Heaven and Hell

24 Alguma coisa maligna - Parte 3


Notas iniciais
Oi, gente! Estou chegando com mais um capítulo Deanalie e este será bem esclarecedor e decisivo para o casal! Espero que gostem! Nos vemos nas notas finais! Lá vai...

Quando Natalie parou o Camaro em frente ao orfanato de Saint Paul, o Impala já estava estacionado perto da calçada. Dean esperava do lado de fora, escorado no veículo, com os braços cruzados e observando Natalie, que olhava para o prédio logo a frente dos dois.

O orfanato estava exatamente como eles se lembravam. A coloração cinza um tanto desbotada, seus dois andares com as janelas protegidas por grades e a escadaria que levava à porta de entrada. Tudo exatamente como na noite chuvosa em que John Winchester subiu aqueles mesmos degraus e deixou Natalie naquele lugar.

Depois de afastar aquelas lembranças e respirar fundo, a caçadora saiu do carro e caminhou em direção à escadaria. Imediatamente, Dean se afastou do Impala e a seguiu enquanto chamava:

— Ei! Natalie! Espera! — quando a loira parou antes do primeiro degrau e olhou para ele, Dean questionou: — Como você quer fazer isso exatamente? Nós temos que pensar em um discurso. Se vamos nos apresentar como médicos do Centro de Controle de...

— Não se preocupe com isso. Eu cuido de tudo. — disse ela o interrompendo. — Mesmo porque você vai ficar calado o tempo todo, lembra?

— Você não pode estar falando sério. Isso é ridículo. — protestou Dean indignado.

— Você concordou com as minhas condições. — frisou a caçadora de um jeito sério. — Desculpe, mas elas não são negociáveis. — acrescentou ao se lembrar de que, momentos antes, quando ela quis convencer Dean a deixá-la ir sozinha para o orfanato, ele disse que aquilo não era negociável.

O Winchester suspirou irritado e Natalie voltou a olhar para a frente. Observou o prédio mais uma vez antes de começar a subir os degraus. Instantes depois, Dean a seguiu.

Logo os dois pararam diante da entrada e Natalie tocou a campainha. Alguns segundos se passaram e passos foram ouvidos no interior do lugar. Logo uma janelinha da porta, protegida por grades, foi aberta e uma mulher morena, de aproximadamente trinta anos e que trabalhava ali, perguntou:

— Pois não?

— Oi, por favor... A Sra. Evans ainda é a administradora? Eu gostaria muito de conversar com ela. Meu nome é Natalie Jones. Eu era uma das crianças do orfanato.

— Um momento, por favor. Eu vou verificar se ela pode recebê-los. — disse a funcionária fitando os dois visitantes de uma forma gentil e em seguida a janelinha foi fechada.

— Você podia ter me apresentado pelo menos. — reclamou Dean.

Natalie permaneceu em silêncio e isso o incomodou profundamente. Por um momento, Dean pensou em ir embora, mas ao lembrar que era exatamente isso que a esposa queria, ele decidiu ficar. Um pouco para contrariá-la, mas principalmente porque estava preocupado com aquela caçada e em como aquilo estava mexendo com Natalie.

Cerca de três minutos depois, a porta se abriu e a funcionária do orfanato sorriu de uma forma simpática, deu passagem para as visitas e disse:

— Podem entrar.

Dean deu alguns passos a frente, entrou no orfanato, mas parou e olhou para trás ao perceber que Natalie estava imóvel na soleira da porta. A caçadora olhava para o interior do orfanato, mas algo a impedia de entrar. Por mais que ela soubesse que não podia ficar parada ali para sempre, era como se as suas pernas simplesmente tivessem travado. Seu coração estava apertado e lembranças dolorosas rondavam a sua mente.

Depois de observá-la por mais alguns instantes, Dean se aproximou e, mesmo sabendo que poderia ser ignorado, ou fuzilado com um olhar mortal, ele encostou a mão direita na mão de Natalie e moveu os dedos sutilmente.

