Heaven and Hell
8 A manhã seguinte
Notas iniciais
Eram aproximadamente onze horas da manhã quando Natalie e Claire saíram dos dois banheiros que ficavam no andar superior, deixando Sam e Dean terminando o banho (que tinham começado com eles momentos antes), e se dirigiram aos seus quartos. Lá vestiram roupas leves e confortáveis, já que não tinham planos de saírem do bunker naquela manhã.
Depois de deixarem os cômodos e caminharem pelo corredor, as caçadoras acabaram se esbarrando diante da escada, se cumprimentaram e desceram os degraus juntas enquanto Sam e Dean saíam dos banhos.
As duas cochichavam e riam ao se lembrarem de certos acontecimentos da noite anterior, mas pararam de conversar quando chegaram na sala principal e se depararam com a mesa do café da manhã. Na verdade, com o que sobrou do café da manhã já que estava meio tarde e havia indícios de que Bobby e Mia já haviam passado por ali e feito a refeição há algum tempo.
Mesmo assim, ainda tinha uma boa variedade de alimentos sobre a mesa, como a metade de um bolo de chocolate, uma cesta com alguns pães, geleia, creme de avelã, suco de laranja, algumas frutas e leite, além de um açucareiro no centro da mesa.
— Nossa... Eu estou com tanta fome. — confessou Natalie enquanto seus olhos percorriam a mesa e o seu estômago roncava um pouco.
— É... Eu também. — admitiu Claire caminhando até a mesa e se acomodando em uma das cadeiras.
Com um medo irracional de que Claire comesse tudo aquilo e não deixasse nada para ela, Natalie a seguiu rapidamente, se sentou de frente para a amiga, pegou e começou a comer um dos pães imediatamente, enquanto com a outra mão abria o pote de creme de avelã às pressas.
Claire observou aquela cena e franziu o cenho um tanto impressionada, não com o apetite de Natalie, mas sim com a sua total falta de modos.
De qualquer forma, Claire preferiu não fazer nenhum comentário sobre aquilo. Provavelmente a falta de modos era um reflexo da fome que Natalie estava sentindo.
Então a morena também começou a refeição comendo um pedaço de bolo com o suco. Minutos depois, pegou uma xícara no centro da mesa e procurou a garrafa térmica. Como não a encontrou, perguntou:
— Cadê o café?
Natalie parou de comer e passou os olhos pela mesa. Em seguida, olhou para Claire e as duas deduziram ao mesmo tempo:
— Mia.
Em seguida, a morena levantou da mesa, mas Natalie preferiu ficar exatamente onde estava e continuar com a sua refeição. Então Claire se afastou e seguiu para outra sala do bunker, onde havia duas mesas relativamente pequenas e alguns livros em prateleiras espalhadas pelas paredes.
Além disso, o cômodo abrigava um armário antigo com alguns arquivos dos Homens das Letras e certos objetos catalogados por eles, que Sam e Dean ainda não tinham descoberto para que serviam exatamente, mas que com certeza deviam ter alguma importância sobrenatural.
Foi lá que Claire encontrou a garrafa térmica. E como era de se esperar, encontrou Mia também. A garota estava sentada de frente para uma das mesas, olhando atentamente para um mapa dos Estados Unidos sobre o móvel e usando uma caneta para marcar certos pontos sobre ele. A todo instante, ela também olhava para o notebook e pesquisava algo na Internet.
Mia só percebeu que tinha companhia quando Claire se aproximou e segurou a garrafa entre as mãos. Então Mia ergueu o olhar na direção dela, sorriu e cumprimentou animada:
— Oi, Claire! Bom dia! Nossa... Você está com algumas olheiras... — e depois de observá-la por alguns instantes, prosseguiu: — Mas em compensação a sua pele está ótima. Sedosa... Algum motivo especial para isso? E por que você levantou tão tarde? Aliás, eu também não vi a Naty hoje. Está tudo bem com vocês duas?
Claire sorriu discretamente e arqueou as sobrancelhas ao entender que Mia estava apenas a testando com aquele pequeno interrogatório. Com certeza, a garota já tinha visto o Impala estacionado lá fora e sabia muito bem que Sam e Dean tinham voltado. Então Claire preferiu não responder e Mia voltou a examinar o mapa depois de sorrir mais uma vez, indicando que não precisava mesmo de nenhuma resposta.
Em seguida, Claire sacudiu a garrafa térmica levemente e Mia voltou a olhar na sua direção.
