Heartbeats

7 Warning sign


Não conversei direito com Jane no carro depois que ela sugeriu que Jenny podia não estar mentindo, eu não queria pensar em nada naquela hora porém minha cabeça processava todas as possibilidades à mil por horas, precisava descansar, precisava de um tempo, tinha muita acontecendo e muita coisa que tinha a ser calculada.

Jane dirigia tranquilamente, parecia querer dar voltas para pensar, em algum momento eu até pensei em lhe falar que devíamos ir direto para casa pois parecia que ela queria pegar outra estrada mas ela mesma teve o bom senso de ir pelo caminho certo.

Quando chegamos na frente da casa de Chuck pudemos ver todas as luzes apagadas, Jane caminhou direto para um vasinho de plantas onde Chuck escondia uma chave reserva.

- Como você sabe dessas coisas?

- Eu sempre tenho algumas conversas uteis com ela.

- Ah, que fofo, incentivo que você tenha uma coleguinha da sua idade para falar das suas coisinhas de garota filha.

Ela riu.

- Ah, o sarcasmo voltou.

Entramos o mais quietamente possível na casa, Téo dormia no sofá, aparentemente dormiu esperando que nós voltássemos, reparei rapidamente nele e fiz meu caminho para a cozinha chegando lá eu reparei que Jane não tinha me seguido e voltei para busca-la.

A encontrei em pé olhando para Téo enquanto ele dormia, logo ela reparou que eu havia voltado e sem tirar os olhos dele me disse.

- Se o Patrick estivesse vivo ele teria a idade do Téo.

- E é por isso que você gosta tanto dele.

- É, só que isso você já tinha percebido faz muito tempo.

Pude notar que ela tinha começado a se emocionar quando comecei a falar com ela por isso como sempre fui até ela, a abracei enquanto ela chorava como tantas vezes ela já havia feito comigo.

- Elas tiraram a vida dele ... tão injusto.

- Vamos para a cozinha.

- Eu ainda converso com ele toda noite antes de dormir, eu escuto a voz dele na minha cabeça.

A guiei e fechei a porta da cozinha, eram raros esses momentos em que Jane ficava frágil se lembrando do irmão que havia perdido no tiroteio, era a única família que ela possuía e foi tirada dela tão sem sentido ou explicação que a mera sombra da lembrança de como era sua vida antes a deixava assim.

As gêmeas assassinaram Patrick na frente de Jane, foi a primeira vítima do ataque justamente por ter descoberto que elas carregavam armas, ele havia visto elas armadas no jardim e saiu correndo para contar à algum responsável, assim que o ouviram correndo as duas viraram e deram 6 tiros neles, a ultima coisa que ele disse à Jane que vinha à seu encontro foi "corra". Ele era o irmão mais novo dela.

- Eu quero matar elas.

Disse ela enquanto chorava e se apoiava na mesa para esconder o rosto.

- Elas me tiraram tudo, elas tiraram tudo de nós, isso ... por que Dan?

- Por que ninguém pode imaginar a importância de uma ação dessas na vida de outra pessoa.

Ela começou a limpar as lágrimas.

- O que nós vamos fazer enquanto a Samanta não aparece?

- Eu não sei Jane, queria ver a Jenny outra vez ...

- Você tem razão, precisamos fazer as perguntas certas.

Ficamos pensando mais um pouco e ela me disse:

- Você precisa pegar suas coisas na casa da Léia.

- Verdade.

Simplesmente esqueci que a Léia existia.

- Você devia ligar pra ela ou sei lá, há quanto tempo vocês não se falam ?

- Desde que chegamos aqui.

Era realmente um bom tempo, tanta coisa havia acontecido, ela provavelmente vai me matar quando me visse.

- Vou ligar para confirmar se ela ainda está lá.

Ainda era noite, disquei o número no telefone de Chuck mas só pude ouvir aquele barulho irritante de "ocupado", logo uma preocupação me ocorreu, por que o telefone de Léia estaria ocupado tão tarde da noite? Ela não deixava o telefone fora do guincho por nada, ela era jornalista, não podia fazer isso. Liguei para o celular e caiu na caixa postal. Esperei mais alguns minutos e liguei novamente para a casa dela, continuava ocupado.

Precisava chamar a Jane, encontrei sentada quieta, provavelmente pensando no que Jenny tinha me dito essa noite.

- Jane, precisamos ir na casa da Léia.

Ela demorou para entender o que eu estava dizendo.

- O telefone está ocupado e sei lá, eu tenho um mal pressentimento.

Revirando os olhos, ela pegou as chaves do carro.

- Espero que você esteja certo ein vidente.

Saímos outra vez sem ser notados, creio que a rotina que havíamos trazido para a casa de Chuck era desgastante demais para eles.

A casa de Léia não era tão longe de onde nós costumávamos morar, chegamos lá em alguns minutos, Jane queria ficar no carro mas a obriguei a entrar comigo.

Assim que constatei que a porta estava trancada lembrei de que havia perdido o molho que tinha as chaves dali e do apartamento de Jane, toquei a campainha várias vezes sem sucesso algum então decidi procurar pela chave que ela escondia debaixo do tapete e lá estava ela, intacta.