A caçadora olhou para aquele gesto e depois encarou Dean por algum tempo, um tanto confusa e hesitante. Engoliu em seco enquanto a funcionária do orfanato observava os dois sem entender o que estava acontecendo.

Por fim, Natalie percebeu que independente das recentes discussões entre eles, ela precisava de Dean. Ele era o seu porto seguro no meio daquela tormenta de sentimentos e lembranças que a despedaçavam por dentro. Aliás, ele era o seu porto seguro em qualquer situação. Pensando nisso, ela deixou o orgulho de lado, segurou a mão de Dean e deixou que seus dedos se entrelaçassem com certa força. Em seguida, ele deu um passo a frente e a loira finalmente adentrou o recinto.

Em seguida, os dois pararam no meio da enorme sala de estar e observaram tudo em volta. O assoalho era marrom e as paredes possuíam uma tonalidade bege. Havia dois sofás relativamente grandes e duas poltronas espalhadas pelo cômodo. Algumas fotos nas paredes mostravam as crianças que ali viviam. No mesmo ambiente, num canto mais afastado e perto de uma grande janela, havia uma mesa, com no mínimo, dezesseis cadeiras, onde as crianças costumavam fazer as refeições. Uma escada no centro da sala levava ao andar superior, de onde três meninas, entre seis e oito anos, desceram correndo e aos risos. Elas passaram por Dean e Natalie e acabaram esbarrando no casal.

A funcionária do orfanato, que se chamava Margareth, logo as repreendeu dizendo:

— Crianças, eu já falei para vocês não correrem assim. Vão acabar caindo e se machucando. Além disso, nós temos visitas.

As três meninas fitaram o casal de estranhos e disseram meio envergonhadas:

— Desculpem.

— Está tudo bem. — tranquilizou Dean sorrindo para elas enquanto Natalie soltava a mão dele e se afastava um pouco.

A caçadora parecia estar em outro planeta, mas na verdade o seu distanciamento era fruto das lembranças da sua infância naquele lugar, que se tornavam cada vez mais vivas. Ela quase podia se ver escorregando pelo corrimão daquela mesma escada e sendo repreendida pelas funcionárias do orfanato. Lembrou de uma vez que sofreu uma queda e machucou o joelho. Lembrou de ter chorado quando as outras meninas, que viviam no orfanato, riram dela. E lembrou de ter destruído as bonecas favoritas delas como vingança. Naquela época, Natalie ainda conseguia chegar perto daquelas coisas medonhas para fazer algo assim.

— Deve passar um filme pela sua cabeça, não é? — deduziu Margareth, mas Natalie não respondeu porque simplesmente não tinha ouvido. Então, a funcionária olhou para Dean e avisou: — Eu vou levar as meninas para a sala de recreação onde as outras crianças estão. A Sra. Evans vai recebê-los em um minuto. Com licença.

— Tudo bem, obrigado. — assentiu Dean dando um meio sorriso.

Indicando um dos sofás, Margareth orientou:

— Sentem-se. Fiquem à vontade.

Em seguida, ela se afastou com as crianças e seguiu por um corredor. Dean sentou no sofá e ficou observando Natalie. Quando ele ia chamá-la de volta para a realidade, a caçadora finalmente despertou daquele transe, se aproximou e sentou ao seu lado.

— Por acaso, você quer falar sobre isso? — sondou Dean.

— Não. — respondeu a loira secamente enquanto esfregava as mãos.

— Eu imaginei que não, mas perguntar não ofende. — murmurou ele. E instantes depois, mesmo sabendo que Natalie não queria conversar, ele resolveu dizer: — Sabe, você disse que eu me mudava o tempo todo e que, por isso, não sei como você se sentia aqui, mas na verdade, eu não estava me mudando. Eu, o Sammy e o nosso pai estávamos mais... Fugindo. E caçando, é claro, mas às vezes, nós éramos caçados também. Meu pai matava um vampiro em um dia e no outro, dois deles vinham atrás da gente. Ele mandava um demônio para o inferno e dez começavam a nos perseguir. Era por isso que nós nunca parávamos muito tempo em um lugar. E se... Se eu tivesse vindo atrás de você, Naty, essas coisas também teriam. Você pode não acreditar, mas o meu pai e eu só estávamos tentando te proteger. E proteger o orfanato também, as outras crianças...