— Você acabou mesmo com todo o café? — indagou a esposa de Sam ao sentir que a garrafa estava vazia e ao ver uma caneca também vazia perto do notebook da garota.
Mia franziu a testa um tanto ofendida e protestou:
— Claro que não. Eu deixei o Bobby tomar meia xícara.
— Meia xícara? — repetiu Claire sem acreditar que tinha mesmo ouvido aquilo.
— É, ele não precisava de mais do que isso. O resto ele completou com leite. Além disso, na idade dele não é bom abusar da cafeína. — expôs a outra tranquilamente.
Claire preferiu não discutir, porque sabia que seria em vão, e apenas balbuciou:
— Certo.
Em seguida, as duas olharam na direção da porta e viram Sam e Dean entrando. Então Mia levantou da cadeira e apoiou os punhos na mesa antes de sorrir e provocá-los:
— Oi, meninos! Bom dia! Nossa... Vocês estão com algumas olheiras... Mas em compensação as suas peles estão ótimas. Sedosas...
Um tanto constrangido, Sam desviou do olhar indiscreto de Mia, colocou as mãos nos bolsos da calça e olhou na direção de Claire. Ela lhe lançou um meio sorriso que só ele entendia o que significava. Sem perceber, Sam sorriu de volta.
Enquanto isso, Dean lançou um meio sorriso para Mia e rebateu com certa ironia:
— Oh, Mia... Muito obrigado pelo elogio a minha pele e por ter notado as minhas olheiras. Conta muito vindo de alguém como você... Coelha.
Ao ouvir aquilo, a garota desmanchou o sorriso e passou a mão pela nuca um tanto sem graça.
— Você não deveria estar em Chicago? — questionou Sam mudando o rumo daquela conversa embaraçosa.
Mia voltou a si e agradeceu mentalmente pelo Winchester mais novo ter perguntado aquilo e a salvado da indiscrição de Dean. Só ela podia ser indiscreta, as outras pessoas não.
— Eu estava. — respondeu ela. — Mas as coisas não saíram como o planejado e eu e o Cas achamos melhor tirar o nosso time de campo. Pelo menos por enquanto.
— Por falar nisso, o que aconteceu mesmo? — quis saber Claire entre os dois irmãos, lembrando que quando ela e Natalie chegaram, Mia disse que contaria toda a história pela manhã.
Mia perdeu a coragem por um instante. Era difícil explicar a parte em que ela quase foi morta por Haziel, mas inexplicavelmente conseguiu repelí-lo. Por outro lado, ela não podia esconder aquilo, já que isso sim faria aquelas pessoas a verem de uma forma diferente, talvez até com desconfiança.
Pensando em tudo isso, ela decidiu fazer um resumo e começou a contar:
— O Cas e eu passamos a maior parte do tempo na cama... — atrapalhou-se fazendo Sam, Claire e Dean arquearem as sobrancelhas. — Digo! Nós estávamos procurando pelo Metatron, o tempo todo! Ou pelo menos, em boa parte dele. Eu juro! — corrigiu-se rapidamente sentindo o seu rosto ruborizar e em seguida falou muito rápido na esperança de que eles esquecessem o que ela havia dito até ali: — Mas um dos aliados dele acabou nos encontrando antes. Então ele invadiu a pousada, tentou me matar e eu... Meio que coloquei ele para dormir. Foi divertido, mas eu não sei como fiz aquilo, então nem adianta perguntar. Eu só sei que ele foi a nocaute. Simples assim. Mas eu estou bem, não se preocupem. Por falar nisso, a minha pele também está ótima. Esqueçam. Isso não conta. Bem como eu estava dizendo, o tal anjo, que se chamava Haziel... Não que isso tenha alguma importância, tentou atrair o Cas para uma armadilha, mas nós o prendemos, trouxemos ele para cá, fizemos uma armadilha de anjos na masmorra e conseguimos algumas informações. Aparentemente, o Metatron escondeu a Tábua dos Anjos na Terra. E agora eu estou listando todos os lugares onde ele foi visto nos últimos meses para descobrir onde exatamente o artefato pode estar. Eu sei, é como procurar uma agulha num palheiro, mas eu acho que vai dar certo. Enquanto isso, o Cas está pesquisando um possível ritual para localizar a graça dele. Talvez o Metatron tenha a escondido na Terra também, eu não sei. Bem, acho que é isso.
Quando Mia terminou de falar, Dean fechou os olhos por alguns instantes, assimilando tudo que tinha ouvido, depois abriu os olhos e perguntou:
— Como assim você nocauteou um anjo?
