Heartbreaker
2 No Light, No Light
Notas iniciais
Durante toda a semana tive que me enfiar em pesquisas para um seminário de biologia, logo mal tinha tempo para perder na internet, mas sempre dava aquela olhadinha rápida no Facebook e checava as mensagens, mas Gustavo não tinha falado comigo. Na sexta feira eu já estava conformada de que provavelmente ele acha que sou muito nova ou muito religiosa para se conversar. Acabei indo dormir na casa da minha melhor amiga Rebeca, fizemos a sessão Audrey Hepburn, nossa atriz favorita e a ultima coisa que lembro naquele dia foi ver Holly jogar Cat para fora do táxi.
Acordamos cedo no sábado e fomos para o parque andar de patins. Quando parei para o piquenique eu tinha uma nova mensagem de Gustavo e ela dizia:
Que horas amanhã?
Fechei meus olhos e abri o sorriso sem nem perceber.
— E esse sorriso? Quem te mandou mensagem? — Rebeca perguntou, abri os olhos e pigarrei antes de me recompor.
— Nada demais, Gustavo perguntou o horário que vamos sair amanhã.
— Vocês não vão sair vocês vão para a igreja. — lembrou. Revirei os olhos, me joguei deitada na grama e cobri os olhos com o braço. Senti quando ela se mexeu e sentou-se ao meu lado. Ela tirou meu braço da frente do meu rosto e me olhava com aquela expressão que eu detestava aquela expressão que dizia "pare de se iludir". Apoiei-me nos cotovelos e lancei um olhar de desdém para ela.
— Não é como se eu estivesse criando esperanças.
— Você não esta criando, mas logo, logo irá. — acusou. Deixei o queixo cair fingindo espanto. Levei a mão para o peito.
— Como você pode pensar isso de mim? Eu sou a responsável por levar essa ovelha perdida de volta para o seu pastor!
— Você não tem um pingo de vergonha na cara. — ela disse rindo. Fechei os olhos novamente e desejei fortemente que amanhã não fosse estranho.
ﻱ
Não irei mentir e dizer que agi normalmente pelo resto do dia, sou uma terrível mentirosa, ainda assim tentei me enganar dizendo que estava tudo acontecendo como usualmente.
Assim que cheguei em casa tomei um banho demorado, depilei as pernas, fiz hidratação no cabelo (desliguei o chuveiro enquanto isso, sou do tipo que economiza água) sem contar o hidratante de pele. Logo depois tratei de escovar o cabelo. Tarefa nada fácil já que meu cabelo é volumoso e atualmente vai ate metade das costas. Em seguida pintei as unhas. Entre tirar e colocar várias cores optei por deixa-las pretas, iria com tudo mesmo. Assim que acabei o longo processo de renovação, estava quase ofegante e com muito tempo livre.
Consegui alguns momentos de paz enchendo minhas melhores amigas de mensagens pelo celular. Depois de marcar onde me encontraria com Gustavo no dia seguinte, consegui dormir, igual a uma pedra, a noite inteirinha, sem nem me mexer em momento algum.
Ok, eu não consegui dormir muito bem, mas dormi depois de certa peleja.
Se você imaginava que a saga da renovação facial e corporal foi longa, espere até ver como foi decidir qual roupa usar.
Entrei e sai de pelo menos quatro opções diferentes, minha mãezinha coitada, tentando me ajudar perguntou:
— Você esta se arrumando pra Deus ou para o Gustavo? — isso lá era pergunta a se fazer? Claro que era para Deus, mas não excluía Gustavo do conceito geral.
Escolhi uma calça jeans skinny desfiada estrategicamente em alguns lugares, uma regata cor de rosa com rendas no decote (que não era tão decotado, estou indo a igreja!) e na barra e meu convencional All Star branco de couro.
Literalmente corri ate onde combinei de encontra-lo, o local era perto igreja. Mas toda a correria não sossegou meu coração, estava há quase cinco anos sem vê-lo e fotos no Facebook não te preparam para reencontros dessa magnitude. Pedi que minha mãe fosse à frente e firmemente segui ate o ponto de encontro.