— Eu acredito. — disse Natalie o interrompendo enquanto continuava olhando para as próprias mãos.

— Então por que você está com tanta raiva de mim? — quis entender o caçador.

— Eu não estou. — afirmou a loira, mas ao perceber que não tinha soado convincente, ela olhou para Dean e reafirmou: — Eu não estou, ok?

— Então? — indagou ele sem entender mais nada.

A caçadora voltou a olhar para as mãos e esquivou-se:

— Eu não quero falar sobre isso.

— Natalie... — começou a dizer ele, mas parou em seguida quando passos foram ouvidos na escada.

Os dois se levantaram ao verem uma senhora de uns sessenta anos que descia os degraus. Ela sorriu imediatamente ao vê-los e, olhando especificamente para a caçadora, disse emocionada:

— Quando a Margareth me disse que Natalie Jones estava aqui, eu mal pude acreditar! Mas olha só! É você mesma! E não mudou quase nada! Ou melhor, você ficou ainda mais bonita!

Também emocionada, Natalie caminhou até a senhora e a abraçou. Dean, que até então se questionava se a esposa teria sofrido algum tipo de maus tratos no orfanato, ficou convencido de que com certeza não tinha sido por parte da Sra. Evans. Ela parecia ser muito importante e querida para Natalie. Com certeza tinha assumido o papel de mãe na vida dela.

— Como você está, querida? — perguntou a Sra. Evans.

— Bem... — murmurou Natalie com a voz um tanto embargada.

Em seguida, as duas finalmente se afastaram um pouco e a administradora do orfanato olhou para Dean e perguntou:

— E quem é este rapaz tão bonito? Namorado? Marido?

Dean sorriu, mas desmanchou o sorriso quando Natalie passou as mãos pelos olhos, enxugando o princípio de algumas lágrimas, olhou para ele e mentiu:

— Não, ele é só um colega do Centro de Controle de Doenças. É lá que eu trabalho, por falar nisso. Nós viemos conversar sobre a Susan, a criança que adoeceu recentemente.

— Não me diga! — surpreendeu-se a administradora e em seguida disse fingindo-se de ofendida: — E eu pensando que você tinha vindo porque ficou com saudades da sua mãe postiça.

— Eu fiquei. — assegurou Natalie prontamente voltando a passar as mãos pelos olhos. — Eu senti muita saudade, mas... Bem...

— Eu entendo. — interrompeu a Sra. Evans, que sabia muito bem como era difícil para Natalie estar ali.

Neste momento, Dean se aproximou, estendeu a mão direita na direção da senhora e disse:

— Já que ela não me apresentou ainda, Dean Winchester.

— Grace Evans. É um prazer conhecê-lo. — disse a administradora antes de sorrir e cumprimentá-lo. Em seguida, ela olhou para Natalie e recomeçou: — Centro de Controle de Doenças, hein? Quem diria que a minha menina mais rebelde fosse tomar jeito na vida.

— Rebelde? — repetiu Dean arqueando as sobrancelhas.

— É modo de dizer. — desconversou Grace ao perceber que Natalie tinha ficado um pouco incomodada com o assunto. — Então... Vocês querem conversar sobre a Susan? — recomeçou instantes depois e quando os dois assentiram, ela indicou o sofá atrás deles. — Os médicos disseram que é uma pneumonia. — relatou com tristeza enquanto sentava em uma poltrona de frente para o sofá onde Dean e Natalie tinham acabado de se acomodarem.

— Outras crianças adoeceram e o tratamento não está surtindo efeito. Nós achamos que pode ser outra coisa. — articulou Natalie e em seguida sondou: — Por falar nisso, tem alguma criança que tenha tido mais contato com a Susan? Alguém que dividia o quarto com ela, talvez?