— Ah! Não foi... Nada... De mais. Sério. Nada mesmo. Ele que devia estar meio fraquinho. — desconversou Mia, tentando disfarçar o constrangimento ao dizer uma certa palavra.
— Então tem um anjo preso na masmorra? — indagou Sam após alguns instantes refletindo sobre o que ela havia contado.
— Não. Ele morreu. Meio que se matou, na verdade. Eu não contei isso? Foi estranho e bizarro e ao mesmo tempo me deu uma certa dó. Ele parecia perdido e o Metatron se aproveitou disso. Por outro lado, ele tentou me matar e aprontar para cima do Cas, então eu não devia ficar com pena dele. Na verdade, eu acho que fiquei com mais pena do Cas do que do Haziel. Meu anjinho ficou arrasado. — explicou Mia de forma acelerada mais uma vez.
Um tanto zonzo, Sam respirou fundo e mudou de assunto:
— E onde o Cas está agora?
— Na biblioteca. — contou Mia e acrescentou: — Como eu disse, ele está procurando o tal ritual para rastrear graças perdidas de anjos inocentes, como ele, que confiam nos anjos errados, como o Metatron, e...
— Ok, eu vou falar com ele. — interrompeu Sam antes que Mia repetisse toda a história e se empolgasse de novo. Mas em seguida, ele hesitou um pouco, a encarou visivelmente preocupado e questionou com certo cuidado: — Tem certeza que você está bem, Mia?
— Claro. Tudo perfeito. — assegurou ela fazendo os três se entreolhavam desconfiados.
Após um longo e incômodo silêncio, eles pareceram se convencer de que Mia estava mesmo bem, afinal ela não tinha motivos para mentir sobre aquilo e se tivesse alguma coisa errada, provavelmente ela não teria contado que nocauteou o tal anjo.
Além disso, desde o acidente e de sua milagrosa recuperação, Mia estava diferente, o seu dom de prever acontecimentos estava mais aguçado, ela parecia mais forte e poder se defender de anjos não parecia ser algo ruim.
Mesmo assim, eles ficariam de olho, para o caso de Mia dar sinais de que precisava de ajuda para enfrentar as mudanças que vinha passando e iriam querer saber mais detalhes sobre aquele novo dom posteriormente.
— Bem, já que é assim, eu vou fazer mais café. — anunciou Claire e ao notar que a expressão de Mia se iluminou imediatamente e que um largo sorriso se formou nos seus lábios ao ouvir aquilo, ela esclareceu: — E talvez eu deixe você tomar meia xícara. Eu disse talvez.
Mia desmanchou o sorriso automaticamente e franziu o cenho um tanto aborrecida e desapontada. Cruzou os braços enquanto Claire sorria vitoriosa e caminhava em direção à porta.
Sam fez o mesmo, seguido por Dean que avisou:
— E eu vou comer alguma coisa antes que a Natalie não deixe nada para mim.
— É mais fácil vocês dois não deixarem nada para mim e para a Claire. — retrucou Sam.
Enquanto os três deixavam aquela sala, Mia revirou os olhos e disse num tom relativamente alto para que eles pudessem ouvir:
— Será que dá para vocês evitarem dizer a palavra “nada” perto de mim? Obrigada!
Já sozinha no cômodo, ela abaixou a cabeça e observou o mapa sobre a mesa por algum tempo. Em seguida, sentou na cadeira e aos poucos recomeçou o seu trabalho de rastrear os passos de Metatron.
XXX
Enquanto Dean se juntava à Natalie na mesa e Claire fazia mais café na cozinha, Sam caminhava por um dos corredores em direção à biblioteca.
Ao chegar na porta do recinto, ele a empurrou devagar e entrou chamando:
— Ei, Cas! — como não obteve resposta, continuou entrando e olhando tudo em volta. Havia muitos livros espalhados por uma mesa, alguns abertos e outros empilhados. — Cas? — chamou o Winchester novamente. — Então, esse casamento sai ou não sai? — brincou enquanto passava por um dos corredores cercado por duas grandes prateleiras repletas de mais livros.
Sam parou ao ver Castiel no final do corredor. Ele estava em cima de uma escada, pegando alguns livros na última prateleira e ao ver que tinha companhia, olhou para o caçador, deu um meio sorriso e disse:
— Sam, bem vindo de volta. E sim, o casamento vai acontecer. Mas antes eu preciso recuperar a minha graça, encontrar a Tábua dos Anjos, deter o Metatron...
