Heaven and Hell
28 A bêbada de pantufas
Notas iniciais
Dean entrou no bunker e Natalie, que tinha ficado indignada por ele ter freado o Impala bruscamente e levantado uma nuvem de poeira em cima dela, veio logo atrás dele esbravejando:
— Como você é infantil, Dean Winchester!
— Desculpe, mas eu não te vi quando estava chegando, Natalie Jones. — mentiu o caçador de um jeito sério enquanto caminhava em direção à escada. — Eu já disse, foi mal.
Inconformada, Natalie alcançou Dean e segurou o braço dele antes de pedir irritada:
— Dá para olhar para mim quando eu estiver falando com você!
Depois de revirar os olhos, Dean virou-se na direção da caçadora, respirou fundo e, sustentando a calma e certa indiferença, ele assentiu com uma expressão impassível:
— Tudo bem, eu estou olhando. Você quer me dizer mais alguma coisa? Pode ser rápido, por favor?
Natalie franziu o cenho, sem conseguir disfarçar que tinha ficado magoada com aquilo, desviou do olhar de Dean e questionou um tanto sem graça:
— Por que você está falando assim comigo?
Dean estreitou o olhar na direção dela e rebateu:
— É uma pergunta retórica? — Natalie voltou a encará-lo e o Winchester prosseguiu: — Depois de tudo o que aconteceu e de todas as coisas gentis e amáveis que você me disse, como você esperava que eu falasse com você? Como esperava que eu te recebesse? Aliás, honestamente, eu nem esperava que você fosse voltar.
Natalie ficou visivelmente desconcertada ao ouvir a última parte dita por Dean e perguntou ainda mais constrangida:
— Você não queria que eu voltasse?
— Eu não esperava que você voltasse. — frisou o caçador. — Pelo menos, não tão cedo. Afinal, pelo o que eu entendi, você se sente meio sufocada neste lugar.
— Não é o lugar. — protestou Natalie.
— Certo! Esqueci. Sou eu, não é? — consertou Dean com certo sarcasmo e perdendo um pouco a calma. — É ao meu lado que você se sente sufocada. — acrescentou sem conseguir esconder certa mágoa.
— Você não entendeu nada do que eu te disse, não é? — recomeçou Natalie depois de uma breve pausa. — Não é você, são algumas atitudes que você toma. Como ir atrás de mim, por exemplo, e...
— Olha, — interrompeu Dean erguendo um pouco as mãos — não me leve a mal, Natalie, eu adoraria discutir a relação com você, mas está meio tarde, sabe? Eu estou exausto da viagem e só quero tomar um banho e dormir um pouco. Então, se você não se importa... — Dean hesitou um pouco porque achou que estava sendo muito seco com a caçadora.
No entanto, ele estava mesmo cansado e, assim como ela, não tinha se preparado para aquele reencontro. Então, antes que eles se desentendessem ainda mais, ele decidiu encerrar a discussão dizendo:
— Boa noite, Natalie.
Antes que a loira dissesse qualquer coisa, Dean lhe deu as costas e começou a subir a escada. Natalie o seguiu com o olhar, até que ele desapareceu ao seguir pelo corredor do andar superior.
Natalie ficou ali parada, segurando no corrimão da escada, sem saber ao certo o que fazer quando Mia, que até então estava na cozinha, de onde tinha ouvido a discussão entre os dois, apareceu do outro lado da sala, se escorou na soleira da porta e disse:
— Vocês vão se entender. Não hoje, é claro, mas dê tempo ao tempo e tudo vai se resolver.
Natalie olhou na direção da garota, e embora não acreditasse que as coisas seriam tão simples desta vez, ela assentiu com um meneio de cabeça. Em seguida, Natalie observou Mia com mais atenção e viu que ela vestia um pijama, pantufas, segurava uma garrafa de uísque e um copo vazio.
— Está tudo bem? — indagou a loira.
— Sim. Tudo perfeito. — assegurou Mia enquanto dava alguns passos a frente e se jogava em um dos sofás. — Ei, por acaso você quer encher a cara comigo? — convidou enquanto enchia o copo com mais uma dose.
Depois disso, Mia colocou a garrafa sobre uma mesinha de centro e Natalie se aproximou um tanto hesitante. Sentou-se na outra extremidade do sofá e perguntou:
— Cadê o Cas?
Mia tomou um gole do uísque e, com certa mágoa no olhar, respondeu:
— Eu adoraria saber. — mas sentindo que Natalie esperava uma resposta mais esclarecedora, ela completou: — Ele está em uma missão. Foi atrás de alguns anjos. Antigos companheiros que talvez possam ajudá-lo contra o Metatron.