— Sim, a Melanie. — revelou Grace e então perguntou preocupada: — Você acha que isso pode virar uma epidemia? Que a Melanie ou outra criança podem ficar doentes também?

— Não há motivo para pânico, mas... Eu adoraria conversar com a Melanie para elaborar uma teoria a respeito. — disse Natalie tentando transparecer tranquilidade e, no fundo, surpresa pela Sra. Evans ter acreditado no seu disfarce sem ter feito nenhum questionamento. — Eu preciso saber se ela está com algum sintoma. E talvez ela possa me dar alguns detalhes sobre a noite em que a Susan adoeceu.

— Tudo bem, ela está na sala de recreação com as outras crianças. Fale com a Margareth e ela vai te ajudar. — orientou a administradora. — Você lembra o caminho?

— Sim. — respondeu Natalie.

— Então fique à vontade, querida. Por enquanto, eu vou ficar conversando com o seu colega. — disse a senhora fazendo Natalie engolir em seco e olhar para Dean um tanto temerosa.

— Conversando? — repetiu a caçadora enquanto o Winchester arqueava as sobrancelhas como alguém alegando inocência, afinal a sugestão de conversar não partiu dele, e sim da anfitriã. — Mas ele é... Meio tímido.

— Não se preocupe, ele vai sobreviver. — tranquilizou a administradora rindo levemente. — E depois você pode se juntar à conversa também. Tem muitas coisas que eu quero te perguntar. Eu quero saber como tem sido a sua vida desde que você saiu do orfanato, tudo o que você fez e, principalmente, como foi parar no Centro de Controle de Doenças.

Natalie olhou de Dean para a Sra. Evans algumas vezes, antes de perceber que não tinha escolha, a não ser manter o disfarce e rezar para que a conversa entre os dois não fosse focada no seu passado no orfanato.

Por fim, ela assentiu:

— Tudo bem. Eu já volto.

Em seguida, a caçadora levantou do sofá, lançou um olhar significativo para Dean e se afastou. Momentos depois, ela conversou com Margareth na sala de recreação e explicou toda a situação. Logo a funcionária indicou Melanie no meio das outras crianças. Era uma garotinha com longos cabelos loiros e de aproximadamente sete anos, que fez Natalie lembrar de si mesma quando chegou ali.

A caçadora explicou que precisava de um lugar mais reservado para conversar com Melanie, sem que as outras crianças ouvissem. Então Margareth levou as duas até o escritório da Sra. Evans e se retirou em seguida.

Enquanto Natalie tentava iniciar uma conversa com a garotinha, que estava visivelmente assustada por conta de algo que tinha visto no quarto que dividia com Susan, na noite em que a menina ficou doente, a Sra. Evans levou Dean até a cozinha, planejando fazer um pouco de café.

O Winchester se aproximou de uma mesa, puxou uma cadeira e sentou-se. Enquanto isso, a administradora do orfanato foi pegando tudo o que precisava em um dos armários e perguntou:

— Faz tempo que você conhece a Natalie?

Dean hesitou antes de responder:

— Pode-se dizer que sim.

— E faz tempo que vocês estão juntos? — perguntou ela para surpresa do caçador.

Dean arregalou os olhos e sentiu a cor sumir do seu rosto. Não sabia se respondia com sinceridade ou se mantinha o disfarce. Por fim, achou melhor a segunda opção, mas acabou gaguejando ao dizer:

— Como? Eu e Natalie? Não... Nós? Nós somos apenas colegas de trabalho e... Amigos, eu acho. É, nós somos amigos também... Todos esses anos trabalhando juntos... Sabe como é, né?

— Sei. — balbuciou a Sra. Evans sem acreditar em uma palavra do que tinha ouvido. E depois de colocar a água e o pó de café em uma cafeteira e ligá-la, ela se aproximou da mesa, sentou de frente para Dean, o encarou com firmeza e prosseguiu: — Você acha que eu nasci ontem, rapaz? Eu soube que vocês estavam juntos no momento em que os vi naquele sofá. Acredite, eu tenho sexto sentido para algumas coisas.

