Heartbeats
8 Big White Room
Notas iniciais
Passei a noite em meio ao caos, em certo ponto consegui adormecer por algumas horas mas logo pesadeloscomeçaram a meacordar, perdi a conta das vezes que enfiei a cabeça no travesseiro tentando me acalmar ao sufocar gritos. Não tenho vergonha de dizer que chorei, chorei bastante até, ainda não aceitava o que estava acontecendo ao meu redor e demorei para recobrar o controle sobre as minhas emoções.
Em algum lugar na madrugada me cansei, me levantei e peguei a mochila que Jane e eu trouxemos da casa de Léia. Téo ainda dormia profundamente à meu ver, estávamos com a porta aberta então sair devagar foi simples.
Caminhei devagar pelo corredor até chegar na porta do quarto onde Chuck e Jane dormiam, abri a porta lentamente, Jane ouviu os ruídos e se virou para mim, ela estava dormindo na cama de Chuck, se levantou e veio até mim.
-Arrume as malas, precisamos ir.
Ela assentiu, entrou novamente no quarto e pegou também uma mochila que tinha deixado no canto do quarto, próximo à cabeceira da cama.
Não me disse nada, só me acompanhou escada à baixo, quando chegamos à porta pudemos então ouvir.
-Vocês vão pra onde?
Era Téo que havia acordado e estava nos observando em silêncio, perguntou e sentou-se no meio da escada.
-Precisamos ir embora, é perigoso ficarmos aqui.
Eu o respondi, ele assentiu tal como Jane quando a chamei para sairmos, acabou de descer a escada e nos entregou um telefone celular.
-Sei que você perdeu o seu Dan, então leve esse, se precisar de alguma coisa nos chame.
O rapaz abraçou Jane e pediu que ela se cuidasse, ele me abraçou também e pediu que eu cuidasse dela e tomasse cuidado. Algo no semblante dele me fez perceber que ele realmente compreendia o que estava acontecendo muito bem tudo, entendiamesmo que de forma superficial o significado da nossa partida, algo no olhar dele fazia parecer que ele conhecia o nosso futuro, o que era estranho, ele era só um garoto e parecia se sentir tão mal por nós. Mas eu também era quando toda aquela merda aconteceu.
Dissemos adeus novamente e ele ficou a nos observar partindo da janela, de dentro do carro Jane dirigia calmamente, pensando em voz alta em algum lugar para ir, nossa sorte era que ainda havia um pouco de dinheiro guardado em nossas contas eacabamos escolhendo um hotel no centro da cidade, não adiantava mais se esconder pelos cantos e afinal, o encontro com a Samanta era no final da tarde.
Agora era tudo diferente, não era só "vamos atrás delas e pronto", não era só vingança, nós colocamos vidas em risco e isso estava me assombrando, isso precisava acabar e também precisava de uma certa dose de planejamento e precaução.
Ainda tínhamos o dia todo para fazer alguma coisa, Jane não conseguia dormir, resolvemos dar uma volta com o carro, enquanto eu zanzava para lá e para cá na cidade pensava que precisava falar com Jenny novamente, antes que algo lhe acontecesse.
Jane assim como eu se encontrava imersa em seus pensamentos, não desviava os olhos da janela, preocupada.
-Vamos ao hospital? — Ela perguntou sem sequer me olhar direito.
Ela queria falar com Jenny também, então pareceu realmente sensato, respondi dando a volta com o carro e tomando o caminho do hospital. Mais tempo sem conversa.
As vezes eu sentia que ela queria me contar alguma coisa ou perguntar, mas ela continuava calada, tinha um certo medo de me incomodar, acho que queria respeitar o meu suposto luto. Eu ainda parecia um homem doente, as olheiras abaixo dos meus olhos não haviam sumido com o pouco de sono.
Chegando no hospital de dia, tudo parecia muito mais diferente, desta vez Jane foi comigo, chegamos ao balcão principal, tão diferente quanto na outra noite. A recepcionista perguntou o que queríamos e de imediato Jane respondeu que estávamos procurando pela irmã dela que havia sumido, em poucos segundos de conversa a mulher nos deixou subir para ver a paciente anônima que agora já estava em um quarto. Tivemos que pegar o elevador para subir, Jane segurou minha mão enquanto ele subia até o terceiro andar "Prometo que vamos descer pelas escadas".
O quarto para onde haviam removido Jenny era normal, pequeno, branco, o tipo de coisa que eu sei que ela odiaria.
Ela dormia, puxei uma cadeira que estava próxima à cama e me sentei perto dela, Jane enquanto isso lia o prontuário.
-Acorde-a.
Revirei os olhos.
-Jenny, por favor?
Ela não pareceu terouvido minha voz, chamei mais uma vez e ela começou à abrir os olhos, deixei-a saber que Jane estava comigo desta vez, ao primeiro sinal de "Jane está comigo" Jenny logo arregalou os olhos para mim e em seguida os fez encontrarem com os de Jane.
-Nós só viemos te fazer algumas perguntas.
Jenny olhou para mim novamente quando Jane terminou de falar, eu assenti com a cabeça lhe dando segurança mesmo sem ter certeza de que só iriamos fazer aquilo. Jane se sentou à um sofá próximo à cama e fez várias perguntas, o amontoado de respostas nos fez entender como elas foram parar ali.
