Heaven and Hell
25 Alguma coisa maligna - Parte Final
Notas iniciais
Era madrugada e o Camaro de Natalie estava estacionado em uma rua nos fundos do orfanato. Dali a caçadora tinha uma visão perfeita da janela do quarto de Melanie.
Quando conversou com a menina mais cedo, Natalie descobriu que ela tinha visto a shtriga entrar pela janela, na noite em que Susan ficou doente. Porém, por causa do sono que sentia, Melanie havia pensado que se tratava de um pesadelo.
Natalie se viu obrigada a contar que aquilo tinha sido real e que a tal criatura voltaria naquela noite. A princípio, a menina ficou impressionada e com muito medo, mas quando Natalie assegurou que poderia destruir a shtriga e, que com isso, Susan e as outras crianças que adoeceram voltariam para suas casas, ela se acalmou e aceitou ajudar.
Tudo o que Melanie precisava fazer era ficar parada e deixar que a shtriga começasse a se alimentar da sua energia vital. E isso era péssimo porque Natalie não queria usar ninguém como isca, muito menos uma criança. Mas se ela não fizesse aquilo, novas vítimas surgiriam e, no fim, a shtriga sumiria do mapa, como costumava fazer depois de assolar uma cidade daquele jeito.
Natalie parou de pensar sobre essas coisas quando notou algo se aproximando no final daquela rua. O vulto negro, que vestia uma enorme capa com um capuz, se aproximou do muro esgueirando-se por entre as árvores da calçada. Logo estava subindo em uma delas e pulando aquele muro.
Natalie engoliu em seco, pegou a arma que estava presa em um coldre na sua cintura, e abriu a porta do Camaro, com muito cuidado para não fazer qualquer barulho que denunciasse a sua presença ali.
Quando ela viu a shtriga subindo com facilidade pela fachada do sobrado e se aproximando cada vez mais da janela de Melanie, a caçadora saiu do carro e caminhou apressada pela calçada.
Natalie deu a volta no prédio e se aproximou de um canto onde o muro era mais baixo. Subiu em uma lixeira que havia ali e se impulsionou um pouco. Logo subiu no muro e pulou para o outro lado. Pisou em algumas folhas secas de uma árvore que havia no quintal do orfanato, xingou baixinho e se levantou rapidamente. Correu até a porta da cozinha e, utilizando um clip, a destrancou instantes depois.
Natalie retirou os sapatos antes de entrar, para que eles não fizessem barulho contra o assoalho de madeira.
Devido ao horário avançado, todos já estavam dormindo e as luzes estavam apagadas. Mas Natalie conhecia aquele lugar como a palma de sua mão e logo chegou na sala. Subiu a escada. Correu pelo corredor. Abriu a porta do quarto de Melanie com um movimento rápido. Empunhou a arma na direção da criatura horrenda que estava perto da cama, debruçada sobre a garotinha, com a boca aberta, extraindo a energia da criança.
O quarto não estava tão escuro porque era iluminado pela luz de um poste do outro lado da rua. Sendo assim, Natalie pode ver e mirar bem na cabeça da bruxa. Puxou o gatilho no exato instante em que a shtriga percebeu que tinha companhia e olhou para a caçadora com aquele rosto horrível e apavorante.
A shtriga não teve tempo de reagir e caiu para trás ao ser almejada. Melanie sentou na cama e olhou para a caçadora com uma mistura de alívio e apreensão. Ela respirava ofegante e o seu coração estava acelerado pela tensão daquele momento.
Natalie sabia que o barulho do disparo da arma poderia ter acordado alguém no orfanato. Ela precisava ser rápida e sair dali logo, mas antes tinha que se certificar de que a shtriga estava mesmo morta. Por isso, ela se aproximou da cama cautelosamente, ainda com a arma em mãos, e olhou na direção do outro lado da cama.
Aos poucos ela abaixou a arma enquanto via alguns feixes de luz saíram da boca da shtriga, serpentearem pelo ar e saírem pela janela.
Natalie deduziu que aqueles feixes eram as energias vitais de todas as crianças que adoeceram na cidade, vítimas da shtriga, mas que agora teriam as suas energias devolvidas e ficariam bem.
Em seguida, o corpo da shtriga começou a desaparecer. Evaporava de uma forma que as leis da ciência não poderiam explicar ou entender. Até que só restou a capa preta no chão.
Então Natalie olhou para Melanie e sussurrou:
— Está tudo bem. Acabou. Você foi muito corajosa. Logo a Susan vai voltar. Graças a você e a sua coragem.
Melanie assentiu várias vezes com a cabeça e Natalie saiu do quarto tão rápido quanto entrou. Correu pelo corredor ao mesmo tempo em que via, pelas frestas das portas, as luzes dos quartos sendo acendidas e ouvia o choro assustado de algumas crianças, que tinham acordado com o barulho do tiro.