Entramos na casa normalmente, acendemos a luz e demos uma pequena olhada pela sala e cozinha, encontramos o telefone fora do gancho em uma mesinha, parecia totalmente proposital. Tudo parecia estar bem, durante o pouco em que adentrava a casa realmente me senti reconfortado, tranquilo pois pelo menos uma vez Léia teria me escutado e ido para a casa de seus pais na cidade vizinha.

Foi Jane quem notou primeiro.

- Daniel.

Ela me chamou uma vez, eu nem respondi rápido, logo se repetiu.

- DANIEL.

Havia um rastro de sangue no chão do quarto que guiava até o banheiro que ficava lá, eu olhei aterrorizado para Jane.

- Não toque em nada.

Ela me disse.

Abri devagar a porta do banheiro e vi primeiro os pés. Descalços como costumavam andar por aquela casa, depois as pernas e em seguida troco. O rosto de boneca dela olhando para o teto, seu corpo estava sentando e encostado na banheira. O lugar todo fedia à sangue, provavelmente fazia algum tempo que ela estava ali. Ela havia sangrado até a morte.

Me senti enjoado, senti como se tivessem me partido no meio, embora não amasse Léia tanto quanto costumava um dia, nada muda o quanto importante ela foi para mim.

Cambaleei, me encostei na parede completamente absorto na situação, Jane claramente se aproximou bastante do corpo e pegou dois papéis que estavam a seu lado que eu nem havia notado.

A imagem horrível dela encostada na banheira me fez começar a tontear, Jane notou novamente, já tinha os papéis em mãos, nenhuma parte de mim queria acreditar no que estava acontecendo.

Jane pegou a minha mão e falou algo como "cuidado com o sangue", abaixei a cabeça e deixei ela me guiar para fora da casa, a cada passo que eu dava para longe do cheiro do sangue, o cheiro do perfume dela se misturava com o que sobrava dele no ar.

Jane me colocou cuidadosamente no banco do carona, voltou dentro para buscar roupas para mim, trancou a porta da casa, em seu trajeto de volta pude notar que ela estava tão arrasada quanto eu, porém jamais demonstraria.

Ela entrou devagar no carro, respirou fundo e se voltou para mim assustada.

- Você está branco, minha nossa, Dan, vamos sair daqui.

Não respondi, abaixei a cabeça novamente e me senti entorpecido pela minha dor, ela tinha tanto para fazer, tanto para ser, era tão injusto e era culpa minha. Todas as vezes que Jane me disse que não poderíamos ter uma vida enquanto elas vivessem fazia sentido, elas voltariam, elas tomariam tudo que nós recuperássemos.

- É culpa minha.

Eu sussurrei lentamente ainda com a cabeça abaixada, ela colocou a mão em meu ombro me dizendo:

- Não se culpe, você a avisou, ela escolheu ficar.

Jane ligou o carro e começou a dirigir de volta para a casa de Chuck, eu ainda podia sentir aquele forte cheiro do perfume dela misturado ao sangue mesmo estando tão longe da casa, toda vez que fechava meus olhos podia ver aquela imagem horrível, me aterrorizava. Minhas mãos suavam e não podia evitar me sentir sufocado, à cada segundo meu pânico aumentava e Jane podia notar, resolveu acelerar mais do que devia, logo chegamos na casa de Chuck.

Descemos do carro, me apoiei nela enquanto ela me levava para a casa, assim que entramos Téo veio ao nosso encontro perguntado o que havia acontecido, Jane por sua vez disse apenas um "Léia está morta", algo capaz de deixa-lo novamente nervoso. Me sentei no sofá e cobri meus dois olhos com as mãos, não podia acreditar no estava acontecendo, aquilo não podia ser real.

Alguns minutos depois as vozes ao meu redor cessaram, uma mão se colocou sobre o meu ombro e logo Chuck falou:

- Você precisa subir, tomar um banho e dormir.

Me virei para ela e pude sentir meus olhos arderem, ela me olhava com compaixão e me encorajou a levantar, me guiou até a porta do banheiro onde Jane me esperava segurando em uma das mãos uma tolha e na outra uma troca de roupas. Peguei o que ela trazia e entrei no banheiro.

Ao me olhar no espelho minha imagem era assustadora, o branco dos meus olhos castanhos estavam mais vermelhos do que eu jamais havia visto, estava pálido com e as grandes olheiras ganhavam tanto destaque quanto o vermelho dos olhos. Meu cabelo parecia um ninho, principalmente porque as últimas vinte e quatro horas foram o terror na terra para mim. Primeiro toda essa coisa de Jenny ser supostamente inocente e agora o que aconteceu com a Léia, essas coisas destroem as pessoas, são pesadas, são difíceis demais de se lidar.

Tomei meu banho aquela noite como se estivesse lavando todo o sangue que elas derramaram em cima de mim, jurei mais uma vez destruir elas, jurei nunca mais colocar ninguém em perigo e me decidi.

Logo pela manhã nós deixaríamos a casa da Chuck, sem qualquer ruído de discussão.

Notas finais
Se você gostou, desgostou, por favor faça uma review, é importante para o desenvolvimento da história e blablabla whiskas sachê.