Aparentemente vem fugindo de cidade em cidade desde o ataque, trabalham entregando drogas aqui e ali, o que foi justamente o que as trouxe à esta cidade, havia um grande carregamento que elas precisavam entregar. Na noite que as reencontrei ambas estavam saindo com os fornecedores da cidade, desse ponto eu havia concluído que elas procuravam por drogas, pode se considerar isso um quase acerto.
A vida delas fugindo não era tão diferente da nossa vida quando caçávamos por elas, noites em lugares abandonados, rodizio de quem fica acordado e quem vigia, eram realidades similares e ao mesmo tempo oposta.
Jane se deu por satisfeita quando obteve o endereço, foram então que começaram perguntas sérias.
-Por que você está ajudando?
Jenny segurou minha mão e respirou fundo antes de responder, seus olhos se encheram de lágrimas e ela começou a nos contar lados da história que não conhecíamos ou sequer imaginávamos, ela chorava e soluçava enquanto tentava se explicar.
-Eu estou cansada disso, eu nunca quis isso, mas nunca pude deixa-la sozinha. Ela me mataria se eu fosse embora, foram tantas vezes as que eu tentei, sem falar que eu estava presa à ela pelo que aconteceu. .
Jane revirou os olhos de raiva se havia alguma coisa que ela detestava era essa ladainha que saia pela boca de Jenny.
-E o que você acha Jenny? Que as coisas vão ficar assim? Que você pode me pedir desculpas e tudo vai ficar bem pra você? Não é assim que funciona.
Jenny assentiu ainda chorando. Ao meu ver era tudo mera encenação, desde às lágrimas até ela segurar a minha mão, a única coisa verdadeira era o medo que ela sentia de nós dois.
-Para com isso agora, o que a Samanta fez?
Ela me olhou tentando parecer confusa, mas ela sabia e era obvio pra qualquer um que ela não estava falando algo, pois denunciar alguém assim só podia ser um ato de qualquer vingança covarde.
Jane entendeu minha pergunta.
-Diga.o.que.ela.fez?
Perguntou Jane enquanto avançava para ela colocando um canivete que tinha no bolso em seu pescoço o que magicamente a fez começar a se explicar — enquanto chorava de palavra em palavra.
-Nós estávamos em outro país, eu conheci um rapaz, comecei a gostar dele e ele era bom — mais pausa para choros e recuperações, era irritante- mas ela, e-e-e-ela não queria que eu ficasse com ele-e-e, nós planejamos fugir...
Jane tirou o canivete do pescoço dela e completou sussurrando "então ela matou ele", a mulher passou a chorar ainda mais, e as coisas por mais idiotas que parecessem eram lamentáveis, finalmente Jane se sentiu confortável em perguntar:
-Então toda a merda que você falou pro Danny boy na outra noite era mentira, huh?
Ela fez que não com a cabeça.
-O que eu disse pra ele, aquilo ... aquilo foi no começo, com o tempo a gente começa a seguir em frente eu, eu sinto tanto, eu me sinto tão culpada ... me ...
Jane não a permitiu terminar, se levantou e saiu. Eu a segui porta à fora, e assisti enquanto ela se esforçava ao máximo para não chorar, ela se virou pra mim e eu a abracei.
-Você lembra Dan? De todas as salas brancas, dos médicos, daquela gente dizendo...
Ela não conseguiu terminar, assenti, claro que lembrava, ao mesmo tempo que nos tratavam como vítimas nos tratavam como malucos em potencial, não conseguia lidar com aquela situação, de certa forma ela entendia como Jenny se sentia ali, vivendo aquilo.
-Nós temos que mata-la.
Jane concordou comigo, enxugou as lágrimas.
-Não pensei que seria assim, não consigo, eu...
Apesar de tudo, ela respirou fundo, passou a ter pena de Jenny em algum ponto.
-Eu estou perdendo a cabeça.
Disse uma Jane já recuperada colocando a mão na maçaneta e entrando no quarto novamente. Sussurrei para ela "Eu cuido disso" e assumi a posição que antes era dela, ainda precisava saber mais, embora não demonstrando eu estava tão atormentado com a morte de Leia que nenhuma choradeira de Jenny traria à mim qualquer sentimento de pena.
-Como vocês sabiam onde eu morava?
Ela se assustou com a pergunta mas respondeu um claro "Encontramos sua jaqueta e fomos falar com outro barman uma coisa levou à outra".
-Não Jenny, estou falando da casa com a Leia.
Pareceu mais nervosa ainda com a pergunta.
-Você sabia, não sabia?
Ela começou a chorar novamente.
-POR QUE VOCÊ NÃO ME CONTOU?
No fundo ela sabia que nenhuma resposta justificaria.
-SINTO MUITO JENNY — peguei um dos travesseiros nos quais os pés dela se apoiavam, Jane tampou a boca dela quando ela começou a gritar — EU REALMENTE SINTO MUITO, MAS VOCÊ TEM QUE ENTENDER OK? O QUE VOCÊ JOGA NO MUNDO, VOLTA PRA VOCÊ.
Pressionei o travesseiro contra seu rosto, ela esperneou mesmo sem força alguma, Jane segurou suas mãos, pouco à pouco ela desistiu de reagir e em poucos minutos o monitor com seus batimentos cardíacos denunciava que só faltava Samanta.
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