aquilo, e resmungou:
— Muito engraçado.
O anjo riu e assentiu:
— Tudo bem, pergunte.
Mia hesitou um pouco enquanto formulava a pergunta na sua cabeça. Depois de mais alguns instantes em silêncio, ela finalmente questionou:
— Quando o Kevin e a Chloe traduzirem aquela coisa e descobrirem uma forma de derrotar o Metatron, ou pelo menos diminuir o poder dele, o que você pretende fazer? — tentando ser mais direta, ela refez a pergunta: — O que você pretende fazer quando finalmente tiver a oportunidade de destruir aquele desgraçado?
Diante do silêncio de Castiel, Mia ficou se perguntando se ele tinha lhe ouvido. Na verdade, o anjo também precisou de um tempo para formular o que dizer e, quando conseguiu, ele finalmente se pronunciou:
— O Metatron me enganou, me usou, expulsou os anjos do Céu, te enganou. Você foi encontrada pelos aliados do Bartholomew por causa dele, foi presa e torturada por causa do que ele fez... E por fim, ele matou a Claire. O que você acha que ele merece?
— Morrer de uma forma bem lenta e dolorosa. — respondeu a garota sem hesitar e com certo ódio.
Castiel ficou em silêncio novamente e em seguida contrapôs:
— Pois eu te digo que você está enganada, Mia. Morrer não é castigo suficiente para o Metatron. Ele precisa sofrer. Sofrer de verdade e para sempre. E aqueles que foram enganados por ele, não só eu e você, mas também todos os anjos e as pessoas que acreditam que ele é Deus, precisam de justiça. É isso o que eu pretendo fazer com o Metatron. Fazer com que ele pague pelo o que fez.
— Como? — quis entender a garota.
— Existe uma prisão no Céu. É segura e impede que o prisioneiro utilize seus poderes para escapar. — revelou o anjo. — É lá que o Metatron vai ficar. Preso. Sozinho. Durante toda a eternidade.
— Parece justo. — opinou ela depois de pensar um pouco.
Depois de um momento de silêncio, Castiel se mexeu um pouco e recomeçou:
— Por falar nisso, talvez eu possa ajudar o Kevin e a Chloe com aquela tradução.
Ao perceber que o anjo ia se levantar da cama, Mia segurou em seu ombro e protestou:
— Não, fica mais um pouco. Se os pombinhos precisarem de ajuda, eu tenho certeza que eles vão pedir.
Castiel riu e expôs:
— Mia, eu gosto de ficar assim com você, mas em algum momento nós teremos que sair deste quarto. — e indicando a roupa que a caçadora usava, completou: — E você precisa devolver o meu sobretudo.
— Ah! Você quer o seu sobretudo de volta? — perguntou se fazendo de desentendida antes de se posicionar sobre o quadril de Castiel e começar a abrir os botões lentamente. — Você devia ter dito isso antes, anjo. — continuou enquanto abria mais botões, revelando que não estava usando nada por baixo. — Afinal, quem sou eu para me apoderar assim de algo que não é meu, não é mesmo?
Castiel não estava prestando a mínima atenção no que Mia dizia porque estava distraído demais observando, com um olhar um tanto libertino, o que ela estava fazendo.
Sem aguentar mais aquele jogo, ele sentou na cama com um impulso, envolveu a cintura da caçadora com seus braços, fazendo seus corpos ficarem bem próximos um do outro, e avisou:
— Depois não reclame da nossa fama de coelhos.
A garota deu de ombros e retrucou:
— Quem disse que eu reclamo? Na verdade, eu amo. — e depois de passar os braços em volta do pescoço dele, ela o fitou com carinho e completou: — Assim como eu amo você.
— Eu também te amo, Mia. — retribuiu Castiel sorrindo levemente para ela. — Mas depois desta vez, nós vamos sair deste quarto, tudo bem? — estabeleceu ele.
— Claro. — disse Mia sorrindo e arqueando as sobrancelhas, o que indicava que ela não pretendia sair daquele quarto de verdade.
Em seguida, ela sentiu as mãos do anjo segurarem em sua cintura com mais força, por dentro do sobretudo, e um arrepio percorreu o seu corpo. Um arrepio incrivelmente bom que fez a sua respiração falhar um pouco e os seus olhos brilharem de um jeito mais vivo.