Sentindo-se encurralado, o Winchester desviou do olhar da senhora, uniu as mãos sobre a mesa e desconversou:

— Eu não sei o que dizer.

— Que tal a verdade? — sugeriu a administradora do orfanato e Dean voltou a fitá-la nos olhos. — Olha, eu não quero assustá-lo. Eu só quero saber se a minha menina está em boas mãos. — expôs de um jeito menos intimidador. — Então? — questionou arqueando as sobrancelhas.

Dean ficou em silêncio, movendo os dedos uns contra os outros enquanto novamente se questionava o que deveria responder. Contar a verdade implicaria em uma nova discussão com Natalie e mais perguntas daquela senhora. Por outro lado, não parecia ser uma boa ideia manter o discurso de que ele e Natalie eram apenas colegas de trabalho. Afinal, a Sra. Evans estava convencida do contrário mesmo e ele ia soar como mentiroso.

Sendo assim, Dean resolveu abrir o jogo:

— Eu amo a Naty, ela é minha esposa e eu não sei se ela está em boas mãos ou não, mas eu posso assegurar que eu faço e faria qualquer coisa para vê-la feliz. — porém, em seguida, ele pensou melhor nas consequências de falar a verdade, se arrependeu, fechou os olhos e disse para si mesmo: — Ai meu Deus... A Naty vai me matar por ter contado.

Sem se abalar com a revelação de Dean, já que ela tinha mesmo certeza de que ele e Natalie estavam apaixonados um pelo o outro e só precisava de uma confirmação, a Sra. Evans continuou o interrogatório:

— Me deixe adivinhar. Essa história de Centro de Controle de Doenças é mentira, não é?

Dean abriu os olhos um tanto desconcertado e rebateu:

— O que... A senhora tem sexto sentido para isso também? — e depois de perceber que aquilo soou como uma resposta, ele se xingou mentalmente por ter sido tão estúpido e estragado o disfarce. — Ela vai me torturar e me matar depois. — disse ele imaginando como Natalie iria reagir quando soubesse que ele tinha colocado tudo a perder.

— Calma, eu não quero causar problemas entre vocês. — tranquilizou a senhora e Dean voltou a se concentrar na conversa. — Deixa a Natalie pensar que eu não sei de nada. Eu só quero saber se ela está bem.

Aceitando aquela proposta, Dean relaxou um pouco e respondeu pensativo:

— Eu não sei.

— Mas o que ela faz da vida? O que vocês dois fazem, aliás? E por que vocês estão interessados na Susan? O que está acontecendo? — despejou a Sra. Evans deixando o caçador um tanto zonzo.

Depois de hesitar um pouco e, sentindo que já tinha falado demais, Dean sugeriu:

— Eu sinto muito, mas se a senhora quer saber essas coisas, terá que perguntar diretamente para a Natalie. Tudo o que eu posso dizer é que nós estamos aqui para ajudar, não só a Susan, mas todas as crianças que adoeceram misteriosamente.

— Misteriosamente? — repetiu ela intrigada. — Vocês acham que é alguma coisa sobrenatural?

— A senhora acredita no sobrenatural?! — surpreendeu-se Dean.

— Honestamente? Eu não sei. — respondeu ela antes de se levantar e caminhar até a pia. E enquanto servia o café em duas xícaras, acrescentou: — Mas eu lembro que a Natalie acreditava. Principalmente depois que ela achou os restos mortais de uma pessoa desaparecida há anos e...

— Eu conheço a história. — disse Dean a interrompendo quase sem perceber. — E já que a senhora me encheu de perguntas, eu acho que tenho o direito de fazer algumas também. — anunciou o caçador. E depois que a Sra. Evans voltou para a mesa, trazendo uma bandeja com as xícaras e um açucareiro, e sentou-se, ele indagou: — O que aconteceu com a Natalie aqui? Como foi a infância dela neste lugar?