Natalie observou a amiga por alguns instantes e retribuiu:
— Vocês vão se entender.
Mia engoliu outro gole do uísque e esclareceu:
— Na verdade, nós não brigamos. Só... Sei lá, nos afastamos um pouco. — e sentindo uma grande necessidade de mudar o foco da conversa, ela perguntou: — Mas e você e o Sr. Awesome? O que aconteceu exatamente para o clima ficar tão pesado?
Depois de hesitar um pouco, pois não tinha certeza se queria conversar sobre aquilo naquele momento, Natalie contou:
— Nós fizemos e dissemos certas coisas, brigamos inúmeras vezes e... Acabamos nos afastando também. E, honestamente, eu não sei se nós vamos conseguir nos entender de novo. Eu nem sei se quero isso.
Mia franziu o cenho incrédula e questionou:
— Você quer mesmo me convencer de que você não quer fazer as pazes com o Dean? Bitch, please...
Natalie revirou os olhos, decidiu pegar a garrafa de uísque sobre a mesa, a entornou, bebeu generosos goles que desceram queimando em sua garganta, fez uma careta por conta disso, se recompôs e depois recomeçou:
— Tudo bem, talvez eu queira fazer as pazes. Mas só se ele tomar a iniciativa. O que eu acho bem difícil, considerando o jeito que ele me tratou agora.
— Sabe qual é o problema de vocês dois? Vocês são muito orgulhosos. — retrucou Mia.
— Eu não sou orgulhosa. Ele que é um cabeça dura! — protestou Natalie, exaltando-se um pouco. No entanto, como sabia que, no fundo, Mia tinha razão, ela baixou um pouco a guarda e perguntou: — Ok, então o que você sugere que eu faça?
Mia tomou mais um pouco do uísque, pensou por alguns instantes e depois começou a explicar:
— Bem, você quer que o Dean tome a iniciativa, certo? Mas saiba que quando isso acontecer, você também terá que ceder um pouco, Natalie. — um tanto a contragosto, a loira assentiu e Mia prosseguiu: — Então eu sugiro que você seja você mesma, aja naturalmente e faça com que o Dean sinta a sua falta. Em outras palavras, eu acho que você tem que seduzir o Dean. Sem que ele perceba, é claro.
Natalie não conseguiu conter um riso ao ouvir tudo aquilo. Em seguida, levantou do sofá, começou a se afastar e resmungou:
— Eu não acredito que estou ouvindo conselhos de uma bêbada de pantufas.
Mia se engasgou com o gole de uísque que tomava naquele momento, tossiu um pouco, se recompôs e depois protestou:
— Ei, também não precisa ofender. Eu só estou tentando ajudar.
Natalie deteve o passo, pensou um pouco, virou-se na direção da amiga e disse:
— Tudo bem, me desculpe. Mas como assim seduzir aquele idiota?
Mia se acomodou melhor no sofá e explicou:
— Pensa bem, Natalie. Se você quer que o Dean tome a iniciativa, primeiro você tem que deixá-lo maluco para fazer as pazes com você. Então, sutilmente e aos poucos, mostre o que ele está perdendo e o que pode ganhar se der o primeiro passo. Eu sei que lá no fundo, ele quer selar a paz entre vocês. Ele só precisa que você dê... Um empurrãozinho, entendeu?
— Acredite, o que eu mais quero é dar um empurrãozinho nele. Um empurrãozinho na escada, um empurrãozinho para fora da cama, um empurrãozinho em um trilho de trem... — disse Natalie com um humor ácido e em seguida cruzou os braços e ficou em silêncio, com uma expressão um tanto fechada.
— Natalie. — repreendeu Mia arqueando as sobrancelhas.
A loira respirou fundo, relaxou os braços e comprometeu-se:
— Tudo bem, eu vou pensar. — e depois de uma breve pausa, ela olhou para a garrafa quase vazia sobre a mesa e propôs: — Desde que você pare de beber por hoje.
Mia suspirou profundamente e, acatando a condição, colocou o copo sobre a mesa. Natalie sorriu levemente para ela e começou a se afastar. Instantes depois, a loira parou perto da escada, olhou para trás e perguntou:
— Por que você não vai para o seu quarto e tenta dormir um pouco?
Mia fez uma careta e respondeu:
— Aquela poltrona fica me encarando. É melhor eu ficar aqui mesmo.
— Ele vai voltar. — assegurou Natalie tentando fazer com que ela se sentisse melhor.