Quando ela chegou no andar de baixo, ouviu a primeira porta sendo aberta e apressou-se. Saiu pela cozinha, alcançou o lado de fora, pegou os sapatos, os calçou às pressas, correu pelo quintal, subiu em um velho tronco no chão, escalou as imperfeições do muro, como fazia quando era criança e tentava fugir dali, e logo pulou o muro.
Em seguida, Natalie correu pela calçada, entrou no Camaro e deu partida imediatamente. Olhou para o orfanato pelo retrovisor e finalmente se sentiu bem consigo mesma de novo. Ela havia conseguido.
Mesmo com toda a questão pessoal envolvida, Natalie tinha conseguido ser profissional, tinha vencido os seus medos, enfrentado os seus fantasmas, colocado toda aquela mágoa, por ter sido deixada no orfanato por John e Dean, de lado. E fez algo de que se orgulhava muito: ela tinha salvado vidas.
E agora, ao pensar no orfanato, era disso que Natalie iria se lembrar. Não do que passou naquele lugar, mas sim de que venceu o monstro que poderia ter destruído aquelas crianças. Era esta a lembrança que Natalie queria levar daquele lugar. Ela tinha vencido. Ela estava bem. Natalie Jones estava de volta.
XXX
Enquanto isso, no quarto de Melanie, a Sra. Evans estava sentada ao lado da garotinha na cama, a reconfortando depois do que ela presenciou.
Dean, por sua vez, tinha pegado uma pequena câmera, que estava escondida até então no meio de alguns brinquedos em uma estante, e a guardou na mochila que carregava.
O caçador havia voltado mais cedo e explicado toda a situação da shtriga para a Sra. Evans. Explicou também que Natalie e ele eram caçadores e que ela voltaria mais tarde para matar a tal bruxa.
A princípio, a Sra. Evans não acreditou muito naquela história maluca, mas depois que Dean sugeriu colocar uma câmera no quarto de Melanie, para que eles pudessem acompanhar tudo através de um computador no escritório e, principalmente, depois que ele disse que tinha medo de que a shtriga machucasse Natalie como tentou machucar Sam no passado, a Sra. Evans resolveu pagar para ver. Mesmo porque ela não duvidava totalmente da existência de coisas sobrenaturais.
E qualquer dúvida que a Sra. Evans ainda tinha, sobre a existência do sobrenatural, se dissipou no instante em que ela viu aquela estranha criatura abrir a janela e entrar no quarto de Melanie pelas imagens da câmera, instalada por Dean com a ajuda de Sam, que tinha lhe passado todas as orientações por telefone quando foi requisitado.
Além disso, Dean tinha outra arma, com mais balas de ferro benzidas, e estava pronto para correr até o quarto, caso alguma coisa saísse errada. Mas, felizmente, Natalie tinha despachado a shtriga de primeira. E então ele e a administradora do orfanato esperaram a caçadora sair de lá para irem até o quarto.
Melanie olhava para Dean sem entender quem ele era e o que estava fazendo ali. Ela não tinha visto ele esconder aquela câmera no seu quarto, pois não estava lá quando Dean o fez. Logo ela parou de pensar nisso porque Margareth entrou no recinto e avisou:
— As crianças voltaram a dormir. — e estranhando a presença de Dean ali, porque também não sabia do plano dele e da Sra. Evans, ela questionou: — O que ele está fazendo aqui?
— É uma longa história. — desconversou a senhora. Em seguida, ela deu um beijo na testa de Melanie, se levantou e pediu: — Fique com ela um instante, por favor.
— Claro. — assentiu Margareth se aproximando da cama e sentando ao lado da menina, que a abraçou imediatamente.
Depois que saiu do quarto acompanhada por Dean, a Sra. Evans perguntou:
— Você acha que a Melanie vai ficar bem?
— Honestamente, eu não sei. — admitiu Dean. — Tudo o que vocês podem fazer agora é dar bastante atenção e carinho para ela. Não será fácil, mas ela vai sobreviver. Ninguém gosta de descobrir que monstros existem de verdade, mas eu sobrevivi, a Natalie sobreviveu e a senhora está lidando muito bem com o que viu naquelas imagens. Então, dê tempo ao tempo.
— Eu ainda não consigo acreditar que uma coisa assim exista. Por mais que eu tenha visto, uma parte de mim quer acreditar que é tudo mentira. — disse a administradora, sentindo um arrepio de medo percorrer o seu corpo. Depois de descer as escadas com Dean, ela mudou de assunto: — Será que a Natalie vai me perdoar algum dia?