— Você não respondeu as minhas perguntas e agora quer que eu responda as suas? — questionou a senhora sorrindo levemente. — Além disso, algo me diz que a Natalie não vai gostar se eu te contar certas coisas sobre o passado dela.

— Ela está sofrendo. Eu sinto, eu vejo isso, mas... Eu não consigo ajudá-la, se não sei o motivo. — argumentou Dean antes de colocar um pouco de açúcar no seu café e beber um pouco.

A Sra. Evans o observou durante alguns instantes enquanto colocava um pouco de açúcar na xícara e mexia o café. Em seguida, ela disse:

— Por que você não pergunta diretamente para ela? Como sugeriu que eu fizesse.

— Eu tentei, mas a Natalie não se abre mais comigo. — expôs Dean. — E eu sei que ela vai me matar se souber que eu te perguntei essas coisas, mas nada pode ser pior do que vê-la assim, então eu vou arriscar e insistir. Por favor, me diga o que está acontecendo. Eu sei que, assim como eu, a senhora quer vê-la bem e feliz, então... Me ajude. Porque, honestamente, eu não sei mais o que fazer.

Depois de pensar um pouco, ponderando tudo o que tinha ouvido, a Sra. Evans se convenceu de que Dean estava certo. Ela não via Natalie há mais de uma década, mas se lembrava dela muito bem para afirmar que Natalie não estava bem. E ela sabia exatamente o motivo.

Então a Sra. Evans tomou o café, suspirou profundamente e enquanto se levantava, pediu ao caçador:

— Tudo bem, me siga.

Dean se levantou imediatamente e a seguiu intrigado, mas com esperança de que finalmente fosse entender o mistério Natalie Jones.

Os dois passaram pela sala e subiram a escada. Dean seguiu a Sra. Evans por um extenso corredor onde via-se várias portas dos quartos das crianças. No final do corredor havia uma enorme janela, protegida por um vidro bem resistente, e de onde era possível ver a rua e boa parte da cidade.

A Sra. Evans parou diante dela e Dean ao seu lado. Ele observou o parapeito por alguns instantes. Era largo o suficiente para uma criança se sentar ali. Devia ser um lugar disputado no orfanato.

— Quando a minha mãe faleceu e eu assumi a administração, fazia poucos dias que a Natalie havia chegado aqui. — começou a explicar a senhora e Dean prestou atenção imediatamente. — E eu me lembro muito bem de como ela passava horas a fio sentada nesta janela. Olhando a rua. Como se estivesse esperando por alguma coisa ou alguém. Depois eu descobri que ela acreditava que o homem misterioso, que a deixou no orfanato, iria voltar. Não só para visitá-la, mas para tirá-la daqui. Uma vez, a Natalie me contou que o tal homem tinha um filho. E pelo brilho no olhar dela, eu entendi que era por ele que ela mais esperava. — após uma breve pausa, a Sra. Evans continuou: — A polícia nunca descobriu quem eles eram, mas eu sei que a Natalie tinha esperança de reencontrá-los um dia e ir embora daqui com os dois. Eu acho que eles fizeram algo muito importante por ela, para justificar a confiança e a admiração que ela tinha pelos dois, mas ela evitava ao máximo falar sobre a morte dos pais, e então eu nunca entendi direito o que eles fizeram e por que a deixaram aqui. O fato é que a Natalie continuou esperando. Nesta janela. Todos os dias, durante semanas. — Dean engoliu em seco, tentando assimilar tudo o que tinha ouvido até ali, e a administradora prosseguiu: — Quando as outras crianças começaram a questioná-la sobre esse comportamento, a Natalie se abriu com elas. Mas... Às vezes, crianças são muito maldosas e... Bem, elas riram, debocharam e riram de novo. Elas diziam que a Natalie não era especial o suficiente para que alguém voltasse para visitá-la, muito menos para adotá-la. Eu repreendi as meninas que disseram isso, mas o estrago já estava feito. Desde aquele dia, a Natalie nunca mais se abriu com alguém. Ela se isolou. E aos poucos, eu acho que ela foi se esquecendo do homem e do menino que a deixaram aqui. Mas então surgiu outro fator... As crianças descobriram que ela tinha uma certa fobia de bonecas e isso foi motivo para novas piadas. A Natalie se tornou um tanto agressiva e rebelde, como resposta. Saía às escondidas e até tentou fugir algumas vezes. Aos poucos, eu consegui fazer com que as coisas voltassem ao normal e as crianças a deixaram em paz. Mas eu sei que a Natalie carrega marcas dolorosas daquela época. Eu fiz o possível, sempre tentei protegê-la e fazer com que ela se abrisse de novo, que ela se sentisse bem e amada neste lugar, mas eu acho que falhei nessa missão.

