Circulando pelo quarto tentando pensar, bolei um plano, muito falho e muito mal acabado -como todos-porém nossa única alternativa,tínhamos que roubar o corpo de Jenny e isso era algo que só eu e Jane seriamos incapazes de exercer sozinhos, precisávamos de mais um, e só haveria uma pessoa disposta e viva para nos ajudar:Chuck.

A primeira vez que eu contei minha ideia para Jane, ela se mostrou relutante, mas ao poucos eu a convenci que aquela era nossa opção mais segura. Nós não podíamos aparecer lá de mãos abanando e a única pessoa que podia nos ajudar era Chuck, mesmo que fosse alguma outra pessoa além do primo dela que estivesse com o pescoço em risco, ela tinha o álibi perfeito. Ela trabalhava para o jornal, tinha meios de investigar que nós estávamos longe de possuir. Decidimos esperar o cair da noite para conversar Chuck afinal roubar um corpo no fim da tarde não cai bem de forma alguma.

Quando nós ligamos para ela não foi surpresa nos depararmos com uma Chuck curiosa para saber como estávamos indo no nosso plano, pedimos a sua ajuda mas ela declinou sem nem pensar duas vezes, assim que lhe avisei que não era algo que ela devia fazer não por nós e sim por Téo, ela disse que queria nos ver e pediu para que fossemos à sua casa imediatamente. Assim o fizemos.

Ao chegar nos deparamos com Chuck sentada nos pequenos degraus da frente, em meio aqueles matos horríveis que ela não corta por nada do jardim da frente, assim que ela nos viu chegar perto ela começou o interrogatório:

-O que aconteceu?- Ela olhava para mim com um olhar parecido com o de Jane quando sugeri que nós roubássemos o corpo.

-É o seguinte — começou Jane — a Samanta está fazendo o Téo de refém e quer trocar ele pela irmã dela, porém a irmã dela morreu e nós precisamos pegar o corpo pra enganar ela e tentar salvar o Téo.

Me pergunto até hoje se ela conseguiu respirar enquanto dizia tudo assim para Chuck, ela soltou a noticia tão rápido que até Chuck demorou um pouco para processar a quantidade de informação porém logo que assimilou o perigo que o primo corria um misto de decepção e raiva tomaram conta de seus olhos, que olhavam para mim desolados, esperando por uma resposta.

-VOCÊS ESTÃO DIZENDO QUE AQUELA LOUCA PEGOU O TÉO?- Gritou ela uma vez que notou que nenhuma resposta tranquilizadora viria de mim ou de Jane.

Não haviam lágrimas, não havia tristeza em sua voz, só havia a mais pura raiva, do tipo que eu venho experimentado constantemente ao longo de todos esses anos e francamente, nunca tive noção de quão horrível poderia ser presenciar uma reação assim.

Ela gritava conosco, Jane tentava acalma-la enquanto eu assistia sem saber o que falar e me culpando pelo que estava acontecendo, todos os nós frouxos que nós deixamos, agora eu podia ver como era burrice da nossa parte correr atrás delas esse tempo todo, afinal o que nós queríamos? O caos puro rasgando as nossas vidas outra vez, nós costumávamos achar que nunca ficaria pior, que confronta-las e vingar todas aquelas pessoas -incluindo à nós mesmos- resolveria, faria toda essa raiva e dor irem embora, mas eu vi, naquele exato momento, que nada irá embora e em como fui idiota de deixar as coisas chegarem à esse ponto para perceber.

Chuck entrou em casa junto com Jane que penso deve ter lhe explicado toda a situação e potencialmente me culpado pelas circunstancias em que estávamos, digo isso pelo olhar frio de Chuck dirigido à mim quando as duas voltaram de dentro da casa. E pensar que por um minuto, no começo de tudo eu pensei que realmente que poderia ter alguma coisa com ela.

Entrei atrás delas na casa, Chuck já estava servindo comida para Jane na cozinha, ela me olhou e disse alguma coisa para Jane e foi para a sala segurando o celular.

-Ela vai fazer algumas ligações.- Me contou Jane tranquilamente.

-Por que ela tá me tratando mal?- Não que ela estivesse mas eu sentia a raiva dela toda direcionada para mim.

