Heartbeats
3 Sleeping sickness
Chegamos na frente do que deveria parecer a casa de alguém, mas só parecia um lugar esquecido pelo mundo, abandonado há muito tempo. Era uma casa pequena, dessas tradicionais que devem ter dois ou três quartos, ao seu redor havia uma cerca baixa que Téo pulou e deu sinal para que fizéssemos o mesmo.
A grama do jardim era alta e incômoda enquanto no caminho para a porta na qual Téo bateu três vezes até que então sua prima abrisse, ela era justamente como ele exceto que era uma menina, era impressionante a quantidade de traços muitos parecidos, era só um pouco mais morena e tinha o cabelo bem curto, digamos que ela era, diferente, pelo menos era o que o fato de ainda estar de pijama sabendo que iríamos lá dizia.
Ela sorriu e nos chamou para entrar, a casa por dentro era totalmente diferente do que aparentava por fora, tudo organizado, tudo limpo, era uma casa bonita por dentro. Ela notou que eu estava reparando e disse rindo:
- Chamo isso de beleza interior.
Ela disse enquanto começava a subir as escadas, Téo nos guiou até a cozinha e lá ficamos até sua prima aparecer outra vez, dessa vez em roupas normais.
- Vocês querem alguma coisa para comer, beber, sei lá? Já está ficando meio perto do café da manhã ...
E era verdade, já eram cinco da manhã, tinha um buraco no meu estomago e só me dei conta quando ela falou café, foi aí que me dei conta que nem o nome dela eu sabia, foi então que olhei bem para ela e disse:
- Podemos fazer um café da manhã, qual é seu nome?
Ela acenou com a cabeça e olhou para o Téo, que se levantou espontaneamente e começou a por a mesa, eu estava sentado ao lado da Jane, e antes dela responder deu uma boa olhada em nós e disse:
- Meu nome é Charlotte, me chamem de Chuck e vocês são?
Antes que eu pudesse responder, Jane passou a minha frente e disse:
- Eu sou a Jane e esse é o Daniel, você provavelmente conhece a gente de algum tempo atrás
Chuck interrompeu a fala dela:
- Conheço sim, vocês que sobreviveram aquele massacre que aconteceu faz uns quatro ou três anos...
- Três.
Dissemos em uníssono.
Téo que estava começando a preparar o café se virou para nós surpreso e começou a falar:
- Eu nunca notei que eram vocês, nossa, mas, credo são vocês mesmos, nossa, eu não lembro, o que aconteceu?
Chuck olhou para o Téo com um olhar que podia ser traduzido como "isso foi desnecessário", mas não falou nada e ele também não pareceu entender o que ela quis dizer olhando para ele assim. Já Jane me olhou nervosa, ela não queria de forma alguma contar a versão dela dos fatos, não queria se expor assim, eu entendia, a história dela era muito mais frágil que a minha, foi então que comecei.
-Quando eu lembro daquele dia, é sempre tudo muito turvo, me lembro de correr para o elevador porque tinha descoberto que a minha namorada tinha uma arma e precisava contar para os coordenadores, quando o elevador começou a se mover a energia foi cortada, fiquei trancado lá, pude ouvir toda a correria, os gritos, as risadas, ouvi todos os tiros, depois que acabou passei 7 horas trancado até polícia me encontrar. E bom, é isso.
- Sinto muito cara.
Disse Téo, ele e Chuck ainda olhavam para mim concentrados quando terminei de falar, ainda queriam saber mais coisas sobre o assunto só que o bom senso não os deixava perguntar, sinceramente não me abalava mais ser o idiota que ficou preso no elevador enquanto todos os seus amigos foram mortos ou merda assim. Já com Jane era diferente, toda vez que ela contava sua versão era uma experiência dolorosa para ela, não que ela se esquecesse e fosse forçada a se lembrar, ela nunca esquecia, entretanto contar o que aconteceu em voz alta torna tudo mais real. A comida do café a essa altura já estava toda na mesa, comemos na maior parte do tempo quietos, quando terminamos Jane olhou para nós três e resolveu falar:
- Olha, não nos tratem diferente por causa do que vocês sabem.
Téo tentou falar mas Chuck levantou e começou a pegar a louça, se virou para nós sorrindo e disse:
- De forma alguma, aliás, acho que vocês devem descansar algumas horas e depois nós vamos pensar no que fazer.
Jane arregalou os olhos quando ela disse "nós", apontando para mim e para si ela disse exasperada:
- Mas nós vamos fazer isso sozinhos.
Chuck e Téo começaram a rir, era evidente que eles não queriam nos deixar ir atrás delas sozinhos, então eu comecei a rir também, Téo se levantou para ajudar sua prima enquanto Jane ainda estava nervosa, ele se virou e começou a falar.
- Até o Dan entende que vocês precisam de ajuda, um pouco de ajuda é sempre bem vinda, não concorda?
- Não concordo, vocês nem tem um motivo para entrar nisso, sério, parem com isso, vai ser eu e o Dan e fim.