Dean ainda refletia sobre tudo o que tinha descoberto sobre o passado de Natalie, e sentia a culpa consumí-lo por dentro, quando a voz da caçadora ecoou pelo corredor:

— Você fez o melhor que pôde. Exceto agora.

Automaticamente, os dois olharam em sua direção e deduziram que Natalie tinha ouvido uma parte considerável daquela conversa. Só isso para justificar os seus olhos um tanto úmidos e a sua expressão visivelmente magoada.

Antes que a Sra. Evans pudesse se explicar ou Dean interferisse, a loira deu as costas para os dois e se afastou rapidamente.

Aflita, a administradora do orfanato deu um passo a frente, pensando em ir atrás de Natalie. No entanto, Dean colocou a mão em seu ombro e disse:

— Deixe que eu falo com ela.

A Sra. Evans assentiu com um meneio de cabeça e Dean seguiu apressado pelo corredor. Natalie descia os degraus rapidamente quando o caçador a alcançou e segurou em seu braço.

— Natalie, espera! — pediu ele.

— Me solta! — esbravejou a loira antes de se desvencilhar dele, terminar de descer a escada e caminhar em direção à saída.

Logo ela abriu a porta, desceu a escadaria e Dean continuou atrás dela enquanto dizia:

— Natalie, espera! Olha, me desculpe, ok?

A caçadora finalmente parou e virou-se na direção dele. Sua expressão era uma mistura de mágoa e raiva quando ela se pronunciou:

— Você ultrapassou todos os limites!

Dean ergueu as mãos em sinal de rendição e tentou se explicar:

— Você tem todo o direito de ficar chateada comigo, mas eu só estava tentando entender certas coisas para poder te ajudar. E eu sinto muito por tudo o que você passou neste lugar, Naty, sinto mesmo. Mas foi como eu disse antes, eu e o meu pai não podíamos voltar. Eu queria, mas não podia. Isso teria colocado você em risco e...

— Não é disso que eu estou falando! — gritou Natalie o interrompendo. — Eu não estou falando do passado, eu estou falando do presente, seu idiota! Eu estou falando da sua total incapacidade de respeitar o meu espaço e a minha privacidade! De entender que eu não queria que você me visse fragilizada e que, por isso, eu não te queria neste caso desde o começo! É disso que eu estou com raiva! Eu estou com raiva porque você acha que só porque se casou comigo, tem o direito de se intrometer assim na minha vida! De me controlar, de dizer como eu devo ou não me sentir! O que eu devo ou não fazer! Como se eu fosse uma extensão sua e não um ser humano com vontade própria!

— Você está sendo injusta. Eu apenas me preocupo com você e tento te proteger! — defendeu-se Dean perdendo um pouco da calma.

— Viu? Você continua achando que está certo! — disse Natalie incrédula e depois de se acalmar um pouco, ela deu um passo a frente, e expôs: — As coisas que a Sra. Evans te contou, eu ia contar, mas no momento certo. Provavelmente, depois que o caso da shtriga fosse resolvido. Eu só precisava de um pouco mais de tempo para lidar com o meu passado e com certas lembranças. Mas você não foi capaz de esperar o meu tempo, foi? Você tinha que fazer exatamente aquilo que eu te pedi para não fazer, não é?! Eu te pedi para não fazer perguntas e você fez, Dean! Eu disse que tinha ido caçar e que explicava depois, quando eu voltasse para o bunker, e o que você fez? Veio atrás de mim! Você diz que pensa no melhor para mim, que se preocupa e que quer me proteger, mas a verdade é que você e este casamento me sufocam! Você se sentiu usado, me desculpe, mas eu me sinto sufocada por você, o que é bem pior. E eu estou cansada disso. Então eu vou te pedir pela última vez e eu espero que desta vez você entenda. — Natalie deu mais um passo a frente, controlou a vontade de chorar, fitou Dean com um olhar raivoso e pediu com firmeza na voz: — Me deixe em paz.