Instantes depois, Castiel aproximou o rosto e Mia fechou os olhos ao mesmo tempo em que procurava por seus lábios. Suas bocas se encaixaram e se envolveram em seguida. A princípio, com certa calma, mas logo com intensidade e paixão.
As mãos de Castiel subiram pelas costas de Mia, seguraram com firmeza em sua nuca e depois envolveram o seu rosto com carinho, enquanto ela estreitava o enlace no pescoço dele, emaranhava os dedos em seu cabelo e aprofundava mais o beijo, chegando a morder os lábios do anjo em alguns momentos.
Instantes depois, o sobretudo foi parar em cima da poltrona, que ficava perto da cama...
XXX
— Dean... Cara, é sério, você precisa se acalmar um pouco. — aconselhou Sam, que estava sentado em uma cadeira da mesa da cozinha, observando o irmão andando de um lado para o outro do cômodo, visivelmente transtornado.
— Eu não estou nervoso! — esbravejou o Winchester mais velho sacudindo as mãos no ar de uma forma engraçada.
Sam conteve a vontade de rir e recomeçou:
— Tudo bem, desculpe. Mas então, por que você está tão... Incomodado pela Natalie ter ido caçar sem você?
Dean parou no meio da cozinha e fitou o irmão antes de esclarecer:
— Não se trata disso. — e diante do olhar incrédulo de Sam, ele explicou melhor: — Sério, eu não estou incomodado por ela ter ido caçar sozinha. Eu entendo que ela prefira assim, que ela seja assim. A Natalie sempre caçou sozinha. Nos últimos tempos comigo e com a Claire, mas eu sei que ela prefere fazer o trabalho sozinha. Foi assim que ela aprendeu a caçar, aliás. Se eu pudesse escolher, claro que eu ia preferir que ela não fosse tão... Autossuficiente, mas é assim que as coisas são para ela e eu estou tentando respeitar e me acostumar com isso.
— Então? — disse Sam incentivando que o irmão continuasse.
Dean respirou fundo e soltou um suspiro pesado. Em seguida, se aproximou, puxou uma cadeira e sentou de frente para o caçula. Passou as mãos pelo rosto, voltou a encarar o irmão e, tentando manter a calma, começou a responder:
— O que me deixa....
— Nervoso? — sugeriu Sam com certo receio.
Dean o fuzilou com o olhar, bateu os punhos na mesa e corrigiu:
— Indignado! — e depois de respirar fundo mais uma vez, ele prosseguiu: — O que me deixa indignado foi a forma como ela agiu. A Natalie saiu do bunker praticamente escondida, não me explicou nada, não explicou nada para a Claire, não disse nada para ninguém.
— Pelo menos ela mandou uma mensagem. — lembrou Sam, mas quando Dean estreitou o olhar na direção dele mais uma vez, ele encolheu um pouco os ombros e preferiu ficar calado.
— Aquilo não foi uma mensagem. Aquilo foi uma... Uma... — Dean procurava a palavra certa para traduzir a indignação que sentia e por fim gritou: — Uma afronta! — depois de se acalmar um pouco, ele continuou: — A Natalie mandou aquilo só como um aviso formal, Sammy. E não porque ela achou que me devia alguma satisfação. Além disso, ela não entrou em detalhes porque provavelmente está me escondendo alguma coisa. E com o “Explico depois”, ela quis dizer que seja lá o que for, não é da minha conta. Que talvez ela me conte, talvez não, não importa! É por isso que eu estou... Indignado! Porque a Natalie está agindo pelas minhas costas, me escondendo alguma coisa e o pior, ela acha isso tudo normal.
— Dean, você não acha que está exagerando? — questionou Sam, mas antes que o irmão o fuzilasse com o olhar de novo, ele mudou de estratégia: — Olha, eu entendo que talvez a Natalie tenha agido errado por sair desse jeito, mas eu não acredito que ela fez isso por mal. A Claire disse que ela falou que se tratava de algo pessoal, certo? Pois então, vai ver que a Natalie só não quis te envolver. E como ela sabia que você não ia se conformar e provavelmente ia enchê-la de perguntas...
— Este é o ponto. — disse Dean interrompendo o caçula. — O que pode ser tão pessoal e tão grave para a Natalie mentir para mim desse jeito? Eu não me importo que ela vá caçar o Coelhinho da Páscoa, se ela quiser, mas eu exijo que ela seja honesta comigo. Ela é minha esposa, eu sou o marido dela e nós não estamos brincando de casinha aqui, Sammy. Eu realmente quis dividir a minha vida com alguém e esse alguém é a Natalie, tinha que ser a Natalie, mas... Este tipo de atitude me deixa... Me deixa...