Resolvi que devia apoiar ela um pouco, sério de repente comecei :
- Olha gente, nós dois temos nos virados até agora e essa meninas só fazem estrago por onde elas passam, é melhor ser só eu e ela.
Chuck nos olhou desconfiada, Téo não estava nem ouvindo mais, fiquei com medo de ter parecido muito grosso, uma vez que são eles que vem nos ajudado desde que saímos do apartamento, foi quando Chuck se sentou novamente na cadeira e mudou o assunto:
- Tem alguém pra quem vocês precisem ligar e avisar alguma coisa ou sei lá?
Foi quando eu me toquei que não tinha parado pra pensar na Léia ainda, precisava avisa-la, Léia conhecia a história toda, ela era jornalista, me reconheceu assim que bateu os olhos em mim. Tanto eu quanto Jane tenhamos mudados algumas coisas como cor de cabelo ou começado a usar lentes de contato coloridas, de alguma forma, passávamos mais despercebidos pelas pessoas. Me levantei e perguntei a Chuck onde ficava o telefone, ela me levou até a sala e me deixou sozinho, encarei o telefone e depois de alguns segundos consegui coragem para começar a discar.
A coisa sobre a Léia é que ela era ótima em tudo, tudo mesmo, menos em aceitar que eu tenho essa divida com a Jane, ela detesta a Jane.
- Alô?
Disse ela do outro lado, se podia ouvir alguma musica lentas, céus, detesto essas musicas lentas que ela me obriga a ouvir.
- Oi é o Daniel, hm, aquelas gêmeas doidas estão aqui na cidade, então, vai pra casa dos seus pais fora da cidade.
- E o que você está fazendo sobre isso? Liga pra polícia.
- Não, eu estou com a Jane na casa de uma amiga nossa e com o Téo.
Ela tapou a boca do telefone, e eu pude ouvir um grito abafado e o som de uma retomada de folego.
- Daniel, você vai comigo pra lá, me passa o endereço daí.
- Não posso ir com você, elas vasculharam o apartamento da Jane.
- E O QUE NÓS TEMOS A VER COM ISSO? ME PASSA O ENDEREÇO DAÍ AGORA, VOCÊ NÃO MORA MAIS LÁ.
- Não.
Ela começou a chorar.
- Por favor, me passa o endereço, a gente leva a Jane junto ok.
- Não vou te passar o endereço, não vou por você em perigo, nem a nós, ok? Você vai pra fora da cidade e eu te ligo quando tudo terminar.
- EU NÃO QUERO, EU QUERO SABER ONDE VOCÊ ESTÁ, É SEMPRE ESSE INFERNO, VOCÊS SOMEM ATRÁS DESSAS DUAS, DANIEL VOCÊ NÃO DEVE NA..
- Olha Léia, eu te amo, vai pra casa dos seus pais.
Desliguei o telefone, voltei ao cômodo da cozinha, eles estavam rindo, quando entrei Téo que agora estava sentado ao lado de Jane me olhou e disse:
- Cara, você viu um fantasma ou coisa assim?
- Não — Sorri — Só mandei minha namorada pra fora da cidade.
Jane se sentia desconfortável, ela sabia que Léia não gostava dela, o sentimento era recíproco, mal terminei a frase e ela mudou de assunto:
- Preciso dormir, parece que eu fui atropelada por um caminhão.
- Ok, então você leva o Dan e vocês dormem no quarto que era do pai do Téo, que eu e a Jay vamos para o meu quarto, preciso que você coloque um colchão no chão de lá e essas coisas.
Téo subiu as escadas comigo e me levou com ele até o fim do corredor me deixando na porta do quarto, entrou no quarto que havia na frente e voltou com o colchão que as meninas precisavam. Entrei no quarto, um dia havia sido o quarto de algum garotinho, todo azul com uns aviõezinhos pendurados no teto, queria ter tido um quarto assim.
Haviam duas camas, me deitei na próxima à janela e acabei cochilando, dormi e sonhei com o dia do massacre, sonhei que estava preso outra vez, mas que dessa vez não foram os policiais que religaram o elevador, era a Jenny que me esperava assim que as portas se abriram, ela tinha uma pistola apontada para mim, ela sorriu "desculpa amor, devemos ir agora?", acordei.
Olhei ao meu redor e Téo dormia tranquilo na outra cama, resolvi me levantar e procurar um cigarro em algum lugar, Chuck tinha cara de quem fumava, talvez tivesse alguma coisa na cozinha. Passei pelo quarto onde ela e Jane dormiam, pela fresta da porta pude ver Jane, era bom ver ela dormindo, ela geralmente não dormia bem. Desci as escadas cuidadosamente evitando qualquer ruído, cheguei a sala e pude notar a luz da cozinha acesa, entrei devagar, Chuck estava sentada com a mesma roupa que tinha aberto a porta algumas horas antes.
- Você tem algum cigarro?
- Tenho, espera.
Ela estava tomando algum chá ou suco, não pude ver, ela se levantou e pegou em cima da geladeira um maço aberto com poucos cigarros restantes, ela fez sinal para o fogão que tinha um isqueiro em cima, peguei-o, fomos para o lado de fora da casa, nos fundos onde tinha um sofá antigo e uma mesinha comum de sala, nos sentamos acendemos os cigarros e começamos a conversar.
