Nós deixamos o corpo de Jenny na cama, saímos devagar nos esgueirando pelos cantos, demorou um pouco mas encontramos a escada e por ela descemos correndo e depois de sair não paramos por nada, primeiro caminhando calmamente, depois depressa até começarmos a apostar corrida atéo carro.

Assumi a direção sem acreditar no que havia acabado de acontecer, acelerei o máximo que pude e peguei um caminho aleatório de volta que levava direto para o centro da cidade, Jane estava sem palavras e folego ainda. Quando se recuperou ela se virou para mim apavorada.

-Nós matamos ela.

Por um segundo desviei meu olhar da estrada e olhei para ela, e comecei a rir, depois de tanta espera nós finalmente conseguimos, só faltava a Samanta e tudo estaria completo, era talvez a maior realização da minha vida. Embora assustada com a minha reação ela continuou a falar:

-Eu quase achei, que , que...

-Que nós iríamos deixar ela viver, não pude deixar isso acontecer, desculpe.

Não consegui, a própria Jenny sabia o que estava por vir, sabia que Samanta tinha conhecimento da existência de Leia desde quando nos encontramos no nos ela podia ter ajudado a Leia, ela era uma cretina, maioria do que ela disse provavelmente era mentira ainda pior do que mentiras, omissões, ela merecia.

- O que você sentiu?

Ela ergueu os grandes olhos para mim. O que eu devia dizer? Foi o maior alívio que eu já senti na minha vida?

-Foitirar um peso da consciência?- Perguntou ela notando que eu ainda estava procurando uma resposta.

Assenti entretanto, meio que com um pouco de vergonha, alguma parte de mim sempre foi contra essas atitudes, passei grande parte do meu tempo nos últimos anos apenas tentando seguir em frente e ignorar as feridas.Porem desde que as vi de novo toda a coisa por vingança começou a crescer dentro de mim, eu não conseguia permanecer tão frio ou reflexivo quanto Jane à respeito das atitudes delas, eu vinha sentindo uma urgência cada vez maiorpara que isso acabasse logo, para que eu pudesse ter alguma paz de espirito para variar.

-O que nós vamos fazer agora ? — Ela me perguntou olhando para o horizonte, estávamos quase chegando ao hotel.

-Nós vamos nos preparar para encontrar com a Samanta.

Ao ouvir o nome de Samanta ela se recuperou do seu momento de culpa pelo que aconteceu com Jenny, não sei o que ela estava pensando, mas ela se virou para mim e disse como sempre costumava dizer:

-Essa é minha.- E piscou com um olho só.

Nós estacionamos o carro uma rua antes do hotel, estávamos quase sem dinheiro para poder pagar coisas como horas de estacionamento. Quando chegamos no hotel foi exatamente como era quando morávamos juntos, "Escada ou Elevador?" ela perguntava e saia correndo para o elevador enquanto eu tentava inutilmente chegar pelas escadas chegar antes do que ela no nosso apartamento.

Dessa vez quando ela correu, ao invés de tentar vence-la (como eu sabia que não funcionaria) decidi pegar um bolo da padaria da esquina antes de ir, achei que por mais psicótico que soasse, precisávamos comemorar ou pelo menos nos animar comendo algo bom. O que eu esperava ao abrir a porta do quarto não se concretizou, nós não nos sentamos e comemos o bolo enquanto planejávamos como seria quando encontrássemos Samanta mais tarde, quando eu abri me deparei com Jane ao telefone, chorando, gritando e andando de um lado para o outro.

-VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! — A irritação da voz dela era sem igual, ela poderia matar a pessoa do outro lado da linha só de gritar com ela.

Encostei a porta atrás de mim e perguntei o mais paciente possível,.

-O que está acontecendo?

Ela parecia estar sendo ameaçada à ponto de não conseguir me responder direito, ainda ouvindo cada palavra vinda de quem quer que fosse do outro lado da linha com um olhar capaz de perfurar o chão, tirei o telefone das mãos dela, o que creio que deve ter a deixado ainda mais furiosa.