Após hesitar um pouco, Sam franziu o cenho e sugeriu mais uma vez:
— Nervoso?
Desta vez, Dean não o fitou com raiva. Ao invés disso, pareceu se acalmar e ficou olhando para um ponto qualquer da mesa, antes de responder mais calmo:
— Decepcionado. — e depois de se acalmar mais, ele balbuciou com certa mágoa: — Se ela pelo menos não tivesse...
Em seguida, Dean se calou, engoliu em seco e pareceu incomodado com outra coisa. Sam percebeu que o irmão não estava lhe contando tudo o que tinha acontecido e resolveu perguntar:
— O que mais a Natalie fez para te deixar assim, Dean? Tem algo a mais, não tem?
O Winchester mais velho respirou fundo, fechou os olhos por alguns instantes, os abriu em seguida, pensou mais um pouco e por fim respondeu:
— Ela me usou, cara.
Sam ficou se perguntando se tinha ouvido direito e achou melhor confirmar:
— Como assim “ela te usou”?
Dean ficou um tanto sem graça, mas em seguida lançou um olhar significativo na direção do irmão, que continuou confuso. Então o mais velho revirou os olhos e resolveu dar algumas dicas:
— Eu e a Natalie, quarto, cama... Chantilly...
— Ok! — interrompeu Sam de repente e visivelmente constrangido, erguendo um pouco as mãos. — Eu prefiro não saber os detalhes da sua vida sexual com a Natalie, tudo bem? Então não precisa explicar.
— Pervertido. Quem disse que eu ia explicar? — zombou Dean.
Sam pensou um pouco e recomeçou:
— Certo, o que ela fez exatamente para te deixar assim, se sentindo... Usado? Sem entrar em detalhes! Por favor.
Dean ficou em silêncio, lembrando daquela manhã, da Mia voltando para o bunker e de tudo se resolvendo na medida do possível.
Como tinham passado a noite em claro, ele e Natalie foram para o quarto algum tempo depois. Mas ao invés de descansarem, eles preferiram brincar um pouco. Muito.
Dean suspirou profundamente e explicou com um olhar um tanto malicioso e distante:
— Digamos que ela se empenhou bastante. Mais do que o de costume.
Sam tentou imaginar como seria “o de costume” para o irmão e a cunhada, e sacudiu a cabeça levemente, aterrorizado com aqueles pensamentos. Em seguida, voltou a olhar para Dean, que continuou explicando com uma cara de bobo:
— Ela fez questão de me deixar bem louco. Ela sabe como fazer isso. Sabe como ninguém. Depois ela me deixou... Extasiado. Cansado. Exausto. Só para começar tudo de novo. E de novo. E de novo, de novo, de novo... E mais uma vez, e de novo...
— Está bem, eu já entendi! — interrompeu Sam percebendo que o irmão tinha se empolgado com o relato.
Depois de voltar a si, Dean resumiu:
— Como eu disse, a Natalie me usou. Ela estava pesquisando alguma coisa na internet horas antes e quando eu perguntei o que era, ela inventou uma desculpa. Devia ser sobre o tal caso. Depois ela fez tudo aquilo comigo no quarto, só para que eu apagasse e não visse ela sair.
— Vai ver que ela se sentiu culpada por mentir para você, e resolveu te... Recompensar. — supôs Sam.
— Não, ela fez tudo de caso pensado. Ela não estava pensando em me dar uma boa dose de... Brincadeira, a Natalie só queria me tirar do caminho dela. Queria que eu dormisse para ela poder sair daquele jeito, sem me dar qualquer satisfação. — retrucou Dean voltando a ficar exaltado. — E é isso o que me deixa mais... Mais... — depois de respirar fundo e morder os lábios com força, ele admitiu: — Nervoso.
Sam ficou em silêncio durante alguns instantes e depois perguntou:
— E o que você pretende fazer?
— Eu não sei, o que você faria no meu lugar? — indagou o mais velho.
O mais novo pensou um pouco e, embora não acreditasse que Claire agiria com ele daquela forma, respondeu:
— Conversaria com ela, diria como eu me senti, tentaria esclarecer as coisas. — ao perceber que o irmão estava fazendo uma interpretação diferente daqueles conselhos, Sam ressaltou: — Quando ela voltasse! Porque não, eu não iria atrás dela, não faria um escândalo, não pioraria ainda mais as coisas...