-Ela acha que você não devia ter saído daqui daquele jeito no meio da noite, depois o Téo foi nos procurar lá no prédio, deve ser como ele foi pego.- Disse ela olhando para baixo lamentando a situação.

-Como você tá? — Me sentei ao lado dela, a postura dela frente aos acontecimentos vinha mudado, antes ela se mostrava tão mais forte do que eu e agora eu controlava tudo, era estranho.

-É coisa demais pra minha cabeça, por um momento sabe? Eu cheguei a acreditar que a Jenny estava sendo sincera e eu quis, sinceramente perdoar ela e deixar ela viver, mas eu não achei a força pra isso, fiquei abalada.- Disse ela para mim.

-E agora?- A olhei desconfiado.

-Agora eu quero amarrar a Samanta na traseira do seu carro e arrastar ela por 10 estados seguidos.-Me respondeu sorrindo.

-Pensei que tinha perdido você.- Ri, mas era verdade.

Nesse minuto Chuck entrou na cozinha ainda carregando o celular nas mãos, parecia mais calma do que antes e trazia boas noticias.

-O corpo dela está no necrotério daquele hospital lá mesmo, felizmente eu conheço o cara que cuida de lá e eu posso distrair ele enquanto vocês se viram para pegar o corpo ok?

Isso soava como sorte porém, como nós poderíamos ter sorte de qualquer forma? Era quase impossível.

Chegamos no hospital às dez da noite, segundo Chuck o necrotério tinha duas entradas, a convencional por elevador e a de funcionários que se dava pela escada porque ao lado do necrotério havia um deposito de roupas e artigos necessários no hospital, claro que enquanto ela ia pela porta da frente Jane e eu fomos pelas escadas passando assim que terminamos de descer nos encontramos com a porta do tal deposito, do outro lado estava o necroterio.

Assim que chegamos na porta pudemos ouvir Chuck suplicando por ajuda ao homem que cuidava do lugar quando nos viu ela parou de implorar por ajuda e nos apresentou à ele. Seu nome era Marcus, ele era alto, pálido, o tipo de pessoa que você pode dizer só de olhar que não tem nem de longe uma vida tão agitada, haviam grandes olheiras debaixo de seus olhos, ele parecia irritado com toda a situação e uma vez apresentados Chuck continuou sua técnica de convence-lo:

-M, você sabe que fui eu que liguei para buscarem ela, por favor libera o corpo, é só assinar os papéis, nós vamos levar ela para a funerária e...

O tal Marcus olhava desconfiado para nós dois e interrompeu a fala de .

-Por que você não trouxe o pessoal da funerária se é assim Charlotte? Não acredito, o que está acontecendo?

Eles continuaram a debater, cinco minutos de enrolação, Chuck não era nem de longe convincente, estava tentando oferecer um encontro com ela como recompensa se ele colaborasse, Jane começou a ficar irritada, acho que tanto com a conversinha de Chuck quanto com o Marcus que poderia simplesmente se fingir de pateta e liberar o corpo, então ela se virou e começou a conversar com ele.

-É o seguinte M, lembra aquele atentado que teve em um reformatório uns anos atrás? — Marcus assentiu e olhou confuso para Jane.

-Então Marcus, muito prazer meu nome é Jane — Ela o estendeu a mão e ele sacudiu enquanto ela continuava a falar.

-Eu sobrevivi aquele ataque e sabe quem não sobreviveu? Meu irmão mais novo, minha única amiga e o cara que eu amava sabe?

-E o que que isso tem a ver com o corpo ali dentro?- Perguntou ele ainda nervoso e interrompendo ela.

-O cadáver ali dentro é o de uma das vadias responsáveis, ela fodeu a minha vida e tirou a das únicas pessoas que importavam pra mim então é o seguinte ...

Ela puxou a arma lentamente de dentro do casaco de couro e manteve apontada para a cabeça dele, Chuck se virou desesperada para mim "você não vai fazer ela parar?" ela cochichou, não respondi, enquanto isso Jane continuou.

- Você sabe que se entregar esse corpo para nós vai ter problemas sérios mas você também sabe que se não entregar eu vou atirar na sua cabeça, o que vai ser hein M?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.