— Eu sei. — murmurou Mia. — E obrigada por me lembrar disso, Sra. Awesome.
Natalie arqueou as sobrancelhas e fez questão de frisar a resposta:
— De nada, coelha.
Mia revirou os olhos e, enquanto a loira subia a escada, ela deitou-se no sofá, ajeitou uma almofada embaixo da cabeça e ficou olhando para o anel de noivado em seu dedo. Aos poucos, suas pálpebras começaram a pesar e ela fechou os olhos.
XXX
Depois de tomar um banho demorado e relaxante, Natalie saiu do banheiro enrolada em uma toalha. Um tanto hesitante, ela caminhou até o quarto, abriu a porta com cuidado e entrou. A princípio, ela pensou que Dean estava dormindo, mas em seguida, notou que ele abriu os olhos rapidamente, olhou para ela um tanto surpreso e depois os fechou de novo.
Dean pensou em reclamar por Natalie ter entrado ali, mas como ela precisava se vestir, ele preferiu fingir que estava dormindo. Com certeza, ela não iria dormir ali, ao lado dele depois de tudo que tinha acontecido. Então tudo o que ele precisava fazer era esperar um pouco e logo estaria sozinho de novo.
No entanto, não foi isso o que aconteceu. Depois que vestiu um dos seus clássicos pijamas e secou os cabelos com a toalha, Natalie se aproximou da cama e, sem qualquer cerimônia, deitou-se.
Dean abriu os olhos e ficou um tanto tenso. Tenso e revoltado. Não conseguia acreditar que Natalie ia agir como se nada tivesse acontecido, não conseguia acreditar que ela estava mesmo ali, deitada na mesma cama que ele.
Após pensar um pouco, ele resolveu se virar na direção dela, se apoiou em um dos braços e perguntou um tanto rude:
— O que você está fazendo aqui?
A caçadora, que estava deitada de frente para ele e com os olhos fechados, os abriu lentamente e, seguindo o conselho de Mia, respondeu com naturalidade:
— O mesmo que você. Tentando dormir.
Em seguida, ela franziu o cenho e esboçou um leve sorriso de satisfação ao notar que Dean estava olhando para as suas pernas, completamente amostra por conta do short do pijama.
Após travar uma luta interna consigo, o Winchester olhou na direção do rosto dela e questionou ainda desconcertado:
— Na minha cama?
— Esta cama também é minha. — lembrou a loira tranquilamente.
— Fui eu que comprei. — disse Dean num rompante infantil.
— Com um cartão de crédito falso. — ressaltou Natalie.
Depois de hesitar um pouco, procurando por uma resposta à altura, o caçador retrucou:
— Falso ou não, o cartão também era meu.
Natalie suspirou, fingindo que estava cansada e que queria evitar uma discussão, e depois argumentou com calma:
— Nós somos casados, Dean. Portanto, tudo o que é seu, é meu. Esta cama, este quarto...
— Mas nós brigamos. — disse ele a interrompendo. — E não podemos fingir que está tudo bem quando não está. Caso você não saiba, quando os casais brigam assim, eles costumam dormir em quartos separados.
— Tudo bem, se você quiser dormir em outro lugar, vai em frente. Eu não vou te impedir. O bunker é grande, eu tenho certeza que você vai encontrar um cantinho bem aconchegante para você. — assentiu Natalie, em seguida bocejou e fechou os olhos.
Incrédulo, Dean a observou por alguns instantes antes de protestar:
— Você não pode estar falando sério!
— Boa noite, Dean. — murmurou Natalie com a voz sonolenta e mexendo um pouco as pernas.
Sem conseguir resistir, o Winchester deu mais uma olhada para elas, mas em seguida, e com muita raiva de si, ele puxou o lençol que o cobria e resmungou:
— Tudo bem, você venceu. Você quer mesmo ficar aqui, então fique, mas pelo menos se cobre um pouco.
Natalie controlou a vontade de rir e manteve os olhos fechados, como se estivesse mesmo morrendo de sono. Depois que a cobriu da cintura para baixo, Dean avisou:
— E nada de se esfregar em mim com essas pernas, ok? Nem me abraçar enquanto dorme, nem acordada, nem de jeito nenhum, tudo bem?
Natalie abriu os olhos, suspirou um tanto irritada e retrucou:
— Contanto que você não abuse de mim enquanto eu durmo e que não me acorde daquele jeito pervertido...
Dean sorriu com sarcasmo e gabou-se:
— Eu sei que você adora a forma como eu te acordo e que adoraria que eu abusasse de você a noite inteira, mas nada disso vai acontecer, amor. E sabe por quê? Porque eu não tenho a mínima intenção de tocar em um fio de cabelo seu.