- Vocês se comportam como se tudo o que aconteceu com vocês fosse algo natural, é tão estranho.
Ela olhava para o céu, estava claro, o dia mal tinha acabado de começar, olhei o céu também e respondi:
- Parece estranho mesmo, antes nós éramos dois zumbis, pensávamos nisso o dia todo e vivíamos como se fosse ainda o dia depois, todo mundo ficava na nossa cola mandando de um psicólogo pro outro, tentando adotar a Jane, os dois menores de idade ainda, resolvemos fingir que superamos pra pararem com isso.
Ela se virou para mim preocupada, cruzou as pernas e perguntou:
- A Jane não tem família?
- Não, os pais dela morreram e o avô morreu um pouco antes dela ir para a casa de acolhimento, meus pais adotaram ela.
- Como ela foi parar lá?
- Umas garotas colocaram uma grande quantidade de drogas nas coisas delas pra ela ser expulsa de um colégio interno lá, e levaram ela pra CDA.
- E você?
- Eu dei uma surra em um cara e ele entrou em coma.
- Wow, por que?
- Eu não me lembro, e você? Qual o interesse em nos ajudar?
- Por que não ajudar vocês? Vocês já se deram tão mal com tudo, não tenho nada a perder mesmo.
- O Téo tem.
- O Téo vai ser certinho pro resto da vida dele, você não vê? Trabalha, estuda, faz tudo que os outros querem. Ele vai ser um MrNobody, o pai dele nem se importa também, vamos dar ao garoto alguma ação.
- Você tem um jeito bem distorcido de olhar essas coisas.
- E você não parece ter vivido metade das coisas que diz.
Eu sorri, não aparento sofrimento, não aparento coisa alguma para ser bem sincero, são pequenas coisas que mudaram tudo e não posso muda-las, me comportar como se isso estivesse me matando (embora esteja) não ia mudar muita coisa.
- Minhas ações não tem a ver com as coisas que eu vivi, porque eu acredito que são coisas diferentes, eu não posso interferir no meu passado mas posso no meu presente.
- Então por que você não quer a nossa ajuda?
- Perdi nove amigos alguns anos atrás, não quero perder mais...
Me levantei, olhei para o céu, o dia era tão claro, o verão tinha começado à algumas semanas e podia se saber que ia fazer um calor infernal.
- O que nós vamos fazer hoje?
Chuck pegou a xícara agora vazia e o maço, olhou pra mim e disse :
- A mesma coisa que fazemos todas as noites Pink, tentar dominar o mundo.
Ri, eu estava começando a gostar dela mais do que devia o que claramente não era bom. Eu vi ela entrar de volta, e comecei a pensar em como seria ficar com ela, mas Jane interrompeu meus pensamentos, abriu a porta que levava para o lado de fora e me disse sorrindo:
- Essa eu aprovo.
- Ah cala a boca.
Me sentei novamente, e ela se sentou do meu lado.
- Tudo isso foi rápido e confuso demais- disse ela.
- Sim, demais pra assimilar nesse meio tempo, não faço ideia do que vamos fazer.
- Que tal começar por um banho? Você tá parecendo um defunto.- Ela sorriu, mas não era mentira.
- Que gentil da sua parte me avisar.
- Não sei como a Chuck não morreu só de olhar pra você.
- Você não presta, eu vou tomar banho.
E fui mesmo, tomei meu banho no andar de cima, me arrumei, e tentava pensar qual seria o nosso próximo passo, precisávamos voltar ao apartamento porém o fantasma do "e se" ocupava minha mente, temia voltar lá e encontrar alguma surpresinha das gêmeas nos esperando.
Calculei alguns planos mas todos pareciam falhos e imaturos demais, seriamos encurralados e iriamos morrer, era o destino.
Do topo das escadas pude ver e ouvir que todos já estavam acordados e debatendo o próximo passo que daríamos, como uma equipe, Jane parecia bem confortável planejando com eles, Chuck deve ter falado algo para ela no tempo que eu demorei olhando para o teto depois do banho, nunca vou saber.
Sentados no grande sofá da sala eles discutiam hipóteses, não acabei de descer as escadas, fiquei sentado uns dois degraus antes do fim ouvindo os planos, tão falhos e imaturos quanto os meus, foi quando eu vi que não teria escolha, seria assim mesmo, um plano tosco mal feito.
- Por que o Téo não vai na casa com o pretexto de pegar o gato da Jane, elas não vão matar ele, elas nem sabem que ele existe.
Jane me olhou ofendida com a ideia, Chuck e Téo pareceram concordar.
- Não tem nenhum meio de fazer isso de uma forma segura, vamos ter que apostar com o que temos, ele entra na casa e eu subo pela escada de incêndio, qualquer barulho de voz eu entro e foda-se.
- Tá, vamos.
Chuck disse, já vestindo uma roupa parecida com a de Jane, todos pareceram concordar e fomos para o meu carro.
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