-Quem é?- Perguntei seguramente.

E foi então que eu ouvi a voz de Samanta, a personificação do desdém.

-Danny é você?

Olhei para Jane que assentiu com a cabeça para mim confirmando, "É ela" sussurrou enquanto cobria o rosto tentando se esconder, "Ela pegou o Téo". Agora eu entendia sua fúria.

-O que você fez?- Ela não tinha como saber sobre ele, não assim.

-Digamos que talvez, alguém que você conheça esteja comigo.-Afirmou ela com um tom risonho.

-Quem?- Procurei novamente o olhar de Jane, já mais calma ela sussurrou "Téo" novamente.

-Ouça você mesmo.- Do outro lado da linha não se podia ouvir som algum exceto os passos de Samanta em algum assoalho de madeira, segundos depois um grito de "ME AJUDEM" invadiu os meus ouvidos, era a voz de um Téo desesperado.

-Solte ele.- Continuei firme, não podia mostrar qualquer oscilação na minha voz, decidi que tinha que ser tão frio como ela para poder jogar nesse circo que ela estava criando.

-Nã-nã-nã-não.- Respondeu ela ainda com seu tom risonho, a razão do meu nojo por ela.

"SOCORRO", "JANE POR FAVOR", "VENHAM PARA CÁ" , pedidos desesperados se multiplicavam enquanto eu pensava em o que ela poderia querer de nós.

-O que você quer? — Finalmente cedi, se ela não quisesse algo ela já teria o matado e nos deixado de presente tal como aconteceu com a Leia, mas não, com ela era tudo na base do espetáculo.

-Quero a minha irmã.- Meu coração parou por um minuto, ela queria trocar Téo pela irmã, a mesma que eu matei hoje mais cedo, a sorte que te sorri pela manhã é a mesma que quebra as suas pernas antes de dormir.

-Do que você tá falando? — Perguntei tentando arrumar espaço para pensar no que fazer

-VOCÊS ROUBARAM A MINHA IRMÃ, EU QUERO ELA DE VOLTA, ENTENDIDO? — Ela não fazia ideia do que havia acontecido, não sabia da hospitalização, nem da morte, ela simplesmente não sabia.

-Onde?- Jane arregalou os olhos para mim quando eu perguntei, se ela queria a irmã dela certo? Logo, a irmã dela ela teria.

-Cinco da manhã, naquele galpão perto de onde começam aquelas florestas.- Mais um daqueles lugares que ninguém que presta pode ser visto, lugares abandonados perto de bares, nas divisas de uma cidade pequena, lugares perfeitos pra esse tipo de merda.

-Não faça nada com ele.- A linha ficou ocupada antes mesmo que ela ouvisse a metade da frase.

Desliguei o telefone e o coloquei na mesinha de cabeceira onde ele pertencia, Jane se virou para mim, ainda nervosa com o que havia acabado de acontecer.

-QUE MERDA FOI ESSA DANIEL? COMO NÓS VAMOS DEVOLVER A IRMÃ DELA? HEIN?

Ela bufava de raiva, eu respirei fundo e apenas dei de ombros.

-Ela quer a irmã dela certo? Vamos devolver ela.

Não era a pior das hipóteses pelo menos não na minha cabeça.

-VOCÊ PERDEU A CABEÇA? -Ela olhava incrédula para mim.

-Nós vamos roubar o corpo dela e vai dar tudo certo.- Eu disse olhando diretamente para ela.

-Isso é doentio e depois o que? Ela vê o corpo morto e queimado da irmã e fica super agradecida e paga um bolo idiota desses para gente.- Retrucou ela apontando para o bolo que eu trouxe.

-E que merda você quer que eu faça hein? Que eu deixe o moleque morrer assim?- Parecia que ela não era assim tão apegada nele como eu pensava.

Jane olhou para mim novamente, estava sendo demais para ela.

-Como que nós vamos roubar um corpo até às 5 da manhã?

Ela se sentou na cama, enquanto de um lado para o outro eu andava pensando.

-Nós vamos dar um jeito Jane.