Dean parou no meio da sala, virou-se na direção da senhora e respondeu:
— Eu tenho certeza de que ela já perdoou. A Natalie sabe que a senhora não teria contado aquelas coisas, se eu não tivesse insistido. É de mim que ela está com raiva. — e depois de revirar os olhos, ressalvou: — De mim não. Da minha total incapacidade de respeitar o espaço e a privacidade dela. Por tratá-la como se ela fosse uma extensão minha e por sufocá-la com esse casamento. Pelo menos, foram essas as palavras dela.
A Sra. Evans sorriu levemente e falou:
— Não se preocupe. Vocês vão ficar bem. A vida não uniu vocês de novo para que as coisas terminem assim.
Dean franziu o cenho um tanto surpreso e confuso. Em seguida ele balbuciou:
— O quê...
A senhora sorriu mais uma vez e explicou:
— Eu sei quem você é, Dean Winchester. Não precisa confirmar, se não quiser, mas você é aquele menino que a Natalie ficava esperando naquela janela. Foi o seu pai quem a deixou aqui há mais de vinte anos. De alguma forma, vocês se reencontraram e se apaixonaram. É por isso que eu digo e repito, vocês vão ficar bem.
Dean a fitou um tanto impressionado e murmurou:
— Que sexto sentido a senhora tem, hein?
Em seguida, a Sra. Evans colocou uma das mãos no ombro dele e os dois seguiram em direção à porta. Depois de abrí-la, ela recomeçou:
— Mas me diga uma coisa. Se a Natalie brigou tanto com você por causa da questão da privacidade e porque ela queria cuidar deste caso sozinha, por que você me pediu para te deixar ficar aqui até que tudo se resolvesse?
Dean pensou um pouco e respondeu:
— Porque este caso era pessoal para mim também. Eu enfrentei Shtrigas duas vezes. Nas duas, a desgraçada foi para cima do meu irmão. Eu só queria ter certeza de que essa coisa não ia tentar nada contra a Natalie. Além disso, esta cidade e este lugar também me trouxeram certas lembranças que eu pensei que tinha esquecido. Eu lembrei das inúmeras vezes em que implorei para o meu pai me trazer aqui e do que senti em todas as vezes que ele disse não. Depois eu entendi os motivos, é claro, mas eu também senti falta da Natalie. Eu também tive que esquecê-la, eu também sofri. Por isso eu continuei na cidade, porque eu também precisava lidar com o meu passado.
— Eu espero que você e a Natalie aprendam a lidar com o presente também. Só assim vocês vão enxergar o futuro lindo que tem pela frente. — disse a Sra. Evans de uma forma serena.
— Eu espero que sim. — desejou Dean, embora no fundo, duvidasse de que ele e Natalie conseguiriam se entender de novo. — Obrigado por tudo. — agradeceu antes de passar pela porta.
Momentos depois, o caçador entrou no Impala, que tinha ficado estacionado em uma rua mais afastada e deserta. Então ele deu partida e pegou um atalho para sair da cidade antes de Natalie e, consequentemente, chegar no bunker primeiro. Embora, não acreditasse que a caçadora voltaria para casa depois de tudo o que aconteceu entre eles.
Tentando afastar esses pensamentos, Dean ligou o rádio onde estava tocando Patience, do Guns N' Roses. Coincidentemente, ou não, era a mesma música que Natalie estava ouvindo pelo rádio do Camaro, enquanto dirigia perto dali e pensava em Dean e em todas as discussões entre eles. Especialmente, a última.
As palavras ditas por Natalie ainda ecoavam na mente de Dean, quando ele saiu da cidade.
XXX
Enquanto isso, no bunker dos Homens das Letras, o vento balançava suavemente a cortina do quarto de Sam e Claire. Algum tempo depois, o caçador despertou, abraçou a esposa por trás e a trouxe para mais perto do seu corpo.
Claire se mexeu um pouco e suspirou, mas não chegou a acordar. Então Sam voltou a fechar os olhos e tentou pegar no sono. Mas não conseguiu e abriu os olhos novamente. Ficou olhando para o quarto, para a cama e para a bela mulher com quem tinha se casado.
Em seguida, Sam afastou os cabelos da caçadora com uma das mãos, encaixou o rosto em seu pescoço e lhe deu um beijo suave no pé do ouvido. E outro.
Claire encolheu os ombros e moveu as pernas um tanto inquieta. Suspirou mais uma vez. Mas Sam estava determinado a acordá-la e, para isso, começou a acariciar um dos seus braços, com movimentos repetitivos e suaves, de baixo para cima e de cima para baixo.
Claire finalmente começou a acordar. Abriu os olhos lentamente, mas logo ela se entregou ao peso das pálpebras que queriam se fechar. Ainda sonolenta, ela segurou a mão de Sam que repousava na sua barriga e seus dedos se entrelaçaram.