Em seguida, o anjo segurou os livros nos braços e começou a descer a escada. Foi então que de repente, algo aconteceu. Quando terminava de descer, Castiel pareceu ficar zonzo, fechou os olhos por um instante e se desequilibrou. Com isso, alguns livros que o anjo segurava caíram pelo chão e ele se apoiou na escada para não cair junto com eles.
— Cas! — gritou Sam preocupado enquanto se aproximava rapidamente do amigo e o ajudava a se manter em pé. — O que foi? Está tudo bem?
Castiel se recompôs e o caçador o soltou aos poucos. Em seguida, o anjo olhou para ele e pediu:
— Não se preocupe, Sam. Eu estou ótimo.
Então sem explicar nada, Castiel se abaixou, recolheu os livros e passou pelo caçador. Logo, Sam o seguiu até a mesa onde o anjo colocava os livros. Em seguida, ele começou a folhear os livros, tentando agir com naturalidade.
Após um longo silêncio observando aquilo, Sam perguntou firmemente:
— Desde quando anjos passam mal?
— Eu não passei mal... — negou Castiel, mas ao perceber que o Winchester não parecia convencido, ele fechou o livro e ficou em silêncio, encarando o amigo sem saber o que dizer.
— É por causa da sua graça, não é? — deduziu Sam. — Ou melhor, por causa da graça que você absorveu do outro anjo, certo? Está acabando com você.
— Por favor, não comente sobre isso com a Mia. — pediu Castiel um tanto tenso.
Sam pensou um pouco e indagou:
— Por quê? Você está escondendo isso dela?
— Ela sabe que eu preciso recuperar a minha graça. — respondeu o anjo.
— Mas não sabe que a situação é mais grave do que ela pensa, não é? — pressionou Sam.
— A situação não é grave e eu não quero que a Mia fique preocupada. Só isso. — explicou-se Castiel.
— Mas eu pensei que vocês tinham prometido não esconder mais nada um do outro. — lembrou Sam e em seguida percebeu que ouvir uma certa palavra tirou a atenção do anjo. — Cas? — chamou ele fazendo o amigo voltar a si.
— Eu vou recuperar a minha graça, Sam. E logo, eu espero. Contar certas coisas para a Mia não iria ajudar. Mas eu prometo que vou contar depois, quando a minha situação estiver resolvida. — expôs ele.
— Ou quando você passar mal de novo. — imaginou o Winchester soando um tanto ríspido. E ao perceber que ouvir aquilo incomodou o anjo, ele se acalmou e consertou: — Desculpe, Cas. Eu só estou preocupado.
— Não fique. Vai dar tudo certo. — afirmou Castiel. — É por isso que eu não quero comentar esse assunto com a Mia. Está tudo sob controle e eu não quero alarmá-la. Só se for extremamente necessário, entendeu? Mas não será. Quando eu recuperar a minha graça, o problema será resolvido.
Sam pensou um pouco e achou melhor não discutir. Ao invés disso, ele decidiu que ficaria de olho no anjo e ao menor sinal de que as coisas iriam se complicar, ele pensaria em uma forma de ajudá-lo.
Ponderando essas coisas, Sam acabou tendo uma ideia e resolveu dizer:
— Se você está dizendo, tudo bem. Mas eu quero te ajudar com este ritual. A Claire também pode nos ajudar. E em troca você nos ajuda a encontrar uma forma de mandar o exército de demônios para o Inferno. Eu sei que teoricamente nós precisamos da Primeira Espada para isso, mas como ela está com o Crowley, nós temos que pensar em um plano B.
— Tudo bem. — concordou Castiel.
— Ótimo, então eu vou tomar o café da manhã e volto daqui a pouco. — avisou Sam e o anjo assentiu com um meneio de cabeça. No entanto, antes de se afastar, ele indagou: — Tem certeza de que você está bem agora?
— Sim. — assegurou o outro. — Pode ir.
Um tanto receoso, Sam hesitou antes de finalmente deixar aquele corredor e depois a biblioteca.
Em seguida, Castiel voltou a folhear os livros em busca do ritual para localizar a sua graça. No fundo, ele não estava tão bem como queria que Sam acreditasse, mas também não via motivo para alarmar Mia e os outros.
Ele já havia passado por situações piores e tinha certeza de que assim que recuperasse a sua graça, tudo seria resolvido. Além disso, ele ainda tinha tempo até a graça de Theo se esgotar completamente e isso lhe trazer complicações. Mas Castiel acreditava piamente de que não chegaria a esse ponto. Tudo ficaria bem antes disso. Ele não iria morrer.
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