— Você é um gênio, Sammy! — vibrou Dean antes de levantar da cadeira e começar a se afastar, indo em direção à porta. — Obrigado!
— Dean, não faça isso! — pediu Sam. — e tentando dissuadir o irmão de fazer uma loucura e se arrepender depois, ele lembrou: — Você nem sabe onde a Natalie foi!
— A Chloe pode descobrir. — respondeu o mais velho antes de deixar a cozinha, já irremediavelmente decidido do que iria fazer.
Dois dias depois
Era final da tarde e Natalie estava em um quarto de hotel, em Saint Paul, Minnesota. A loira estava sentada na cama, com o notebook aberto em uma página de internet, que mostrava relatos antigos sobre crianças que haviam adoecido misteriosamente ao longo dos anos.
Era sempre a mesma história. Começava com uma pneumonia, o sistema imunológico não reagia ao tratamento, as crianças entravam em coma e morriam dias depois. Os casos se repetiram em várias cidades, por décadas, e o que quer que fosse que estava causando isso agora estava ali, na cidade onde Natalie tinha passado a sua infância depois que os seus pais morreram.
Em dado momento, a loira respirou fundo e passou as mãos pelo rosto depois de bocejar um pouco. Estava cansada de tanta pesquisa e nenhum resultado. Então ela deixou o notebook de lado, e olhou para os prontuários de algumas crianças, que ela tinha conseguido naquela manhã no hospital e que estavam espalhados pela cama. Ela pegou uma daquelas fichas, abriu e releu, tentando encontrar algum detalhe que indicasse o que exatamente ela estava caçando ali.
O barulho de alguém batendo na porta fez Natalie parar de ler o prontuário e colocá-lo no meio dos outros de novo. Um tanto desconfiada, já que não estava esperando por ninguém, ela levantou da cama, caminhou devagar e descalça até uma escrivaninha que havia no recinto, onde via-se papéis espalhados com anotações que ela havia feito durante aquela investigação.
Em seguida, ela pegou uma arma, devidamente carregada e que tinha largado sobre os papéis quando chegou do hospital. Lá ela havia conversado com os pais de algumas das crianças doentes, mas também não fez nenhum progresso no caso.
Natalie empunhou a arma na direção da porta e começou a se aproximar. Instantes depois, aproximou o rosto do olho mágico, mas se afastou em seguida, visivelmente surpresa e incrédula ao reconhecer a pessoa do outro lado.
Então, ela caminhou até a escrivaninha de novo, colocou a arma dentro de uma das gavetas com certa pressa e revolta, andou até a porta de novo e a abriu com raiva. Encarou Dean ainda sem acreditar no que estava vendo e questionou indignada:
— O que diabos você está fazendo aqui, Sr. Awesome?
— Oi, baby. Eu só fiquei com saudade e resolvi aparecer para te fazer uma surpresa. — respondeu Dean com cinismo, tentando não olhar para as pernas de Natalie, que usava um short relativamente curto e uma blusinha folgada. — Olha, eu te trouxe até um presente para mostrar que eu vim em missão de paz. — anunciou antes de revelar a boneca que escondia atrás de si até então e jogá-la na direção da loira.
Por reflexo, a caçadora segurou a boneca, que era loira e tinha olhos verdes como ela, e usava um vestidinho branco com bolinhas vermelhas. Mas depois de soltar um grito de horror e arregalar os olhos, aterrorizada com aquela coisa medonha em suas mãos, Natalie soltou a boneca no chão e correu até o interior do quarto. Levou uma das mãos ao coração e a outra aos cabelos, enquanto caminhava de um lado para o outro, tentando se acalmar.
— Que bom que você gostou. — provocou Dean, fazendo Natalie fitá-lo com ódio. — Será que agora eu posso entrar? — antes que a caçadora respondesse, ele adentrou o quarto, fechou a porta atrás de si e agradeceu: — Obrigado.
Natalie continuou o encarando com profunda revolta por aquele susto, e também por Dean ter ido atrás dela. E ele, sem se intimidar, colocou as mãos nos bolsos da jaqueta que usava, arqueou as sobrancelhas de uma forma que Natalie classificaria como "irritante" e lançou um sorriso sarcástico na direção dela.

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