— Ótimo porque, caso você não tenha percebido, a recíproca é verdadeira, benzinho. — rebateu Natalie mantendo toda a calma do mundo. E depois de bocejar mais uma vez, ela arrematou dizendo: — E não me leve a mal, eu adoraria ficar discutindo essas coisas com você, mas está meio tarde, sabe? Eu estou exausta da viagem e só quero dormir um pouco. Então, se você não se importa... Boa noite, Dean.
Sem esperar por qualquer resposta, Natalie virou-se, ficando de costas para o caçador, sorriu levemente e fechou os olhos depois de soltar um longo suspiro de satisfação.
Com raiva, Dean puxou o lençol todo para ele e virou-se para o outro lado também. Natalie respirou fundo, controlou a vontade de xingá-lo e puxou o lençol de volta.
Os dois ficaram puxando o lençol mais algumas vezes, antes de se cansarem daquilo e darem-se por vencidos. Por fim, eles dormiram. Cada um com uma parte do lençol cobrindo seus corpos.
XXX
Mia dormia no sofá da sala quando um barulho de asas ecoou pelo lugar e um vento suave moveu algumas mechas de cabelo, que tinham caído pelo seu rosto. Isso não chegou a acordá-la, mas a garota se mexeu um pouco e suspirou profundamente.
Parado diante do sofá, Castiel a observou por algum tempo. Em seguida, seus olhos fitaram a garrafa de uísque e o copo vazio sobre a mesa. Então Castiel voltou a olhar para Mia e balançou a cabeça negativamente, em sinal de desaprovação.
Mia estava em um sono profundo e, por isso, não sentiu o seu corpo se afastar do sofá, quando o anjo a pegou no colo com certo cuidado.
No entanto, quando Castiel se teletransportou para o quarto, com um simples e rápido bater de asas, levando Mia consigo, uma sensação de frio no estômago causou um sobressalto na garota, que por instinto se segurou no pescoço de Castiel para não cair e, ainda com os olhos fechados, gritou assustada:
— Homem ao mar!
Castiel franziu o cenho e inclinou um pouco a cabeça, enquanto esperava que Mia acordasse de fato. Quando isso finalmente aconteceu, ela abriu um olho primeiro e depois o outro. Viu que estava no quarto e em seguida olhou para o anjo.
O coração de Mia disparou imediatamente e um sorriso radiante formou-se no seu rosto. Então ela suspirou, sentindo uma felicidade enorme por Castiel ter voltado, e brincou:
— Oi, marujo. Bem vindo à terra firme.
O anjo franziu o cenho mais uma vez, estreitando o olhar sobre a caçadora e questionou confuso:
— O que você quer dizer com isso? E com o que exatamente você estava sonhando?
Mia revirou os olhos e desconversou:
— Com um filme que, certamente, você nunca assistiu. — e antes que Castiel insistisse naquele assunto, Mia fechou os olhos e encaixou seu lábios nos dele com ímpeto. Depois ela afastou o rosto e, tomada pela ansiedade e saudade que sentia, pediu: — Me coloca na cama.
— Mia, nós precisamos conversar. — avisou Castiel seriamente.
— Tudo bem, vamos conversar na cama. — propôs ela ainda mais ansiosa.
Depois de alguns instantes a fitando nos olhos, Castiel decidiu acatar o pedido. Então, ele deu alguns passos em direção a cama e acomodou a garota sobre ela, enquanto dizia:
— Mia, eu sei que você está aflita porque eu tive que me afastar, mas você não devia ter bebido e...
Castiel parou de falar quando Mia, que mantinha os braços em volta do pescoço dele, o puxou para junto de si e lhe roubou mais um beijo. Com isso, ele se desequilibrou e acabou caindo sobre ela. Quando conseguiu se desvencilhar um pouco, Castiel retomou:
— Mia, espera... Me deixe falar...
— Depois. — propôs ela enquanto o abraçava e procurava por seus lábios de novo.
Quando ela finalmente conseguiu beijá-lo mais uma vez, Castiel decidiu que o melhor era deixar a conversa para depois mesmo. Afinal, ele também estava com muita saudade de Mia. E, por isso, ele entendia perfeitamente como ela estava se sentindo. E também entendia perfeitamente porque ela estava tão ansiosa para fazer uma certa coisa.
Pensando desta forma, ele parou de resistir ao que também queria e se deixou levar por aquele momento.
Logo o seu sobretudo foi jogado no chão. Junto com as pantufas de Mia.
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