Em seguida, Claire respirou profundamente e voltou a ficar imóvel. Temendo que ela estivesse quase dormindo, Sam se aproximou mais um pouco e sussurrou em seu ouvido:
— Eu te amo.
Aquelas palavras surtiram um efeito imediato na caçadora, que riu levemente, segurou a mão de Sam com mais força e retribuiu com a voz sonolenta:
— Eu te amo.
Instantes depois, percebendo que Claire estava quase dormindo de novo, Sam voltou a sussurrar em seu ouvido:
— Prove.
Deixando o sono de lado, ela se virou na direção de Sam, se aproximou mais um pouco, encostou seu rosto no dele e procurou por sua boca. Seus lábios se encaixaram em seguida e se moveram sutilmente.
Em seguida, Claire abriu os olhos e afastou o rosto. Não por muito tempo, já que Sam a trouxe de volta e pressionou seus lábios contra os dela mais uma vez.
Então ele a beijou mais avidamente enquanto uma de suas mãos segurava firmemente na nuca da caçadora, e a outra mão apertava a cintura de Claire contra o seu corpo.
Já completamente sem sono e um tanto sem fôlego também, ela interrompeu o beijo por um instante apenas para dizer aos risos:
— Tudo bem, você venceu.
— Finalmente. — comemorou Sam antes de partir para cima da esposa e beijá-la mais uma vez.
Claire segurou o rosto de Sam entre as mãos e aprofundou o beijo. Em seguida deixou que seus dedos alcançassem e se envolvessem nos cabelos dele com certa força. Logo suas mãos desceram pelas costas do caçador e começaram a tirar a camisa do pijama que ele usava.
Sam se afastou um pouco e se livrou da peça. Depois voltou para Claire e posicionou-se sobre o seu corpo. Os dois se beijaram mais uma vez e continuaram assim até o momento em que Claire inverteu as posições e ficou sobre Sam, sentada em volta da sua cintura.
Em seguida, as mãos dele acariciaram as pernas desnudas da caçadora, já que o pijama que ela vestia naquela noite era um conjunto formado por um short cinza e uma blusinha branca.
Extasiado com aquela imagem, Sam sentou na cama rapidamente e envolveu Claire entre seus braços. A beijou novamente e deixou que suas mãos seguissem o percurso das pernas até a cintura da esposa. E continuassem subindo em direção às suas costas.
Mas ao sentir os dedos de Sam tocarem a região onde Metatron havia a golpeado, Claire viu um flash do rosto do anjo em sua mente. E a lembrança daquela noite, na Biblioteca do Congresso, veio à tona com força total. A sensação de morrer, a dor, a desolação, o trauma, tudo veio à tona.
Quando as mãos de Sam entraram por baixo da blusinha e tocaram a sua pele diretamente, Claire sentiu um calafrio percorrer o seu corpo e afastou o caçador no mesmo instante e de uma forma um tanto brusca.
Sam a fitou sem entender e franziu o cenho antes de perguntar:
— O que foi?
Claire ficou olhando para ele sem conseguir explicar o que estava sentindo, porque não conseguia explicar aquilo nem para si mesma. Só sabia que era uma sensação horrível.
— Claire? — chamou o Winchester a olhando ainda mais preocupado. — O que foi? Você está bem?
A caçadora finalmente despertou daquela espécie de transe, se afastou, sentou do seu lado da cama, abaixou a cabeça e passou as mãos pelos cabelos.
Sam se moveu e ficou de frente para ela. Então Claire ergueu o olhar na direção do marido e pediu:
— Me desculpe.
— Pelo o quê? — indagou ele.
— Eu não consigo... Não agora, não esta noite. — explicou Claire envergonhada e aflita. — Me desculpe...
— Ei... Você sabe que não precisa me pedir desculpas por isso. Está tudo bem. — tranquilizou Sam segurando as mãos dela entre as suas. — Mas nós precisamos conversar sobre o que aconteceu naquela biblioteca, Claire. Você está diferente desde então, eu estou preocupado e...
— Amanhã. — sugeriu ela o interrompendo. — Vamos deixar esta conversa para amanhã, Sam. Agora eu só quero dormir um pouco. Por favor.
Ainda preocupado, Sam observou Claire por algum tempo, antes de assentir:
— Tudo bem.
A caçadora deu um meio sorriso, tentando disfarçar o quão aflita estava, se deitou e jogou um lençol sobre o seu corpo.
Depois de coçar a nuca por alguns instantes, um tanto intrigado com o comportamento da esposa desde que ela voltou da morte, Sam também se deitou. Com certa cautela, ele abraçou Claire aos poucos.
Ela fechou os olhos, mas as lembranças da noite em que morreu só permitiram que ela pegasse no sono muito tempo depois...
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