Era um lugar que normalmente estaria lotado de pessoas, entretanto às 9h da manhã de domingo creio que não existam muitas pessoas acordadas e transitando em centros comerciais. Algumas pessoas passavam para lá e para cá com uniformes, provavelmente indo ou voltando do trabalho. Não que eu tenha algum preconceito sobre trabalhadores uniformizados, sei reconhece-los apenas (meu pai é um zelador hello-o).
Nenhum filme de comedia romântica me preparou para este momento, a alguns metros de distancia lá estava ele. Parado com as mãos nos bolsos do jeans, uma jaqueta preta de couro estava cobrindo uma camisa cinza por baixo, o cabelo raspado rente à cabeça dos lados dava contraste a cor preta do topete meticulosamente despenteado demais para ser natural e o pequeno alargador preto em sua orelha esquerda.
Como vi tudo isso se eu sou míope? Bom, é porque ele tinha me visto e estava andando em minha direção, cada vez mais próximo e com um sorriso surgindo em seus lábios. Faltando dois longos passos para que ele conseguisse me tocar, ele parou. Olhou-me da cabeça aos pés e depois fez o caminho contrário ate encontrar meus olhos.
Não sei nem porque olhei. Eles estavam mais esverdeados do que nunca, mais brilhantes que nunca, profundas camadas de verde cobrindo o azul e a pupila negra ganhando tamanho. Esses olhos não poderiam ser reais!
Não sei se foi minha total falta de semancol para encará-lo, mas depois de toda a descrição da cor exata de seus olhos ele tinha os lábios apertados, segurando o riso.
— E ai? — ele conseguiu dizer antes de abrir um sorriso verdadeiro e adivinhem? Um de seus dentes era torto, não torto horrível, torto do tipo menino inocente.
Era demais para mim.
Dei um passo e me joguei nele, envolvi os braços ao seu redor e afundei a cabeça em seu peito. Ele retribuiu o abraço, primeiro sem jeito, mas quando percebeu que eu não iria solta-lo tão cedo também me apertou em um abraço de urso e me ergueu do chão.
— Me coloque no chão! Idiota! — gritei e acertei-lhe pelo menos três tapas antes que ele desviasse rindo.
— Quanto tempo.
— Muito tempo... É melhor irmos, estamos quase atrasados. — disse e comecei a andar, logo ele veio para o meu lado. Forcei-me a olhar pra frente.
— Eu estava esperando você dizer que sentiu minha falta. — ele disse. Soltei um leve riso.
— Eu não vou dizer que senti.
— Por que não?
— Porque é o que você quer ouvir. — arrisquei olhar para o lado, ele me encarava com olhos meio apertados, como se não tivesse me ouvido.
— Isso foi rude. — ele disse por fim. Parei de andar e levei a mão ao peito.
— Eu não fui rude.
— Claro que foi, eu sou seu convidado você deveria fazer eu me sentir á vontade. — ele falava como... Como se eu tivesse cinco anos de idade e ele estivesse me ensinando boas maneiras! Não acredito que ele pensa que pode me corrigir como se fosse uma criança rebelde.
— Eu... Não fale assim comigo eu não sou criança, sei como cuidar das minhas visitas! — defendi.
— Na verdade você esta sendo uma péssima anfitriã, acho que vou embora. —ele disse e começou limpar as unhas, obviamente demonstrando desinteresse. Fiquei estática como uma mula empacada no meio da calçada o olhando cutucar as unhas. Tinha duas opções:
a) Dizer que sentia saudades dele e pedir desculpas.
b) Esperar um ônibus se aproximar e empurra-lo na frente.
Nenhuma me agradou então eu simplesmente expressei um "ugh" e bati o pé como uma criança mimada.
— Ok. Eu já entendi você é o convidado e eu tenho que fazer você se sentir amado. — ironizei enquanto voltava a andar.
— Amado não... Desejado. — corrigiu. Revirei os olhos e lhe mostrei meu melhor sorriso irônico-de-Blair-Woldorf. Anos assistindo a Gossip Girl na internet devem ter servido para alguma coisa.
— Eu estou começando a te odiar de novo.
— Você esta indo para a casa de Deus falando essas coisas? Acho que alguém tem que conversar com sua mãe. — provocou. Como sou extremamente original e compreensiva, tive que bater o pé e gritar "uuuuugh" novamente. Ele riu abertamente até chegarmos à igreja.