Em seguida, ela se afastou e caminhou até o Camaro. Dean fitou o chão por alguns instantes, sentindo um aperto profundo em seu coração e sentindo que algo tinha se quebrado dentro dele. Sentiu-se envergonhado e arrependido por não ter respeitado a privacidade de Natalie. Agora ele a entendia. Mas ao mesmo tempo, estava magoado por ela ter dito que estava cansada dele e daquele casamento.

Pensando em tudo isso e depois de ter tomado uma importante decisão, Dean se aproximou e fechou a porta do Camaro, que a caçadora tinha acabado de abrir.

— Natalie. — chamou ele calmamente.

— O que você ainda quer? — perguntou ela com a voz um tanto trêmula.

Em seguida, ela se virou devagar e o Winchester viu que algumas lágrimas já escorriam pelo seu rosto. Sentiu-se péssimo por lhe causar tanta dor, mas decidiu se manter firme e encerrar aquele assunto de uma vez por todas.

Então Dean pegou a arma em um bolso interno do terno que vestia e que continha as balas específicas para matar a shtriga, e entregou a arma para Natalie.

Ela olhou para aquele gesto um tanto surpresa com o que aquilo significava. Dean estava se afastando do caso. Finalmente ele tinha entendido que Natalie queria cuidar daquilo sozinha. Mas por que ela não estava feliz com aquela atitude? Talvez porque ela sentisse que tinha o magoado também e sentia-se péssima por isso?

Natalie ainda pensava nessas coisas quando Dean se aproximou mais um pouco, segurou o seu rosto e lhe deu um demorado beijo na testa. Natalie fechou os olhos e novas lágrimas escorreram pela sua face.

Em seguida, Dean a soltou e encerrou dizendo:

— Se cuida e... Boa sorte.

Logo depois, o caçador se afastou e caminhou até o Impala. Entrou e bateu a porta. Ficou olhando Natalie pelo retrovisor por alguns instantes antes de ligar o carro e dar partida.

A caçadora observou o Impala se afastando e sentiu um grande vazio. Um vazio semelhante ao que sentiu quando foi deixada naquele orfanato. Justamente por Dean e também pelo pai dele. Era como se a lembrança ganhasse vida.

Algum tempo depois, a loira finalmente enxugou o rosto, colocou a arma no bolso do terninho que vestia, entrou no Camaro e também deixou aquele lugar. Mas ao contrário de Dean, ela voltaria durante a madrugada para tentar matar a shtriga.

Notas finais
Ai que dor no meu core... Gente, acho que esta foi a briga mais triste que eu já escrevi entre este casal... Snif. Mas agora deu para entender por que a Natalie está agindo deste jeito? Consegui transmitir o que ela passou no orfanato depois que John Winchester e seu filho obediente foram embora? É complicado porque o Dean era uma criança e, portanto, só estava seguindo ordens e tentando proteger a Naty, mas ao mesmo tempo, ela também era uma criança, se sentiu abandonada, sozinha, acreditou que eles voltariam um dia e acabou virando motivo de piada por causa disso. Aliás, não só por causa disso, mas também por causa do lance das bonecas, do rock, dos restos mortais que ela encontrou no orfanato e tal. Enfim, crise complicada entre Deanalie... Well, o próximo será o desfecho do caso e teremos um pouquinho de Clammy também. Provavelmente irei postar na quarta-feira e outro no sábado. This is it. Agora é com vocês, brasileiros e brasileiras! Reviews aí, por favor? Bjs!