O culto foi muito renovador, creio que até Gustavo sentiu-se comovido. Depois de apresenta-lo para algumas pessoas na igreja como meu convidado (não como namorado e nem nada do tipo), finalmente minha mãe o chamou para almoçar lá em casa.
Se eu morri?
Eu poderia, mas não sou tão sortuda. Sendo assim ele disse que poderia e que ficaria muito grato, que tinha muita coisa para conversar com ela e nesse exato momento ele piscou para mim.
Minha mãe nos colocou no banco de trás e enquanto ela falava ao celular com meu pai, Gustavo e eu estávamos orando por nossas vidas com ela ao volante, ele tirou o celular do bolso e me mostrou um jogo estupido de um pássaro que deveria passar pelos obstáculos, entretanto o miserável não passava da quinta pilastra e eu já estava descabelada.
Minha mãe serviu o almoço e alguns minutos depois meu pai chegou de seu turno na portaria, vestido de uniforme (viram? Sem preconceitos) e cumprimentou Gustavo com um forte aperto de mão que provava ambas as masculinidades. Ou quem é o macho alfa. Ou não.
Gustavo tinha o dom das palavras e do charme. Minha mãe, famoso “vaso ruim de quebrar”, desmoronou para o sorriso bonito e historias engraçadas dele. Meu pai, conhecido como "zagueiro" por seus amigos, deixou Gustavo entrar em sua área e marcar gol. Não posso culpa-los, eu mesma estava com cotovelo na mesa, bochecha sobre a mão apoiada e com sorriso de orelha a orelha no rosto. Ele era encantador, sem pormenores. Mas era sagaz, boas resposta na ponta da língua. Tais como:
— Como conheceu minha filha mesmo? — perguntou meu pai. Ele me lançou uma olhadela e sorriu.
— Deus nos uniu. — quase engasguei com meu suco de uva artificial.
— Você é religioso?
— Tanto quanto loiro. — e então os três riram do tipo de piada que faria meu pai arrancar a cabeça do meu ex-namorado num piscar de olhos.
Meu pai insistiu para que ele ficasse e assistisse ao jogo com ele, mas ele recusou o pedido alegando que era praticamente um ritual assistir o jogo com seu pai e seu irmão. Papai o liberou sem mais delongas, disse-lhe que entendia o que ele queria dizer. Corintianos fanáticos, o que eu poderia fazer?
O acompanhei até o ponto de ônibus, conversamos sobre banalidades até chegarmos lá. Eu mordia meu lábio incansavelmente, logo sentiria o gosto de sangue. Gustavo me encarava, sempre com o sorriso debochado.
— O que foi? — perguntei.
— O que foi o quê? — ele disse e revirei os olhos.
— Você esta me encarando. — expliquei.
— Parece que tem alguma coisa te incomodando.
— Eles gostaram de você. — admiti.
— Isso te incomoda?
— Claro que não. Só achei que seria mais... Difícil ou algo assim.
— Eles já me conheciam.
— Ha cinco anos atrás, eu também.
— Você esta com ciúmes.
— Não, eu não estou. — disse e voltei olhar a rua e sem sinal de seu ônibus.
Por que eu teria ciúmes de um “quase estranho”? Não faz sentido. Muito menos o fato dos meus pais terem sido legais com ele. O que estou tentando dizer é que ninguém agrada meus pais assim, de primeira.
Meu pai tem um espirito jovem e livre, ele sim eu entenderia. Agora minha mãe? O mundo estava de cabeça para baixo.
— Ouço a mentira em sua voz. Esta com ciúmes dos seus pais gostarem de mim ou de tirarem a atenção que deveria ser sua? — perguntou com uma sobrancelha erguida e os olhos queimando. Tentei encara-lo de volta, mas com ele me olhando daquele jeito meio esbugalhado e agora mais para azul do que para verde, ficava muito difícil.
Por que ele tinha que ter olhos azul/verde? Por que eu não consigo identificar a cor? Será possível que além de míope esteja com sintomas de daltonismo?
Ai meu Deus!
— Você é impossível!
— E você gosta. — disse e piscou para mim. Com olhos azuis/verdes.
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